Mentiras que os gols contam
Estávamos prontos para constatar aqui, com a falta de critério e o descaso habituais, que parecia que oficialmente a carruagem do Sevilla tinha virado abóbora. Porque, depois da eliminação precoce na Copa da UEFA, o time esteve a um passo de cair também na Copa do Rei (e foi bem aí que começamos a vaticinar o fim de uma era, como se as coisas acontecessem simplesmente assim).
Depois de perder por 3-2 no Mestalla, o time saiu atrás do Valencia logo no começo, empatou aos 36 com Kanouté e perdeu uma dúzia de chances até o finalzinho do jogo. Nesse momento, ali pelos 42 do segundo tempo, escrevia este Capotón, feito um corvo negro, ossudo e agourento: “O Sevilla continua sendo um time bom, claro, mas a magia, a sorte, o momentum, a conspiração astral, parece que acabou. Era o tipo de confronto que, até o ano passado, o Sevilla teria virado, saído com mais moral do que nunca e partido para brigar por títulos de novo. Agora, depois da UEFA, o time está fora de mais um torneio e vai sobrar só a briga para se classificar para um dos dois – a Champions ou a UEFA - na temporada que vem.”
Como se pode constatar sem muita surpresa, eu não entendo nada de nada. Deveria agora dizer que o Sevilla voltou com tudo, que os lindos dias estão de volta ao Sánchez Pizjuán, que o gol do francês Sébastien Squillaci (que é bom zagueiro) aos 44 do segundo tempo trouxe de volta a chispa inesperada e milagrosa que pareceu incendiar o estádio do Sevilla durante dois anos.
Assistindo ao jogo ao vivo e vendo a festa da torcida, dá vontade de falar isso e mais. Sempre dá quando o destino muda nos últimos minutos de um jogo; é o que faz o futebol sensacional e também muitas vezes o que faz o futebol – ou quem dá importância a ele – tão estúpido. O gol da virada no final de um jogo é inconseqüente e mentiroso. Mascara tudo o que existe de razão a respeito da partida e do que vem antes e depois dela. E o que é mais incrível: muitas vezes essa máscara não sai mais do lugar e passa a ser o verdadeiro rosto das coisas.
Mais ou menos como aconteceu uns dias atrás com o Chelsea de Felipão: imediatamente depois daquele gol de virada, que pela lógica seria o suficiente só para conquistar uma vitória quase obrigatória, falar da fraqueza do Stoke City, da irregularidade do time ou da falta de criatividade do meio-campo não fazia sentido nenhum para quem assistiu ao jogo ao vivo. Naquele momento, a verdade era só aquela, inconseqüente e mentirosa, que felizmente o ponta-de-lança Arnaldo Ribeiro relatou recém-saída do forno.
E não é absurdo pensar que, daqui a uns meses, aquela pode ser a única verdade, com o Chelsea campeão da Liga dos Campeões da UEFA e o gol de Lampard no finalzinho como um marco da campanha. Do mesmo modo, depois do gol de Squillaci hoje, aviso: até que o contrário seja provado, não descarto nada vindo do Sevilla esta temporada. Pintou o campeão. Pelo menos hoje.
Notas relacionadas:
Autor: juanpolanco Tags: Arnaldo Ribeiro, epinefrina, fato e versões, Felipão, Friedrich Nietzsche, impulso nervoso, metafísica, objetividade não existe, ontologia, pense duas vezes, Sevilla, subjetividade também não, temperança, Valencia, vasoconstrição, verdade

