“Allons, enfants de la patrie, le jour de gloire est arrivée!”. Assim começa o hino francês, a Marselhesa: “vamos, filhos da pátria, o dia da glória chegou!”. Depois de 210 minutos de nervossísima repescagem contra a Irlanda (90 em Dublin + 120 em Saint-Denis), o placar agregado de 2 a 1 favoreceu quem tinha mais peso, com presença nas últimas três Copas, duas finais e um título mundial no currículo. A França está na Copa do Mundo de 2010. Graças muito mais à mão esquerda de Henry do que aos seus dois pés. Vamos ao desenrolar do drama:
Houve uma mudança no time titular em relação à escalação que se previa ontem: Escudé e não Squillaci foi quem formou a dupla com Gallas. Mas alguma coisa dizia que era para Squillaci jogar: logo aos 8 minutos, Escudé sobe junto com Evra e leva um choque no rosto, que sangra. Ele tem de sair, e o reserva imediato era o colega de Sevilla supracitado.
Como quem precisava da vitória de qualquer jeito eram os irlandeses, o jogo começou muito mais no campo da França, que tentava não se deixar acuar. Várias bolas foram alçadas diante de Lloris, que fez uma bela intervenção aos 23 minutos. Dois minutos depois, Doyle foi atrapalhado no cabeceio por Sagna mas causou perigo, pois a bola passou perto.
Entretanto, a solidez defensiva que se anunciava nos Bleus foi por água abaixo aos 33: Duff faz boa jogada pela esquerda, vai à linha de fundo e acha Keane sozinho na marca do pênalti, que só tem o trabalho de tirar do alcance de Lloris: 1 a 0. Apreensão total no Stade de France, já que o placar, igual ao da partida da ida, leva a decisão para a prorrogação.

A execução da Marselhesa (AFP)
No restante do primeiro tempo, nada de chances reais de gols para nenhum lado e pulga atrás da orelha da torcida francesa. Porém, pela TV deu para perceber que os espectadores em Saint-Denis mantinham a confiança, balançando as flâmulas e lenços azuis. Mas logo no comecinho da segunda etapa, por muito pouco a Irlanda não ampliou, quando O’Shea aproveitou rebatida de escanteio e, sozinho, finalizou por cima, do meio da grande área.
Com muitas dificuldades para se aproximar da área rival, a França via seu adversário jogar melhor e estar mais perto do segundo gol quando Raymond Domenech colocou Govou no lugar de Gignac, aos 11 minutos. Pensei o mesmo que o comentarista Sílvio Lancelotti, da ESPN: por que não Benzema?
Aos 16, dois lances de arrepiar, um para cada lado: Duff recebe sozinho na intermediária, avança e chuta para excelente defesa de Lloris. Os franceses contra-atacaram e Henry teve boa chance na área irlandesa, sendo travado por dois zagueiros na hora H.
Com 24, Gourcuff emendou de fora da área, mas ela desviou na zaga e saiu; dois minutos depois, Anelka perdeu boa oportunidade de cabeça. Por sua vez, a Irlanda quase matou a parada novamente em bola enfiada para Keane, que chegou a driblar Lloris mas deixou a bola escapar pela linha de fundo, para desespero dos colegas.

No tempo regulamentar, o cenário foi esse (AFP)
Sem organização, a França começava a se exasperar e, com isso, ceder perigosos espaços aos visitantes. Sagna estava num dia ruim, deixando brechas na marcação e cruzando errado sempre que chegava ao ataque. Domenech queimou sua última substituição colocando Malouda no lugar de Gourcuff, deixando Benzema na mesma condição de torcedor dos ex-selecionáveis Zidane e Barthez e do presidente Sarkozy. A última chance dos donos da casa seria com Henry, que cruzou na pequena área, Given soltou, mas não havia quem empurrasse para o gol. Não teve jeito: prorrogação!
Quem pensava que o medo de tomar gol paralisaria as duas seleções no “extra-tempo”, enganou-se. Boas oportunidades foram criadas, aumentando a tensão de todos, e sinceramente acho que o lance de Anelka driblando Given e caindo foi pênalti, embora o árbitro sueco discordasse. Govou chegou a balançar as redes, mas estava impedido.
Aos 14 do 1º tempo da prorrogação, viria o lance capital do jogo: Alou Diarra levanta na área da Irlanda, a bola passa por quase todo mundo, Henry “domina” com a mão esquerda (se não o fizesse, ela sairia), toca para o meio da pequena área, e Gallas só escora de cabeça com Given vendido: 1 a 1. Festa imensa francesa, reclamação acintosíssima irlandesa, afinal Martin Hansson validou o gol.
Nos últimos 15 minutos, os anfitriões se retraíram, não tiveram vergonha de dar chutões e ainda perderam um gol praticamente feito com Govou. Não precisou, porque o empate seria o bastante. Fim de partida e glória assegurada até junho de 2010!

Mas na prorrogação, acabou assim (AFP)