
Sem José Mourinho, o sonho continental da Inter deve acabar se encerrando mais cedo
Mesmo jogando em casa, Inter, Milan e Roma perderam as partidas que valiam pela ida das oitavas-de-final da Liga dos Campeões. Na Liga Europa, dos quatro italianos, o último sobrevivente foi o Napoli, que por ironia do destino caiu para o Villarreal com um gol do italiano Rossi.
Nada mudou desde o vexame da temporada passada, só salva pelo título da Internazionale na Liga dos Campeões. Em março passado, escrevi quase um tratado sobre o tema. Quase tudo ainda vale, então reaproveitarei vários trechos.
A perda de uma vaga na Liga dos Campeões 2012-13 não é mais só uma ameaça. É concreta. A Itália já foi ultrapassada pela Alemanha e não conseguirá retomar o terceiro lugar no ranking da Uefa. O país passará a mandar só três times para a competição de clubes mais importante da Europa.
Motivos não faltam para o débâcle peninsular. A prepotência do país em relação a seu esporte é uma das principais armadilhas a serem contornadas: grande parte da Itália (torcida, mídia e clubes inclusos) custa a admitir a superioridade atual de ligas de outros países, ainda que seja incontestável o maior poder de atração de Inglaterra, Espanha e, às vezes, Alemanha e França. Até mesmo para Turquia e Rússia a Serie A perdeu titulares, nos últimos meses. Mas a Itália ainda se vê por cima e simplesmente ignora uma competição mais abordável, como a Liga Europa.

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A Liga Europa é vista como o patinho feio europeu. Ainda que seja esportiva e financeiramente menos atrativa que a Liga dos Campeões, ela pode ser de grande ajuda no ranking Uefa e ainda abre espaço para conquistas interessantes de clubes médios. Um bom exemplo é o bicampeonato recente do Sevilla, em 2007. Ironicamente, a mesma sociedade que abstrai a Liga Europa não aceita as eliminações de seus clubes. E dá-lhe tira-teima. Alguém não deveria ter sido expulso, outro não estava impedido, no lance era pênalti… Discussões assim se arrastam por dias e tiram o foco dos verdadeiros problemas. Fato: a Itália não sabe perder.
E quem não sabe perder também não sabe ganhar. Algo provado a cada ano que passa, sempre com a Inter imbatível, tropeçando nas próprias pernas e continuando de pé. Na Serie A, não é raro que o clube de Appiano Gentile vença com esforço mínimo. Ainda que Milan e Napoli tenham chances reais de título, é impossível descartar as chances da Inter, que nunca precisou estar 100% para bater adversários caseiros. O escândalo do calciopoli, que rebaixou a Juventus, redimensionou o Milan e baqueou Lazio e Fiorentina, derrubou o nível dos concorrentes e, principalmente, pôs na Europa gente que não estava preparada para disputá-la, como o Empoli de Piccolo, Rincón, Marzoratti e Volpato.
O enfraquecimento da Serie A deve muito à falta de renovação de suas equipes. Mesmo com categorias de base que produzem bons frutos, o Milan fechou com Yepes, 35 anos. Nesta, também 35, ainda é o melhor zagueiro do campeonato enquanto está inteiro. O problema não é só rossonero. Há sempre uma Roma dependente de Totti, 34, um Napoli que se reencontrou defensivamente com o agora lesionado Grava, 34, ou uma Juventus que se esforçou para repatriar Cannavaro, 37, ex-capitão que ficou um ano e se mandou para o Al Ahli. Para não falar dos negócios contestáveis, como os que levaram Toni à Juventus e Maccarone à Sampdoria.

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Há uma espécie de protecionismo excessivo (ou desconfiança?) na estrutura do futebol italiano. É raro que um time lance algum jogador sem mandá-lo passear por divisões inferiores por pelo menos um ano. Ou até por três, como no caso do romanista Cerci, que hoje fracassa na Fiorentina. Na Espanha, 51 jogadores foram lançados na temporada temporada. Na Itália, apenas 34 atletas sub-23 fizeram sua estreia no mesmo período – sendo que metade destes foram contratados de outros clubes, geralmente de outros países. Prata da casa, no futebol italiano, não vale muito.
Fora dos campos, a Itália está em crise perene. A carga tributária italiana sobre salários e movimentações financeiras é a maior entre os países de futebol bem desenvolvido na Europa, o que afasta jogadores e investidores. Além dos encargos, o país ainda sofre com a crise econômica. Perspectivas otimistas estão cada vez mais raras. Na esfera política, os nomes mudam pouco, interesses se confundem, eleições beiram referendos e investimentos pontuais não passam de sonho. Nas palavras recentes do bom escritor Roberto Saviano, “as antigas práticas da nossa política não são simplesmente uma aberração: são também um hábito”. E motivo de piada.
A Itália de hoje se reflete no futebol, é claro. A parte “empresarial” do jogo fala demais e vende de menos. Presidentes, diretores e agentes têm voz ativa no noticiário, mas merchandising não é uma palavra recorrente no ambiente italiano. Raramente são realizadas ações decentes em busca de novos mercados. Praticamente toda a renda dos clubes da Serie A vem de contratos televisivos, mas ainda assim os contratos do campeonato com o exterior representam apenas 15% do que ganha a Premier League inglesa.

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Entre os grandes clubes, há uma séria dependência em relação ao dinheiro que a Uefa distribui em suas competições europeias. Só Inter e Juventus podem investir tanto quanto as outras potências do continente, mas porque são de famílias ricas que aceitam colocar a mão no próprio bolso. Ainda assim, nem sempre o dinheiro atinge os melhores destinos, como a Velha Senhora tem provado.
Os estádios italianos sofrem problemas comuns aos nossos, brasileiros. Pouco atrativos, são testemunhas de uma Serie A que sofre com a queda avassaladora de público. Na temporada 1998-99, a média foi de 30.840 torcedores por jogo. Dez anos depois, o número caiu para 25.779. Não há segurança, visibilidade, conforto, opções de lazer e condições adequadas de transporte até a maioria dos campos da primeira divisão, nem projetos para revitalizá-los. Os centros de treinamentos de muitos clubes estão estagnados e defasados em relação aos rivais europeus e brasileiros.
As estruturas do futebol na Itália estão velhas, viciadas e inadequadas, características herdadas do país em que está hospedado. Um país que precisa reconstruir seu futebol e, até certo ponto, a si mesmo. Para que, dentro de 30 anos, essa fase seja lembrada como uma crise, não como um redimensionamento definitivo.