07/10/2009 - 20:21
SALZBURG (amanhã acaba) – Depois da moleza de ontem, a jornada de hoje era longa: 300 km até Salzburg, embora um site mequetrefe tenha me informado que a distância era de 255 km, o que me deixou bem puto quando bati nos 255 km e não estava em Salzburg, mas sim em Bierbaum, que nem sei que pito toca e fica no meio do nada.
Gerd não reclamou, porque gosta de andar. Especialmente quando não tem ninguém por perto, na solidão de uma estrada que corte milharais e plantações de magnólias. É seu habitat, muito mais do que as rodovias cheias de caminhões e carrões rápidos e sem rosto.
Quando saímos de Viena, ainda na garagem do hotel, a módicos 14,60 euros a estadia (me estressei com o turco que cuidava do estacionamento de noite, o tonto não falava nada de inglês, e tem de falar inglês, não interessa se está na Áustria ou na China, o cara tem de entender pelo menos “quanto custa?” e “é aqui a garagem do hotel?”, senão volta pra Turquia e vai vender kebab), Gerd ligou e imediatamente desligou.
Ainda tem quatro litros no tanque, deixa de frescura, já vi com a régua, mas ele não quis saber. Torneirinha na reserva e funcionou. Legal, você, a gente no centro da cidade, só deve ter posto na periferia, na saída para a estrada, não sei onde é a estrada e se você parar no meio da rua, taco gasolina e ateio fogo, eu disse, e Gerd riu porque se a gasolina acabasse, eu não teria como tacar gasolina e atear fogo, lógica irretocável de um alemão oriental.
Bom, eu tinha de seguir para oeste, me orientei pelo sol, o dia estava lindo, foi o primeiro dia realmente de sol o tempo todo e calor desde que cheguei, e fui indo para oeste até que apareceu uma primeira placa para Linz, mais ou menos meio do caminho, e logo um salvador posto desses de calçada, duas bombas, uma cabine para pagar e já estava bom demais.
Na Europa, em geral, a gente mesmo abastece o carro e vai pagar, isso varia um pouco de país para país, e quando encostei Gerd no meio-fio, o cara já saiu da cabine, no posto dele, só ele abastece. Abri o capô e ele já começou a gritar, “óleo, óleo, aqui vai óleo”, me comovi com sua preocupação, mas eu sei, meu filho, vou pegar o óleo, está no portamalas, as coisas aqui respeitam uma determinada ordem, nada acontece ao mesmo tempo, fica frio, das calmen.
Coloquei o óleo e ele colocou a gasolina e tchau.
Fugindo das placas para a autoestrada, fomos deixando Viena pela periferia até chegar à 1, só isso mesmo, 1, sem letras acopladas, a estrada 1, que pelo meu mapa morreria em Salzburg, com alguma sorte na porta do meu hotel. Estava calor mesmo, e deu para viajar de janela aberta, uma raridade neste outono até agora frio pelos cantos por onde passamos. Acho que queimei só um lado do rosto, porque foi o tempo todo com o sol à esquerda e o asfalto à frente.
Combinamos de parar depois de uma hora de viagem, eu estava com fome e com vontade de comer pão com bratwurst, o último foi em Dresden. Meu GPS mental calculou a rota e o tempo de viagem e a ideia era chegar a Salzburg às 6 da tarde. Paramos numa cidade de beira de estrada, maior que a maioria, St. Pölten, que até agora não sei se é santo ou santa, simpática, segui a torre da igreja, onde em geral há um centro, no caso um “zentrinhum”, e foi tudo dentro do previsto, exceto a bratwurst, que não encontrei, e comi qualquer coisa.
Nessas estradas europeias, muitas vezes a gente tem a impressão de que o planeta é desabitado. Mesmo cruzando pequenas cidades, é difícil ver gente nas ruas. De vez em quando, velhinhos de bicicleta. Numa dessas havia um casal. O velhinho na frente, a velhinha atrás. Ninguém mais num raio de mil quilômetros, exceto eu e Gerd, e aí o velhinho resolveu virar à esquerda e fez um sinal espalhafatoso com o braço, mas não para mim, eu já tinha passado, acompanhava aquilo pelo retrovisor, o sinal foi para sua velhinha, que desde os tempos do império austro-húngaro deve fazer aquele trajeto de bicicleta, mas para garantir que ela não vai fugir com um recruta qualquer, o velhinho faz o sinal para virar à esquerda, e ela vira.
Só fui parar para abastecer de novo em Linz, e nem precisava, porque Gerd gastou muito pouco, e talvez tenha sido pela gasolina que coloquei em Viena. O mesmo ogro que gritou sobre o óleo naquele posto da calçada não me deixou escolher a Super 95, seja lá o que for isso, mas para mim sempre pareceu melhor que a 91, que não tem nada de super, e me obrigou a colocar a 91, e parece que com ela Gerd ficou mais econômico.
Em Linz, meu GPS mental recalculou o tempo de viagem. A cidade é grande e colada em algumas outras, e ali perdemos uma hora num trânsito infernal, uma chatice, mas tudo bem, depois engrenou de novo. O sol, àquela altura, já estava na minha cara, estamos indo para o oeste, lembrem-se, e tive de acionar o parassol (aquelenegócioqueagenteabaixaprosolnãobaternacara), agora com uma técnica diferente para não esbarrar no espelho, é difícil de explicar, mas dá, o problema é que o parassol fica na frente do espelho e oculta uma parte da visão, mas isso não importa, sobra espaço suficiente para ver o que é preciso ver do mundo às minhas costas, muitas vezes é melhor não ver nada atrás, mesmo.
A última parada foi a uns 20 km de Salzburg, para tomar um café e um Red Bull no postinho OMV, sempre muito acolhedores os postos dessa rede, e aí aparece um sujeito rebocando uma carreta com um Mini Cooper vermelho configurado para rali. Estava indo para uma prova que começa amanhã, no sul, e vai até domingo, e quem iria pilotar seu carro era ninguém menos que Rauno Aaltonen, que eu fingi saber quem era, claro, e depois, consultando a sagrada internet, descobri que deveria saber mesmo. Aaltonen, que tem 71 anos, foi campeão europeu de rali em 1965, seis vezes vice-campeão do Safari Rally, terminou o Rali de Monte Carlo em terceiro na geral em 1963 com o Mini igual àquele e ainda ganhou algumas provas do Mundial, tendo sido piloto oficial da Datsun, Fiat, Opel, Ford, SAAB e, possivelmente, da Gurgel.
Falei pro cara eu que também corria de carros antigos, ele perguntou qual e eu respondi que era DKW e agora é Lada, e ele não me pareceu muito impressionado. Na hora de ir embora, olhou para Gerd com um ar condescendente e me desejou boa sorte, o que me irritou um pouco e eu disse que não precisava de sorte. Ele, sim, com aquela caixa de fósforos disfarçada de carro.
E nada de muito mais notável aconteceu neste dia passado quase todo na estrada até chegar ao pé dos Alpes onde se encontra Salzburg, a cidade de Mozart, onde já estive pelo menos duas vezes, muito tempo atrás, e mesmo tendo chegado pela estradinha, e não pela estradona, reconheci uma ou outra esquina, e assim que dobrei à direita, putz, olha o hotel ali, não precisei bater muita perna, Gerd está neste momento descansando tranqüilo ao lado de um belo Scirocco, o carro mais bonito, dos novos, que vi por aqui, e amanhã vamos para Munique de tarde, é mais perto, 150 km, coisa rápida, a última jornada.
Acho que ficaremos emocionados, mas não há de ser nada. Alemães orientais sabem conter suas emoções. Vamos ficar bem.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo
Tags: Gerd, Salzburg, Viena
06/10/2009 - 22:44
VIENA (e agora veio a chuva) – Não vinha sendo lá um dia muito emocionante. Se fosse preciso editar os melhores momentos até as 5 da tarde, um deles seria o embate na garagem do hotel que quase resultou num Trabant arrancando uma cancela em Bratislava. Culpa exclusiva dessa falta de padrão mundial no uso de cartões para abrir cancelas. Alguns são engolidos pelas máquinas e está tudo resolvido, a cancela abre e você vai embora. Outros engolem e cospem, e só quando cospem você pode sair.
No caso eslovaco, a cancela era do modelo engole-e-cospe. Mas no que engoliu, arranquei com meus 26 cavalos sem perceber que a cancela não tinha aberto, e foi graças aos excelentes freios de Gerd que uma tragédia não aconteceu. Passado o susto, deixei o carro voltar um pouco para trás, peguei o cartão que fora devolvido e, aí sim, saí.
Um problema, isso. Ou engole, ou cospe. Não dá para ficar nessa indefinição a vida toda.
O outro momento digno de nota foi a ultrapassagem inapelável sobre um Daewoo na estradinha que liga a capital da Eslováquia à capital da Áustria — de novo, registre-se, sem nenhum controle de fronteira, uma vergonha, um carimbo a menos no passaporte. Salvo engano, foi a primeira que Gerd fez em condições normais de temperatura e pressão, pegando o vácuo de uma perua Audi que por pouco eu não jantei também, graças ao limite de 70 km/h naquele trecho, limite que eu estava firmemente disposto a desrespeitar.
Felizmente, no meio do caminho apareceu um sítio arqueológico que eu, sendo muito sincero, desconhecia. Era preciso sair da 9, a estradinha, para ver de perto. Como não tinha pressa e a tarde estava agradável, fui ver de perto. Me senti numa aventura de Asterix. Carnuntum é o nome do lugar, um centro militar romano cujas primeiras referências datam do ano 6 d.C., antigo pra cacete, estabelecido por Tiberius e, depois, sede de duas legiões daquelas que os gauleses adoravam detonar depois de tomar a poção mágica.
Foi um lugar importante, porque entre os anos de 103 e 107 acabou se transformando na capital da Panônia Superior (Panônia é um ótimo nome) e virou base central das frotas do Império Romano ao longo do Danúbio. Para se ter uma ideia de como a região era promissora, a capital da Panônia Inferior se chamava Aquincum e ficava onde hoje é Buda.
Se Aquincum prosperou, casou-se com Peste e virou a capital da Hungria, o mesmo não aconteceu com Carnuntum, apesar de alguns momentos de exuberância, como o período em que lá se instalou ninguém menos do que Marco Aurélio, ele mesmo, aquele Marco Aurélio, por três anos, para comandar os exércitos de Roma numa guerra qualquer. Nessa época, estamos falando dos anos 170 d.C., Carnuntum chegou a ter 50 mil habitantes, e como essa gente precisava de circo, além de pão, construíram dois anfiteatros para entreter a turma com gladiadores se espetando e bestas-feras despedaçando pobres coitados na arena. A farra acabou uns 200 anos depois, quando Roma largou mão de Carnuntum e foi cuidar de outras glebas, e aí os bárbaros germânicos tomaram conta do pedaço.
O que sobrou é, hoje, o sítio arqueológico, e fui a um desses anfiteatros, mas estava fechado. Só que tinha uma pequena passagem no meio dos arbustos e consegui entrar para fazer uns retratos.
E depois de conhecer Carnuntum, ainda que superficialmente, achei que nada mais iria acontecer no trajeto até Viena, muito curto, menos de 70 km, “doispaliten”, como disse Gerd quando saímos de Bratislava.
Viena é uma cidade grande, ampla e feia quando se chega pelo leste, cruzando vasta área industrial cheia de depósitos, refinarias e chaminés. Zentrum era o caminho das pedras, como quase sempre, e lá fomos à cata do hotel, sem mapa ainda, mas confiando no instinto gerdiano de achar tudo. Nos perdemos na primeira tentativa, mas tínhamos passado por outro hotel da mesma rede pouco antes, voltei pelo caminho que havia feito e pedi ajuda na recepção. O cara pegou um mapa, rabiscou o caminho certo e não teríamos muitos problemas para achar.
Foi aí que aconteceu a coisa mais incrível deste breve passeio pelo Leste. Às margens do Danúbio, pronto para dobrar à esquerda na ponte indicada, notei um carrinho se aproximando pelo espelho, até emparelhar com Gerd. Acreditem ou não, era um Trabi em versão militar, com uma enorme bandeira da Alemanha Oriental espetada no estepe traseiro. O cara fez sinais para mim, acenei de volta, puxa, que coincidência, mas ele insistiu, fez mais sinais, fui atrás e paramos logo depois de atravessar o rio.
Sai um sujeito grande do Trabi militar, vem à minha janela, estende a mão e diz: sou o presidente do clube de Trabant da Áustria. Eu, incrédulo: hã? Ele: presidente do clube, e vai ter um encontro de Trabis. Eu, incrédulo: hã? Ele: e vai ser agora, é aqui perto, me segue.
Parecia mentira. Liguei para o hotel, avisei que ia chegar bem mais tarde e, ainda sem acreditar, saí atrás do Trabi militar pelas ruas de Viena, para um encontro que eu jamais saberia que existiu se não fosse aquele encontro casual de dois Trabants à beira do Danúbio no meio de um trânsito desgraçado.
Na verdade, não era exatamente um encontro de Trabis, e sim um evento sobre a DDR num centro cultural simpaticíssimo, o Aktions Radius, que todo mês escolhe um tema e faz palestras, mostras, exposições, bastante modesto, até, nada de multidões, a chamada cena cultural vienense, se é que vocês me entendem. Para descolados como o Gerd, se é que vocês me entendem. Os Trabis foram chamados de última hora pela organizadora, Martina Handler é o nome dela, e éramos sete na calçada diante do centro cultural. E não é por nada não… Gerd era o melhor de todos, virou centro das atenções, me fizeram ligar o motor umas dez vezes, um cara me explicou que se arrebentar a correia é só colocar uma meia-calça de nylon no lugar, outro me disse para nunca limpar a régua que mede o combustível na calça antes de colocar no tanque, porque a eletricidade estática pode explodir tudo e ninguém se conformava com a história da minha viagem.
Oliver Galler, o presidente do clube, estava animadíssimo. Como todo bom dono de carro velho, falou sobre preços, peças, anos, modelos, me perguntou o que eu faço da vida, se ganho bastante dinheiro, e abriu o coração. Eu era motorista do ministro até hoje, disse Oliver. Pedi demissão. Estou livre, cansei de ser escravo. Vou morar na Síria. Na Síria? É, vou trabalhar para a ONU na Síria.
E o doido sou eu.
O evento da Martina era uma graça, e aos poucos foram chegando várias pessoas empolgadas com os Trabis e as histórias da DDR. Não era muita gente, umas 70 almas, se tanto, mas tinha uns canapés, cerveja, vinho, e até um cara vestido de policial da Alemanha Oriental, Michael Höfler, dono de um Trabi 1975 cinza papirus (fez questão de dizer o nome da cor; Gerd, descobri, é “Sky blue”) e de um blog sobre a DDR.
Lá dentro, painéis com fotos de Berlim, algumas delas recentes, de gente dormindo nos bancos das praças e pedindo dinheiro nas ruas, chamando a uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens da queda do Muro, e num determinado momento sobe ao pequeno palco uma moça muito bonita, vestida com o uniforme da FJD (Freie Deutsche Jugen, a Juventude Livre da Alemanha), entidade que reunia todos os jovens da DDR, Doreen era o nome dela, nascida em Berlim Oriental, há alguns anos vivendo em Viena.
Doreen explicou como era a vida do lado de lá, reproduziu a saudação obrigatória nas escolas, todos repetiram suas palavras, estavam lá para aprender um pouco de uma história tão recente e tão viva na memória dos alemães. Uma graça, a menina. Fui conversar com ela depois, e me contou que tinha dez anos quando o Muro caiu, que tinha muita saudade de sua infância, e que para uma criança política não existe, e por isso lembrava com muita alegria dos tempos em que ia à escola e seus pais tinham empregos seguros e estáveis.
Altiva, vigorosa, ar decidido, Doreen falou que vai voltar a Berlim, agora que terminou um longo namoro, e vai tentar reconstruir a vida lá. Foi quando escutei meu nome e era Michael, o policial, me chamando. A gente quer te dar um presente, falou, e me levou lá no palco, eu morrendo de vergonha, mas ao mesmo tempo feliz com tudo aquilo. Contou rapidamente quem eu era, o que estava fazendo ali, deve ter dito alguma coisa gozada porque as pessoas deram risada, e me passou o microfone. Fala em inglês mesmo, todo mundo entende, me tranquilizou, dando uma piscadela.
Aí fiz o maior discurso socialista da minha vida, chamando a todos de camaradas, pedindo desculpas por não falar nada de alemão exceto uma, duas e três cervejas, e assumindo uma certa maluquice na pequena aventura com Gerd. Disse também que por mais de metade da minha pobre existência vivi num mundo dividido em dois por um muro, e que essa história faz parte da vida de todos que estávamos ali, e que talvez uma das melhores formas de conhecê-la longe de qualquer teoria política era fazendo o que estava fazendo, dirigindo um Trabi pelo Leste, e todos concordaram, e disse também que não importava a ideologia de cada um dos que estavam ali, o fato é que estávamos conhecendo um pouco mais de uma história muito recente, e a história não pode ser esquecida, e se é impossível mudar o passado, é importante construir um futuro baseado em valores reais e humanos e danke.
As pessoas bateram palmas e Michael, o policial, me deu de presente uma bandeira da Alemanha Oriental, e foi tudo muito bacana, na hora de ir embora ele me guiou até a rua do hotel, nos despedimos com um abraço caloroso, e no fim das contas foi um dia bom, muito bom.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo
Tags: Bratislava, Gerd, Viena