A temporada possível

Rodgers sempre menciona as tradições e os valores do Liverpool. Mais do que um clube de futebol, é um modo de vida, diz
A temporada do Liverpool foi ruim ou boa, dependendo de quem a interpreta. Na perspectiva mais pessimista, o clube subiu apenas uma posição em relação a 2011-12 – de 8º a 7º na Premier League – e fracassou de maneira retumbante nas copas. Os otimistas podem buscar números menos importantes, mas que ajudam a traçar o novo perfil do time. Por exemplo, o saldo positivo de 27 gols, inferior apenas aos dos quatro primeiros colocados da liga, ou os 38 gols marcados fora de casa, um recorde neste campeonato.
O Liverpool, que encerra sua campanha contra o Queens Park Rangers amanhã em Anfield, perdeu nove partidas na liga, seis nas últimas 32 rodadas. Nada impressionante, mas indica um time menos frágil e previsível que o da temporada passada, derrotado 14 vezes no campeonato porque sangrava para marcar gols – foram 47 contra 70 (mais os que provavelmente serão marcados diante do QPR) de 2012-13.
Entretanto, números não definem precisamente a temporada do Liverpool, sobretudo porque o Fenway Sports Group, administrador do clube, escolheu a mudança no verão passado. Quando demitiu Kenny Dalglish, entregou o time a Brendan Rodgers e recusou-se a reforçar o elenco com jogadores para curto prazo (Clint Dempsey foi um exemplo), mesmo que isso tenha limitado demais as alternativas do treinador, o FSG bancou um projeto e desistiu da temporada.
O ano seria apenas um intervalo de tempo no qual Rodgers desenvolveria uma ideia de ruptura com o britanismo de Kenny Dalglish, ajustaria o elenco e tentaria provar, com alguns resultados e jogos marcantes, que está no caminho certo. Admitindo isso, Rodgers fez bom ano de estreia, com o bônus de ter desenvolvido garotos da base como Suso, Sterling e Wisdom e ainda recuperado jogadores que pareciam casos perdidos.
Henderson fez grande segunda metade de temporada, após um péssimo 2011-12, e Downing trabalhou até virar titular, ainda que deva perder a posição a partir de agosto, com novos reforços. Além deles, um Gerrard praticamente livre de problemas físicos se redescobriu como uma espécie de deep-lyng playmaker, trabalhando mais na organização do time do que na finalização de jogadas.
A falta de criatividade no primeiro mercado de transferências de Rodgers, que contratou os antigos conhecidos Allen e Borini, foi compensada pela sagacidade na janela de inverno, quando o Liverpool começou a resolver problemas de fato. As capturas de Sturridge e Coutinho em janeiro não foram golpes de sorte, mas a confirmação de que, com tempo para avaliar o próprio elenco, Rodgers sabia exatamente o que estava fazendo e de que tipo de jogador precisava.
Entrevistas de diretores e do próprio Rodgers indicam que o próximo mercado seguirá o mesmo modelo. A ideia é contratar jogadores jovens, talentosos, ainda não tratados como fenômenos (por isso mais baratos) e que possam se desenvolver no clube. Tudo sem preconceitos ou clichês.
Sturridge, que teve algumas atuações espetaculares, mostrou que nem todo inglês contratado pelo Liverpool é superestimado. A nacionalidade nada tem a ver com seu talento, mal explorado pelo Chelsea. Outro grande exemplo é Philippe Coutinho, incrível durante o empréstimo ao Espanyol, subavaliado pela Internazionale, que cometeu um enorme equívoco ao vendê-lo por apenas £8,5 milhões, e considerado precipitadamente uma promessa frustrada – ele tem só 20 anos! O brasileiro é o melhor jogador do Liverpool desde que foi contratado.
No próximo verão, seguindo a lógica de contratar para setores carentes, o Liverpool deve acrescentar ao elenco um zagueiro para substituir Carragher, que está se aposentando, um lateral-esquerdo para competir com José Enrique, um meia versátil e criativo (outro Coutinho) e um winger mais eficiente do que Downing. Manter Suárez é parte importante do projeto, mas uma eventual saída não é o apocalipse, desde que haja reinvestimento. Nas vitórias enfáticas sobre Newcastle (6 x 0) e Fulham (3 x 1), o Liverpool provou que a ausência de seu melhor jogador não pesa tanto quanto há cinco meses.
Sagaz no mercado, Rodgers também evoluiu do ponto de vista tático. No início da temporada, ele vivia falando em “matar (adversários) pela posse de bola”. Contudo, para se tornar menos previsível, o Liverpool incorporou outros estilos a seu jogo de controle e marcação adiantada. Contra Newcastle e Fulham, média de apenas 49% de posse de bola e vários gols marcados em transições rápidas, aproveitando a criatividade de Coutinho e a velocidade de Sturridge.
O principal obstáculo a Rodgers será a exigência natural de resultados, que aumenta à medida que a mudança de patamar se confirma. Em 2012-13, a avaliação não passará somente pela “sensação de progresso”, mas também pelo “progresso de fato”, aquele dos números e objetivos alcançados. Não se trata de atrelar a manutenção do emprego do norte-irlandês à classificação para a Champions League 2014-15, porém o Liverpool tem de flertar com os 70 pontos.














