
Anderson e Lucas: personagens de mesma origem e da mesma tendência
Mano Menezes pode, embora não deva, escalar quatro ingleses no meio-campo que enfrenta a França, em Paris, daqui a 15 dias. Além de Gomes, goleiro do Tottenham, e Rafael, lateral-direito do Manchester United, Mano chamou Sandro, Lucas, Ramires e Anderson para o amistoso. Destas convocações, a do ex-colorado é a mais discutível. Afinal, a lesão de Huddlestone só lhe abriu espaço no banco do Tottenham. Quem joga, naturalmente, é o hondurenho Palacios. No entanto, quando o treinador da Seleção Brasileira convoca seis jogadores (quatro em apenas um setor) que atuam na Inglaterra, nada é mais importante.
Depois de o ex-atacante Mirandinha, no Newcastle entre 1987 e 1989, supostamente abrir as portas do futebol inglês para os brasileiros, os meias centrais – os nossos volantes – engordam (e muito) a lista de jogadores do país na Premier League. De 1992 para cá, 42 brasileiros passaram pela divisão de elite na Inglaterra, sendo 17 volantes. Edu Gaspar, por exemplo, chegou ao Arsenal em 2000, mas foi particularmente após a Copa de 2002 que muitos treinadores de clubes ingleses passaram a enxergar nos meio-campistas brasileiros, geralmente nos mais jovens, as características para se destacar na posição. É aquela história de marcar e sair para o jogo.
Os quatro convocados no setor seriam cinco se Mano tivesse chamado Denílson, que, ao contrário de Sandro, não pode ir a Londres-2012 por idade. O ex-capitão da seleção sub-20 já foi titular do Arsenal, mas, especialmente pela ascensão de Wilshere, hoje é apenas alternativa. Sandro, um ano mais jovem, ainda é o terceiro na escala para acompanhar Modric no meio-campo do Tottenham. Pelo correto clichê do tempo de adaptação ao futebol inglês e a forte concorrência, é natural.
Lucas, há três anos e meio no Liverpool, passou por isso. No começo, ele, Gerrard, Xabi Alonso, Mascherano e Sissoko postulavam duas vagas – à época, Benítez preferia o 4-4-2. Até pouco tempo atrás, Lucas ainda tinha problemas com jogos mais físicos e de marcação mais apertada. Agora, com mais responsabilidades defensivas, achou-se e é peça importante. Vale ressaltar que ele segurou a onda e não se acovardou diante de duras e justas críticas. Mesmo o mais talentoso Anderson, recuado por Ferguson no Manchester United, demorou para pegar no tranco. Se sobreviveu a um forte desentendimento com o treinador escocês, foi porque, aos 22 anos, ainda é extremamente promissor.
No entanto, aquele que tem mais potencial para se dar bem na Inglaterra é Ramires. Rápido, dinâmico e habilidoso, o fluminense de Barra do Piraí parece ser o mais completo, de Edu, passando por Gilberto Silva, até Anderson. O gol dele contra o Bolton, o primeiro pelo Chelsea, não foi tão festejado (foto AFP) à toa. Todos ali sabem que o brasileiro é especial. Ramires oscilou demais nos primeiros jogos e ainda não é titular, mas são poucos os que não apostam nele.
Ao deixar o Benfica, o ex-cruzeirense foi corajoso. Escolheu a camisa 7 do Chelsea, que foi recentemente de Bogarde, Mutu, Maniche e Shevchenko. Todos decepcionaram muito em Stamford Bridge, e o número virou uma espécie de maldição. Mas a camisa não faz o jogador. É o jogador quem deve fazer a camisa. Tarefa plenamente alcançável para Ramires, já bem melhor no Chelsea e titular absoluto na Seleção Brasileira mais inglesa de todos os tempos.
Agora há pouco, dois jogos atrasados da Premier League. O Manchester United esteve a ponto de perder a invencibilidade para o Blackpool, em Bloomfield Road. O primeiro tempo de Charlie Adam, pretendido pelo Liverpool, impulsionou os 2 a 0 dos Tangerines. Mas o segundo tempo de Berbatov, on fire, e do ainda fundamental Giggs, que entrou no intervalo, deixaram os Red Devils cinco pontos à frente do Arsenal. A nota triste do jogo foi a lesão de Rafael, que põe em xeque sua presença no amistoso contra a França. Fora de casa, o novo Aston Villa superou o Wigan por 2 a 1 e abriu seis pontos para a zona de rebaixamento. Na Copa da Liga, o Arsenal venceu o Ipswich por 3 a 0 e fará a final contra o vencedor entre Birmingham e West Ham, que se enfrentam amanhã.
No mercado de transferências, Adebayor se junta ao Real Madrid por empréstimo até o fim da temporada. Se o Manchester City conseguir os estipulados 15 milhões de euros após a experiência, sairá bem dessa história. No Chelsea, um bom sinal. A pesada proposta de £52 milhões por Godín e Agüero foi rejeitada pelo Atlético de Madrid, mas manifesta o desejo de Abramovich de auxiliar Ancelotti na tarefa de melhorar um elenco ainda incapaz de fazer um banco forte. Do Liverpool, Babel foi de fato para o Hoffenheim. Os Reds não recuperam o investimento, mas arrecadam fundos para futuros reforços e perdem um jogador que ainda poderia dar certo, mas que gastou muito a paciência de todo mundo em Anfield.