
Os amigos Ferguson e Dalglish reacendem uma rivalidade que começou há quatro décadas
O auge da crise de qualidade dos técnicos ingleses aconteceu entre 2006 e 2007, quando o mais promissor deles, Steve McClaren, foi incapaz de levar uma ótima seleção à Euro 2008. A FA desistiu, e os clubes acompanharam a tendência à resignação. Dos 20 treinadores que concluíram a temporada na Premier League, apenas cinco são ingleses: Harry Redknapp, Roy Hodgson, Steve Bruce, Alan Pardew e Ian Holloway.
O índice fica mais assustador quando comparado à presença de managers de Glasgow. A maior cidade escocesa e seus arredores ofereceram à liga seis de seus técnicos até maio: Alex Ferguson, Kenny Dalglish, David Moyes, Owen Coyle, Alex McLeish e Steve Kean. A produção da Escola de Glasgow é histórica (Matt Busby, Jock Stein, George Graham…), mas seu impacto atual nos obriga a uma análise do que tem acontecido e do desempenho deles na temporada.
A estabilidade é um dos pontos. Há quase 25 anos no cargo, Alex Ferguson já é o técnico mais duradouro do Manchester United. A conquista da Premier League foi sua 12ª. Jock Stein, seu mentor, também era de Glasgow. Antes de substituí-lo na seleção da Escócia, Ferguson, que ficou devastado pela morte do mestre, fez trabalho longo e brilhante no Aberdeen, com quem quebrou pela última vez a sequência de títulos escoceses de Celtic e Rangers.
Essa propensão se confirma com David Moyes, no Everton há nove anos. Habitualmente tímidos no mercado, os Toffees contam com uma espécie de família Moyes. Ele aposta na manutenção de peças essenciais por muito tempo e se notabiliza por pegar no tranco na metade final da temporada. Osso duro para os grandes roerem, o Everton supera o Aston Villa em consistência e é a sétima (colocação em 2010-11) força do futebol inglês por conta de seu comandante, que iniciou a carreira no Preston.
Moyes, entretanto, não é o treinador mais bem-sucedido em Liverpool. O retorno de Kenny Dalglish revitalizou os Reds. Apesar de o ótimo aproveitamento a partir de janeiro ser atribuído especialmente à identificação dele com o clube, Dalglish já experimentou outros ambientes e ratificou sua competência ao levantar a Premier League pelo Blackburn em 1995. Aliás, é em Ewood Park que está o mais cru dos escoceses: Steve Kean, que sofreu mais do que deveria para manter o Blackburn na elite.
Os outros dois têm uma relação muito íntima. Alex McLeish treinou Owen Coyle no Motherwell. Na temporada passada, McLeish foi brilhante com um Birmingham de defesa forte e que quase não mudava o time. Nesta, com dinheiro e sem um ataque decente (37 gols, menos do que Cristiano Ronaldo em La Liga), nem a defesa aguentou, e o clube caiu logo no ano em que levou a Carling Cup.

McLeish e Coyle: o mestre ensinou mais do que gostaria
Coyle repetia McLeish ao escalar sempre o mesmo Bolton enquanto as lesões não vinham. Assim, ele deu a um time rústico um estilo muito mais técnico. Apesar da péssima reta final, que levou os Trotters à 14ª posição da liga, Coyle, ainda com 44 anos, consolidou-se como o nome mais promissor da Escola de Glasgow. McLeish, que lhe passou muito do que sabe, foi treinado por Alex Ferguson no Aberdeen. A cultura de o mestre transmitir ao aprendiz também conta.
Por que Glasgow?
A gente sabe que a escola produz muito, mas por quê? À BBC, o ex-jogador Pat Nevin, nascido em Glasgow, afirma que esses treinadores “se cobram muito, trabalham duro e são determinados a provar que os outros estão errados, especialmente os ingleses”. Além da ponta de rivalidade, McLeish considera que o sotaque “rude” inspira uma “autoridade natural”. Moyes, por sua vez, fala no ambiente de Glasgow, que o fazia pensar só em futebol.
A região perde McLeish na próxima Premier League, mas ganha Paul Lambert. Aos 41 anos, ele levou o Norwich a dois acessos consecutivos. Enquanto isso, o Sunderland não evolui sob Steve Bruce, ex-promissor entre os ingleses. Da geração de Redknapp e Hodgson, Neil Warnock, de 62 anos, sobe com o QPR e sinaliza que a renovação na Inglaterra, em contraste com a de Glasgow, é tão preocupante quanto o atual cenário.