“É suicídio só se defender do Barcelona”, pregou o treinador do Milan, Massimiliano Allegri, antes da estreia dos times na Liga dos Campeões. A promessa de atacar foi cumprida por 24 segundos, tempo suficiente para Alexandre Pato dar uma disparada fantástica e abrir o placar.
Daí em diante, o Milan só se defendeu. Suicidou-se, portanto, e levou um baile do Barcelona. O meio-campo rubro-negro inexistiu, sugado pelos “extraterrestres” espanhóis. Atordoados, van Bommel não mostrou a eficiência do ano passado e Nocerino parecia não acreditar que estava jogando no Camp Nou. Ambrosini, que entrou ainda no primeiro tempo, mostrou-se mais um perdedor de bolas do que um desarmador. Para não falar do incógnito Zambrotta.
O problema do Barça foi não converter a posse de bola em gols. Aos 47 minutos do segundo tempo, ainda estávamos em 2×1. Eis que Thiago Silva deu uma cabeçada fulminante em escanteio de Seedorf e empatou o jogo. Serafino Ingardia, jornalista italiano, é quem fez o melhor resumo da partida: “Milan, o único time capaz de segurar o Barcelona jogando 30 segundos no início e 30 segundos no final do jogo”. O suficiente para sair de campo com uma baita vitória. Ou vai dizer que alguém esperava mais?
Se desconsiderarmos a risível convocação da seleção mexicana para a Copa América (uma sub-22 desfigurada, como bem disse o amigo Pedro Venancio), a Itália passará a ser o país de maior “representação” na Copa América. Trinta atletas que jogam futebol na Velha Bota disputarão o torneio que começa hoje, na Argentina – o México tem 36 jogadores e a Espanha completa o pódio, com 29.
Entre os italianos, a Inter honrará o nome com folga e é quem terá mais jogadores na disputa. E de forma democrática: são três argentinos (Zanetti, Cambiasso e Milito) e três brasileiros (Júlio César, Maicon e Lúcio). Com cinco atletas, a Udinese vem logo depois, com três colombianos (Armero, Cuadrado e Zapata) e dois chilenos (o badalado Sánchez e Isla).
Portanto, se você estiver em Buenos Aires com medo de arriscar um portunhol, tente emendar um italiano macarrônico. Alguém vai te entender.
Os “italianos” da Copa América
Argentina: Andújar, Burdisso, Cambiasso, Lavezzi, Milito, Pastore e Zanetti
Brasil: Alexandre Pato, Júlio César, Lúcio, Maicon, Robinho e Thiago Silva
Colômbia: Armero, Cuadrado, Yepes, Zapata e Zúñiga
Chile: Carmona, Jiménez, Isla e Sánchez
Paraguai: Barreto
Peru: Vargas
Uruguai: Cavani, Gargano, González, Hernández, Muslera e Pérez
Se desconsiderarmos a risível seleção mexicana que estará nesta Copa América (uma sub-22 desfigurada, como bem disse o amigo Pedro Venancio)
Na única partida de Grandolfo como titular, o promissor atacante do Bari marcou três gols. Poderia ter começado antes...
Como medir a capacidade de decisão de um atacante? Às vezes, comparar só o número de gols pode ser algo enganoso. Para escolher os grandes artilheiros da temporada, o Tripletta resolveu mostrar quantos minutos cada um deles gasta para fazer um gol – ah, e só um terço dos nove camisas 9 escolhidos realmente envergam este número nas costas.
9. Samuel Eto’o (Inter)
1 gol a cada 141 minutos. Matematicamente, foi a melhor temporada de Eto’o como profissional. O camaronês marcou 37 gols, mas na Serie A foram “apenas” 21. Regular durante boa parte do campeonato, a Inter penou justo quando o rendimento dele caiu. Na única vez em que Eto’o passou quatro jogos em branco, entre a 30ª e a 33ª rodadas, o time de Leonardo conseguiu vencer apenas duas vezes e deu tchau ao scudetto.
8. Fabrizio Miccoli (Palermo)
1 gol a cada 134 minutos. Lesionado no início da temporada, Miccoli só pôde estrar na 10ª rodada. A partir daí, sofreu para se manter fisicamente inteiro: fez apenas duas partidas completas. Dos nove gols que o baixinho marcou, alguns em momentos importantes, contra a Juventus e a Roma, mostraram que ele segue com o faro apurado. Não deve continuar no Palermo.
7. Libor Kozák (Lazio)
1 gol a cada 126 minutos. Amuleto da Lazio, o jovem tcheco fez sucesso: no início da temporada, marcou gols fundamentais para vitórias contra a Fiorentina e a Sampdoria, sempre entrando no finalzinho. No primeiro jogo como titular, já no returno, repetiu a dose em cima da Fiorentina: 2 a 0 com gols dele. Kozák ainda marcaria mais dois gols de bom augúrio. Sempre que ele foi às redes, a Lazio saiu de campo vitoriosa. Veja os gols neste vídeo:
6. Alexandre Pato (Milan)
1 gol a cada 114 minutos. Ibrahimovic, Robinho e Pato marcaram, cada um, 14 gols na campanha do título do Milan. O genro de Silvio Berlusconi foi o mais prolífico, pois fez seus golzinhos em menos oportunidades que os “rivais”. E, entre eles, Pato foi o mais pé quente. Dividiu seus gols em dez jogos e o Milan não perdeu nenhum destes: dois empates e oito vitórias.
5. Edinson Cavani (Napoli)
1 gol a cada 112 minutos. Não fosse a suspensão que o tirou dos últimos dois jogos da temporada, talvez Cavani pudesse ter alcançado Di Natale na tabela de artilheiros. Mesmo assim, o número de Cavani é impressionante e o uruguaio se tornou o maior artilheiro do Napoli em uma só edição da Serie A. Ah, e foram três triplette durante o torneio: três gols contra Juventus, Lazio e Sampdoria.
4. Antonio Di Natale (Udinese)
1 gol a cada 105 minutos. O artilheiro da Serie A atingiu uma média de quase um gol por jogo. Pudera: só na sequência de 13 jogos de invencibilidade da Udinese, o capitão marcou 15 vezes. No total, 28 gols foram marcados, para não falar das quatro assistências. No vídeo abaixo, estão todos os gols de Totò no campeonato:
3. Mauro Boselli (Genoa)
1 gol a cada 92 minutos. O artilheiro da Libertadores ‘09 parece não emplacar na Europa: não conseguiu ser titular no Málaga, no Wigan e nem no Genoa. Contratado em janeiro pelo Grifone, ele logo se machucou e levou quase dois meses para estrear. Com poucas oportunidades e quase sempre sem sair do banco, a melhor oportunidade do argentino foi contra a Sampdoria. Ele marcou o gol da vitória aos 51 minutos do segundo tempo, praticamente rebaixou a rival e se transformou em ídolo.
2. Filippo Inzaghi (Milan)
1 gol a cada 91 minutos. O eterno camisa 9 jogou pouco, mas mostrou que o faro de gol continua intacto. Na Serie A, foram só cinco partidas antes da operação no joelho que o tirou de quase toda a temporada – ele só voltou nos minutos finais da penúltima rodada, para comemorar o título. Mesmo sumido, ainda marcou duas vezes. E vale lembrar que ele também foi importante na Liga dos Campeões: na meia hora que jogou contra o Real Madrid, fez os gols milanistas do empate em 2 a 2.
1. Francesco Grandolfo (Bari)
1 gol a cada 39 minutos. O garoto de 18 anos, que só conseguiu ser titular na última rodada, foi o atacante de melhor média em todo o campeonato e deixou um gostinho de “quero mais”. Grandolfo fez uma grande temporada pelo time sub-20 do Bari, ao marcar 16 gols em 23 jogos. Na única chance como titular no profissional, fez três gols. Até para um canhoto, ele começou com o pé direito.
Um Milan com nervos à flor da pele foi facilmente derrotado pelo Tottenham, mesmo jogando dentro de casa. O time rossonero parecia pressionado desde o início e entrou na partida sem conseguir armar qualquer coisa no ataque. Allegri voltou a escalar Thiago Silva no meio-campo, desta vez para anular van der Vaart, principal jogador adversário. Mas, como bem exemplificou André Rocha em seu blog, a escolha mostrou-se infeliz: o holandês se adiantou e deixou o zagueiro/volante meio perdido, o que acabou abrindo um buraco no meio-campo do Diavolo.
Outra escolha discutível de Allegri foi a entrada de Seedorf para armar o jogo, já que Cassano disputou a preliminar da Liga dos Campeões pela Sampdoria e não pôde ser inscrito. Com isso, Alexandre Pato ficou no banco e Robinho voltou a formar o ataque com Ibrahimovic. A opção foi tão fraca que Seedorf nem do intervalo voltou. No segundo tempo, Robinho foi recuado e conseguiu atuar bem melhor, fazendo o papel de ligação que tanto faltou a ele enquanto estava no ataque.
Gattuso chama Crouch para uma rodada de chope
Abbiati ficou 15 minutos em campo antes de sair com uma dor no pescoço, ainda assim fez pelo menos três ótimas defesas. Amelia teve menos trabalho, assistindo à pressão inócua do Milan. As duas melhores chances foram de Yepes, que parou em defesaças de Gomes, em noite inspirada. Durante a pressão milanista, Gattuso tentou cruzar para a área com a perna esquerda e falhou completamente. Modric roubou a bola e tocou para Lennon, que atravessou meio campo, fugiu de uma enxadada de Yepes e entregou para Crouch marcar o gol. O lance coroou a bela partida de Lennon, que acabou com Antonini na disputa pessoal.
Gattuso, aliás, não fez a melhor partida da vida. Fez bom trabalho na marcação, mas foi o jogador do Milan mais nervoso e enervou o time. Por duas vezes, inclusive tentou agredir o assistente técnico adversário, o ex-centrovante rossonero Joe Jordan. Flamini foi ainda pior e, com um carrinho criminoso, tirou Corluka do jogo. No finalzinho, Ibrahimovic ainda marcaria um gol, bem anulado por causa de uma falta do sueco em Dawson no lance. Como bem observou Leonardo Bertozzi, ter Ibrahimovic pode bastar na Itália, mas não na Europa.
Gattuso se despede dos amigos recém-conquistados
Fica a certeza de que falta ao Milan um armador de verdade, alguém que saiba pensar no meio-campo. Não basta ter tantas opções no ataque se elas não são bem acionadas. Com Seedorf em má temporada e Pirlo eternamente lesionado, a opção, por enquanto, realmente é sonhar com Ganso. Bom, e aproveitar essa possível vinda ao Brasil para botar Gattuso para pescar no pantanal matogrossense.
Ao vencedor, as batatas
O lado inglês do confronto você confere no God Save the Ball, de Daniel Leite, clicando aqui.
“É verdade que a Inter está recuperando terreno, mas nós ainda lideramos o campeonato e continuamos na pole. A luta pelo título será dura, mas eu acho que somos favoritos. A Inter não é problema, absolutamente. O Milan ainda tem o controle do próprio destino, a Inter terá de fazer coisas extraordinárias.”
E é assim que, numa entrevista ao diário Corriere dello Sport, Massimiliano Allegri jogou contra o próprio time. Com as declarações, queira ou não, pôs uma pressão absurda nas costas de uma equipe que não conquista um título desde o Mundial de Clubes, em dezembro de 2007. Em terras italianas, o última conquista relevante foi o scudetto de 2004.
Faltando 14 rodadas para o fim do campeonato, 42 pontos ainda estão em jogo. A Inter ainda tem um jogo a recuperar, contra a Fiorentina, e pode fazer a diferença para o Milan cair para apenas dois pontos. Ou seja: nada que o confronto direto, agendado para 3 de abril, não resolva. A Inter de Leonardo tem 87,5% de aproveitamento na Serie A, algo bem superior aos 68% de Allegri no Milan.
Não dá simplesmente para descartar do páreo a maior rival e atual pentacampeã, ainda mais com esta campanha recente. Allegri deu, de bandeja, material para Leonardo motivar uma Inter que parece disparar rumo a mais um título italiano. Entre os jogadores recuperados por Leonardo, Júlio César tem repetido as defesas do auge da carreira, Maicon e Thiago Motta estão a anos-luz do que eram nos tempos de Rafa Benítez, Stankovic recuperou fôlego e até Cambiasso conseguiu evoluir.
Enquanto isso, o Milan sofre para se livrar de uma dependência crônica de Ibrahimovic. Como o sueco segue indiscutível, Alexandre Pato perdeu espaço por uma suposta “incompatibilidade tática”. O meio-campo segue em um rodízio de lesões e sente falta demais da vivacidade de Boateng, que só deve sair do departamento médico nas próximas semanas. E o elenco ainda tem que conviver com as pressões de Silvio Berlusconi, que há alguns meses disse que o scudetto viria “agora ou nunca mais”. Caro Allegri, se hoje existe favoritismo na luta pelo título, este pertence à Inter.
Luís Araújo é jornalista do iG Esporte. Gosta de escrever e de acompanhar o futebol italiano. Por isso, assume este espaço dedicado ao futebol tetracampeão do mundo. No Twitter, é @luis_araujo_