Cá e acolá
Viver num país cheio de problemas pode trazer um gravíssimo efeito colateral – além dos tantos outros efeitos laterais, paralelos, cardeais e perpendiculares debatidos amplamente nos botecos engordurados.
Acontece que quem vive num país desses participa dos problemas com tanta intensidade que começa a ter a nítida impressão de que esses só acontecem no seu país. E então os problemas, que por si só já são incômodos, começam a parecer insuportáveis e principalmente vergonhosos (porque exclusivos desta porcaria de lugar).
Por isso é curioso escutar uma frase como esta e constatar que ela não veio da entrevista do Cuca ou do Muricy: “Jogar às dez da noite não é, definitivamente, a melhor opção. Temos problemas para recuperar os jogadores no dia seguinte e para manter os hábitos alimentares.”
Quem disse isso foi Pep Guardiola, e sua frase se misturou a um bocado de reclamações de leitores e criticas de jornalistas pelo fato de Barcelona e Xerez terem disputado seu jogo antecipado da 15ª rodada às 10 horas da noite de uma quarta-feira.
A diferença principal entre aqui e lá – onde quer que aqui e lá sejam, não necessariamente o Brasil e a Espanha – está menos nos problemas, que são consequência desse terrível fato de sermos todos humanos, do que na maneira como cada povo se acostuma a lidar com eles.
Pode até ser, portanto, que as reclamações não sejam suficientes e ainda haja mais jogos às 10 da noite em dias de semana na Espanha. Mas, se isso chegar ao ponto de virar lei e ordem para todas as quartas-feiras do ano, pode mandar cassarem minha dupla cidadania, que eu prefiro ser brasileiro uma vez só.
Circunstancial
O Barcelona jogou sua partida de forma antecipada porque na semana que vem disputa o Mundial de Clubes em Abu Dhabi. Guardiola, Puyol e mais um bocado de gente já tem chamado o título de “uma das prioridades do ano”. A não ser que, depois de uma eventual derrota (na qual, sinceramente, não consigo achar maneira de acreditar), tudo vire “torneio amistoso” ou “Mundialito” outra vez.
Freelance
E o Atlético de Madri, adivinhem só? Está com o técnico a perigo, claro. Porque, depois de seis semanas no cargo – sendo uma e meia de descanso por causa dos jogos de seleções – Quique Sánchez Flores ainda não conseguiu fazer com que os supervalorizados do grupo joguem mais do que sabem, nem que os que realmente têm valor desistam da ideia de ir buscar companhia melhor. Compreensível, não?
Coluna randomicamente publicada no Jornal Placar de 04 de dezembro de 2009.
Notas relacionadas:
Autor: juanpolanco Tags: Jornal Placar, lábaro estrelado, o petróleo é nosso, Paralamas do Sucesso, samba suor e cerveja, VIver a Vida
Barcelona e Internazionale não podiam ter mais sorte do que isso: estrear um contra o outro, Eto’o contra Ibrahimovic. Foi garantia de que haveria enredo, de que no dia seguinte teríamos frases como “foi esquisito”, dita pelo camaronês sobre ver a camisa azul-grená do lado contrário do campo. Porque se tudo isso acontece daqui a alguns meses, todo mundo já tem preocupações demais e pensa na consequências daquilo como um jogo que vale três pontos na classificação do grupo.
E se você pensa que vamos fazer menção ao Unirea Urziceni e agir como se nada maravilhoso tivesse acabado de acontecer, está, claro, enganadíssimo: os romenos têm esse escudo ao lado, feito por aquele primeiro ilustrador dos desenhos do Pica-Pau e ainda por cima são conhecidos como “Chelsea de Ialomiţa” (assim mesmo, com te-tedilha, um “t” com um rabichinho, coisa que, pensando bem, não sei se o publicador do blog, que é conservador no último, vai aceitar) – o que, em romeno, deve ser o equivalente a “Milan da Vila Guilherme” ou “Arsenal do Andaraí”.
Pelo Real, o mais notável até aqui parece ser quanta importância ganha um ser a princípio estranho à constelação: o meia Granero, que não só é coadjuvante como é formado nas categorias de base do clube (embora, claro, o time tenha tratado de deixá-lo ir embora de graça e tenha necessitado recontratá-lo). O que acontece é que, com a saída de Sneijder, Granero é o único meio-campista que não é nem defensivo demais (como Diarra II, por mais que invente de atacar, Gago e Diarra), nem um passador com pouca velocidade para levar a bola de uma intermediária à outra (como Xabi Alonso e Guti).