Todos contra dois

As palavras polêmicas de Campedelli só pioraram a situação
“Parem de ameaças ou deixo o clube. Vendo os jogadores úteis e não inscrevo o time no próximo campeonato. Devolvo o clube ao limbo, assim como estava quando comprei.”
A declaração forte aí de cima é de Igor Campedelli, presidente do Cesena, vice-lanterna da Serie A. Em uma coletiva tensa, o empresário disse que é preciso civilidade para que a torcida conteste o que tem sido feito e pediu que entendessem as dificuldades de um retorno à primeira divisão após 20 anos.
As principais críticas recaem sobre a última campanha do Cesena no mercado de contratações (realmente lastimável) e sobre o trabalho de Massimo Ficcadenti (realmente contestável). O que não torna aceitável que quatro torcedores do time invadam a loja oficial do clube dizendo que “quebrarão tudo” caso o treinador não seja demitido.
O clima quente tem sido alimentado inclusive por alguns jogadores, de certa forma. Pouco depois do empate contra o Parma, Jiménez reclamou publicamente que ele e Rosina são “armadores, não atacantes laterais”. O capitão Colucci veio dizer que já se havia se esclarecido com os torcedores. Sammarco disparou que o time levou o empate porque havia deixado de ser inteligente.
O trabalho de Ficcadenti não entrará para a história do Cesena, de fato. E o treinador peca bastante ao deixar seus favoritos em péssima fase, como Lauro, Parolo e Bogdani, entre os titulares. As escolhas têm sido contestáveis, as substituções ainda mais, e a personalidade arrogante é mais um entrave na relação com a torcida. No último jogo em casa, foi vaiado sempre que possível. O clima no estádio tem sido insuportável e Ficcadenti parece ter apenas o presidente Campedelli na luta contra todos os outros.
O relacionamento entre torcida e torcidos só tende a piorar. A principal organizada do Cesena redigiu um comunicado oferecendo um Oscar à atuação de Campedelli na entrevista aqui do primeiro parágrafo, dizendo não aceitar “que se jogue no mesmo caldeirão quem contesta e quem ameaça”. E foram além, insinuando que a ameaça de tirar o time do circuito profissional jogaria “toda a região contra Campedelli, amigos, colegas e familiares”.
Itália, um país de todos – inclusive dos imbecis

A foto é de 2009, mas o clima na Roma, dois anos depois, mudou bem pouco. Paciência da torcida continua em baixa
Esse clima hostil tem sido comum na Itália. Há alguns dias, torcedores da Roma receberam a equipe no aeroporto atirando algumas dúzias de ovos. A torcida da Sampdoria tem entoado cantos nada elogiosos a Domenico Di Carlo durante os jogos. Em Bari, uma carta-bomba foi enviada à casa do presidente Matarrese.
Os casos não ficam só na Serie A. Nos últimos 12 meses, cartas-bomba explodiram na sede do Torino, e nos estádios da da Pro Patria e da Carrarese. Aí pergunto: falta mais alguma morte para que a segurança volte a ser pauta no futebol italiano?
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