O outro lado
A semana na Inglaterra foi marcada por outra demissão de um treinador intimamente ligado ao progresso de um clube. Depois de Nigel Adkins, dispensado pelo Southampton há dois meses, Brian McDermott, que liderou o acesso do Reading à Premier League, perdeu o cargo na segunda-feira. McDermott deixa o Reading a quatro pontos da saída da zona de rebaixamento e apenas 33 dias após receber o prêmio de Treinador do Mês referente a janeiro.
É mais um caso clássico em que o técnico é vítima do próprio sucesso, e a diretoria parece não compreender que, salvo raras exceções, o caminho natural para um time recém-promovido é a luta contra o rebaixamento. Como no caso de McDermott, o blog geralmente é favorável à estabilidade, ou seja, à manutenção de um trabalho bem-sucedido que, de certa forma, está atendendo às expectativas. Mas existe um exemplo dissonante na Premier League: o Stoke City.
Tony Pulis treinou o Plymouth em 2005-06, única temporada desde 2002 em que ele não esteve no Stoke. Em duas passagens, Pulis se aproxima dos dez anos de Britannia e pode ter orgulho do que fez pelo clube até agora. Esta é a quinta participação consecutiva na Premier League dos Potters, que mantêm regularidade impressionante: são apenas dois degraus entre a melhor (11ª, em 2009-10) e a pior (14ª, em 2011-12) posição final em cinco temporadas na elite. A ameaça de rebaixamento quase sempre permaneceu sob controle.
A fórmula do Stoke é bem conhecida. Futebol rústico, lançamentos longos, arremessos laterais à área e defesa com disciplina militar garantem a estabilidade da equipe na primeira divisão. Nesta temporada, com as contratações do defensor Geoff Cameron e do volante Steve N’Zonzi, houve a impressão de que a fórmula tinha sido aperfeiçoada. Por exemplo, nas seis primeiras partidas em casa, os Potters sofreram apenas um gol, marcado pelo Manchester City na quarta rodada. Liderada pelo capitão Shawcross e o goleiro Begovic, a defesa era quase imbatível no Britannia.
Embora se sustente na 11ª posição, o Stoke desabou em 2013 e ainda não está totalmente livre da queda. Em nove jogos, perdeu sete. A segurança defensiva foi embora (ainda que Begovic siga fazendo seus pequenos milagres), e o ataque continua pobre, muito pobre. Em toda a temporada, a posse de bola média (42,8%), o índice de passes certos (70,3%) e as finalizações por jogo (9,8) superam apenas os números do Reading. O Stoke é ainda o time que menos acerta finalizações, menos dribla e o segundo que mais comete faltas.
Não há nada errado com o estilo descrito nos dois últimos parágrafos, mesmo que ele não seja “agradável”. Pelo contrário, é ótimo que a equipe tenha uma identidade e ofereça diversidade à liga, até para impor um desafio bem particular aos outros 19 clubes. Mas será que o Stoke progride como deveria? Pulis adora qualificar o próprio time como underdog, isto é, aquela zebra que, à base de muita dedicação, consegue resultados inesperados. Fazia sentido na primeira temporada dos Potters na Premier League, mas agora soa como um discurso para autoproteção.
Uma pesquisa surpreendente aponta o saldo de transferências (o que arrecadou em vendas menos o que gastou em compras) do Stoke como o terceiro pior da Premier League nos últimos cinco anos. Apenas Manchester City e Chelsea, como você já imaginava, apresentam uma “balança comercial” mais desfavorável. Em sua aventura na Premier League, Pulis despejou £89 milhões em jogadores e recebeu somente £8,5 milhões em vendas*. Palacios foi comprado por £6 milhões, mas quem joga é Whelan. Foram investidos £22 milhões em Crouch, Jones e Jerome, mas tem vaga para apenas um deles, considerando que Walters não sai do time. Gasta-se mal demais em Stoke-on-Trent.
A base do Stoke não revela ninguém, e jogadores comprados por muito dinheiro não têm potencial de revenda (ainda que alguns se adaptem perfeitamente ao estilo de Pulis). O clube, apesar de ter mudado de status do ponto de vista financeiro, permanece no mesmo patamar em campo, sem novidade, com raríssimos sinais de evolução. Pulis foi o melhor treinador que o Stoke poderia ter na última década, porém não faltam argumentos para defender troca no comando, antes que seja tarde.
*Dados divulgados pelo jornalista Michael Cox




