A década irrepreensível de van der Sar
Recordista em exibições pela Seleção Holandesa, melhor goleiro da Europa aos 24 anos e, já na Juventus, condenado a abrir espaço a Gianluigi Buffon. Ainda jovem, aos 30 anos, Edwin van der Sar decidiu se juntar ao recém-promovido Fulham. Era um presente inesperado para a Premier League, pelas portas de um clube que estreava na elite remodelada, pós-1992.
O frio e esguio holandês, que chegou à Inglaterra em 2001, certamente é o grande goleiro da liga na última década. Desde 2005 no Manchester United, van der Sar, o primeiro a amenizar a saudade de Peter Schmeichel, vai deixar o futebol aos emblemáticos 40 anos. Até o fim da temporada, ainda deve jogar muito e tem ótima chance de levar seu quarto título inglês com os Red Devils.
A média de gols sofridos pelo Manchester United em 2010-11 não impressiona tanto. Foram 21 em 23 jogos na Premier League. Com van der Sar em Old Trafford, esse índice costuma passar muito longe de um gol por partida ao fim da temporada. A escrita é mantida, quase no limite. A melhor defesa do campeonato é a do Chelsea, com 19 gols. No balanço entre setores, os Red Devils são aparentemente mais fortes no ataque. O time tem 51 gols na liga, 19 de Berbatov.

O primeiro ato de uma década: quatro anos no Fulham, seis no Manchester United
No entanto, está claro que, números à parte, a diferença fundamental entre o conjunto de Ferguson e os adversários reside na defesa. Isso foi observado em momentos críticos da temporada. Por exemplo, quando o United não sofreu gols contra Tottenham (duas vezes), Manchester City e Arsenal. Dos quatro clean sheets, o mais marcante foi o de White Hart Lane, quando Rafael foi expulso a 20 minutos do fim. A manutenção da invencibilidade, naquele momento, acabou com a ilusão de que os Spurs brigavam pelo título e simbolizou como será difícil – para qualquer time – superar os Red Devils nesta temporada.
Se a defesa falha em ocasiões como a da última terça-feira, em Blackpool, é uma rocha quando o ataque não pode compensar esses equívocos. Isso não é, evidentemente, apenas sobre van der Sar. A dupla Vidic-Ferdinand é a melhor do mundo no setor, e as oportunidades concedidas aos adversários costumam ser limitadas. É aí que entra o holandês. Você pode dizer que ele falhou feio, por exemplo, no empate caseiro por 2 a 2 contra o West Bromwich, em outubro. Mas é difícil contestar alguns números relevantes de um goleiro que atuou em 21 das 23 partidas de liga do United na temporada.
O site do Manchester United publicou hoje um levantamento comparativo entre van der Sar e seus substitutos recentes, Tomasz Kuszczak, Ben Foster, hoje no Birmingham, e Ben Amos, emprestado ao Oldham. O estudo é feito em duas amplitudes: desde 2008-09 e limitado a esta temporada. Nos últimos dois anos e meio, van der Sar conseguiu 59 clean sheets em 103 jogos por todas as competições (índice de 57%), contra 22 em 53 partidas de seus substitutos (41%). Nesse tempo, o goleiro holandês sofreu 77 gols (0.74 por jogo) contra 48 (0.9 por partida) de Kuszczak, Foster e Amos combinados.
Em 2010-11, van der Sar também leva vantagem (desta vez, sobre Kuszczak e Amos) – veja mais detalhes no site do clube. Com um time que costuma controlar os jogos e uma defesa tão sólida, a participação do goleiro não é tão ampla como, por exemplo, a de Joe Hart na temporada passada, quando, no Birmingham, foi o melhor da posição. As chances de se destacar, de fazer a diferença, são reduzidas. E van der Sar ainda consegue. Por isso, não é cascata o fato de a aposentadoria ser motivada por questões familiares, e não físicas ou de desempenho.

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Sempre consistente, mas com alguns pontos ainda mais altos na carreira (como em 2008, ano de seu segundo título europeu), van der Sar deixará saudade. O debate agora gira em torno de seu substituto em Manchester: Kuszczak, Lindegaard, De Gea? Ainda é cedo para cravar. Certo é que, líder de uma das maiores defesas da história do clube, o goleiro de 1.97m encerra a carreira no lugar de onde vê o mundo: lá em cima.








