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03/11/2009 - 11:15

O que tudo sabe e tudo vê

Poucos cargos são tão interessantes no mundo do futebol como aquele que, há mais de uma década, ocupa Johan Cruyff em Barcelona. Em Barcelona ou na Espanha, ou na Catalunha, ou no Barcelona – ou em lugar nenhum, pra ser realmente preciso.

Quer dizer, Cruyff tem uma coluna no diário El Periódico de Catalunya, mas ninguém em sã e catalã consciência ousaria descrevê-lo como “articulista”, porque não é esse o cerne. Aquilo é só uma desculpa semanal e concreta para reafirmar que o mito segue vivo, um pouco como o Granma em Cuba.

O holandês normalmente não escreve nada de novo, mas usa o fato de assinar um texto para continuar tendo uma razão oficial para que as pessoas deem destaque àquilo que ele tem a dizer sobre qualquer coisa – e aqui o termo é usado com precisão – relacionada ao Barça. Diante de qualquer crise, comemoração ou efervescência política, a primeira pessoa a ser consultada, e aquela cuja opinião é mais reverberada, é sempre Johan Cruyff, apesar de há 13 anos ter deixado o comando do time.

Nesses 13 anos, Cruyff não fez praticamente nada e, ainda assim, continuou sendo uma das figuras mais importantes do clube. Todo mundo dentro do Barça morre de medo daquilo que o holandês possa dizer. Sem ter cargo nenhum, Cruyff esteve por trás, direta ou indiretamente, das chegadas de Louis Van Gaal e Frank Rijkaard e de um bocado de contratações.

Pois então, anuncia-se agora que os tempos de figura etérea acabaram e que Johan Cruyff agora tem um cargo: vai voltar a se sentar num banco de reservas, o da seleção de futebol da Catalunha. Para isso, não vai ter salário: não vai cobrar nem um centavo de euro da Federação Catalã de Futebol, que só se compromete a ajudar a fundação que o holandês mantém. E, por outro lado, a julgar pelo retrospecto de seu antecessor Pere Gratacòs, também não deve ter muito trabalho, já que nos últimos três anos a equipe (que não é uma seleção reconhecida pela FIFA, como a Catalunha não é um país reconhecido pela ONU) realizou um total de seis partidas.

Quer dizer, tudo continua como antes só que ainda melhor para o holandês: é um colunista sem ser realmente só um colunista; um político sem precisar fazer política; um dirigente sem ter que dirigir nada e, agora, um treinador que não treina. Tudo que só reforça aquilo que ele realmente é há anos: uma espécie de pastor ou de oráculo que tudo sabe e, por isso, que já basta, não precisa se dar o trabalho de efetivamente executar mais nada.

Nós, daqui de onde os dias têm 24 horas, te invejamos com respeito, Johan.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , ,
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