Ausência olímpica de espírito
O distrito de Stratford, no nordeste de Londres, foi o local escolhido para abrigar o Estádio Olímpico dos Jogos de 2012. O palco foi projetado para comportar 80 mil pessoas durante o evento e 25 mil de modo permanente. O Comitê de Organização londrino concorda que uma construção desse porte, com o custo previsto de £537 milhões (quase R$1,5 bilhão), precisa ter finalidades futuras. O discurso é de que o estádio será “uma nova casa para o atletismo, associado a outras modalidades e a utilidades educacionais e comunitárias”.
Ainda assim, a presença de um segundo estádio com uso apenas esporádico poderia ser considerada um desperdício para uma cidade que respira futebol. Pelo menos pensam assim as cúpulas de Tottenham e West Ham, clubes lotados nas cercanias do parque olímpico.

O sonho de consumo de West Ham e Tottenham, mas não de muitos dos ignorados torcedores. Foto: Wikipedia
O West Ham, em parceria com o conselho de Newham, apresentou uma proposta interessante. A intenção dos Hammers é investir £100 milhões na ampliação da capacidade permanente, que saltaria para 60 mil pessoas. Jogos da Inglaterra, o atletismo (com a manutenção da pista), o críquete e até a NFL seriam bem-vindos.
A tentativa do Tottenham, que se associou a um grupo de investimento, é mais conservadora. O clube considerava a construção de um novo estádio, mas, de repente, o Olímpico pareceu mais conveniente. Os Spurs querem que o espaço se dedique exclusivamente ao futebol. Em troca, comprometem-se a “deixar um legado” para o atletismo, investindo no Centro Nacional de Esportes, em Crystal Palace.
Em meio ao fogo cruzado das propostas, está o Leyton Orient, da League One (terceira divisão inglesa). A torcida do clube, o mais próximo de Stratford, concentra-se na região do Estádio Olímpico. Nosso breve retrato das rivalidades da capital, que mostra as áreas de dominância das torcidas londrinas, dá uma noção do tamanho do vínculo dos times com suas vizinhanças e, mais importante, de como é difícil subverter isso.
Durante o processo, o posicionamento dos torcedores tem sido negligenciado. Nesta semana, pessoas ligadas aos três clubes envolvidos fizeram um apelo a várias entidades. O presidente da Federação dos Torcedores de Futebol, Malcolm Clark, considera, exagerando um pouco na comparação, que “o futebol parece não ter aprendido nada com a mudança do Wimbledon para Milton Keynes (referindo-se ao antigo Wimbledon FC, Milton Keynes Dons desde 2004)”.
A despeito da suposta necessidade de Tottenham e West Ham de mudança para um estádio maior e das benesses financeiras, vários adeptos desses clubes têm se queixado. Um grupo de torcedores dos Spurs criou o We Are N17 para protestar contra a mudança e, sobretudo, a ausência de debate. Enquanto não são devidamente ouvidos, eles argumentam que a transferência representaria uma irreparável perda de identidade. Com o mesmo propósito, alguns Hammers idealizaram o MYWHFC. Fãs do Leyton Orient também rejeitam as propostas, alegando que a mudança de um clube para Stratford pode ter um efeito devastador para o Orient.
Até o Bayern de Munique, no papel de conselheiro, entrou no debate. O porta-voz dos alemães, Markus Hoerwick, alertou especificamente o West Ham sobre a mudança. Ao periódico The Sun, ele deixou claro que “uma pista de atletismo separa o futebol dos torcedores, que gostam de ficar tão próximos do jogo quanto puderem”.
A experiência própria do Bayern, que passou mais de três décadas no Estádio Olímpico de Munique, de fato indica isso. “A capacidade era de 70 mil, mas nossa média de público era de 35. Na Allianz Arena (inaugurada em 2005), recebemos 69 mil porque podemos atender às necessidades dos torcedores”, explica Hoerwick.
Com ou sem pista de atletismo, a transferência de Tottenham ou West Ham não pode ser sacramentada artificialmente, sem a palavra dos torcedores, ou ao menos uma satisfação a eles. A ausência de debate e transparência é o ingrediente perfeito para uma mudança traumática. Na semana passada, a companhia que cuida do legado dos Jogos de 2012 pediu “mais tempo para pensar” sobre quem deve ficar com o estádio. Se pensarem sozinhos, não há tempo que resolva o problema.
2 comentários | Comentar
Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

2 Roberto Junior 05/02/2011 13:41
Daniel, é o velho conflito tradição X interesse econômico…Abraço!
1 Claudio 04/02/2011 16:46
eu ainda nao entendi mto desse estadio tudo mto confuso…..
mas pow arrendar um estadio seria otimo…é q na inglaterra tem time na terceira divisao com capacidade de colocar no min 25 mil por jogo….esse estadio aqui no brasil faria sucesso.
uns tempos atraz…o Tottenham ja tinha uma maquete de um novo estadio…e o West Ham…mesmo caindo eu nao abriria mao do Upton Park. ainda mais caindo pra segunda divisao.
Leyton Orient ja vai mal na terceirona pegar um estadio desse é morrer da terceiro pra quarta..
kkk nao ha necessidade.
futebolisticamente falando….quero a final inglaterra x brasil.nas olimpiadas.
Claudio 04/02/2011 16:48
O JOGO QUE VAI PARAR A INGLATERRA DOMINGO.
http://inglaterrafutebol.blogspot.com/