Enfim, um novo desafio
Martin O’Neill é o Paulo Autuori do futebol inglês. Desde que deixou o Aston Villa, há um ano e meio, ele era especulado em qualquer clube que demitisse treinador. Os rumores eram reconhecimento a quem levantou duas Copas da Liga com o Leicester na década de 90 e recolocou o Villa nos trilhos de 2006 a 2010. Agora, o norte-irlandês enfim abandona o passado e assume um Sunderland que tem feito bem menos do que pode e deve fazer.
Recém-empossado presidente do clube, Ellis Short fez duas escolhas certas. A demissão de Steve Bruce já estava madura por conta das decepções nas últimas temporadas e ficou quase inevitável depois da derrota em casa para o time mais frágil do campeonato, o Wigan. O acerto com O’Neill poderia ser difícil pelo status que o técnico ganhou na Inglaterra, mas, uma vez concretizado, parece ser o caminho para o Sunderland crescer.
Durante sua temporada sabática, O’Neill resistiu várias vezes à tentação de começar um novo trabalho. Se ele aceitou a proposta do Sunderland, certamente é porque vê no Stadium of Light o ambiente para revitalizar o clube, como no Aston Villa. Em quatro temporadas, ele transformou um time habituado à 16ª posição na sexta força da Inglaterra, chegando à mesma colocação em suas últimas três temporadas no Villa Park.
É exatamente o percurso que o Sunderland quer e pode fazer. Bruce fracassou, mas o objetivo de médio prazo ainda é disputar competições europeias. Para começar, Short deve disponibilizar a O’Neill um orçamento de £20 milhões para contratações em janeiro. A mão aberta é necessária porque, embora tenha se reforçado muito no último mercado, o Sunderland perdeu peças importantes e ainda procura novas referências, sobretudo ofensivas.
A troca de Bent, Gyan e Welbeck por Bendtner, Ji e Wickham não caiu bem aos gatos pretos, que têm, no máximo, o ataque do futuro. No presente, são apenas 16 gols marcados em 14 rodadas, pouco para quem tem criadores de jogadas como Sessegnon e Sebastian Larsson. A última referência tática de O’Neill é promissora nesse sentido. No Villa, ele não mediu esforços na criação de alternativas para agredir o adversário.
Em 2009-10, por exemplo, o norte-irlandês fez um ajuste muito interessante a seu time. Mesmo com Ashley Young, Milner e um Albrighton em desenvolvimento, ele buscou mais um jogador para atuar pelas laterais do campo. A contratação de Downing reposicionou Milner, que passou a exercer uma função central. A equipe se fortaleceu nas pontas, ficou mais inteligente no centro e, mesmo com atacantes limitados, o Villa chegou até a ameaçar os líderes antes de perder muito fôlego na reta final.
Aquele padrão tático dá uma ideia do que O’Neill pode fazer no Sunderland. Enquanto não contrata, algumas mudanças seriam interessantes para criar uma ameaça mais constante pelos lados e garantir mais qualidade no meio-campo. Larsson poderia, como Milner no Aston Villa, exercer uma função central, e o incisivo Richardson, deixar a lateral para ganhar liberdade para atacar pela ala esquerda.
O fato é que O’Neill tem várias opções e deve quebrar a cabeça após assistir, no estádio Molineux, à derrota do Sunderland para o Wolverhampton por 2 a 1. Por ora, o que podemos esperar é uma ligeira melhora do pífio aproveitamento de 26%, que pôs os gatos pretos na 17ª posição, à beira da zona de rebaixamento. Adiante, com mais tempo para trabalhar e dinheiro para gastar, o novo treinador deve ter mais sucesso do que Steve Bruce.














