O certo pelo duvidoso
O Southampton subiu da 22ª posição da terceira divisão à 15ª da Premier League em dois anos e quatro meses. A incrível ascensão de 51 degraus na pirâmide do futebol inglês foi impulsionada pela gestão do banqueiro italiano Nicola Cortese (com o suporte financeiro da família do suíço Markus Liebherr), que tirou o clube das ruínas, mas é facilmente associada a outro nome: Nigel Adkins. O treinador de 47 anos fez trabalho brilhante no St. Mary’s, do primeiro ao último dia.
Brilhante porque criou rapidamente um grupo competitivo para a terceira divisão, soube reinvestir o dinheiro da venda de Oxlade-Chamberlain ao Arsenal, retornou à elite na primeira tentativa e aprendeu a jogar a Premier League antes que fosse tarde demais. O time inseguro e vulnerável das rodadas iniciais desapareceu. Os Saints são bem mais sólidos desde novembro, saíram da zona de rebaixamento e não perdem há seis partidas. Mas a última delas, ontem, não teve Adkins à beira do campo.
Quem procurou o antigo treinador, demitido por Cortese sem qualquer explicação, encontrou Mauricio Pochettino durante o empate por 0 a 0 com o Everton em casa. Dispensado pelo Espanyol em novembro de 2012, o técnico argentino, de 40 anos e inglês macarrônico, assumiu a cadeira de Adkins.
A lógica de Cortese é indecifrável. O time estava evoluindo e conquistando pontos improváveis, como o do empate por 2 a 2 com o Chelsea em Londres. De repente, a diretoria demitiu o treinador, competente, personagem importante na história do clube e idolatrado por torcedores e jogadores. O substituto, que fazia péssima temporada no Espanyol até novembro, não domina o idioma. Tudo isso no meio da campanha, quando a única tarefa do Southampton para evitar o rebaixamento era manter o nível apresentado nas últimas rodadas, sem precisar de ruptura para “causar impacto” ou qualquer clichê equivalente.
O estádio cantou o nome de Adkins na primeira partida pós-demissão, mas evitou hostilizar Pochettino. A classe dos torcedores é uma bênção para o argentino, pois a reação à saída involuntária de uma lenda do clube, com a contratação imediata de um substituto, poderia ter sido destrutiva. Classe que o próprio Adkins havia demonstrado quando deixou a seus jogadores uma mensagem singela e emocionante. “Continuem sorrindo, tenham a convicção de que estão fazendo a coisa certa e sempre tentem melhorar”, escreveu num bloquinho.
Ninguém entenderá Cortese, mas a impressão é de que existe uma tentativa de reduzir a influência britânica sobre o clube. Ainda em agosto, a surpreendente contratação do uruguaio Gastón Ramírez, que era especulado em vários grandes clubes ingleses e italianos, foi um sinal de que a gestão adotaria um perfil heterodoxo. A chegada de Pochettino, que em algum momento foi considerado um dos nomes promissores da escola espanhola, é outro passo nessa direção.
É válido fugir do óbvio. Quando mergulhou na política de contratar apenas britânicos, o Liverpool foi vítima do mercado interno inflacionado, gastou muito dinheiro e construiu um time incapaz de superar defesas fechadas. Criatividade faz bem, mas especialmente quando acompanhada de bom senso, para manter o que dá certo ou, no mínimo, esperar o fim da temporada para fazer mudanças drásticas e impopulares.









