
Cristiano Ronaldo (d) escapa da marcação de Michel Salgado em treino do Real
Da mesma forma que significa muito pouco quando o time não joga bem em partidas de pré-temporada, também não dá para achar que existe algo de autenticamente relevante ou revelador numa vitória por 4 x 2 sobre a LDU como a que o Real Madrid conseguiu ontem.
Claro que se trata de um adversário que não é exatamente um vira-lata esfarrapado – e que jogou com legítima gana de ganhar as manchetes dos jornais com uma surpresa -, mas para o futuro da equipe ainda não significa quase nada, e preferimos não perder tempo analisando que “falta companhia a Ronaldo e Benzema” ou que “a defesa é frágil”, principalmente quando ainda faltam se incorporar Kaká, Sergio Ramos, Albiol e, agora, Arbeloa e enquanto a janela de transferências e o cofre de Florentino Pérez continuam ambos escancarados.
Além de ter evitado uma pressão que, por estúpida que fosse, já começaria a circular o Santiago Bernabéu, a apresentação de ontem serviu para que, pela primeira vez, Cristiano Ronaldo fosse ele mesmo, driblando para a frente e criando jogadas de perigo em vez de flutuando no radar da intermediária. Por alguns instantes, tive receio (talvez no fundo ainda tenha) de que o português estivesse caminhando lentamente (talvez esteja mesmo) rumo àquele temível estágio Ronaldinho Gaúcho da carreira, em que se torna mais um espectador do próprio talento do que executor do mesmo.
Tive (tenho?) a impressão de que em breve Cristiano Ronaldo pedalaria (pedalará?) da mesma forma que nos últimos três anos Ronaldinho olha para um lado e toca para o outro: como quem carimba um ofício ou deposita um cheque. Me provoca destemperança ver Cristiano Ronaldo pedalando no aquecimento ou antes de levar a bola para o meio do campo e tocá-la para trás. Fico com a impressão de que ele pedala no banho, no corredor, no shopping center, para desviar de topar com o dedão na lata de lixo ou trombar com as sacolas de compras de alguma senhora. Espero que não e que eu tenha exagerado muitíssimo em chegar até aqui, mas tenho medo de que dentro de algum tempo o que era um recurso e marca registrada fique – como o no-look pass de Ronaldinho – parecendo um tique nervoso.
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Nasceu enfim nossa fronteira a oeste. O que significa que nossa Coroa foi desunificada e já não reinamos soberanos na Península Ibérica e suas adoráveis colônias tropicais. Chega a hora de fazer a partilha como corresponde, traçando uma deliciosa e irrepreensível linha vertical 20 mil léguas submarinas a leste de arquipélago a definir (e para isso vamos finalmente ter que descobrir quanto vale uma légua).
Que seja bem-vindo nosso novo tripulante – e partir de agora eu prometo fielmente não fazer mais nenhuma alusão náutica – Bruno Soraggi, timoneiro responsável pelo Bola à Vista, que fará com o futebol português aquilo que este Capotón finge fazer com o espanhol.
É lá, aliás, que você tem a confirmação de que Keirrison vai mesmo para o Benfica, onde terá a inestimável oportunidade de assistir à série de palestras “Como ser um centroavante franzino e promissor que começa no Barcelona e se perde para o resto da carreira”, ministrada com maestria e sotaque portenho por Javier Saviola.
Que tudo vá de vento em popa muito bem, meu caro. Qualquer dia desses cruza a fronteira e passa por aqui. Traz pastel de Belém?