
Há dois anos: Surpresa! Um falso centroavante
Há dois anos, o sonho do tetra europeu do Manchester United esbarrou no Barcelona. A vitória blaugrana por 2 a 0 em Roma foi o ato final da temporada de estreia de Pep Guardiola como técnico dos catalães. O Barça já era muito forte, é claro, mas ainda não tinha o mundo a seus pés e vinha de uma semifinal em que não mereceu eliminar o Chelsea de Guus Hiddink.
Isso parecia tão claro, que houve quem vinculasse qualquer chance catalã à presença de Iniesta, responsável por baby booms na Espanha em 2010 e 2011 e dúvida para aquele jogo. O United, então detentor do título, parecia ter mais saídas e havia vencido o Barcelona de Rijkaard em 2008. Cristiano Ronaldo era o melhor do mundo, e a defesa de Ferguson, a mais confiável.
O Barcelona contou com Iniesta, mas não teve seus dois laterais titulares. Mesmo assim, os Red Devils caíram. Aos 10 minutos, Eto’o interrompeu o esboço de domínio do United marcando um golaço construído pela direita. No segundo tempo, de cabeça, Messi decretou uma vitória completamente merecida.
É, Eto’o e Messi foram invertidos por Guardiola. Se agora Ferguson toma café da manhã pensando em como parar o argentino pelo meio, naquela época ele esperava um embate com Evra, que chegou a persegui-lo fora de seu setor em claro sinal de que o United não sabia o que fazer defensivamente.
O principal erro ofensivo foi não aproveitar o jogo pelas pontas. Ronaldo é forte e sabe atuar dentro da área. Não seria um problema em si atirá-lo entre Yaya Touré (sim, o quase atacante de hoje foi zagueiro na ocasião) e Piqué. A questão é que o português, que saiu cuspindo fogo de sua última partida pelo clube, foi subutilizado. Park tende a centralizar e mal explorou o lado de Sylvinho.
Na temporada seguinte, já com o lateral no Manchester City, a gente viu a festa que Lennon fez contra ele em um Tottenham x City. O ideal seria ter Ronaldo por ali, duelando com o brasileiro. À esquerda, Rooney também não foi um oponente dos mais fortes para Puyol. Outro que ficou bem à vontade foi Busquets, o que mostrou a Ferguson que ele precisa de alguém mais agressivo que Giggs no setor.

Agora: Como o time habitual de Ferguson pode se comportar contra esse Barcelona
Por conveniência, minimizar a maioria desses problemas não passa por tantas alterações ao time que vem jogando desde as quartas-de-final contra o Chelsea. A hipótese de Rooney atuar isolado, para abrir espaço a um marcador, parece improvável. Chicharito pode ser decisivo. Rooney, já bem habituado à posição 10, não deixará Busquets em paz.
Outro ponto crucial é a presença ou não de Giggs. Fletcher não estaria fisicamente bem a ponto de substituir o galês, como tem sido ventilado. O escocês seria importante para ajudar a conter Messi, mas vale lembrar que o United não tem nele ou em Carrick um marcador à Pepe, um ferrenho cumpridor de ordens que mande prender e soltar à frente dos zagueiros.
Caso extraconjugal à parte, Giggs é o melhor jogador do time na Champions. E foi por ali, ao lado de Carrick, que ele quebrou a defesa do Chelsea e também recompôs de modo exemplar. Parar Messi, como se isso fosse possível, não parece, no caso do United, atrelado à presença de um marcador individual implacável.
A aplicada marcação por zona, sem a zona que originou a inusitada cena com Evra correndo atrás de Messi há dois anos, já seria um progresso em relação àquela final. Por falar em marcação, há mais dois pontos fundamentais: Daniel Alves agora joga, e Iniesta, o melhor em campo em 2009, também.
Apesar de ter abandonado a seleção sul-coreana para se dedicar ao clube, Park tem, segundo Evra, o fôlego mais impressionante do elenco. Daniel, portanto, que se cuide. Carrick tem de estar em dia mais feliz para suportar seu matchup, contra Iniesta. E não tem jeito: se a formação escolhida for a que vem sendo utilizada, Giggs precisa incomodar Xavi.
Além da importância de Giggs para manejar e conservar o pouco que os ingleses devem ter de posse de bola, o United conta com outra grande alternativa ofensiva no meio: Valencia, em ótima fase. Ferguson certamente não quer abrir mão de um winger autêntico que explore aquele flanco depois de perder a chance de fazê-lo contra Sylvinho.
Sim, há várias dúvidas: Mascherano ou Abidal?; Fletcher ou Giggs?; Fábio, Rafael ou O’Shea? O caso da lateral direita do United é o famoso cobertor curto, que prioriza o ataque (os brasileiros) ou a defesa (o irlandês). Sem falar na experiência europeia de O’Shea e até de Rafael, Fábio vive o melhor momento, mas isso não garante nada.
O campinho, ainda povoado de dúvidas, e as coincidências históricas estão aí. Manchester City campeão na mesma temporada, Wembley e final contra clube ibérico, exatamente como em 1967-68, no primeiro título dos Red Devils. Apesar do tão comentado déficit físico, o Barcelona parece um pouco à frente. Mas o United também parecia em 2009.
Em seu El Pichichi, Fernando Vives relembra os três títulos europeus do Barça.