Poucos cargos são tão interessantes no mundo do futebol como aquele que, há mais de uma década, ocupa Johan Cruyff em Barcelona. Em Barcelona ou na Espanha, ou na Catalunha, ou no Barcelona – ou em lugar nenhum, pra ser realmente preciso.
Quer dizer, Cruyff tem uma coluna no diário El Periódico de Catalunya, mas ninguém em sã e catalã consciência ousaria descrevê-lo como “articulista”, porque não é esse o cerne. Aquilo é só uma desculpa semanal e concreta para reafirmar que o mito segue vivo, um pouco como o Granma em Cuba.
O holandês normalmente não escreve nada de novo, mas usa o fato de assinar um texto para continuar tendo uma razão oficial para que as pessoas deem destaque àquilo que ele tem a dizer sobre qualquer coisa – e aqui o termo é usado com precisão – relacionada ao Barça. Diante de qualquer crise, comemoração ou efervescência política, a primeira pessoa a ser consultada, e aquela cuja opinião é mais reverberada, é sempre Johan Cruyff, apesar de há 13 anos ter deixado o comando do time.
Nesses 13 anos, Cruyff não fez praticamente nada e, ainda assim, continuou sendo uma das figuras mais importantes do clube. Todo mundo dentro do Barça morre de medo daquilo que o holandês possa dizer. Sem ter cargo nenhum, Cruyff esteve por trás, direta ou indiretamente, das chegadas de Louis Van Gaal e Frank Rijkaard e de um bocado de contratações.
Pois então, anuncia-se agora que os tempos de figura etérea acabaram e que Johan Cruyff agora tem um cargo: vai voltar a se sentar num banco de reservas, o da seleção de futebol da Catalunha. Para isso, não vai ter salário: não vai cobrar nem um centavo de euro da Federação Catalã de Futebol, que só se compromete a ajudar a fundação que o holandês mantém. E, por outro lado, a julgar pelo retrospecto de seu antecessor Pere Gratacòs, também não deve ter muito trabalho, já que nos últimos três anos a equipe (que não é uma seleção reconhecida pela FIFA, como a Catalunha não é um país reconhecido pela ONU) realizou um total de seis partidas.
Quer dizer, tudo continua como antes só que ainda melhor para o holandês: é um colunista sem ser realmente só um colunista; um político sem precisar fazer política; um dirigente sem ter que dirigir nada e, agora, um treinador que não treina. Tudo que só reforça aquilo que ele realmente é há anos: uma espécie de pastor ou de oráculo que tudo sabe e, por isso, que já basta, não precisa se dar o trabalho de efetivamente executar mais nada.
Nós, daqui de onde os dias têm 24 horas, te invejamos com respeito, Johan.
Os quatro hedonistas que ainda levavam a pré-temporada a sério assistiram ontem ao argumento mais decisivo desde os “porque sim” de Luís XIV. Num dia que teria tudo para ser perfeito para os peixes-banana, quer dizer, ideal para se chegar à brilhante conclusão de que “é, amigo, o Manchester está mais pronto para esta temporada do que o Valencia, que ainda precisa encontrar seu ritmo”, sucedeu o mágico.
E olha que eu não estou falando da ocasião até enfadonha, de tão esplêndida, que a História nos deu para dizer que “Valencia acaba com o Valencia”. Era para ser o dia do trocadilho que ninguém resiste a fazer, apesar de saber que todo mundo vai fazer também: o ponta-direita equatoriano criou as duas jogadas que resultaram nos gols do Manchester United em Old Trafford e alimentou ainda mais a esperança da torcida de não sentir falta de Cristiano Ronaldo. Mas ninguém sequer ligou para isso.
O que aconteceu e virou Manchete foi que o goleiro Moyá, contratado pelo Valencia junto ao Mallorca, finalmente fez sua estreia, mas… jogando de volante! É que Unai Emery já havia feito suas DEZ alterações quando o lateral-esquerdo Thiago Carleto se machucou (de novo…). Ou o time seguia jogando com dez, ou Emery usava o único que não tinha entrado ainda: Moyá!
O acontecimento virou piada, quer dizer, sejamos honestos: o acontecimento foi uma piada, excelente. Mas aí Unai Emery estragou o dadaísmo do momento e se justificou, com voz séria, dizendo que preferia pelo menos seguir com 11 jogadores e que, além do mais, nos treinamentos os goleiros são incentivados a treinar o jogo com os pés, cobertura, última opção, recurso, futebol moderno, elenco etc etc etc.
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É divertido ler que o Real Madrid agora volta a ter quatro jogadores convocados para a seleção espanhola, depois de um longo tempo. É mais ou menos como uma gravadora comprar os direitos autorais da discografia dos Rolling Stones e ficar famosa por ser um celeiro de singles número um da Billboard. Se não há como transformar gente do Madrid em jogadores de seleção, que se faça o contrário. Pronto.
A lista do gente fina Vicente Del Bosque para o amistoso do dia 12 contra a Macedônia é essencialmente a mesma da Copa das Confederações. Só Sergio Ramos que, machucado, dá lugar a uma surpresa: Nacho Monreal, do Osasuna, que claramente só foi chamado porque tem um nome legal.
Meio-campo: Xabi Alonso (Real Madrid), Sergio Busquets (Barcelona), Santi Cazorla (Villarreal), Cesc Fàbregas (Arsenal-ING), Xavi (Barcelona), David Silva (Valencia), Juan Mata (Valencia), Albert Riera (Liverpool-ING);
Ataque: David Villa (Valencia), Daniel Güiza (Fenerbahçe-TUR), Fernando Torres (Liverpool-ING).
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Duas breves atualizações que têm mais a ver com coeficiente humano do que propriamente com futebol (o que, num mundo ideal, passaria a ser regra):
- Josmer Volmy Altidore, o Jozy (você percebeu o que aconteceu aqui? O cara já se chamava “Josmer Volmy” e, não contente, ainda se rebatizou com um apelido como “Jozy”, que imediatamente remete o ouvinte a uma imagem de grandeza e peculiaridade. De verdade: como não esperar um craque quando você lê “jo-zy-al-ti-do-re”? Eu não me importo se Jozy Altidore é um craque ou não. Não me importo nem se é atacante, lateral, rapper ou produtor teatral. Eu me contento com o fato de que exista no mundo alguém chamado Jozy Altidore e faço quanta publicidade for possível disso. No duro mesmo.) Enfim, Jozy, o Búfalo de Nova Jérsei, finalmente decidiu para onde o Villarreal vai emprestá-lo. Enquanto continua tentando passar do CD número 2 da série “Learn Spanish before English rules the whole world”, Jozy vai treinar sua pronúncia de “po-tah-to” no Hull City, onde deve ter chance de jogar e vai enfrentar adversários de primeira. Estaremos de olho.
- Já Fran Mérida, o Cesc que não era Cesc, faz o caminho contrário: deixa a Inglaterra, o Arsenal, em empréstimo para o Levante. Que deve ser mais ou menos como estar há semanas em casa, de férias, acordando ao meio-dia, e ser mandado para a colônia de férias da Igreja, com seus pais se despedindo e dizendo “não faz essa cara, vai ser ótimo para você, você vai ver como ainda vai se divertir pra caramba com o resto da meninada, vai com o coração aberto”, para então virarem as costas aliviados e saírem para jantar camarões à provençal.
É Barão de Salamanca, mas nasceu em Uniéjøw, Polônia, como forma de protesto. Desde a pré-puberdade vive no Brasil, onde trabalha como correspondente para o diário El Pueblo, de Castilla y León. Come com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves e, a cada dois anos, tenta de novo ler James Joyce. Não contém glúten.