
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta… (Meu Caro Amigo, Chico Buarque)
Não era o jeito que eu gostaria de começar a escrever meus posts. Queria estar falando aqui da excursão do Boca a Grécia. Do fato que Verón e Tevez estão fora do próximo amistoso de La Selección, contra a Rússia, na quarta-feira que vem. Que o River suou para ganhar, nos pênaltis, do Montreal Impact (provando que a máxima “não tem mais bobo no futebol” está mais viva do que nunca).
Mas o assunto da vez é outro. O futebol na Argentina, que deveria recomeçar no dia 14 de agosto (data da 1ª rodada do Apertura), está paralisado até segunda ordem. O motivo? Grana… Vou tentar resumir a história rapidamente:
Os clubes devem – e muito – ao fisco e aos jogadores. Cifra que segundo o jornal La Nación, chega próxima a casa dos 700 milhões de pesos (cerca de R$ 330 milhões). Vocês podem rebater rapidamente assim: “Grande coisa, no Brasil também os times devem uma grana para o Governo e nem por isso deixam de jogar…”
Pois é, caríssimo leitor, mas é que no caso argentino não tem Timemania para tirar a corda do pescoço. Os clubes têm que pagar, como qualquer cidadão/empresa normal, do próprio bolso (leia mais sobre a parte fiscal na BBC Brasil).
Enquanto isso, Julio Humberto Grondona, presidente da AFA (Associação de Futebol da Argentina), enche o peito para dizer que enquanto não lhes derem mais dinheiro, a bola não rola. O cartola negocia em duas frentes: a primeira é junto a TRISA, empresa que detém os direitos de transmissão pela TV, de quem exige mais dinheiro com um belo discurso: “Queremos da televisão cifras de acordo com o que o futebol gera, para que os clubes não tenham que vender seus jogadores como única saída”.
A segunda, a boca pequena, são os famosos sites de apostas internacionais… Aqui abro um parêntese. Fugindo da questão moral, o próprio Julio se contradiz. O dirigente “expulsou” representantes do site de apostas austríaco Betandwin há alguns meses, falando que o futebol não deveria ter ligação com esses sites. Hoje, já mudou o discurso e admite o diálogo. O site de pôquer online Pokerstars já estampa sua marca nas mangas da camisa do River Plate. Onde estava o Boca até dois dias atrás? Disputando amistosos… na Áustria.
Há 30 anos (!!!) no cargo, Don Julio, como é popularmente conhecido, é uma figura nefasta símbolo da administração caótica do futebol argentino. Ontem, ao deixar o bonito prédio da AFA, próximo ao aeroporto de Ezeiza, Grondona disse: “Não se trata de santos e pecadores. Tão pouco de clubes bem administrados e mal administrados. Se trata de uma realidade pela qual atravessam, alternadamente, todos os clubes.”
O mandachuva da AFA declarou certa vez ao jornalista Daniel Arcucci, do La Nación: “Talvez fui bondoso demais, por ter dado dinheiro. Melhor dizendo, a AFA tem dado muito dinheiro, e assim lhes dei a oportunidade de gastar demais. É igual a uma família…”
A “Família Grondona”, enquanto bem alimentada, segue a risca as regras de Don Julio. Quero ver quando faltar água no feijão…