Nostalgia
Aos primeiros sinais de que o Sunderland lutaria contra o rebaixamento, o melhor podcast inglês sobre futebol – o Football Weekly, do Guardian – tratava da ausência de identidade da equipe. “Que time eles querem ser?”, perguntou um dos comentaristas. “Um time de segunda divisão”, respondeu o apresentador James Richardson, uma figura. Os Black Cats não evoluíram durante a temporada, o risco de queda é enorme, e a diretoria, desesperada, trocou o comando técnico. O controverso italiano Paolo Di Canio assumiu o cargo após uma experiência bem-sucedida no Swindon Town.
O expediente de demitir o treinador para evitar o rebaixamento é recorrente no futebol inglês, mas existem dois aspectos que diferenciam o caso do Sunderland dos outros. Se o técnico dispensado é Martin O’Neill, um dos grandes da Premier League pelos ótimos trabalhos em Leicester e Aston Villa, e o elenco é caro demais para apenas 33,3% de aproveitamento, há algo para ser investigado.
Quando substituiu Steve Bruce no Stadium of Light, na metade da temporada passada, o norte-irlandês teve excelente desempenho em curto prazo, com sete vitórias nas dez primeiras partidas. Enquanto suas atribuições se resumiam a reorganizar e motivar a equipe, o Woody Allen do futebol foi quase perfeito. Porém, a partir do instante em que precisou montar seu próprio time, O’Neill fracassou.
Assim como Brian Clough, para quem trabalhou no Nottingham Forest bicampeão europeu, o norte-irlandês se especializou em estabelecer uma relação de confiança que transforma os jogadores em seus soldados. Ele sempre soube administrar grupos e não parece ter perdido essa habilidade. A questão é que disciplina, respeito rigoroso ao posicionamento, meio-campo combativo, wingers rápidos e dois bons centroavantes, princípios que O’Neill sempre impõe a seus times, não são mais suficientes para garantir sucesso no futebol inglês, que mudou demais nos últimos anos.
Mesmo para enfrentar equipes que também lutam contra o rebaixamento, é necessário fazer adaptações. Pense, por exemplo, em Southampton, Aston Villa e Wigan. Especialmente os dois últimos não se defendem bem, mas todos são taticamente sofisticados e, contra o Sunderland ou qualquer outro time que adote um inflexível 4-4-2, obtêm superioridade numérica no meio-campo e não perdem força pelos lados. Até Alex Ferguson, que não é exatamente um treinador heterodoxo, criou uma série de alternativas para o Manchester United nas últimas temporadas.
Também da Irlanda do Norte, Brendan Rodgers é a antítese de O’Neill. Há cinco dias, na vitória do Liverpool sobre o Aston Villa, seu 4-3-3 tinha na ponta esquerda Philippe Coutinho, que tende a centralizar e passa a participar da criação de jogadas. Quando comparamos os dois times dirigidos por norte-irlandeses nesta temporada (figura ao lado), é simples entender por que as exigências do futebol moderno tornaram o Sunderland ultrapassado.
Além da defasagem em relação a outras equipes, o sistema tinha dois problemas mais sérios, sobretudo nos últimos meses: nenhum dos dois atacantes (Fletcher, que agora se lesionou, e Graham, que foi contratado em janeiro e ainda não marcou gol) realmente combatia um volante adversário, e os meias centrais simplesmente não conseguiam criar e controlar os jogos. De acordo com a Opta, apenas o alemão Fortuna Düsseldorf acertou menos finalizações do que os Black Cats nas cinco principais ligas europeias. Se alguém perguntar por que O’Neill não deu certo no Sunderland, seu clube de infância, vale responder: porque ele não o treinou nos anos 90.















