Recentemente, a coluna falou de invasões brandas e inusitadas. Desta vez, nada disso. Na segunda-feira de Páscoa, torcedores entraram em campo para comemorar um dos gols do Chesterfield contra o Bury em confronto pela League Two, a quarta divisão inglesa. Inexplicavelmente, um deles agrediu o goleiro do adversário, Cameron Belford. O baderneiro foi preso e deve ser banido dos estádios.
O Chesterfield perdeu por 3 a 2. O resultado garantiu a promoção do Bury à League One. O time da casa, que desperdiçou a chance de conquistar o título com duas rodadas de antecedência, já havia assegurado o acesso e ainda lidera o campeonato.
Pode uma invasão de campo interromper o jogo e, apesar disso, arrancar elogios? Certamente. O invasor em questão é fanático pelo Northampton, da League Two, a quarta divisão inglesa. Derry Felton, de 18 anos, é tetraplégico desde os dois e precisa de cuidados o tempo todo. Na sexta-feira, após o gol de empate de seu time contra o Rotherham, aos 48 minutos do segundo tempo, ele não conteve a alegria e entrou em campo com a ajuda de sua cadeira de rodas motorizada.
A atitude de Felton, que frequenta o acanhado Sixfields Stadium há seis anos, não deixa de ser uma transgressão por conta da deficiência. Entretanto, o que predomina no episódio é a paixão gratuita pelo time, que ainda luta contra o rebaixamento à Conferência Nacional, nível que abriga vários clubes semi-profissionais. A mãe de Derry, Tracey Felton, disse que o telefone “não parou de tocar” desde a peripécia do garoto, que revelou ter “anunciado” a um amigo a invasão em caso de empate.
Em janeiro, a coluna falou mais de níveis inferiores do futebol inglês. O próprio Northampton é um exemplo de como os pequenos podem se destacar em copas. Em setembro, os sapateiros eliminaram o Liverpool da Carling Cup em Anfield.
O atacante jamaicano Ricky Sappleton já sabe: o futebol pode mobilizar muita gente
A seleção inglesa de rúgbi já foi melhor. Embora lidere o Six Nations de 2011, a Inglaterra não vence o torneio há oito anos. Na última edição da Copa do Mundo, derrota na final para a África do Sul. A saída para acabar com o incômodo jejum pode estar na garimpagem de novos atletas. Onde? A League Two, quarta divisão do futebol, é uma boa pedida. Pelo menos, a classe dos jogadores de Macclesfield e Wycombe na prática do esporte que ainda vai ser grande no Brasil sugere isso.
No sábado, o Macclesfield (de azul) recebeu o Wycombe no acanhado estádio Moss Rose. O resultado foi normal. Os visitantes, na segunda posição, venceram por 1 a 0 os donos da casa, à beira da zona de rebaixamento para a Conferência Nacional, divisão do Crawley Town. O fato do jogo aconteceu no acréscimo ao segundo tempo, quando Ricky Sappleton, do Macc, resolveu apelar. Após duas divididas pesadas, o atacante jamaicano entrou cheio de apetite em uma terceira. O problema é que ele acertou um pontapé no meia adversário Stuart Lewis, que já atuou pela seleção inglesa sub-16.
Foi o suficiente para deflagrar uma briga que envolveu quase todo mundo dos dois times. O árbitro James Adcock, que curiosamente estreava na Football League, tinha de tomar uma decisão. Depois de 12 apitos desesperados, ele escolheu os expulsos: o defensor Dave Winfield, do Wycombe, e os atacantes Emile Sinclair e (é claro) Ricky Sappleton, do Macclesfield. O técnico do Macc, Gary Simpson, admitiu que Adcock poderia expulsar quem bem entendesse. A Football Association vai investigar o caso das prováveis novas estrelas do rúgbi inglês, que você acompanha no vídeo:
Daniel Leite é jornalista pela Universidade Federal de Viçosa e, por hobby e trabalho, boleiro de ponta - de lápis. Fã do futebol inglês desde os 10 anos, quando Shearer, Owen e Hasselbaink eram os principais artilheiros da Premier League. No Twitter, @dsleite