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19/11/2009 - 09:30

Quem não perde não ganha

Com um empate em 0 x 0 contra o Paraguai, a Holanda acaba de terminar 2009, ano anterior à Copa do Mundo, invicta: ganhou seis jogos e empatou cinco. E, no entanto, procure por aí algum idealista disposto a apostar tudo o que tem nos holandeses como campeões do mundo. Nem Johan Cruyff.

Acontece que, ao jogar tanta bola num momento que não importa – ou que importa, claro, mas que quando a Copa chegar nós diremos que não -  a Holanda já começou a escrever o argumento que todo mundo tem preparado a priori para comentar a eliminação do time: eles sempre jogam muita bola, mas na hora H (H de Holanda?) acabam perdendo.

A história e os argumentos são parecidos para se falar da Espanha e, no entanto, quase todo mundo (e aqui me incluo) tem os espanhóis lado a lado com o Brasil como favoritos para o titulo na África do Sul no ano que vem. E por quê?  Porque o time da Espanha é melhor que o da Holanda? Sim. Porque eles acabaram com seu complexo de vira-lata ao vencer a Euro 2008? Também.

Mas, além disso, porque os espanhóis deveriam estar contando números de uma série invicta, mas não estão. A Copa das Confederações foi mais ensaio para a Furia do que para a organização da Copa. A seleção espanhola já viveu, com um ano de antecedência, o “jogar como nunca e perder como sempre” que, hoje, estaria fazendo sombra a todos os prognósticos caso a equipe estivesse invicta até hoje. Sem os números, os motivos para a Espanha ser favorita ao título mundial são Casillas, Cesc, Iniesta, Xavi, Villa e Torres. E é aí que o time começa a ser pergioso de verdade.

País, basco
Essa semana de amistosos, que viu a Espanha bater a Argentina por 2 x 1 em casa e a Áustria por 5 x 1 em Viena, serviu para um princípio de reconciliação histórica: o parlamento do Pais Basco aprovou iniciativas para que a província volte a receber jogos da seleção – coisa que não acontece há 42 anos.

Tolerância zero
Bom saber que nosso STJD não tem dormido em trabalho, porque a concorrência na briga para tomar a decisão mais duvidosa do ano vem de todos os lados. Em Madri, o Atlético foi, sim, multado pelo fato de o técnico do Real, Manuel Pellegrini, ter tomado uma pedrada no rosto durante o clássico disputado no Vicente Calderón. Vai ter de abrir o cofre (ou a moedeira?) e pagar… 150 euros!

Coluna publicada por Medida Provisória no Jornal Placar de 19 de novembro

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,
13/11/2009 - 09:44

Time A+ ou time A

Já disse aqui outra vez que a Copa do Rei só pode ter algum interesse para os times grandes com um sucesso no fim da temporada – quando pode salvar o ano (como o do Valencia em 2008) ou fazer a coroa virar tríplice (como a do Barcelona em 2009). Ou, também, com um fracasso tremendo no começo dela: quando, apesar de ninguém ligar para a competição, fica impossível para a natureza humana ignorar que um elenco milionário foi derrubado por um punhado de semi-amadores – como aconteceu esta semana com o Real Madrid pelo segundo ano consecutivo.

Numa situação dessas, então, não teria sido melhor Manuel Pellegrini simplesmente esquecer suas estrelas e colocar para atuar na Copa um Real Madrid assumidamente reserva e humilde? Para pelo menos deixar claro, em caso de desastre, que foi tudo só porque o clube não está nem aí? Acho que sim e acho que o chileno também pensa assim.

Acontece que o jeito atacadista e megalomaníaco como este Real Madrid foi montado simplesmente já não permite mais isso. É impossível formar uma equipe titular sem, no mínimo, nove jogadores consagrados. Ou nove jogadores cujos salários estão na classe A+ do futebol.

Veja o elenco do Madrid e me diga alguém que não cause impacto ao estar envolvido num grande fracasso. Drenthe, talvez? Granero? Dudek, se você quiser? Ou só o terceiro goleiro Adán? O Barcelona, enquanto isso, se por um lado obviamente também tem um elenco badalado e milionário, ao menos é capaz de escalar como titulares, nas mesmas semanas em que o rival perdeu para o Alcorcón, gente como Pedro, Jeffren, Gai Assulin e Jonathan dos Santos. Aí a diferença.

Ah, sim, a outra diferença é que o Barcelona ganhou sua eliminatória por um total de 7 x 0. Mas essa é outra história.


Boi de piranha
Pellegrini, como terceira opção que foi, chegou ao clube sabendo: ou tudo dava certo e de cara a equipe ganhava e jogava bem, ou não haveria muito pudor em demiti-lo durante esse período de adaptação. Porque quem quer que chegue – e já há até favoritos: Michael Laudrup e Luis Aragonés – vai no mínimo herdar uma equipe mais madura e acostumada a jogar junta.

Custo x benefício
No verão de 2005, o Sevilla gastou 10,5 milhões de euros para contratar uma dupla de ataque nova: Luís Fabiano, vindo do Porto, e Frédéric Kanouté, do Tottenham. Desde então, os dois marcaram 179 gols. Para igualar essa rentabilidade, a dupla Kaká e Cristiano Ronaldo (que, fazer o quê?, virou base de comparação para tudo) precisará anotar… 2685 vezes. Não que essa seja a conta certa a se fazer, mas é no mínimo curiosa.

Coluna publicada a contragosto no Jornal Placar de 13 de novembro de 2009

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , ,
30/10/2009 - 10:03

Tempo e dinheiro

A cada nova temporada, após cada mercado de transferências, sempre chega um momento em que o Real Madrid trata de comprovar que existe uma coisa – normalmente imprescindível – que o dinheiro não compra para um time de futebol: tempo. O tempo, no caso, necessário para se formar efetivamente um time, não importa quanto talento esteja disponível.

É, essencialmente, o problema que enfrentam os técnicos das grandes seleções, que quase sempre precisam sobreviver a uma inevitável fase de jogo duvidoso antes de dar cara a uma equipe. Foi essa a maior virtude de Dunga ao longo desses vários períodos de alguns dias em que teve a Seleção na mão. O resultado disso discuta-se quanto quiser, mas o fato é que ele formou de fato um time – o que não é nada fácil.

O Real Madrid de Manuel Pellegrini ainda não é um time (como ainda não eram a essa mesma altura o de Fabio Capello ou o de Bernd Schuster) e, como não-time, está sujeito a um dia nulo como o da goleada sofrida para o Alcorcón – ainda mais nessa série mais perigosa do que parece de brigas contra bêbados que é a Copa do Rei.

Encontrões como este não têm nada de inéditos e não dizem muito contra Pellegrini. As questões agora são apenas de saber: a) se apesar disso ele sobrevive e b) se em mais algumas semanas consegue chamar o Madrid de seu time – coisa que, nos últimos anos, só quem realmente conseguiu fazer foi Fabio Capello.

Fogo amigo
O pior sinal para Manuel Pellegrini foi o tipo de pressão que recebeu no dia seguinte à derrota para um clube da terceira divisão: o Marca, diário de bordo do presidente Florentino Pérez, já estampou na capa um “fora!”, devidamente acompanhado de editorial explicando que Florentino fez sua parte ao trazer os jogadores e agora falta o técnico fazer a sua.

A fila anda
O assunto, portanto, já surgiu entre a imprensa madridista: quem deveria ser o novo técnico num caso hipotético e distante de que Pellegrini seja demitido? Correm os nomes de Rafa Benitez, Marco Van Basten e Michael Laudrup e também o boato de que o que Florentino gostaria mesmo era que o diretor Jorge Valdano assumisse o banco.

Coluna intrepidamente publicada no Jornal Placar de 30 de outubro.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , ,
02/10/2009 - 10:34

Modelo de negócio

A história é antiga: às vezes é melhor ter a humildade, ou a inteligência, de montar uma boa equipe formada quase só por bons – e não mais do que bons – jogadores em vez de tentar fazer com que um ou dois craques se juntem a qualquer pangaré que estiver por perto e, desse jeito, acabem conseguindo formar uma equipe.

O problema do Atlético de Madri foi que pensou estar contratando um punhado de grandes jogadores quando na verdade contratava só dois: Forlán e Agüero. Então, o que supostamente era um timaço por causa de gente como Simão ou Reyes na verdade se mostrou uma mescla irregular de coadjuvantes tendo que se fingir de protagonistas.

Quando Forlán e Agüero jogam o bastante para compensar a falta de talento no resto do campo, os resultados podem ser bastante razoáveis – como foram na temporada passada. Quando isso não acontecer (e às vezes simplesmente não acontece), a história é esta que estamos vendo agora sem muita surpresa.

É justamente o contrário do que acontece com o Sevilla. Um semi-leigo que olha as escalações dos dois times pode tender a achar o Atlético mais chamativo, mas o fato é que os sevillistas conseguiram montar duas gerações de times muito competitivos sem contratar nenhuma estrela. Luís Fabiano, Daniel Alves, Frédéric Kanouté… toda essa gente se tornou estrela justamente por jogar bem no Sevilla. É o modelo que todos os 18 times espanhóis extra-Barça e Madrid deveriam aprender a seguir.

Tem pra todos
Ganhar todo jogo que encontrasse pela frente até que era relativamente previsível, mas o que deve estar surpreendendo o próprio Real Madrid é que os dois, Kaká e Cristiano Ronaldo, já tenham encontrado um jeito de brilhar. Só com isso, metade das dúvidas estão resolvidas.

O que vem de baixo me atinge
A diferença com o Barcelona é que, além de ter seus craques sempre brilhando, o time há anos não passa uma temporada sem revelar pelo menos um novo jogador que se torna importante para o time principal. Para 2009/10 já há pelo menos um: Pedro.

Coluna saaricamente publicada no Jornal Placar, ou assim acho eu, em 2 de outubro de 2009

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,
25/09/2009 - 09:00

Hoje já era

A derrocada quase-histórica da seleção argentina comandada por Diego Armando Maradona parece que pode acabar servindo para oficializar um fenômeno que tem tudo a ver com o futebol – para não ser chato e dizer o mundo – de hoje em dia.

É que, como aconteceu (injustamente, que fique claro) com Cristiano Ronaldo em 2008, é capaz de que, quando chegue a hora de premiar Lionel Messi como melhor jogador do mundo e Bola de Ouro, já haja gente duvidando que ele realmente seja o maior jogador de futebol do planeta na atualidade.

Porque assim como no final do ano passado Cristiano Ronaldo já havia vivido seu ponto mais meteórico, também Messi, depois de liderar o time do Barcelona que venceu tudo em 2008/09, tem convivido com a fama (injusta, que também fique claro) de sujeito que não resolve quando veste a camisa albiceleste.

E de repente nos deparamos com o argentino respondendo perguntas não sobre sua expectativa de receber o prêmio certo, mas sobre a possibilidade – como se ela de repente tivesse passado a existir – de justamente ficar sem o título de melhor do mundo de 2009.

Parte disso é resultado de a temporada européia terminar seis meses antes do período de entrega de estatuetas, mas também há muito de ansiedade coletiva e de uma memória cada vez mais curta. Acompanhar futebol ainda vai se tornar um exercício extremo de carpe diem ou de niilismo: tudo o que passar, passa, sem deixar rastros sentimentais. Quem quiser relembrar como fulano é realmente bom que se vire procurando vídeos no YouTube.

Dois contra a rapa
Bem quando alguém ameaçava começar uma frase dizendo que “talvez Real e Barça não disparem tanto assim”, os dois já fazem questão de sequer fingir. Nem um Getafezinho para passar uma rodada na liderança. Nem um Sevilla fingindo que vai disputar de igual para igual.

Um contra a rapa
David Villa volta frustrado de um verão em que queria ser transferido, reclama de como o Valencia se postou mal e permitiu o empate de 2 x 2 em casa contra o Sporting Gijón e, dois dias depois, marca o único gol numa derrota de 3 x 1 para o Getafe. Alguém consegue imaginar quanta frustração cabe naquela camisa 7?

Coluna publicada no Jornal Placar de 25 de setembro, muito embora o colunista se encontra – ante a falta de termo melhor para definir – de férias

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,
11/09/2009 - 12:25

Agora com banco

Quando a Copa do Mundo começa, ninguém nem se lembra de como foi a campanha de um país ou de outro nas eliminatórias. Mesmo assim, por inércia ou falta de assunto, temos a tendência de, no ano anterior ao Mundial, supor que os favoritos são aqueles que se classificaram antes. “Pô, desta vez a Holanda vem forte aí, hein?” Como se a gente não soubesse que um ano é tempo mais do que suficiente para acontecerem coisas fenomenais, como a Terra transladar em torno do sol ou a Holanda voltar a ser apenas a semifinalista e cordial Holanda.

Não é, portanto, porque a Espanha se classificou para a Copa com sobras que deve ser considerada desde já favorita. Nem porque supostamente acabou com seu complexo de vira-lata na Euro 2008. Nem porque tem craques como Xavi, Iniesta, David Villa e Fernando Torres. Craques muita gente tem. A Argentina, por exemplo, tem – e, como se vê, não é o suficiente.

A Espanha é uma das inevitáveis favoritas a ser campeã do mundo porque, primeiro, tem de sobra aquilo que mais falta justamente aos argentinos: identidade. Há anos a seleção – tanto a principal quanto a sub-17 e a sub-20 – joga da mesma forma, a despeito das mudanças de técnico e jogadores. Isso já foi louvado o bastante na conquista do titulo europeu no ano passado.

O que esta Espanha que vai à Copa da África do Sul tem a mais do que aquela de 2008 são coadjuvantes: com Vicente Del Bosque, o time parece poder depender de seus craques tanto (ou quase tanto) quanto de Sergi Busquets, Santi Cazorla ou Rubén Mata. Para nossa empáfia de quem tem Kaká com a camisa 10 e Diego (tomara!) com a 18 pode não soar nada especial, mas é o que faz da Furia, devidamente escaldada pelo fracasso na Copa das Confederações, uma candidata de verdade para ganhar a Copa de 2010.

Furiazinha
Com gente como Bojan Krkic (Barcelona), Mérida (Arsenal), Parejo (Getafe) e Asenjo (Atlético de Madri), é bom saber: também para a Copa do Mundo sub-20, que começa este mês no Egito, a Espanha é uma das favoritas.

Vitaminado
Como Los Angeles Galaxy e Inter de Milão, agora é o Valencia quem vai levar estampada na camisa a marca da Herbalife, empresa americana especializada em suplementos nutricionais. Puro palpite, mas a empresa tem cara de ser uma dessas que logo mais chega ao futebol brasileiro.

Coluna sequestrada e pilotada até se chocar contra o Jornal Placar em 11 de setembro de 2009.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , ,
04/09/2009 - 08:47

Janela FC

Ao contrário do que costuma acontecer normalmente, nesta temporada os clubes espanhóis foram muito mais bruscos abrindo a janela de transferências do que a fechando. Especificando sempre que hoje, quando o assunto envolve gastar dinheiro e nós dizemos “clubes espanhóis”, na verdade queremos dizer “Real Madrid e Barcelona”.

O bom senso já ensinou que os jornais da Espanha usam a palavra “possível” em todo o seu sentido ontológico quando se referem a uma contratação. Tudo pode acontecer, sempre e a qualquer momento, segundo a lei das probabilidades. E então passamos dias pensando em “Ribéry quase certo”, em “Mascherano a um passo de fechar”, “David Silva apalavrado” e tudo mais que a criatividade e o tino comercial puderem inventar.

Até que chega o dia de a janela fechar e muita gente, no fundo, fica mais chateada pelo fim das especulações do que contente por ter chegado a hora de a bola efetivamente rolar. É aquele público que passa horas no computador com os joguinhos de gerenciamento de time de futebol, mas não faz questão de assistir a uma partida inteira.

E agora que a imprensa espanhola constatou que a ilusão pode vender mais do que a realidade, a nova moda é falar das contratações “praticamente certas” para 2010/11. Aquilo que é futuro e incerto vai passar a temporada toda rivalizando com o que é fato presente. Até o dia em que tudo se limitar a uma grande banca de corretagem, e os torneios de pôquer definitivamente tomarem conta da televisão (em pay-per-view).

Pós-janela
Mesmo com a janela espanhola fechada, continua ventando: na terça-feira, o holandês John Heitinga acertou com o Everton, da Inglaterra – onde o limite de transferências dura 24 horas a mais. A torcida do Atlético de Madri, que já achava o elenco mais ou menos e andava preocupada com a derrota por 3 x 0 para o Málaga na estreia, terminou de se indignar.

(Não, não me canso. E sim, poderia passar a vida fazendo trocadilhos com o termo “janela”.)

Coluna destiladamente publicada no Jornal Placar de 4 de setembro de 2009.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , ,
28/08/2009 - 11:52

El Estado soy yo

Seja pela transcendência na vida de tanta gente, pelo volume de dinheiro que movimenta ou por sua importância política, um clube como o Real Madrid se assemelha muito ao poder estatal. E isso, para quem tem alguma dúvida, se trata de um insulto.

Porque a primeira coisa que faz um clube assim se parecer com órgãos de poder público é sua tendência inequívoca a repetir os vícios que existem nesses desde Amenófis IV. Um exemplo claro: a noção perversa de que tudo – o patrimônio, os processos, a informação – pertence ao grupo que está no poder naquele momento e não ao clube, ou ao Estado, como instituição que vai atravessar o tempo daquele mandato.

Não acho que seja preciso ir muito longe numa análise do elenco do Real Madrid para constatar que Wesley Sneijder e principalmente Arjen Robben poderiam ser úteis para Manuel Pellegrini. De qualquer forma, não é só minha opinião. Sneijder foi claro ao comentar sua saída para a Inter de Milão: “Acontece algo muito estranho. O técnico conta comigo, mas tem gente dentro do clube que não.”

Constatamos então que Sneijder, como Robben, não é jogador do Real Madrid, mas do ex-presidente Ramón Calderón. Não interessa se eles podem ajudar o Real de hoje, de Florentino Pérez. Interessa mostrar – a quem quer que seja preciso mostrar – que o ciclo agora é outro. Deixar claro que quem manda nisso aqui sou eu.

Abaixo as vogais
Para quem se orgulhava de sua política austera e responsável de contratações será que não é demais pagar 25 milhões de euros pelo ucraniano Chygrynskiy? Ou eu é que nunca reparei o suficiente no zagueiro do Shakhtar Donetsk?

G2
Cada vez os discursos de times como Atlético de Madri e Sevilla são mais explícitos: todo mundo entra para disputar o 3º lugar, atrás de Barcelona e Real Madrid. Não será cedo demais? Não será melhor esperar para ver quanto o Real funciona mesmo? Ou será estratégia de motivação?

Coluna procliticamente publicada no Jornal Placar de 28 de agosto de 2009.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , , , ,
21/08/2009 - 10:16

O preço do preço

Entre outros efeitos colaterais igualmente benéficos, como afastar a recessão global, enriquecer empresários e hidratar a pele, as transferências milionárias de jogadores de futebol têm uma notável capacidade de fazer com que tudo – a começar pelo produto negociado – pareça melhor do que realmente é.

Os últimos 15 anos corromperam o conceito de “bom negócio”, por exemplo. Ler sobre a compra de jogadores de futebol tem sido mais ou menos como ler a parte de bebidas dos cardápios: aos poucos, foram subindo tanto o patamar considerado aceitável que hoje ninguém se sente ultrajado por um suco de laranja custar 5 reais, ou um centroavante ainda duvidoso custar 35 milhões de euros.

Porque o grande segredo psicossocial da coisa é que se paga pela ilusão de se estar adquirindo algo especial. O preço, que deveria ser conseqüência, vira causa: você paga 35 milhões não por um centroavante jovem, educado e ainda por cima francês, mas sobretudo para ter um-jogador-de-35-milhões. E então todos querem vê-lo jogar e magnificar cada gol que ele fizer, porque, caramba!, não foi um gol de um cara qualquer, mas de um cara de 35 milhões.

De repente, então, para todos os efeitos (ou pelo menos para a maioria deles), fica parecendo, por exemplo, que Karim Benzema vale mais do que Diego Forlán. Que o suco de laranja cheio de gelo do cardápio vale mais do que aquela sua garrafona redentora de Bohemia.

Ligue djá!
Vejamos o Sevilla, que já tem Luís Fabiano e Kanouté e deve fechar a compra de Álvaro Negredo, do Real Madrid. É um bom centroavante, ou pelo menos foi um bom centroavante para o Almería. Mais uma ótima opção por apenas 15 milhões de euros! Quer dizer: menos da metade do que custou Benzema e, por isso, uma pechincha. Um suco de laranja por apenas R$ 3,50.

Incubadora
Uma das resoluções de temporada nova do Valencia parece ser a de que suas promessas brasileiras precisam de tempo e espaço para desabrochar (ou só brochar?): o goleiro Renan, que já foi titular, acabou emprestado para o Xerez, que acaba de chegar à primeira divisão. Tiago Carleto, ex-Santos, deve ir para o Elche, da segunda divisão.

Coluna perniciosamente publicada no Jornal Placar de 21 de agosto de 2009

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , ,
24/07/2009 - 12:54

A última que morre

Não me pergunte o porquê, mas quarta-feira assisti, inteirinho, ao jogo Milan x América do México. Ou, pensando bem, pergunte sim o porquê e eu digo: para ver Ronaldinho. Porque não importa quanto quilos ele ganhe ou quantos meses passe sem fazer uma grande partida – ou, pior, fazendo aquelas até boas, mas dignas de Valderrama -, Ronaldinho é um dos poucos jogadores no mundo que fazem alguém assistir a um jogo por causa da probabilidade que carrega de fazer algo fora de série acontecer.

Em Barcelona, no auge da sua Era, que coincidiu com o surgimento de Leo Messi, as cenas mais inesquecíveis que já presenciei no Camp Nou aconteciam no aquecimento. Messi ficava ao lado da bandeirinha de escanteio e Ronaldinho na linha do meio-campo – separados por 50 e tantos metros. O brasileiro fazia meia-dúzia de embaixadinhas e lançava a bola acupunturalmente no osso esterno do argentino, que sem deixar cair a controlava e a devolvia para o domínio de Ronaldinho: de peito, ombro, calcanhar ou o que mais fosse. Não foram poucas as vezes que esse foi o momento mais emocionante da noite para todos, fossem catalães mal-humorados ou japonesinhos ensandecidos.

O jogo em Atlanta não valia patavina e o Milan ainda perdeu, mas tive a impressão (talvez esperança) de voltar a ver Ronaldinho e, sobretudo, vi o encanto que ele continua exercendo. Por feeling (talvez também esperança), aposto: querem ver como ele arrebenta esta temporada e ainda vai estar na Copa?

R18?
Supondo que sim, que Ronaldinho volte à Seleção, caberia outra dúvida: onde? Com os resultados que a formação de dois volantes e um meia-quase-volante (Elano ou Ramires) tem dado, hoje só consigo imaginar uma possibilidade: como reserva de Kaká.
K9
Para quem saiu cercado de dúvidas sobre sua capacidade de render em momentos decisivos, Keirrison não poderia querer coisa melhor do que um contrato de cinco anos no melhor time do mundo e cessão para o Benfica, um time tradicional, que joga a Liga da Europa, onde não terá problemas de idioma, receberá bolas de Pablo Aimar e terá como maiores rivais Nuno Gomes e Saviola.

Coluna diligentemente publicada no Jornal Placar de 24 de julho de 2009.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , ,
16/07/2009 - 15:38

Free Villa?

Quem viu o mau humor de David Villa – que já não é exatamente sorridente por natureza – durante a Copa das Confederações imagina a chatice que tem sido para ele conviver com os boatos e a indecisão sobre seu futuro. Mas imagina também que não é apenas isso, indecisão, que irrita tanto o melhor centroavante (e, veja bem antes de xingar, eu falei “centroavante”) do mundo.

O verdadeiro problema hoje já é público e notório: Villa está louco para sair, seja para o Real Madrid (que a esta altura já desistiu), para a Premier League ou para o Barcelona, o candidato que parece estar mais vivo neste momento. E, enquanto isso, o novo presidente do Valencia, Manuel Llorente, insiste em dizer que o Guaje é parte dos planos de recuperação do clube e, por isso, inegociável. O que na verdade é uma maneira de dizer que ele é negociável sim, como todos nossos pudores e almas, mas por mais dinheiro do que se tem oferecido. Diz-se que Llorente quer chegar em algum valor entre 50 e 55 milhões de euros.

O interessante aqui é que a imprensa espanhola – e por “espanhola” entenda-se madrilena e catalã – adotou sem pestanejar a postura de que Villa é vitíma do sistema e que sua carreira está ameaçada pela postura intempestiva do dirigente. O que, do alto do nossos anos de militância comunista, soa lindíssimo. Mas, só para ter certeza: o contrato até 2014, se não me engano, foi assinado pelos dois lados, sem arma na cabeça envolvida, certo?

Trabalhismo de ocasião
A imprensa de Madri já desistiu do caso trabalhista Villa e agora prefere especular sobre “o novo caso Villa”: a vítima da circunstância agora seria o francês Franck Ribéry, cuja liberdade de exercer a profissão onde bem entenda (como se alguém no mundo, profissionalmente, fizesse o que bem entendesse) estaria sendo tolhida pelo Bayern de Munique.

Mal na foto
Enquanto isso, o brasileiro Filipe Luis, que jogou uma temporada bastante correta pelo Deportivo La Coruña, se recusa a posar para a foto oficial do clube, esperançoso que está com a sua (ainda) possível ida para o Barcelona. Agora, enquanto ainda existe contrato entre as duas partes, será que isso não é insurgência, chantagem, antiprofissionalismo?

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , ,
08/07/2009 - 14:18

Coeficiente de rejeição

O maior perigo de contratar Cristiano Ronaldo e Kaká de uma vez só, ao contrário do que parece assim, à primeira palpitada, não é simplesmente ir à falência. Se algumas dezenas de milhares de pessoas se dignaram a sair de casa e tomar o metrô lotado para assistir aos jogadores falando meia-dúzia de palavras falsas e previsíveis, quantas não vão querer comprar camisas e movimentar aquilo que o Marca porta-vozmente já chama de “o maior projeto esportivo da história”?

 

O perigo, então, é que Cristiano Ronaldo e Kaká não se encaixem dentro de campo? Os dois acostumados a liderar seus clubes anteriores, vai pintar ciúme quando for hora de disputar protagonismo? Também não. Cristiano é chato e birrento, mas ainda inteligente o suficiente para saber que só com Salgado, Gago e Raúl não vai a lugar algum. E Kaká sabe jogar e conviver com quem for preciso.

 

O grande perigo do “maior projeto esportivo da história” não é também o simples excesso de expectativas. Torcedor se frustrar com time promissor não é nada. O problema é quanto todo o mundo do futebol já deve estar de saco cheio de ouvir falar esses nomes antes mesmo de que eles entrem em campo. Ao primeiro sinal não de fracasso, mas de falta do brilho anunciado, essa birra toda virá à tona. O maior perigo do novo Real Galáctico é de virar um clube detestado por todo torcedor que acompanha futebol de verdade – excluindo aí a tietagem asiática e seus afins. Não que Florentino Pérez esteja preocupado…

 

Quem corre é a bola

Agora com o japonês Shunsuke Nakamura ao lado de De La Peña, o Espanyol só precisa convencer Valderrama a voltar a jogar para ter um meio-campo inteirinho formado por gente que corre menos de 2 km por jogo (e isso não é necessariamente uma ofensa).

 

Crise de identidade

E agora quem é a Espanha? A equipe que joga o melhor futebol do mundo ou a que, com exceção de um torneiozinho no verão passado, sempre faz o de sempre: joga bonito, mas não ganha nada? Sorte dos espanhóis que essa dúvida chega agora, um ano antes da Copa. Eles estavam começando a ter certeza demais de que a primeira opção era a certa.

Coluna publicada no Jornal Placar de 8 de julho de 2009.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
01/07/2009 - 17:05

Kakamania prévia

Com a Espanha eliminada pelos Estados Unidos e, portanto, incapacitada momentaneamente de ser alçada ao Sumo Olimpo pelos jornais de Madri, a Copa das Confederações se tornou o objetivo de outra obsessão da mídia madrilena e madridista nos últimos tempos: incensar as novas contratações do clube.

Desde o começo do torneio na África do Sul, o diário esportivo Marca designou um repórter para acompanhar a Seleção Brasileira – o que até seria normal, considerando que o Brasil é o Brasil. A diferença é que o rapaz viajou 10 horas de avião para ver e ouvir unicamente uma voz: a de Kaká. Cabia ao sofrido rapaz inventar alguma coisa, qualquer coisa, para escrever sobre Kaká diariamente, mesmo nos dias em que a Seleção andava de folga ou o jogador não comparecia à imprensa para entrevistas.

O desenlace, portanto, não podia ser melhor para o público merengue: Brasil campeão e Kaká eleito melhor jogador do torneio, com uma performance digna de dono do time na virada da final contra os Estados Unidos. Com isso, na loja oficial do Real, as camisas vendidas com o nome do brasileiro, apesar de ainda sem numero, foram duas mil em apenas uma semana. E ele, cada vez mais esperto e bem treinado, já tratou de antecipar o tema em sua entrevista coletiva após a conquista brasileira: “Comecei bem. Já é meu primeiro titulo como jogador do Real Madrid.”

Villa Sésamo

Tanto ou mais que Kaká quando estava concentrado para as Eliminatórias, David Villa também sofreu com os cochichos sobre seu futuro durante a Copa das Confederações. Não havia um dia sem uma cascata de perguntas sobre Real, Barça, Valencia e quem mais dissesse estar na fila do caixa.

Causa própria

Muita gente garante que o fato de David Villa andar tão fominha nos últimos jogos da Espanha na África do Sul seria fruto de sua tentativa de mostrar que Jorge Valdano estava errado ao dizer que não se pode pagar pelo espanhol o preço de uma autêntica estrela como Kaká ou Cristiano Ronaldo.

Coluna milagrosamente publicada no Jornal Placar de 1ª de julho de 2009

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,
24/06/2009 - 09:20

Quem é mais Brasil?

As últimas vitórias nas Eliminatórias e os 3 a 0 sobre a Itália parecem ter trazido de volta restabelecido o consenso de que Brasil é quem deve ser citado ao lado da Espanha na hora de falar sobre as duas melhores seleções do mundo. Se os dois fizerem a final da Copa das Confederações no domingo, como é provável (embora eu não descarte os EUA…), certamente vai ser essa a storyline que o mundo vai contar desde agora até a Copa de 2010.

Muito se fala sobre quanto o estilo de jogo desta Espanha tem de brasileiro – o que é verdade até um certo ponto; até que se defina de qual futebol brasileiro se está falando. Se é o da seleção brasileira de hoje, nada mais falso. Pelo contrário: o Brasil e a Espanha representam o melhor de dois caminhos distintos para superar com qualidade a virtual extinção do meia armador, camisa 10, ditador de ritmo.

Na Furia não há meias armadores, mas também não há volantes, como também não há pontas-de-lança. Há quatro meio-campistas – sejam eles quais forem – que sabem marcar e, sobretudo, passar a bola. Entre eles e os dois atacantes, sem precisar muito dos laterais, a equipe se resolve. Na Seleção, como não há armadores, compensa-se com volantes que são quase só volantes (Gilberto Silva e Felipe Melo) e com meias, pontas-de-lança e laterais que carregam a bola consigo (o lateral-direito, qualquer que seja; Ramires, Kaká) para compensar a falta de quem faça a bola andar.

Qual é o melhor? Qual é o mais autenticamente brasileiro? Para a história, qualquer que saia campeão na África do Sul no ano que vem.
Jogo aberto
Vicente Del Bosque admite que, se existe alguma coisa que a equipe invicta desde 2006 pode melhorar, é saber jogar pelas laterais, principalmente quando se depara com uma retranca – coisa que vai acontecer cada vez com mais frequência.
Ordem de grandeza
Achei que ainda fosse demorar mais alguns anos antes de ouvir qualquer notícia relacionada a valores em contrato de jogador de futebol que envolvesse nove dígitos. Deve ser isso – 1 bilhão de euros – a multa rescisória anti-petrodólar no contrato de Cristiano Ronaldo com o Real Madrid.

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17/06/2009 - 09:47

Espanha 2009 x Brasil 1970

Vista de dentro, uma entrevista coletiva com um técnico de futebol parece algo caudaloso e cheio de conteúdo, mas na realidade se trata de algo que poderia ser perfeitamente resumido em um papo de três minutos, no boteco, com cerveja na mesa e televisão ligada. Aliás, acabo de perceber que a mesmíssima frase pode ser aplicada não apenas às entrevistas, mas ao jornalismo em geral (ou à informação em geral, ou à vida, etc.)

Ontem, em Bloemfontein, na África do Sul, foi dia das entrevistas dos técnicos de Espanha e Iraque, que jogam hoje. Num certo momento, Bora Milutinovic – que, de perto percebi, tem a mesma aura do Bob Dylan – comparou de forma corajosa/blasfema/retumbante a atual seleção espanhola com o Brasil da Copa de 1970. Houve rebuliço de admiração, quase de aprovação.

Três horas depois, quem se sentava com os holofotes esquentando sua clareira era o espanhol Vicente Del Bosque. Durante 45 minutos, elogiou-se muito a Espanha, como tem sido habitual, perguntou-se tudo o que a vida moderna obriga a perguntar e finalmente um repórter espanhol levantou a questão, para estupefação do mundo árabe, sentado, por coincidência (acho), no Oriente Médio do auditório: “Primeiro, ‘time talentoso’; depois, ‘favorito’ e agora ‘Brasil de 70’. Quanto falta para que o termo ‘Galáctico’ comece a ser associado à Espanha?”

Como bem disse um bigodudo que, se não me engano, não era o Vicente Del Bosque: “Não existem fatos; existem versões.”

Fish n’ chips
Del Bosque procura manter seu discurso na intermediária, como qualquer jogador ou treinador, quando o assunto é seu time. Mas não foge de nenhum tema um pouco mais genérico. Foi graças a ele que, pela primeira vez, alguém relativamente oficial admitiu que a ida de jogadores para a Inglaterra ajudou um bocado a Espanha a ser mais vencedora.

Paella
Deixa ver se eu entendi bem o Jorge Valdano, com todo respeito à inegável qualidade do seu gel para cabelos: numa quarta-feira você oferece 94 milhões de euros por Cristiano Ronaldo e, na terça seguinte, faz troça da suposta oferta do Barcelona de 50 milhões de euros por David Villa?? Alguém – eu, Valdano, Villa, a conta – deve estar equivocado por aí.

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10/06/2009 - 11:07

Quartas-de-favoritismo

Suponhamos que a Espanha supere Iraque, Nova Zelândia e África do Sul (dãh) e termine em primeiro lugar de seu grupo na Copa das Confederações. Em seguida, o time passa por Itália na semifinal e Brasil na final, ou vice-versa, e conquista o título. A Fúria, então, chegaria à Copa de 2010 como campeã europeia, campeã da Copa das Confederações e possivelmente ainda defendendo a maior série invicta de jogos oficiais na história. Chegaria, inevitavelmente, como favorita: tão ou mais favorita do que o Brasil chegou à Copa de 2006.

“Ah, favorita nada! A Espanha sempre chega na Copa e para no meio do caminho”, argumentarão nossos amigos mais deterministas. Pois está justamente aí o porquê de a Espanha-2010 ter mais chances de se dar bem do que o Brasil-2006. Os espanhóis têm retrospecto positivo o bastante para chegar ao Mundial cheios de moral, mas também tem um passado duvidoso o bastante para que qualquer passagem de fase seja comemorada. Se a equipe retomar a sina de cair nas quartas-de-final, haverá lamentação e algo de derrotismo, mas no fim das contas o país se lembrará com carinho do timaço que encantou o mundo, ganhou quase tudo, mas não conseguiu o titulo mundial.

Com o Brasil, não: graças aos nossos fantasmas de videotape sépia e àquele maldito punhado de estrelinhas em cima do escudo, chegar à final e perder – como na França em 1998 – é fracasso. Até ganhar sem brilho, como em 1994, é quase um fracasso. Se a Furia chegar a 2010 com a reputação que tem hoje, vai ser, sim, a favoritíssima. Mas na medida certa.

Globetrotters
Não é exclusividade do Brasil privilegiar o cofre em detrimento da melhor preparação possível: ou alguém acha que a seleção espanhol viajar 4500km até Baku para jogar com o Azerbaijão dias antes de ir à África do Sul não tem nada a ver com os 750 mil euros de cachê?

Star system
Milhões de euros à parte, é uma boa para Kaká jogar no Real Madrid? A resposta é óbvia: depende. Depende de quanto talento houver a seu lado – nem de menos, como o elenco desta temporada, nem demais, a ponto de voltar a transformar o vestiário em camarim.

Coluna publicada no Jornal Placar de 10 de junho.

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03/06/2009 - 11:34

O melhor do resto

Num arroubo de consciência, pensei eu: quanta cara-de-pau seria necessária para publicar hoje uma seleção do Campeonato Espanhol. Quer dizer: uma seleção deste campeonato. E, então, para evitar o marasmo, façamos, sim, a equipe ideal da temporada 2008/09, mas com uma regra fundamental: não vale jogador do Barcelona.

Já lhes digo: não é fácil. E já aviso: eu roubei. Improvisei atacante no meio-campo, joguei num 3-4-3 insolente e ainda assim fiquei procurando lugar para colocar gente como Cazorla (Villarreal) e De La Peña (Espanyol). Vamos lá:

Casillas (Real Madrid): o único jeito que sobrou de juntar “Real Madrid” e “melhor do mundo” na mesma frase;
Bruno Saltor (Almería): Lateral-direito melhor do que parece;
Godín (Villarreal): A defesa toda do time merece menção honrosa;
Pareja (Espanyol): A melhor contratação da equipe em muito tempo;
Capdevila (Villarreal): Por falta de grandes opções, virou lateral da seleção. Ganhou confiança e hoje merece o posto;
Mata (Valencia): Acabou virando o melhor parceiro de Villa;
Arango (Mallorca): Segundo informações extra-oficiais, está em vias de ser estatizado por Hugo Chávez;
Higuaín (Real Madrid): O único jogador de todo o grupo que levou o time a sério do começo ao fim da temporada;
Forlán (Atlético de Madrid): Quem conhece alguém que chute assim com as duas pernas?;
Kanouté (Sevilla): Se Zidane resolvesse jogar de atacante, jogaria que nem ele. Garantiu o time na Liga dos Campeões;
Villa (Valencia): Desde 2001, nunca deixou de marcar pelo menos 20 gols em cada temporada que disputou.

 

Compra
O chileno Manuel Pellegrini até pode ser o técnico certo para o Real Madrid. O problema é outro: será que Florentino Pérez é o presidente certo para Manuel Pellegrini? Se escutar Valdano e Zidane, pode acabar sendo.

Leasing
A Tríplice Coroa do Barcelona também valeu uma salva de rojões no Sevilla. É que a conquista de títulos entrava como bônus na negociação de Daniel Alves. Além dos 32 milhões de euros que os catalães pagaram pela transferência, tiveram que desembolsar mais 2,25 milhões de euros.

Coluna publicada no Jornal Placar de 3 de junho.

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27/05/2009 - 00:27

O ano acaba hoje

Quase sempre, quando a cerimônia parnasiana da FIFA anuncia o melhor jogador do mundo, muita gente reclama. Ou porque naquele momento, fim do ano, o sujeito já não é mais o melhor indiscutível (como Cristiano Ronaldo em 2008), ou porque se levou demais em consideração o desempenho em um só  grande torneio, e não o conjunto da obra (como Cannavaro em 2006) – o que, no fim das contas, dá na mesma, já que os principais títulos se decidem no meio do ano.

Acontece que, se quem ganhasse sempre o prêmio de melhor jogador do mundo fosse efetivamente o melhor jogador do mundo, não faria sentido realizar a eleição anualmente. Era melhor esperar com distanciamento critico até que os fatos tomassem sua verdadeira dimensão, chamar Eric Hobsbawn para presidir o júri e, aí sim, entregar os prêmios (póstumos).

Conjunto da obra não ganha troféu, e os troféus são a única coisa que entra imediatamente para a História. Então, em ano de Copa do Mundo, se um cara é decisivo para o titulo, tem mais é que largar na frente dos outros. Este ano não é de Copa, mas é de uma final de Liga dos Campeões que nasceu com cara de Muhammad Ali x Joe Frazier em Manila; que, apesar de ser apenas mais uma, é a última instância para determinar quem manda no futebol hoje. Em campo, estarão quatro dos principais candidatos (e só não digo “únicos” porque Ibrahimovic não me deixa) a melhor do mundo em 2009: Cristiano Ronaldo, Messi, Xavi e Iniesta. Se algum deles se destacar, vai levar o prêmio – independente do que aconteceu nos seis meses anteriores ou aconteça nos seis seguintes. Soa injusto? Mas não é.

Moral
Mesmo com ingresso a 15 euros – 20% do preço mínimo para um jogo importante -, o Santiago Bernabéu recebeu 45 mil pessoas (o que, para o Real Madrid, é pouco) no jogo de domingo com o Mallorca. Porque os torcedores, claro, sabiam o que esperar. Longe deste espaço laico querer estabelecer relação entre as duas coisas, mas no santíssimo dia seguinte à derrota por 3 x 1, anunciou-se que Florentino Pérez é candidato único à presidência do clube.

Bons costumes
Na comemoração do título Espanhol, domingo, quando Gerard Piqué agarrou o microfone, animou o Camp Nou gritando: “Un bote, dos botes, madridista el que no bote” (em tradução livríssima: “Ista, ista, ista, quem não pular é madridista”). No dia seguinte, Xavi veio publicamente dizer que na hora do titulo deve-se pensar na própria equipe e que é preciso ter mais respeito. Será que eu sou o único velhaco antiético que não vê ofensa nenhuma na brincadeira de Piqué e acha o moralismo das declarações de Xavi uma tremenda babaquice?

 Coluna publicada no Jornal Placar de 27 de maio.

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20/05/2009 - 13:21

Fim do fim de festa

Não foi nada surpreendente ver o Barcelona assegurar o título no fim de semana graças a uma derrota do Real Madrid. Já estava assumido e oficializado que a temporada havia chegado ao fim com os históricos 6 x 2 do Santiago Bernabéu. Foi lá que o Barça de ameaçado se tornou campeão; que Juande Ramos de gênio invicto se tornou um cretino sofredor de goleadas; que Florentino Pérez de adorado futuro presidente se tornou adorado e aguardadíssimo futuro presidente.

Como ser campeão nesta temporada já tinha sido algo descartado e a vaga na Liga dos Campeões da UEFA do ano que vem já está garantida há tempos, ninguém vestido de branco consegue encontrar uma razão para se dedicar neste fim de festa. Principalmente porque não se sabe o que acontecerá no ano que vem: com técnico novo, presidente novo, cofre cheio novo, ninguém consegue sequer se dar o trabalho de provar o seu valor para mostrar que pode permanecer na temporada que vem. A temporada que vem não existe; existe o clube que vem.

Já passou da hora das coxinhas frias e de Natalie Cole e Nat King Cole cantando Unforgettable para a pista semi-vazia. As luzes estão acesas; as cadeiras, viradas, e o Real Madrid está parado na porta, morrendo de frio, esperando o táxi chegar. A festa já acabou e, pior, ainda falta esperar duas rodadas. Justinho o cenário que Florentino Pérez queria para apresentar suas promessas de fartura e diversão.

Gafe Real

Quem assistiu à final da Copa do Rei pôde ver que a TVE, emissora estatal espanhola que gerou as imagens da partida, não leva jeito para futebol: foi um festival de cortes de cabeça, replays atrasados e câmeras mal posicionadas. Mas o pior foi antes do jogo: a TVE errou a contagem para entrar no ar e acabou não veiculando a execução do hino espanhol. Isso bem num jogo entre uma equipe catalã e uma basca, sob o nariz do Rei Juan Carlos II. Resultado: o diretor de esportes, Julián Reyes, foi demitido.

Gafe Divina

Tanto quanto sua condição de grande jogador, Sergio ‘Kun” Agüero está consolidando nesta temporada uma alardeada imagem de trapaceiro. O lance do pênalti que deu a vitória por 1 x 0 ao Atlético de Madri no importantíssimo duelo contra o Valencia nasceu de um notável mergulho do argentino na frente do goleiro Cesar. Depois do jogo, ele próprio admitiu que não foi nada. Para quem já marcou dois gols de mão, é genro do mano de Diós himself e leva a vida perseguido por quartos-zagueiros moralistas, trata-se de fama perigosa.

Coluna publicada no Jornal Placar de 20 de maio.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,
13/05/2009 - 17:10

Que (Copa do) Rei sou eu?

A Copa do Rei só tem alguma importância quando o time é eliminado dela ou quando conquista o título. Só serve para criar crises – como quando o Real Madrid foi eliminado pelo Real Unión, da 3ª divisão, e acelerou a demissão de Bernd Schuster – ou para salvar temporadas, como salvou a do Valencia no ano passado. Para cornetar e para comemorar, não importa quem jogou com reservas ou não: aquele é um dos torneios mais tradicionais do planeta, o segundo maior do país e não se fala mais nisso.

A final de hoje entre Barcelona e Athletic Bilbao, por exemplo, deveria ser uma situação em que os catalães não têm muito a perder: jogaram o torneio todo com time misto, já quase garantiram um dos títulos que importa e estão na final do outro. Seria o caso de jogar tranquilo, aproveitar o fato de ter mais talento e ver no que dá. Mas não vai ser.

A decisão desta noite em Valência é aguardada com ansiedade por toda a Espanha e não só porque pode ser o primeiro de três títulos do Barça na temporada. No último treinamento do Athletic Bilbao em San Mamés, domingo, apareceram 18 mil torcedores. Para despedir o time no aeroporto, mais 2 mil. A prefeitura instalou 22 telões pela cidade e seis no estádio, que estará lotado. Se o Athletic ganhar, iguala o recorde do próprio Barça, com 24 títulos.

A Copa do Rei, insisto, serve para pouca coisa, mas serviu para que uma das torcidas mais orgulhosas do mundo tivesse a ilusão de que os bons tempos de time grande voltaram. E, no fundo, ela tem razão. Coisa de time grande é isso mesmo: fazer com que o duelo entre a equipe mais badalada do mundo e o 11º colocado da Liga ganhe cara de algo épico.

Misto
Na final de hoje, o Barça novamente não terá o time titular, em parte porque não pode: Andrés Iniesta se machucou no domingo e, como Thierry Henry, só deve retornar na decisão do dia 27 contra o Manchester United. Eric Abidal, suspenso para a final da UEFA, também está suspenso hoje. Rafa Márquez não joga mais nesta temporada.

Os tais bons tempos
Os dois times decidiram uma Copa do Rei pela última vez em 1984, naquela que foi a última e mais famosa partida de Maradona pelo Barcelona: o argentino conta que foi chamado de “sudaca (termo pejorativo para “sul-americano”) de mierda” e reagiu distribuindo sopapos e voadoras ao fim do jogo, dando início a uma tremenda batalha campal. O Athletic  venceu por 1 a 0.

Conhece a história daquele jogo? Se não, dá uma olhada só:

Coluna publicada no Jornal Placar de 13 de maio de 2009.

Autor: juanpolanco - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , ,
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