Será que, finalmente, encontrou-se uma maneira de enfrentar o Barcelona?
Ou será que nós ouvimos isso há anos sobre qualquer grande time que, em algum momento – porque sempre acontece em alguns momentos – não consegue furar uma e outra retranca que aparecem pela frente?
Porque é claro que se defender sem pudor é uma opção que pode dar certo diante de um time tão bom de bola como o Barça, principalmente se o seu time tem as características para isso, como tem o Rubin Kazan: defesa forte, gente no meio-campo disciplinada e com fundamento, ataque rápido e perigoso. Mas também é claro que isso não funciona a longo prazo, nem em ocasiões seguidas. Poderia, aliás, nem ter funcionado nesses dois jogos em que a equipe de Guardiola ganhou um ponto só: tanto no Camp Nou quanto ontem os catalães perderam uma batelada de chances de marcar. Às vezes as chances vão ser todas desperdiçadas e pronto, paciência. Só que isso não muda nada com relação ao Barcelona ser o Barcelona e seu futebol de toque de bola ser seu futebol de toque de bola, com tudo de louvável (e as mesmas fragilidades, que não são muitas) que tem tido nos últimos tempos.
Destino Kun Agüero, que não vem jogando bem a temporada toda, resolve fazer sua primeira grande partida justo contra o Chelsea, que há tempos mostra interesse em contratá-lo. A partida serve para decretar a eliminação do Atlético da Champions e dos euros que ela traz. Euros que o Atlético, um dos lanternas do Espanhol, também não deve ter ano que vem. Quando vai precisar, portanto… vender Kun Agüero.
Restam dois Agora que Cristiano Ronaldo fica pelo menos mais um mês sem jogar e que está começando a deixar de ser tabu o fato de Raúl ser, sim, reserva, chegou a hora de Benzema e principalmente Kaká acharem o jeito certo de jogar pelo Real Madrid. Contra o Milan, já se viu um pouco disso.
Poucos cargos são tão interessantes no mundo do futebol como aquele que, há mais de uma década, ocupa Johan Cruyff em Barcelona. Em Barcelona ou na Espanha, ou na Catalunha, ou no Barcelona – ou em lugar nenhum, pra ser realmente preciso.
Quer dizer, Cruyff tem uma coluna no diário El Periódico de Catalunya, mas ninguém em sã e catalã consciência ousaria descrevê-lo como “articulista”, porque não é esse o cerne. Aquilo é só uma desculpa semanal e concreta para reafirmar que o mito segue vivo, um pouco como o Granma em Cuba.
O holandês normalmente não escreve nada de novo, mas usa o fato de assinar um texto para continuar tendo uma razão oficial para que as pessoas deem destaque àquilo que ele tem a dizer sobre qualquer coisa – e aqui o termo é usado com precisão – relacionada ao Barça. Diante de qualquer crise, comemoração ou efervescência política, a primeira pessoa a ser consultada, e aquela cuja opinião é mais reverberada, é sempre Johan Cruyff, apesar de há 13 anos ter deixado o comando do time.
Nesses 13 anos, Cruyff não fez praticamente nada e, ainda assim, continuou sendo uma das figuras mais importantes do clube. Todo mundo dentro do Barça morre de medo daquilo que o holandês possa dizer. Sem ter cargo nenhum, Cruyff esteve por trás, direta ou indiretamente, das chegadas de Louis Van Gaal e Frank Rijkaard e de um bocado de contratações.
Pois então, anuncia-se agora que os tempos de figura etérea acabaram e que Johan Cruyff agora tem um cargo: vai voltar a se sentar num banco de reservas, o da seleção de futebol da Catalunha. Para isso, não vai ter salário: não vai cobrar nem um centavo de euro da Federação Catalã de Futebol, que só se compromete a ajudar a fundação que o holandês mantém. E, por outro lado, a julgar pelo retrospecto de seu antecessor Pere Gratacòs, também não deve ter muito trabalho, já que nos últimos três anos a equipe (que não é uma seleção reconhecida pela FIFA, como a Catalunha não é um país reconhecido pela ONU) realizou um total de seis partidas.
Quer dizer, tudo continua como antes só que ainda melhor para o holandês: é um colunista sem ser realmente só um colunista; um político sem precisar fazer política; um dirigente sem ter que dirigir nada e, agora, um treinador que não treina. Tudo que só reforça aquilo que ele realmente é há anos: uma espécie de pastor ou de oráculo que tudo sabe e, por isso, que já basta, não precisa se dar o trabalho de efetivamente executar mais nada.
Nós, daqui de onde os dias têm 24 horas, te invejamos com respeito, Johan.
Se não fosse tão orgulhoso, ou tão dirigente de futebol, o diretor do Atlético de Madri Gil Marin teria simplesmente dito: “é, pois é, se era para jogar mal assim, melhor pegar os 90 milhões de euros e pelo menos ter a desculpa de que perdemos Kun e Forlán”.
Porque é justamente isso que Marin diz, com outras palavras, na entrevista que deu ao Marca ontem, quando assume: “Tentamos montar nossa equipe ao redor de nossas estrelas. O Chelsea ofereceu 50 milhões pelo Kun e o Real Madrid, 36 milhões por Forlán. Se os dois querem buscar um horizonte novo, o Atlético vai avaliar o caso.” Para depois concluir assumindo que “se for necessário corrigir alguma coisa no mercado de inverno, nós vamos fazê-lo.”
Salvo uma recuperação (que não é impossível) do Atlético sob o comando de Quique Sanchez Flores, o mercado de fim de ano, normalmente dado a um ou outro ajuste sem-graça, pode estar fadado a ter no mínimo um grande negócio.
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A palavra “crise” começou a aparecer rabiscada nos cantinhos do quadros-negros em Madri e Barcelona depois das derrotas em casa no meio de semana e, então:
- O Real respondeu com um empate contra o Sporting Gijón, que só serviu para alimentar tudo o que já vinha sendo (justa ou injustamente) alimentado, sobretudo a suposta ‘Ronaldodependência’.
- O Barcelona respondeu com um 6 x 1 daqueles que o time da temporada passada adorava aplicar, que só serviu para atestar como Ibrahimovic aprendeu a jogar em catalão e como a queda de Messi tem bem mais a ver com Maradona do que com o próprio Messi.
Será essa a diferença entre um grande time e um conjunto de grandes jogadores que ainda precisa de um bocado de tempo e (ha!) paciência para se tornar um? O que cada um faz quando se vê obrigado a sair do modo automático?
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Isso, claro, para não falarmos de dificuldades mais prosaicas como a de entender, finalmente, que diabos significa “horário de verão” – uma das resoluções de Guti para 2010.
É que ainda não foi este ano que o mais louro entre os segundos volantes louros do planeta acertou o que fazer com seu iPhone, se adiantar ou atrasar, ou esperar que a atualização fosse feita via satélite: todas versões alegadas por Guti para chegar DUAS HORAS atrasado no treino deste domingo (o que só faz tudo soar duplamente estúpido).
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Como parecia, o Valencia veio para a temporada reforçado pelo fato de não ter perdido quase ninguém e, com isso, fazer com que uma base bastante razoável tivesse mais uma temporada inteira de entrosamento nas costas. O resultado é que o time é hoje aquilo que deveria ter sido também no ano passado: um rival do Sevilla na condição de perseguidor de Madrid e Barça.
O sucesso passa por uma linha de quatro homens na frente, que cada vez mais se consolida como sendo de Juan Mata, Pablo Hernández, David Silva e David Villa – com Joaquin e Vicente (quando não internado) no banco de reservas. Os quatro – e principalmente Pablo Hernández, que era o que ainda mais tinha o que provar – caminham seguros para irem à Copa do Mundo.
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Hernández, aliás, fez o gol da rodada nos 3 x 0 sobre o Almería; um gol que ele admitiu ter sido inspirado noutro anotado por David Villa em 2006, contra o Deportivo. Aqui o golaço de Hernández:
Barcelona e Internazionale não podiam ter mais sorte do que isso: estrear um contra o outro, Eto’o contra Ibrahimovic. Foi garantia de que haveria enredo, de que no dia seguinte teríamos frases como “foi esquisito”, dita pelo camaronês sobre ver a camisa azul-grená do lado contrário do campo. Porque se tudo isso acontece daqui a alguns meses, todo mundo já tem preocupações demais e pensa na consequências daquilo como um jogo que vale três pontos na classificação do grupo.
Ontem não: foi apenas e nada mais do que um Barcelona x Inter; dois times que a princípio todos sabem que vão se classificar para a segunda fase e que entraram em campo só para compararmos o que fazem Eto’o e Ibrahimovic contra seus ex-clubes, quem abraça quem, quem dá uma entrada dura no ex-colega que tenha cara de revide, quem fica com sorriso sem-graça no rosto.
E, como um jogo que tem mais moral do que pontos em disputa, a equipe com menos (um pouco menos) talento e capacidade preferiu não correr o risco de, tão cedo, ver sua auto-estima afundar. Isso apesar de jogar em casa e de ser tetracampeã italiana.
A Inter esperou alguns minutos para ver se o Barcelona que vinha a campo era aquele mesmo que temia. Era. Então, diante do perigo que aquilo significava, não teve o menor pudor de ser dominada e se defender, só para poder dizer, aliviada, no dia seguinte, que “por enquanto, estamos iguais”. Quer dizer, para todos os efeitos, por enquanto não dá para dizer quem é melhor ou quem se deu melhor no tremendo negócio que os dois clubes fizeram neste verão. Passado o sufoco de quarta-feira, a lógica diz que os dois estão assim, na mesma.
(Foto: EFE)
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Em Sevilla, Luís Fabiano, como sempre. Como faz bem entrar em campo com a certeza de que você é bom de bola e não se fala mais nisso. Ou você acha que com um pouquinho menos de confiança alguém acerta um chute de esquerda como o que o brasileiro acertou ontem no primeiro gol dos 2 x 0 sobre o Unirea Urziceni?
Depois do jogo, Dan Petrescu, aquele lateral-direito que jogou no Chelsea, hoje técnico do clube romeno, foi direto como a maioria tem tido receio de ser, dizendo que LF é o melhor atacante do mundo hoje: “No meu tempo de jogador enfrentei muitos atacantes, mas fazia tempo que não via alguém fazer o que Luís Fabiano fez. Com ele, o Sevilla vai ganhar muitos jogos. Não tiro o mérito dos outros jogadores, mas ele os eclipsou.”
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E se você pensa que vamos fazer menção ao Unirea Urziceni e agir como se nada maravilhoso tivesse acabado de acontecer, está, claro, enganadíssimo: os romenos têm esse escudo ao lado, feito por aquele primeiro ilustrador dos desenhos do Pica-Pau e ainda por cima são conhecidos como “Chelsea de Ialomiţa” (assim mesmo, com te-tedilha, um “t” com um rabichinho, coisa que, pensando bem, não sei se o publicador do blog, que é conservador no último, vai aceitar) – o que, em romeno, deve ser o equivalente a “Milan da Vila Guilherme” ou “Arsenal do Andaraí”.
Um viva à União Europeia! Saúde, Platini!
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Com o sucesso de suas cobranças de falta, Carleto espera conseguir largar seus freelances como segurança de boate. (Foto: AS)
Nada como um pouquinho de segunda divisão para fazer um garoto precoce se sentir mais em casa: depois de uma pré-temporada que só lhe valeu piadas entre a torcida do Valencia, o lateral-esquerdo Tiago Carleto (que até hoje não sei tem “h” entre o “T” e o “i” ou não) chegou ao Elche e, depois de algumas semanas, já tratou de voltar a flertar com o apelido “o novo Roberto Carlos”. Bastou marcar um golaço de falta no empate da sua equipe por 2 x 2 contra meu submisso UD Salamanca.
Esta já é manjada do nobre, diminuto e público deste Capotón: o pessoal marca os congressos de astrogeologia para os finais de semana anteriores à Champions, a gente retorna na segunda-feira assim, meio sem saber o porquê desta vida, e acaba esperando para emendar com a terça-feira europeia – que, afinal, é o que dá dinheiro e importa.
Ainda bem que o discurso no geral é fácil, principalmente para aquilo que é a única razão de interesse da maioria: Real Madrid e Barça. Esses, bom, venceram com sobras jogos que, numa temporada em que não são tão superiores ao resto, seriam jogos complicados – fora de casa contra Espanyol e Getafe, respectivamente.
Pelo Real, o mais notável até aqui parece ser quanta importância ganha um ser a princípio estranho à constelação: o meia Granero, que não só é coadjuvante como é formado nas categorias de base do clube (embora, claro, o time tenha tratado de deixá-lo ir embora de graça e tenha necessitado recontratá-lo). O que acontece é que, com a saída de Sneijder, Granero é o único meio-campista que não é nem defensivo demais (como Diarra II, por mais que invente de atacar, Gago e Diarra), nem um passador com pouca velocidade para levar a bola de uma intermediária à outra (como Xabi Alonso e Guti).
O Barça, por seu lado, já contou com um gol de Ibrahimovic – o que é bom para ir colocando as coisas no devido lugar e amansar a pressão por espetáculos – e com Messi sendo ele mesmo. O que, claro, diz muito mais a respeito da seleção argentina do que do próprio Messi. Ninguém precisa de olho muito clínico para entender por que Lio não repete as atuações sob o comando (sic) de Maradona. Com tudo isso, já tem gente, e não gente qualquer, mas o ex-treinador e atual oráculo confucista Johann Cruyff, dizendo que “o Barcelona desta temporada ainda não me convenceu. O da temporada anterior eu sacava melhor”. Maradona fazendo bobagens, Cruyff falando outras… Será que é melhor começar a dar espaço aos ex-grossos?
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A boa notícia é que, se Barça e Madrid sobraram, pelo menos dois dos maiores concorrentes também o fizeram: o Sevilla e o Valencia. Os sevillistas tiveram Luís Fabiano cada dia colocando um ponto de exclamação a mais na frase “E nenhum gigante europeu quis comprá-lo!!!!!!!!”, mas isso já não deveria ser novidade. O bom foi ver o time jogando muito nos 4 x 1 contra o Zaragoza sem a presença de Kanouté, lesionado e substituído por Negredo, e com a surpreendente atuação do argentino Diego Perotti, de 20 anos: contratado aos 17 pelos sevillistas, ele jogava no time B até a temporada passada. Saiu como titular no lugar de Diego Capel, marcou o terceiro gol e foi um dos melhores do time.
Pelo Valencia, pode até ser que as boas notícias sejam as mesmas já faz um tempo: vitória graças ao bom desempenho de Silva, Mata e principalmente David Villa. Mas pelo menos eles continuam todos lá e ainda com um ano a mais de entrosamento: já é razão para se comemorar. Os 4 x 2 sobre o Valladolid foram de dar esperança, sobretudo porque Banega conseguiu passar outra vez – já são duas, lembramos – 90 minutos dentro de campo sem acender um cigarro ou tirar a roupa e dançar a música nova dos Black Eyed Peas. A seguir assim, poderemos estar diante do autêntico meio-campista que faltava para o ataque valencianista ser tudo o que pode.
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Só para não passar mais de uma semana sem falar do tema: Diego Forlán – que, aliás, foi poupado durante o empate em casa contra o Racing – contou esses dias um detalhe sensacional sobre sua passagem pelo Manchester United, entre 2002 e 2004. Conta o uruguaio que o bem-estar no clube terminou de vez num dia chuvoso em que Sir Alex Ferguson pediu aos jogadores que usassem chuteiras de travas altas. Forlán disse “ã-hã”, mas não se sentia cômodo jogando com elas: no vestiário, colocou as de travas baixas e partiu para o jogo contra o Chelsea. Até que, num cruzamento para a área, bola limpa à sua frente. “Escorreguei pertinho do gol e perdi a chance”, lembra Forlán. “Não dá para enganar o Ferguson. Ele pegou minhas chuteiras e jogou longe. Foi meu último jogo pelo United.”
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Finalmente chegou o principal reforço do Xerez para a temporada: o chileno Fabian Orellana, de 23 anos, que jogava no Audax Italiano, mas cujo passe pertence à Udinese. O que o pessoal não entendeu foi se ficava feliz ou desesperado quando descobriu que o apelido do cara é “o Robinho branco”.
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Que venha, então, a Champions e depois a gente fala mais!
O último dia de janela, no fim das contas, teve mais de filme de Alfred Hitchcock do que de JohnWoo: ficamos todos envolvidos no climão gerado por aqueles planos incertos e instrumentos de corda berrando no fundo, sempre achando que algo arrebatador está prestes a acontecer… e pouca coisa de fato acontece.
Mas é o bastante para manter todo mundo ocupado e – aqui sim chego no ponto auto-indulgente que me interessa – incapaz de ir muito além de um punhado de random thoughts, como diz Jack Nicholson em “One Flew Over the Cuckoo’s Nest” (até hoje vice-líder histórico do Ranking Poderoso Chefão de Piores Traduções de Títulos de Filme).
Pois:
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Que decepção ver que as conclusões a que o mundo chega sobre o Real Madrid são: o ataque é capaz de grandes coisas, mas a defesa ainda preocupa. Dãh. Isso a gente já sabia no momento em que o dilema se mostrou ser onde escalar tanto atacante.
Cadê o show? O drama? O desastre? Parece que o Santiago Bernabéu esperava um jogo daquele; um time daquele de ontem: predisposto tanto a goleadas vitorianas quanto a ser surpreendido até por quem quase não tem poder de fogo para surpreender.
E isso por quê? Para mim, porque Xabi Alonso tem que ser o volante que pensa da dupla. Porque Diarra II não é nem jogador de qualidade de verdade, nem marcador implacável de verdade (como acho que tem que ser o companheiro de Xabi por ali). E, sim, eu critico Diarra II até no dia em que ele faz gol da vitória.
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O Barça, por sua vez, não fez nada demais: estreou com vitória, como se esperava, jogando com tranqüilidade, como se esperava, e enquanto fazia isso poupou Leo Messi (em retiro motivacional para tentar arrasar o Brasil em sua cidade natal) e viu Ibrahimovic romper, discreta mas providencialmente, seu cinto de castidade.
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Perder por 2-0 para o Valencia na estreia até que tudo bem. O que o Sevilla não contava era com já estar desfalcado de Kanouté – expulso ontem – e já escutar justamente de seu provável substituto, o marfinense Arouna Koné, uma declaração como essa, com mais cara de 36ª rodada e paciência no limite do que primeiro fim de semana da temporada:
“Todo mundo sabe que o Sevilla tem muitos atacantes. Perdemos o jogo porque não atacamos e o Valencia foi muito agressivo. (…) Estava no sistema do nosso técnico. Ele disse para que, quando o Valencia tivesse a bola, todos nós fôssemos um pouco para atrás, para só então atacar. É o sistema dele. É o sistema do treinador”, falou ele na entrevista coletiva depois do jogo, para desespero do ocioso comitê anticrise.
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Já os valencianistas assistiram a algo que pensavam ser absolutamente impossível: Ever Banega a fim de jogo e sendo o melhor do time em campo. Assumindo que o que durou um jogo possa durar alguns meses, o argentino pode ser o grande reforço do Valencia – que até agora mais comemorou não ter perdido muito na janela de transferências do que ter ganho alguma coisa.
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E a certeza de que aquilo que dizíamos a respeito da saída de Arjen Robben tem pelo menos um pouco de fundamento veio com a manchete do Marca, o panfleto oficial de Florentino Pérez, na sexta-feira pós-venda para o Bayern de Munique: “Robben: Ele foi bem vendido”.
Como bem sabem nossos camaradas infiltrados na Christie’s de Londres: se o negócio é tão bom assim, ninguém precisa ficar anunciando quão bom ele foi. Principalmente quando se trata de vender um sujeito que interessava ao técnico do time e que, dois anos antes, foi comprado por 11 milhões de euros a mais.
(“Ah, mas isso é culpa do Calderón, que pagou demais por um jogador com fama de frágil”, explica o Marca naquilo que está se tornando sua especialidade: editoriais tão jornalisticamente constrangedores quanto a falácia Belchior sumiu/Belchior apareceu/Viva o Fantástico que achou Belchior)
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Depois de devidamente chateado por não ter conseguido gerar interesse em Pep Guardiola – que não só pediu a contratação de Chrygrsnkiywyky como ainda deixou claro preferir seus canteranos -, agora Henrique tem que estar contente com seu destino: o Racing Santander é o tipo de lugar em que, se for bem, vai chamar a atenção. De repente, até de Guardiola. Ao lado dele, um garoto tão promissor quanto e também precisando mostrar que realmente é aquilo que dizem: Marc Torrejón. Este Capotón aposta numa dupla interessante.
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O Mallorca que não pense que me engana, porque não engana, não.
Apesar de na prática ser muito mais um passo na pré-temporada do que o torneio oficial que é na teoria, a Supercopa da Espanha deveria ter sido o primeiro ingrediente mínimo de pressão para o Barcelona pós-triplete. Principalmente porque, para o Athletic Bilbao, a pré-temporada já estava acabada há tempos e o que existia era mais uma chance de acabar com um jejum de 25 anos sem títulos.
Os bascos tinham muito a ganhar, e o Barça, só a perder. Mesmo assim, o que se viu foi o mesmo que normalmente esperaríamos ver no meio da temporada, com tudo já engrenado e cada qual em seu devido lugar: primeiro os catalães venceram fora de casa, com o time todo reserva, e depois passearam no Camp Nou, já com a força máxima (menos Andrés Iniesta e Rafa Márquez, machucados).
Os 3 x 0 de ontem serviram para vermos um pouco daquilo que Ibrahimovic vai ter que enfrentar para se acostumar com o ritmo do Barcelona, como ficou claro no primeiro tempo. E serviram também para deixar claro que o sueco provavelmente saberá o que fazer para se adaptar, como ficou claro no segundo.
No fim das contas, a Supercopa serviu mesmo foi para duas constatações que, por óbvias que pareçam, a esta altura eram as únicas que havia para se fazer: a)- o Athletic Bilbao, não tem jeito, continua sendo só o Athletic Bilbao e, principalmente, b)- o Barcelona, para desilusão de quem acreditava na preguiça pós-férias e na quebra de ritmo, ainda é o Barcelona. Como dizíamos, bastante óbvio. Pep Guardiola certamente já sabia. Mas nunca é demais ratificar alguma certeza, ainda mais se a ratificação termina com medalha no peito, levantamento de taça e We Are the Champions na vitrola. Mal não pode fazer.
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Nos comentários publicados dois posts atrás, pintou uma polêmica – e aqui uso a palavra no seu sentido mais vasto, pra não dizer mentiroso – sobre nosso client, digo, favorito Diego Forlán. Começou com o camarada Daniel Mendes dizendo que:
“Forlan é bom atacante mas é meio limitado……. PROVA DISSO È Q NÂO DEU CERTO NO MANCHESTER UNITED!!!!!!!!!…”
Ao que este pisciano irresponsável respondeu:
“Daniel, Seguindo o teu raciocínio, Maradona também foi meio limitado, prova disso é que não deu certo no Barcelona; ou Sócrates, que não deu certo na Fiorentina; ou Romário no Valencia…”
E o problema, pelo jeito, foi “Romário no Valencia”. Há aqueles, como o amigo zootecnicista Cow Molester, que argumentam que a passagem do Baixinho no Valencia não foi exatamente fracassada. Ou que, se foi, foi porque assim Romário quis (e quando na vida ele não fez o que quis?). Também não sabemos com detalhes (eu não, pelo menos) os porquês de Forlán não ter dado certo no Manchester United. E, sobre Romário, sabemos bem sabido isto que você lê neste link aqui.
Os motivos podemos até discutir, mas se isso aí não é uma passagem fracassada num clube, eu não sei mais o que pode ser.
É difícil manter a coerência, a frieza e os valores diante do quanto o planeta fala a respeito do Barcelona e principalmente do Real Madrid. Então, ou você se dedica a estudar o tema a fundo, para separar devidamente os fatos do oba-oba-oba (dois “oba” é pouco), ou se contenta em receber o de sempre – os grandes jornais e a Agencia EFE – e aposta no seu próprio bom senso para não se surpreender dizendo que “este Real mostrou ao Borussia Dortmund que não veio para brincar”.
Isso que, fora da Espanha, o bombardeio ainda é consideravelmente limitado. Nessas horas é que eu agradeço por estar aqui – observando, inalando e escutando a Avenida Santo Amaro -, e não no verão barcelonês,com luz do sol até as 21h30 e cerveja Estrella Damm a partir das 17h. Em todas as outras horas eu morro por causa disso.
Mas, enfim, o fato é que a dimensão que parece tomar, ou que certamente vai tomar tudo o que acontecer com Real e Barça durante os próximos meses me assusta. Não é que eu não goste de ver estrelas no campo, ou que tenha mania indie de só valorizar algo até que se torne popular, ou que não admita que o futebol precisa de um tanto de oba-oba-oba. Só que eu gosto mesmo do futebol. Gosto dos enredos que ele cria e descria, feito um contista esquizofrênico, genial e gago. Os bons enredos, os contos que são uma bofetada na bochecha, acontecem quando existe algo em jogo; algo que não pode ser previsto, nem endeusado – só depois que realmente acontece.
E eu detesto quando fazem com que eu, ou pelo menos que o resto do mundo, perca seu tempo com esses contos que, por inércia rotativa, todos começam a jurar que são arrebatadores, mas que, analisados com um pouquinho da coerência, da frieza e dos valores lá do primeiro parágrafo, não têm nada de esquizofrênicos, gagos e muito menos geniais.
Você pode formar dezenas de frases aparentemente sensatas sobre aquilo que significam a goleada do Real Madrid sobre o Borussia Dortmund ou a derrota do Barça para o Manchester City. Pode falar sobre quanto Kaká começa a achar seu lugar, quanto Cristiano Ronaldo ainda não brilha, quanto a estreia de Ibrahimovic deixou a desejar. Mas nada disso aconteceu de verdade – embora o mais duro seja que, de tanto ser faladas, essas coisas começam a acontecer mais do que as que realmente aconteceram.
Ontem, por exemplo, a única coisa que aconteceu mesmo foi na Grécia. Só que, como o Atlético de Madri não passa desse híbrido de Portuguesa e Estação Primeira de Mangueira, e, principalmente, como Kun Agüero e Diego Forlán não são produto de nenhum negócio feito neste verão, não temos muito o que dizer sobre Atlético 3 x 2 Panathinaikos. Na primeira vez que Kaká, Ronaldo ou Ibrahimovic tiverem uma atuação como a que Forlán teve ontem – num jogo enormemente decisivo até para as finanças do clube nesta temporada -, esperem um cataclismo. Até lá, quem estiver atento que aplauda o jogador mais ambidestro (“anfíbio”, como diz a Baronesa) do futebol mundial.
Porque o Atlético pode até ser só o Atlético, mas, por outro lado é bom não esquecer que Forlán é Forlán.
Você sabe que uma posição está em crise mundial quando se dá conta de que, diante da impossibilidade de contratar Filipe Luis, o Barcelona – que, nunca é demais lembrar, é o Barcelona – finalmente se decidiu pela contratação de Maxwell para a lateral-esquerda. E o mais significativo de tudo: isto não é uma crítica ao negócio.
Dentro das opções que existiriam para se suprir a baixa (e isto pode ser interpretado como uma piada, segundo a virulência do freguês) de Sylweeño, Maxwell por 4,5 milhões de euros é um dos melhores negócios que o Barça poderia ter feito. Trata-se de alguém acostumado a jogar na Europa, em equipes grandes, que tem potencial para atacar e que defende bem. Quer dizer: um Cillvynho de uns anos atrás. Entre ele e Abidal, o Barça tem provavelmente o melhor tándem de laterais esquerdos do planeta – algo que diz muito a respeito do que acontece com a posição hoje.
Quem é o melhor lateral esquerdo do planeta hoje? Evra, talvez? Lahm? Pouco, não? E André Santos como titular da Seleção, por bom jogador que seja? Uns oito ou de anos atrás, além de um Roberto Carlos indiscutível, tínhamos Zé Roberto, Serginho, Fábio Aurélio, Felipe, Athirson… (e os dois últimos, na época, não eram piada). Do jeito que a coisa vai, alem de o negócio ter sido interessante para o Barça, pode ser decisivo para a vida de Maxwell: pode acabar valendo seu lugar na Copa de 2010.
Quem viu o mau humor de David Villa – que já não é exatamente sorridente por natureza – durante a Copa das Confederações imagina a chatice que tem sido para ele conviver com os boatos e a indecisão sobre seu futuro. Mas imagina também que não é apenas isso, indecisão, que irrita tanto o melhor centroavante (e, veja bem antes de xingar, eu falei “centroavante”) do mundo.
O verdadeiro problema hoje já é público e notório: Villa está louco para sair, seja para o Real Madrid (que a esta altura já desistiu), para a Premier League ou para o Barcelona, o candidato que parece estar mais vivo neste momento. E, enquanto isso, o novo presidente do Valencia, Manuel Llorente, insiste em dizer que o Guaje é parte dos planos de recuperação do clube e, por isso, inegociável. O que na verdade é uma maneira de dizer que ele é negociável sim, como todos nossos pudores e almas, mas por mais dinheiro do que se tem oferecido. Diz-se que Llorente quer chegar em algum valor entre 50 e 55 milhões de euros.
O interessante aqui é que a imprensa espanhola – e por “espanhola” entenda-se madrilena e catalã – adotou sem pestanejar a postura de que Villa é vitíma do sistema e que sua carreira está ameaçada pela postura intempestiva do dirigente. O que, do alto do nossos anos de militância comunista, soa lindíssimo. Mas, só para ter certeza: o contrato até 2014, se não me engano, foi assinado pelos dois lados, sem arma na cabeça envolvida, certo?
Trabalhismo de ocasião A imprensa de Madri já desistiu do caso trabalhista Villa e agora prefere especular sobre “o novo caso Villa”: a vítima da circunstância agora seria o francês Franck Ribéry, cuja liberdade de exercer a profissão onde bem entenda (como se alguém no mundo, profissionalmente, fizesse o que bem entendesse) estaria sendo tolhida pelo Bayern de Munique.
Mal na foto Enquanto isso, o brasileiro Filipe Luis, que jogou uma temporada bastante correta pelo Deportivo La Coruña, se recusa a posar para a foto oficial do clube, esperançoso que está com a sua (ainda) possível ida para o Barcelona. Agora, enquanto ainda existe contrato entre as duas partes, será que isso não é insurgência, chantagem, antiprofissionalismo?
Quem Xavi faz ao vivo, e na hora decisiva. (Foto: EFE)
Os jogos do século, mesmo quando o século dura só dois ou três anos, têm essa pressão lotérica de ter que superarem outras centenas de jogos que acontecem por aí, século afora, em gramados verdejantes ingleses ou terrões da Zona Norte (qualquer uma).
Barcelona x Manchester United não foi, como não teria por que ser, a melhor partida de futebol do século, nem do ano, nem da semana (alguém viu Ceará 2 x 2 Figueirense ontem?). Foi um jogo que só se tornou bom, no segundo tempo, por causa do gol marcado tão cedo por Eto’o. Não foi uma partida que “fez jus ao que são Barça e Manchester”, até porque para isso seria preciso uma daquelas que só acontecem a cada bocado de anos e normalmente no meio de um campeonato, e não na decisão. Mas o lado bom é que foi uma partida para entrar para a História.
Porque as decisões – não os times que as vencem, mas os jogos – só se tornam lendários quando são dramáticos demais (como a reação do Liverpool sobre o Milan, ou os gols do Manchester sobre o Bayern), ou quando o time vencedor se impõe claramente sobre o outro (como Brasil x Itália em 1970). Tivesse a partida acabado 1 x 0, ou o Manchester feito 2 x 1 e pressionado um tanto (como o Arsenal fez com o Barcelona de Ronaldinho três anos atrás), este Barcelona não teria tanta cara de time especial como tem hoje – indiscutivelmente campeão de tudo o que disputou no ano.
Como o último “jogo do século” de que me lembro – a final da Copa de 2002, o primeiro Brasil x Alemanha da história das Copas -, este não foi maravilhoso, mas foi digno do significado histórico que teve.
Nem Messi, nem Ronaldo. Xavi
Ou Iniesta? Acho que Xavi. Mas poderia ser Iniesta. Quer dizer: Lionel Messi é o melhor jogador do mundo. Isso eu já sei, você também; não precisamos discutir. É ele quem provavelmente vencerá o prêmio em Zurique no final do ano, ainda mais depois de ter ficado em segundo lugar nas duas últimas edições. Só que, seguindo a lógica do texto anterior, já lhes digo em primeira mão: se até o final do ano alguma seleção nacional me contratar como treinador, meu voto na eleição da FIFA vai para o Xavi (ou Iniesta?).
A habilidade de Messi na frente faz a diferença. Mas a de Cristiano Ronaldo também pode fazer; a de Kaká também pode fazer. Só que, hoje, jogador nenhum é capaz de transformar sua equipe a partir do meio-campo como fazem os dois, Xavi e Iniesta. Não é por acaso que os times em que os dois jogam são campeões europeus – e o são jogando bonito. Messi tem a posição de atacante e o conjunto da obra (os dois segundos lugares) a seu favor, mas até aí não acho que seja tão fácil fazer de conta que o conjunto da obra de Xavi Hernández seja tão inferior. Melhor jogador da Euro 2008, melhor em campo na final da Liga dos Campeões da UEFA 2009.
Por sua capacidade de decidir quando mais interessa e por ser o melhor meio-campista do planeta nesta era em que, para jogar bem na posição, é preciso saber fazer de absolutamente tudo, Xavi deveria ganhar o prêmio de melhor do ano. Ao perder para Cristiano Ronaldo num momento em que sobrava e ficar de novo em segundo lugar, Leo Messi ganhou quase uma promessa de que neste ano o troféu seria dele. Pois deveria ganhar outro segundo lugar e outra promessa de que no ano que vem vai, com todo respeito. E em terceiro, Iniesta.
Não convém distribuir um prêmio desses, transmitido para o mundo inteiro, a três jogadores de uma mesma equipe. Só se fosse algo fora de série, certo? Então.
Chutar cachorro vice é fácil O Manchester United jogou melhor – e bem melhor – do que o Barcelona durante nove minutos, até que Iniesta pegou uma bola no meio-campo, avançou espaço com a facilidade que só ele sabe avançar e serviu Eto’o. O camaronês fez sua única grande jogada nos últimos dois meses e fez o 1 x 0.
A partir dali, e até o 2 x 0 final, ficou fácil dizer que Alex Ferguson está louco, que o meio-campo de Xavi e Iniesta não podia ter como oponentes diretos Giggs, Park e Ânderson. Também não é assim: o meio-campo do Manchester era dono do Barcelona e dava pinta de que permaneceria sendo pelo menos durante mais alguns minutos. Aconteceu, então, o que pode sempre acontecer num jogo entre dois times talentosos: um gol inesperado e absolutamente contrário ao andamento da partida.
Depois dele, o Barça encontrou a situação que mais lhe convém (e que, vai saber?, talvez não encontrasse o jogo todo se não fosse aquele lance), os espaços e os ingleses se viram obrigados a ser menos cautelosos do que de costume. Ferguson talvez tenha colocado atacantes demais muito cedo, abrindo mão do meio de campo. Sua aposta do início do jogo deu errado muito cedo e, em seguida, o time não soube reagir. Agora tratar Ferguson, justo Ferguson, como um Celso Roth teimoso que não tem ideia do que está fazendo e evocar o tal “nó tático” é coisa de quem quer ter o gostinho, por meia dúzia de segundos, de se sentir mais sábio do que um dos treinadores mais importantes da história do esporte.
By the book Uma das lembranças mais legais que tenho de dez anos atrás, quando o Manchester United fez o mesmo que este Barcelona e venceu liga nacional, copa e titulo europeu, foi ter lido depois The Unique Treble, um livro delicioso em que Alex Ferguson relata detalhes, situações, alterações táticas e historinhas da campanha. O 2009 do Barcelona definitivamente merece coisa parecida. O mercado editorial espanhol provavelmente terá fôlego para fazer, embora eu duvide que com a mesma qualidade.
Quase sempre, quando a cerimônia parnasiana da FIFA anuncia o melhor jogador do mundo, muita gente reclama. Ou porque naquele momento, fim do ano, o sujeito já não é mais o melhor indiscutível (como Cristiano Ronaldo em 2008), ou porque se levou demais em consideração o desempenho em um sógrande torneio, e não o conjunto da obra (como Cannavaro em 2006) – o que, no fim das contas, dá na mesma, já que os principais títulos se decidem no meio do ano.
Acontece que, se quem ganhasse sempre o prêmio de melhor jogador do mundo fosse efetivamente o melhor jogador do mundo, não faria sentido realizar a eleição anualmente. Era melhor esperar com distanciamento critico até que os fatos tomassem sua verdadeira dimensão, chamar Eric Hobsbawn para presidir o júri e, aí sim, entregar os prêmios (póstumos).
Conjunto da obra não ganha troféu, e os troféus são a única coisa que entra imediatamente para a História. Então, em ano de Copa do Mundo, se um cara é decisivo para o titulo, tem mais é que largar na frente dos outros. Este ano não é de Copa, mas é de uma final de Liga dos Campeões que nasceu com cara de Muhammad Ali x Joe Frazier em Manila; que, apesar de ser apenas mais uma, é a última instância para determinar quem manda no futebol hoje. Em campo, estarão quatro dos principais candidatos (e só não digo “únicos” porque Ibrahimovic não me deixa) a melhor do mundo em 2009: Cristiano Ronaldo, Messi, Xavi e Iniesta. Se algum deles se destacar, vai levar o prêmio – independente do que aconteceu nos seis meses anteriores ou aconteça nos seis seguintes. Soa injusto? Mas não é.
Moral Mesmo com ingresso a 15 euros – 20% do preço mínimo para um jogo importante -, o Santiago Bernabéu recebeu 45 mil pessoas (o que, para o Real Madrid, é pouco) no jogo de domingo com o Mallorca. Porque os torcedores, claro, sabiam o que esperar. Longe deste espaço laico querer estabelecer relação entre as duas coisas, mas no santíssimo dia seguinte à derrota por 3 x 1, anunciou-se que Florentino Pérez é candidato único à presidência do clube.
Bons costumes Na comemoração do título Espanhol, domingo, quando Gerard Piqué agarrou o microfone, animou o Camp Nou gritando: “Un bote, dos botes, madridista el que no bote” (em tradução livríssima: “Ista, ista, ista, quem não pular é madridista”). No dia seguinte, Xavi veio publicamente dizer que na hora do titulo deve-se pensar na própria equipe e que é preciso ter mais respeito. Será que eu sou o único velhaco antiético que não vê ofensa nenhuma na brincadeira de Piqué e acha o moralismo das declarações de Xavi uma tremenda babaquice?
Quer dizer que, da mesma forma que um gol do Villarreal no último minuto atrasou o título espanhol do Barcelona, outro gol do Villarreal no último minuto o antecipou. Para desespero do sindicato de limpadores de rua de Barcelona, a madrugada do sábado já foi a quarta comemoração na rambla deCanaletes em menos de um mês – uma pelos 6-2 no Santiago Bernabéu, uma por chegar à final da Champions, outra pelo titulo da Copa do Rei e agora o Espanhol.
Faz bem para a equipe, claro: jogar o mínimo de partidas possível em que precisa de algum resultado. A partir de sábado à noite, Pep Guardiola sabia que, como o Manchester United, teria dez dias inteiros unicamente para preparar a equipe para a decisão do dia 27. Para a parte prática, claro, é o melhor que podia acontecer.
Acontece que, psicologicamente, esta temporada é perigosíssima, porque, apesar dos dois títulos e da campanha até a final, o Barça pode acabar com sensação de derrotado. Comemorou-se muito o que aconteceu até agora, mas sempre com a cabeça na final de Roma. Com uma derrota para os ingleses, o gosto na boca, o balanço moral da temporada será duvidoso. Será menos catártico, por exemplo, do que a do Real Madrid campeão espanhol na temporada passada.
“O Manchester United também”, contestará algum de nossos atentos colegas de cátedra. “Também ganhou o inglês e só agora, por último de tudo, disputa o jogo mais importante da temporada.” Sim, mas o Manchester não tem a obsessão que os barcelonistas têm em recortar um pouco da vantagem gigantesca que os rivais do Real Madrid têm quando o assunto é titulo europeu. O Manchester é o atual campeão de tudo – inglês, europeu, mundial. Quando parar para se decepcionar com um derrota decisiva, vai olhar para trás e ver não o titulo inglês deste ano, mas essa série vitoriosa toda. O Barcelona não. Perder em Roma vai significar olhar para trás e ver um titulo espanhol – o que está muito bom, mas não é nada que não se esperasse apos um bicampeonato do Madrid – e uma Copa do Rei que, a não ser quando acompanha as outras duas pontas da Tríplice Coroa, não vale nada.
A este Barcelona não restam meios-termos: ou vai ser uma equipe para entrar para a história como a melhor do clube em todos os tempos, ou vai acabar, de alguma forma, sendo uma vitima da expectativa que criou à base de tanto futebol bonito.
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No jogo mais importante deste final de temporada, o Atlético de Madri tomou conta do Valencia, atacou o jogo inteiro e conseguiu a vitória por 1 -0. Está agora em quarto lugar e, com Athletic Bilbao e Almería como próximos adversários, só perde a vaga com uma vacilada enorme – dessas que o Atlético é plenamente capaz de protagonizar.
Apesar disso, a atração do jogo e aquilo que mais será comentado para o futuro foi o lance que resultou no pênalti convertido por Forlán, quando Kun Aguero mergulhou na frente do goleiro Cesar. Depois do jogo, ele próprio admitiu que não foi nada. Para quem já marcou dois gols de mão e é genro do mano de Diós himself, é uma fama cada vez mais perigosa para quem leva a vida correndo de quartos-zagueiros moralistas.
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Você tem a impressão de que o Real Madrid já não está mais nem aí e que parece já haver uma lista de dispensa pronta? Só impressão??
Não se trata exatamente de decepção, porque também não se tratava simplesmente do instinto catastrofista que todos temos de torcer para o mais fraco. Catastrofista, sim, não justiceiro, porque quando torcemos para o mais fraco o que a gente deseja, no fundo, é presenciar grandes enredos: lágrimas de estupefação, apedrejamentos de ônibus, entrevistas coletivas constrangedoras, implosão de projetos a longo prazo. É o mesmo motivo que nos atrai às disputas de pênalti e programas de calouros. Mais do que uma vitória comovedora, o que a alma pede são lagrimas; é o drama que, se não consegue na final da Copa do Rei, consegue no próximo lançamento da Globofilmes. Se for para odiar Olga, se for para odiar Jayme Monjardim,se for para odiar a novela das oito, faça-o com uma razão clara: pela perfídia de identificar um traço psicossocial e despudoradamente se utilizar dele – e unicamente dele; abdicando de correr qualquer risco – para ganhar dinheiro. O raciocínio é traiçoeiro e pode te levar a condenar equivocadamente Alfred Hitchcock, os Beatles ou aqueles que torceram pelo Athletic Bilbao na final de ontem contra o Barcelona. Portanto, pense bem antes de sair escrevendo por aí qualquer barbaridade.
Enfim, não se trata de decepção. Os próprios jogadores do Athletic tiveram a honestidade facial de não demonstrar exatamente decepção ao final do jogo – não quando o Barcelona já definira o resultado meia hora antes, quando fez 3-1 com o golaço de Bojan. O sonho acabou? Só o dos torcedores – que adoram (e pagam caro por) uma boa razão para sonhar, mesmo sem ter quase nenhuma razão concreta para isso. Por isso é que o espetáculo da decisão no Mestalla veio deles. O sonho do time do Athletic Bilbao durou 32 minutos: o tempo de o jogo começar, o Athletic abrir 1-0 e o Barça empatar com Touré Yaya. A partir dali, era tudo real demais para tentar ser modificado. Se houve choro e tristeza do lado dos bilbainos, foi só por solidariedade ao sonho da torcida e por se emocionar com a atitude dos torcedores de continuar apoiando a equipe mesmo depois do fim do jogo. A atitude, na verdade, de viver mais um pouco do sonho – e não a realidade previsível e escancarada.
Faz absoluto sentido: aquela gente toda pediu um dia de dispensa no emprego, viajou 600km até Valência e pagou mais caro do que devia pela diária do hotel na cidade lotada. Por que diabos ficar desesperado e choroso só porque o mundo seguiu seu curso natural? É questão de bom senso, não de amor incondicional a coisa nenhuma: do mesmo jeito que o Barcelona comemorou discretamente depois da goleada – porque não faria sentido agir de forma diferente – , os torcedores do Athletic preferiram continuar curtindo a vida e comemorando o fato de ter chegado até meia-dúzia de manchetes de jornal depois de tanto tempo. O resto – as lágrimas, a “louvável atitude” daqui, Eto’o vestindo um publicitário cachecol do rival ali – é puro Jayme Monjardim. Fuja.
A Copa do Rei só tem alguma importância quando o time é eliminado dela ou quando conquista o título. Só serve para criar crises – como quando o Real Madrid foi eliminado pelo Real Unión, da 3ª divisão, e acelerou a demissão de Bernd Schuster – ou para salvar temporadas, como salvou a do Valencia no ano passado. Para cornetar e para comemorar, não importa quem jogou com reservas ou não: aquele é um dos torneios mais tradicionais do planeta, o segundo maior do país e não se fala mais nisso.
A final de hoje entre Barcelona e Athletic Bilbao, por exemplo, deveria ser uma situação em que os catalães não têm muito a perder: jogaram o torneio todo com time misto, já quase garantiram um dos títulos que importa e estão na final do outro. Seria o caso de jogar tranquilo, aproveitar o fato de ter mais talento e ver no que dá. Mas não vai ser.
A decisão desta noite em Valência é aguardada com ansiedade por toda a Espanha e não só porque pode ser o primeiro de três títulos do Barça na temporada. No último treinamento do Athletic Bilbao em San Mamés, domingo, apareceram 18 mil torcedores. Para despedir o time no aeroporto, mais 2 mil. A prefeitura instalou 22 telões pela cidade e seis no estádio, que estará lotado. Se o Athletic ganhar, iguala o recorde do próprio Barça, com 24 títulos.
A Copa do Rei, insisto, serve para pouca coisa, mas serviu para que uma das torcidas mais orgulhosas do mundo tivesse a ilusão de que os bons tempos de time grande voltaram. E, no fundo, ela tem razão. Coisa de time grande é isso mesmo: fazer com que o duelo entre a equipe mais badalada do mundo e o 11º colocado da Liga ganhe cara de algo épico.
Misto Na final de hoje, o Barça novamente não terá o time titular, em parte porque não pode: Andrés Iniesta se machucou no domingo e, como Thierry Henry, só deve retornar na decisão do dia 27 contra o Manchester United. Eric Abidal, suspenso para a final da UEFA, também está suspenso hoje. Rafa Márquez não joga mais nesta temporada.
Os tais bons tempos Os dois times decidiram uma Copa do Rei pela última vez em 1984, naquela que foi a última e mais famosa partida de Maradona pelo Barcelona: o argentino conta que foi chamado de “sudaca (termo pejorativo para “sul-americano”) de mierda” e reagiu distribuindo sopapos e voadoras ao fim do jogo, dando início a uma tremenda batalha campal. O Athleticvenceu por 1 a 0.
Conhece a história daquele jogo? Se não, dá uma olhada só:
Coluna publicada no Jornal Placar de 13 de maio de 2009.
Este time do Valencia tem uma capacidade enorme de, em alguns momentos isolados – normalmente logo no começo e quase no fim da temporada – fazer com que a gente crie uma expectativa de espetáculo e sucesso. Quem assiste ao desempenho de Joaquín, Villa, Silva e Mata num jogo como os 3-0 sobre o Real Madrid no sábado e ainda lembra que o banco tem Pablo Hernández, Morientes e Vicente já começa a projetar uma temporada 2009/10 cheia de glórias, quando aí sim as coisas vão engrenar.
E então você se lembra que metade desses sujeitos até lá estarão ou vendidos, ou lesionados, e que o clube que tem uma dívida do tamanho das paellas da porta do Mercado Central. E então quando você vê a espetacular atmosfera futebolística que está tomando conta da cidade nas últimas semanas – mais ainda por receber a final da Copa do Rei – dá mais pena do que qualquer outra coisa.
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Dá para escrever quase o mesmo texto para o Atlético de Madri: time bom, que no papel parece melhor ainda e que, portanto, nos deixa animados com as possibilidades para a temporada seguinte. Não à toa, são justamente os dois que encabeçam a briga pela quarta vaga na Champions. Graças a Diego Forlán, que inventou a virada por 3-2 do Atlético sobre o Espanyol no domingo, a rodada do fim de semana que vem tem aquele que é o melhor jogo entre todos os que faltam ser disputados até o fim do campeonato: Valencia x Atleti, no Calderón. Como dizia outro dia: para mim, quem ganhar leva a vaga.
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Os jogadores do Betis diziam outro dia estar assustados com as ameaças de morte que recebiam da torcida por meio de faixas colocadas no estádio Manuel Ruiz de Lopera. E, depois de perder para o time reserva do Athletic Bilbao, o elenco viu seus piores medos se concretizarem em forma de….. ovos! Porque, afinal, o romantismo ainda vive.
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Estava quase achando que adiar a conquista do título por causa de um gol aos 47 do segundo tempo, depois de estar ganhando por 3-1, foi o melhor que poderia ter acontecido ao Barcelona, mas não é certo. O melhor teria sido ganhar logo esse jogo, colocar os sobrinhos dos diretores para jogar os próximos e se concentrar unicamente em duas partidas: a de quarta-feira contra o Athletic Bilbao e a do dia 27 contra o Manchester United. Todo mundo pode passar uns dias acordando mais tarde, treinando jogada ensaiada, fazendo teste físico, jogando dominó. Claro.
Mas, deixando de lado a alternativa prosaica e sem-graça de se conquistar o titulo antecipado em casa, com mais uma das incontáveis vitórias convincentes, o melhor que poderia acontecer ao Barça era sofrer um susto desses. Até porque é um susto que não significa nada de prático, já que no sábado que vem há boas chances de o próprio Villarreal segurar o Real Madrid em casa e/ou de uma vitória em Mallorca. E, principalmente, foi um susto que não aceita lamentações e que serviu para se valorizar ainda mais o milagre de Iniesta no meio da semana passada. A torcida no Camp Nou (e a já reunida para comemorar o título na Rambla de Canaletes) se surpreendeu, se chateou, mas não dramatizou muito o gol sofrido. Teria sido cínico achar um absurdo que o destino mude assim, de um momento para o outro, segundos antes do fim. Uns instantes depois, a sensação dos torcedores já era quase de alívio; de quem agradece que o castigo compensatório do destino tivesse sido tão brando.
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A única notícia ruim de verdade foi a lesão de Andrés Iniesta, que durante algumas horas de desespero, até os exames desta segunda-feira, chegou a ser colocado até como dúvida para enfrentar o Manchester. Ele fica fora só da decisão da Copa do Rei quarta-feira.
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Não sabe o que é uma dívida do tamanho das paellas da porta do Mercado Central?
Para alívio das bandas largas por toda parte, a programação extra-canal-128-da-Sky deste final de semana inclui dois dos jogos mais interessantes da rodada, ambos na ESPN Brasil:
- Valencia x Real Madrid – Sábado, 17h: Vai ser curioso ver no que resulta dentro de campo o clima de resignação que parece tomar conta do Real Madrid depois da chapoletada hiper-realista de domingo passado. Juande Ramos já fala em tom de ex-técnico, e o Marca e o As já preparam a lista de despensa – para não falar do tapete vermelho, das rosas e das 15 virgens vestais para receber Florentino Pérez.
A coisa está tão propensa a revoluções da ordem que até Raúl pode estar de saída. Não para inaugurar, com três anos de atraso, um retiro de ex-jogadores, mas para ganhar 40 milhões de euros para passar quatro anos dirigindo o Hummer de Robinho all over Manchester.
Se o abaixo-assinado em prol do terceiro lugar está adiantando algo em Valência não se sabe, mas é fato que os ingressos para o jogo do Mestalla estão valendo hoje 200 euros nas mãos dos cambistas. Quer dizer: de um lado, New York, New York na vitrola, mais água do que whisky no copo, clima de fim de festa explícito e inegável; do outro, comoção popular para continuar sendo time grande sem precisar se vender para algum milionário a leste de Costantinopla. Tentador, não?
- Atlético x Espanyol – Domingo, 16h: O Espanyol passa por aquele momento da temporada em que todos se perguntam: “poxa, mas por que não jogou assim desde o começo?”. Quando, claro, o equilíbrio do universo simplesmente não funciona assim. Nós podemos até acompanhar o futebol rodada a rodada, mas os fenômenos que realmente importam não seguem esse ciclo. Cada segundo relevante do mundo leva – feitas as contas assim, de cabeça – de nove a dez meses para passar. Dentro desse segundo, uma partícula qualquer de matéria – digamos, o Espanyol – percorre o caminho do ponto A ao B, e o que acontece é que o universo não quer nem saber de que trajeto a partícula se utilizou para percorrer a distância A-B. Para o universo, não existem as 12 rodadas de choro, escuridão e ranger de dentes; como não há recuperação heróica e seis partidas de invencibilidade. O universo, visto do modo como importa, por um conjunto de lentes telemétricas, objetivas e pacientes, se resume a isso: o Espanyol 2009 é uma equipe mais ou menos e, como tal, termina numa posição mais ou menos. Sem tramas paralelas ou subtextos. O universo não para nem um segundo para ler jornais, porque está sempre no segundo seguinte. Por isso, amigos fiéis e quânticos que seguem por aqui, o lógico seria constatar que o jogo no Vicente Calderón não vale nadica de nada – como tanta coisa menos o amor – , mas, veja lá: são dois times motivados; um mais ou menos, quase bom e o outro bom, quase bem bom; têm Aguero, Forlán, Kameni, Nenê (!!)… Vai me dizer que você prefere ver os primeiros segundos do Brasileirão?
- O Barcelona também tem um jogo importante, não esqueçamos. Não tanto pelo jogo contra o Villarreal – que é apenas a primeira de uma série de chances de acabar com o campeonato oficialmente -, mas pelo que vem a seguir. A semana passada foi intensa, com o clássico e a semifinal em Stamford Bridge, e a seguinte tem a final da Copa do Rei. Duas semanas depois, a final contra o Manchester United. Thierry Henry, por exemplo, já não joga mais nenhuma vez até a final de Roma. Ninguém quer entrar em campo precisando de vitórias entre uma decisão e outra, certo? Nossa aposta é que o Barça chega babando para garantir o titulo agora mesmo e tentar viver de uma vez por todas as três semanas mais contentes de sua história.
- Ah, sim só para lembrar quem por casualidade tenha esquecido: além do Barcelona, tem mais um time que conseguiu vaga para a final da Copa do Rei, quarta-feira que vem. É o Athletic Bilbao, que deve jogar com time misto contra o Betis no sábado.
“Fez-se a justiça! Fez-se a justiça!”, grita ao telefone o Grão-Vizir de Terrassa Josep Ponset, na ocasião querendo fazer valer seu auto-outorgado título de porta-voz da torcida do Barcelona no além-mar. E, como todo autêntico pensamento (e “pensamento” claro que é só maneira de dizer) de torcedor, trata-se de uma bobagem. Compreensível, apaixonada, bela: se quiser pode chamar disso tudo, mas uma bobagem.
Não foi um ato de justiça, nem a vitória do futebol ofensivo sobre o defensivo. Da mesma forma, se o Barça fosse eliminado, não teria sido um nó tático, nem o time dos sonhos sendo desmascarado. Foi um confronto equilibrado – desses que o Barcelona enfrentaria algumas vezes por ano se jogasse numa liga como a inglesa. Foi um confronto de times cujas maneiras de jogar se encaixam e de treinadores que foram coerentes: Pep Guardiola por não modificar a maneira como coloca o time em campo normalmente e Guus Hiddink, por fazer o contrário.
O Chelsea fez quase o mesmo que havia feito no Camp Nou. A diferença, ao jogar em casa, foi sutil: a marcação um pouquinho mais adiantada e dois de seus melhores jogadores, Lampard e Essien, jogando como o que são: dois dos meio-campistas mais completos e eficientes do mundo por sua capacidade de fazer tudo – defender, armar, atacar – e não apenas volantes protetores da zaga.
Durante boa parte do tempo, principalmente depois de abrir a vantagem por 1-0, parecia que a estratégia seria o suficiente: o Barcelona demorou a entender como atacar, porque não está acostumado a fazer pressão da maneira como precisava. Porque o time não está acostumado a enfrentar, em desvantagem, equipes que sabem se defender tão bem e que, com a bola no pé, gerem preocupação. O Barcelona não sabe bem o que é abafar, arrombar uma porta fechada, porque normalmente não precisa: o normal é que o time toque a bola, envolva, convença pelos argumentos e, quando o adversário vê, a porteira está aberta.
Henry fez falta, e algum zagueiro (Puyol ou Rafa Márquez) também. Touré Yaya estava meio perdido jogando na zaga (e não digo só pelos 16 quase-pênaltis e semi-pênaltis que cometeu) e Keita e Busquets, completamente perdidos nas posições que seriam de Touré e Xavi. Por causa das ausências, dois dos craques do time que estavam presentes – Iniesta e Xavi – tiveram que jogar de forma diferente: Iniesta não pôde vir de trás com a bola carregada e Xavi teve que jogar mais adiantado. Por isso é que, para mim, a princípio teria feito mais sentido sair jogando com Bojan no lugar de Henry e manter Iniesta no meio-campo ao lado de Xavi – como Guardiola efetivamente fez no segundo tempo. (Mas sempre tendo em mente que quem treina o time a semana toda e sabe o estado de ânimo de cada um é ele.)
Não é que o Barcelona tenha jogado exatamente mal, mas não jogou – nem hoje, nem semana passada – como o Barcelona; mais por méritos do Chelsea do que demérito seu. Os dois jogos foram dignos dos empates que aconteceram, e é aí que, de novo, eu questiono os tais dos gols fora de casa, cujo lado bom confesso que até hoje não consegui enxergar. Este confronto Barça x Chelsea, como tantos em todos os torneios eliminatórios, claramente terminou empatado e merecia seguir para algum critério mais palpável (inclusive a disputa de pênaltis) para determinar um ganhador.
O gol de Iniesta foi um desses momentos lindos, que a gente aguarda semanas para testemunhar, e a passagem do Barcelona para uma final aguardadíssima contra o Manchester (“jogo do século” anyone?) foi justa. Mas que uma coisa fique clara: se o gol não tivesse saído, a classificação do Chelsea também seria.
PS: Se Andrés Iniesta ainda não tinha (e já deveria ter…) um lugar garantido no palco da Ópera de Zurique no final do ano, parece que agora o voo está reservado. Se o baixinho não é um dos três melhores do mundo hoje, não sei quem pode ser.
A partir de hoje, o 6×2 de domingo do Barcelona sobre o Real Madrid vai voltar a ser assunto. Porque não importa o que aconteça no jogo de volta contra o Chelsea: alguém sempre vai ser capaz de relacionar uma coisa à outra. É o preço que um fato paga por ser histórico: carregar em sua órbita tudo o que a ele se segue; passar a ser a medida de todas as coisas.
Então, diante de uma vitória do Barcelona, será sensato dizer o que aconteceu: para a equipe, o “jogo do ano” já havia passado. Apenas terminar como campeão espanhol teria sido pouco para um time tão paparicado durante meses, mas a goleada no Santiago Bernabéu já havia garantido que a temporada entraria para a história. Que estava, portanto, ganha. Assim foi fácil viajar até Stamford Bridge: sem pressão, cheio de moral, fazendo com que, mesmo em casa, o Chelsea chamasse o Barça de Vossa Excelência e aguardasse com cara de cadafalso os golpes inevitáveis do ataque dos sonhos.
Mas e se o Barcelona perder? E se jogar mal? Fácil: para o time, o “jogo do ano” já havia passado. Estamos falando de uma semifinal de Liga dos Campeões, e para isso todos têm que estar 100% concentrados. Os catalães celebraram a goleada iconoclasta, encheram-se de confiança, deram a temporada por ganha e, com isso, só despertaram mais ainda a gana do Chelsea de parar o suposto ataque dos sonhos – como já havia feito no Camp Nou.
As duas versões estão prontas, só aguardando para virar verdade. Portanto, assista ao jogo de hoje sem se preocupar com explicações. A culpa, não importa do quê, foi da goleada do Barcelona sobre o Real Madrid.
Nove por ¾ de dúzia Parece que ao final da temporada o Barcelona vai concretizar dois negócios que estiveram perto de acontecer nos últimos dois verões: a saída de Samuel Eto’o e a chegada de Diego Forlán como seu substituto. Pudera: o uruguaio é no mínimo tão goleador quanto o camaronês e não tem nem 10% da marra.
Prova de fogo Rubén De La Red, do Real Madrid, que desmaiou em campo no dia 30 de outubro, não aguenta mais exames (e que não chegam a conclusões). Semana passada realizou uma biópsia que o manteve dois dias na UTI. Segundo ele, “este é o último dos últimos”. O resultado – que deve decretar se o jogador de 23 anos pode ou não seguir a carreira – deve sair em um mês e meio.
É Barão de Salamanca, mas nasceu em Uniéjøw, Polônia, como forma de protesto. Desde a pré-puberdade vive no Brasil, onde trabalha como correspondente para o diário El Pueblo, de Castilla y León. Come com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves e, a cada dois anos, tenta de novo ler James Joyce. Não contém glúten.