A sucessão
A aposentadoria de Sir Alex Ferguson é daqueles eventos em que, antes de acontecer, ninguém acredita – à exceção do Telegraph, primeiro jornal a indicar a saída do manager após quase 27 anos no comando do Manchester United. Como sugeriu o artigo anterior desta coluna, o discurso de Ferguson não sinalizava aposentadoria. Não à toa, as especulações praticamente inexistiam, ou pelo menos eram bem mais leves do que temporadas atrás.
No entanto, há aspectos lógicos na decisão. A menos que fosse motivado por um problema de saúde ou algo parecido, ele jamais escolheria sair em um cenário negativo. O 20º título do United no campeonato, 13º de Ferguson, é o melhor encerramento possível do ponto de vista moral, sobretudo por ser um incontestável contra-ataque à conquista do Manchester City em 2011-12. Além disso, quando justificou a aposentadoria, o manager reiterou o bom estado (qualidade e média de idade) do elenco que entregará a seu sucessor.
Aliás, o sucessor escolhido por Ferguson e aprovado pelo clube é a melhor manifestação de que o United não pretende promover alterações drásticas. Se existe alguém capaz de preservar o legado, sem a vaidade de apressar mudanças e deixar sua “assinatura” no clube imediatamente, é o escocês (outro, após Matt Busby e Ferguson) David Moyes, de 50 anos. Há 11 temporadas em Goodison Park, Moyes treinará o Everton nas duas rodadas restantes da Premier League e, em seguida, assumirá o que foi batizado de “trabalho impossível”.
Nem tanto, convenhamos. O contrato de seis anos oferecido pelo United atesta a confiança depositada em Moyes (quase um Alan Pardew, a quem o Newcastle entregou precipitadamente um contrato de oito temporadas), que há muito é um dos treinadores mais respeitados da liga. Respeito adquirido por conta da construção de um Everton sustentável e competitivo, que superou elencos mais caros e sempre foi um adversário difícil para qualquer time em qualquer estádio.
É equivocado afirmar que Moyes nunca gastou ou que sempre montou times contratando free agents, mas é correto vincular esse investimento a vendas importantes. Se um dia o Everton comprou Jagielka, Baines, Fellaini, Pienaar e Mirallas, é porque fez muito mais dinheiro com Rooney, Lescott, Rodwell, Andy Johnson (sim, Moyes o vendeu ao Fulham por £13 milhões) e Arteta. Lembra Simon Kuper, do Financial Times, que o Everton tem apenas a 10ª folha salarial da liga e sempre terminou entre os oito primeiros desde 2007.
Moyes não é um técnico purista como Jürgen Klopp ou Pep Guardiola, de estilos inconfundíveis. O Manchester United certamente não será um time tão intenso e rápido quanto o Dortmund ou um praticante do tiki-taka como o Barcelona 2008-2012. O novo chefe em Old Trafford é bem mais maleável e adapta-se ao que tem à disposição para competir. Há quatro ou cinco anos, as pessoas reclamavam de um Everton sem atacantes – na verdade, com Tim Cahill ocupando o espaço correspondente. Hoje, reclamam dos dois postes à frente, Fellaini e Anichebe.
Apesar da flexibilidade, é possível usar como referência o Everton de 2012-13. Particularmente no início da temporada, quando tinha Pienaar e Jelavic em grande fase, Moyes montou uma equipe empolgante, sobretudo nos jogos em casa. Fellaini dominava partidas, Mirallas era um azougue à direita, Baines avançava no espaço abandonado por Pienaar, e Osman controlava o meio-campo. Se recuperar os wingers e contratar os jogadores certos (enfim, dinheiro não será problema), ele pode reproduzir esse tipo de futebol em Old Trafford, com jogadores mais decisivos e confiáveis.
Uma ressalva que precisa ser feita é a ausência de títulos de elite no currículo de Moyes, campeão apenas da terceira divisão com o Preston North End, em 2000. No Everton, sem troféus há 18 anos, a pressão era minimizada pela consistência da equipe e pelo título imaginário de “terminar a liga acima do Liverpool”, algo que Moyes conseguiu em 2005, 2012 e tem tudo para repetir em 2013.
Apesar disso, é bobagem recorrer a um daqueles clichês, como “Moyes é técnico de time sem ambição”. Faltou a chancela de um título, mas ele cumpriu seu papel no Everton e até excedeu as expectativas. A questão agora é conviver com outro tipo de pressão. No United pós-1990, conquistas vêm de maneira natural e são resultado também da excelente gestão Ferguson, uma raposa em campo e hábil no relacionamento com a diretoria e os jogadores. A ética de trabalho de Moyes o transformou no candidato ideal para continuar esse processo.











