SÃO PAULO(qualquer uma) – Primeiro se falou muito em McLaren, depois insinuou-se algo na Brawn, agora comenta-se que é a Toyota o destino de Kimi Raikkonen. Pelo menos a equipe diz que fez uma proposta. Seria ótimo para o time, claro, mas desconfio que não muito para ele. Afinal, a Toyota nunca fez nada de interessante na F-1 desde a chegada à categoria, em 2002. Não mudou nem a pintura dos carros e o visual dos uniformes dos mecânicos. E o rango é ruim.
Quinta-feira, naquela coletiva da Ferrari que eu apresento, perguntei ao Raikkonen se ele tinha planos para 2010. Sua resposta foi esclarecedora e longa. Duas letras: “No”. Ele pode correr no Mundial de Rali? Pode. Pode continuar na F-1? Pode. Pode não fazer nada? Pode. Kimi é um sujeito estranho e, por isso mesmo, gosto dele. E seu primeiro carro foi um Lada.
Eu, se fosse a McLaren, insistiria nele. Se fosse Ross Brawn, idem.
Falando em Raikkonen, aí embaixo está uma foto enviada pelo Tiago Marçal, blogueiro do pedaço. Ele e uma turma de fino-brasileiros, torcedores de todos os pilotos finlandeses de todos os tempos, levaram faixas e vodca, e bandeiras e tudo mais a Interlagos, domingo. E encontraram uns finlandeses de verdade que não se importaram em tomar Nova Schin. “O que vale é que tem álcool”, disseram. Entre eles, tinha até um que se chamava Mika Salo. Mas não era aquele, era outro.
SÃO PAULO (o que é feriado?) – É destaque na imprensa hoje a história de que Lewis Hamilton teria vetado Kimi Raikkonen na McLaren, ou ao menos pedido para que a equipe evitasse formar uma dupla com dois caras de ponta. Ele preferiria ficar com o morto do Kovalainen ao lado, ou alguém mais dócil, como Sutil.
O que reabre a velha discussão: é negócio ter dois pilotos “top” no mesmo time? Duplas como Piquet & Mansell, Senna & Prost, Hamilton & Alonso, Massa & Raikkonen, Alonso & Massa, Hamilton & Raikkonen mais atrapalham do que ajudam?
Eu nunca tive opinião formada sobre isso. Muitas vezes sai faísca demais e a equipe acaba perdendo títulos de bobeira. Em outras, os duelos internos acabam sendo mais interessantes que o resto do campeonato. E vocês, o que acham?
SALZBURG(linda noite) – Bom dia, macacada. Dando uma atualizada no noticiário, fiquei com a pulga atrás da orelha com essa história de que o futuro de Raikkonen pode surpreender. A matéria do Grande Prêmio fala em Red Bull e Renault. Mas sabe onde eu colocaria algumas fichinhas? Na Brawn.
SÃO PAULO(fica ou não fica?) – Uma coisa que tenho notado nas últimas semanas é o esforço da Ferrari para elogiar Raikkonen publicamente. Não faltam motivos. Desde o GP da Hungria, nas últimas 4 corridas, o cachaceiro fez quatro pódios: segundo, terceiro, primeiro e terceiro. Nessas quatro provas, somou 30 pontos. É mais do que qualquer outro piloto. Para comparar, de Budapeste para cá: 12 para Button, 22 para Barrichello, 7 para Vettel, 18 para Hamilton, só para citar alguns.
No comunicado oficial da Ferrari hoje, ele foi chamado de impecável, maravilhoso, soberbo, perfumado e sexy. “Tirou tudo do carro”, “não cometeu nenhum erro”, “guiou fantasticamente”.
Sabe o quê? Estou achando que a história de Alonso é menos certa do que todo mundo está insinuando. Que Kimi, nessa reação, está mostrando que vale a pena investir nele. Não vejo destino para ele, se sair da Ferrari. A McLaren, talvez. Faria sentido, porque Kovalainen é muito banana. Mas é tudo muito nebuloso.
A Ferrari, no fundo, está de stand by. Precisa ter certeza sobre Massa. Precisa conversar direito com Raikkonen. E do lado de cá, para especular algo e tentar chegar perto do que vai acontecer, ainda é preciso desvendar essa história de Fernandinho de vermelho.
Hoje, Kimi foi bem. Não excepcional, mas bem. Menos do que a Ferrari quer fazer o mundo pensar.
SÃO PAULO(jornada tripla hoje) – Kimi Raikkonen sempre anda bem na Bélgica. Foi sua quarta vitória em Spa, e esse rapaz sempre impressiona quando encaixa uma boa corrida. Se andasse sempre assim, ninguém na Ferrari estaria pensando em trocá-lo por Alonso. Troca que deve acontecer, no fim das contas.
Mas dá gosto ver Kimi sentando a bota. Sua largada foi fenomenal. Inteligente, esperto, foi para a área de escape, apontou e despinguelou, usou bem o KERS, não deu chance a ninguém, e na relargada resolveu a corrida ao passar Fisichella sem maiores dificuldades.
Depois, andou com o italiano em seus calcanhares a prova toda. E, nessas condições, é realmente o Iceman, um cara frio que não se abala e não comete erros.
Raikkonen não vencia desde a Espanha no ano passado. Tem feito um bom campeonato nesta temporada, no final das contas. Eu não achava que a Ferrari iria conseguir ganhar uma corrida, depois do fiasco da primeira metade do ano. Mas o carro melhorou, a turma trabalhou e Kimi merece todos os aplausos hoje.
Não sei quais efeitos essa vitória terá em seu futuro. Talvez nenhum. Esse moço, normalmente, não parece ligar para nada. Seja lá o que tiver resolvido fazer da vida, não é uma vitória em Spa que vai mudar.
Daqui a pouco eu volto, a corrida foi boa, merece mais posts.
SÃO PAULO(e olhe lá) – O desempenho de Kimi e Massa em Mônaco trouxe enorme melancolia à Ferrari, foi o que me contou Gola Profonda, em telefonema desanimado agora há pouco já da fronteira com a Itália, em Ventimiglia, bebericando um Segafredo curtíssimo num café que fica logo na entrada da cidade.
“Não tinha ninguém da imprensa no nosso motorhome depois da corrida”, disse o Gola. “E olha que o Luca pediu para a gente arrumar as mesas e colocar umas garrafas de tubaína para os jornalistas. Até os copinhos eram da Nadir Figueiredo. Tinha coxinha de catupiri e brigadeiro. Tudo coisinha simples, caseira. Nada de champanhe. Para a gente mostrar que está na luta para reduzir os custos. Mas só veio um repórter finlandês, e ele queria vodca. Foi embora quando falei que só tinha tubaína. Ele disse que não ia beber qualquer coisa.”
Perguntei por quê, já que deu pódio, troféu e tudo mais, não era para ser um dia de festa, imprensa italiana, brasileira, todo mundo trocando abraços e apertos de mão? Tudo bem, entendo, um terceiro lugar não é nada disso, mas depois daquele começo de temporada está de ótimo tamanho, não? Ao menos o Raikkonen, não estava feliz?
“Estava puto. Porque o Bourdais pontuou. A gente não falou no rádio, porque senão ele não ia buscar nem o troféu. Foi lá, ficou olhando as pernocas da filha da princesa, esvaziou a garrafa e quando chegou nos boxes é que lembrou do Bourdais. E o vesgo?, perguntou. Quando contamos que chegou em oitavo, jogou a taça na parede e chutou o bico do carro. Mas era o carro do Felipe. Aí o Felipe deu um bico no carro dele, também. E ficou tudo por isso mesmo.”
Mas, afinal, por que essa obsessão com o Bourdais?, perguntei. “Acho que tem a ver com o motor. O Kimi tem certeza que a fábrica dá um motor melhor para o Bourdais do que para ele por causa dos óculos.” Dos óculos? “É, tem um cara no departamento de motores que usa uns óculos muito grossos, e um dia o Kimi passou por lá e perguntou como é que um quatro-olhos daquele podia montar motores de F-1, e o cara ficou doido e chamou ele de bebum e foi uma bruta confusão, e o cara jurou que não ia ficar assim, e desde então o Kimi tem essa implicância com o Bourdais.” Entendi, finalmente.
Bom, mas e a equipe, não ficou animada com com a reação, o carro não voltou a ser competitivo, a brigar na frente? “Nada, o Felipe estava muito irritado o fim de semana todo ainda por causa da Espanha, descobriram que ele tinha gasolina no tanque no final, que não precisava economizar nada, que perdeu duas posições à toa, e exigiu mudanças para a Turquia, ele quer ganhar de qualquer jeito, porque só ele ganha lá e tal.”
E quais mudanças?, perguntei. “Maior autonomia, um tanque maior para não correr riscos, ele não confia mais nos caras que calculam o consumo e a quantidade de combustível, e vai ter um chassi novo, um pacote aerodinâmico bem diferente. Já tenho foto. Vou desligar e te mandar pelo celular.”
SÃO PAULO(cansou) – Kimi Raikkonen anda falando em parar. Não me surpreende. A justificativa é a mesma da Ferrari, sobre a qual falaremos adiante, em outro post: a politicagem que está tomando conta da F-1 e deixando o futuro absolutamente indefinido.
Gosto muito de Raikkonen. Acho que é um dos três melhores pilotos da categoria, mas não está guiando nada desde o ano passado. Saco cheio é algo que o afeta claramente. Seria uma pena perder um cara desse naipe. Não só pelo tanto que guia, mas pelos picolés, pelos diálogos com os engenheiros, pelo jeitão “não-tô-nem-aí”, que faz uma falta danada numa F-1 em que todos estão muito aí com tudo.
SÃO PAULO(another day in the office) – Desculpem a demora. É que como venho recebendo alguns telefonemas ameaçadores, sempre em italiano, resolvi gravar todas as ligações que vêm do exterior. Cautela e caldo de galinha, sabem como é… Querem que eu revele a identidade secreta de Gola Profonda, parece que já descobriram que informações sigilosas e confidenciais estão saindo de dentro da equipe. Mas não posso. Preciso preservar minhas fontes, mesmo se elas passem a impressão de ser meio amalucadas, como é o caso de Gola. Acabei de falar com ele. A transcrição é que demorou um pouco. Vai já traduzido, porque Profonda, vocês devem imaginar, não é brasileiro.
- Gomes?
- Onde você está?
- Na catedral do Gaudí. Preciso te contar umas coisas.
- Você sempre precisa contar umas coisas, Gola. Desembucha. E fala rápido, estão me pressionando para que eu conte quem você é. Só não contei ainda porque não sei.
- Ótimo. Vamos continuar assim. Quer que eu comece por onde?
- Raikkonen.
- Raikkonen. Estava felicíssimo. Desde a primeira volta. Quando o Bourdais e o Buemi bateram, ele começou a falar “chupa, palhaços” no rádio. Dois a menos, disse. Perguntou se o vesgo tinha morrido. Cortamos o rádio com medo de punição da FIA. Cada vez que ele passava pela reta dos boxes, dava uma banana para todos nós. Aí ligamos o rádio e o chamamos para um pit stop.
- E ele?
- Parou no meio da pista. Desligou o carro e parou.
- Como assim? Sem mais nem menos?
- Começou a rir e disse que não tinha pneus para colocar, por isso não ia adiantar fazer pit stop algum. Fomos ver atrás dos boxes. Não tinha mesmo. E ele continuou gargalhando. Disse que ontem tínhamos deixado ele nos boxes para economizar um jogo de pneus, agora foda-se. “Cadê os pneus?”, perguntou o engenheiro, desesperado. “Vendi”, disse o Kimi. “Já que não usei, vendi para um cara na estrada.” Estão reunidos agora. Querem saber por quanto ele vendeu e quem vai ficar com a grana.
- E agora?
- Agora, não sei. Eram macios, valem mais. Também quero minha parte.
- Não, agora o que vai acontecer? Vão mandar ele embora?
- Não, só estamos vendo mesmo quanto vai dar para cada um.
- OK, e o Felipe?
- Felicíssimo.
- Felicíssimo? Pô, acabou a gasolina!
- Pois é. Mas quase deu. Foi a primeira corrida que fizemos com o motor flex. Por isso que deu errado. Ainda estamos calculando o consumo com álcool. Vocês ouviram o rádio?
- Ouvimos. Uma hora ele perguntou “what can I do?”.
- E a resposta foi para o ar?
- Não.
- É. O erro foi dele. Por isso não colocaram no ar, para não queimar o filme do coitado. É que quando ele perguntou, a gente mandou passar para o gás. E ele não passou. Por isso acabou o combustível. Mas tenho novidades para você.
- Quais?
- Mandei no seu e-mail duas fotos que me mandaram da fábrica ontem. Uma é do carro novo do Felipe para Mônaco. Mais econômico, perfeito para andar na rua. A outra é do pacote para o Kimi usar na próxima corrida. Mas não publique, senão vão saber que fui eu quem mandou.
- Vou publicar.
- Se você publicar, eu desapareço.
- Lamento, vou publicar.
E Gola desligou. É minha obrigação publicar, tenho leitores, não posso omitir informações. Aí estão as fotos. O vermelhinho é o carro do Felipe. O outro, o que será usado pelo Raikkonen. Parece que é o Badoer que está testando, na foto, mas não tenho certeza. O número 4 não deixa muita margem a dúvidas, porém. É com esse que o Kimi vai agora. Espero que Gola reconsidere e volte a fazer contato. Mas pode ser que, depois dessa, ele suma de vez.
SÃO PAULO(entendi) – Gola Profonda ligou. Na verdade, era ele bem cedinho, depois da dobradinha da Ferrari no último treino livre. Não atendi. O telefone estava lá embaixo, tive preguiça de descer. “Uma pena, você perdeu o champanhe”, me disse. Como, perdi? Não se bebe champanhe pelo telefone, argumentei. Mas teve champanhe? Por resultado de treino livre? “A esta altura, amigo, a gente comemora até troca de pneu mais rápida em intervalo de treino. Quinta-feira, quando estávamos levando os carros para a vistoria, empurrando pelo pit-lane, nossos mecas ultrapassaram um carro da Brawn. Até o Luca ligou para dar os parabéns”, contou. Luca, o presidente?, perguntei. “Ele mesmo”, disse Gola.
Bom, e aí? Dobradinha em treino livre, quer dizer que deu tudo certo? A Ferrari voltou? Ganha amanhã? “Calma, calma”, falou o Gola. “Preciso te contar algumas coisas…”. E desandou a falar.
“Aquele vídeo de ontem no YouTube pegou muito mal. Hoje de manhã, quando chegamos ao autódromo, o engenheiro do Kimi veio falar comigo. Pediu para tirar o KERS do carro dele e colocar no do Felipe. Foi isso que aconteceu. Felipe andou com dois KERS. Por isso foi tão bem. Quando o Kimi foi para a pista, percebeu que estava sem KERS. Perguntou pelo rádio o que estava acontecendo. Três vezes. Aí o engenheiro respondeu: não precisa me perguntar a cada volta, a cada curva. Eu estou vendo que você está sem KERS, as luzes mostram. Aí ele cortava o rádio e cagava de rir. Então o Kimi voltou para os boxes. E perguntou onde estava o engenheiro. Queria encher ele de porrada. Aí entro eu de novo. Fiz um negócio no cinto de segurança dele, de manhã. Só abria com timer, depois do Q1. Ele ficou preso no carro. Quando abriu, o engenheiro já estava nas Ramblas. Mesmo assim, o Kimi ficou feliz. Em que posição está o Bourdais, aquele francês míope com cara de Kafka?, perguntou. Dissemos a ele que ficou em 17º. Atrás de mim ou na minha frente? Atrás, respondemos. Então Kimi abriu um sorriso e disse ‘chupa, comedor de crêpe au Grand Marnier’. Mas o Buemi está na frente, dissemos, uma na frente e outro atrás, e Kimi abriu outro sorriso: três Ferraris juntinhas, isso é que é equipe.”
E o Felipe?, perguntei. “Preocupadíssimo.” Silêncio. “O carro melhorou. E ele vinha dizendo que o campeonato tinha acabado, que só no ano que vem, que estava tudo perdido, que as outras equipes estavam melhorando também. Tanto que quando entrou nos boxes, nosso projetista entrou no rádio sem permissão e disse ‘chupa, palhaço’, e eles bateram boca, o Felipe falou que ele não projeta nem carrinho de rolimã, que fez esse carro copiando desenhos de crianças do pré-primário, que está com saudades do Ross Brawn e do Rory Byrne e do Jean Todt, aí entrou o Domenicali no rádio, o cara da cozinha, a moça da faxina, virou um puta bate-boca, e a gente escutando tudo, e foi quando o Schumacher mandou todo mundo calar a boca e acabou com aquela discussão. Felipe, ele disse, você está atrás do Rubinho. Ficou aquele puta silêncio no rádio, todo mundo parou de falar e, neste exato momento, estão todos muito deprimidos. Menos o Kimi, que ficou na frente do Bourdais e fica falando ‘chupa francês de mèrde’ o tempo todo.”
É uma equipe meio atrapalhada, a Ferrari. Mas melhorou, sem dúvida.
SÃO PAULO(veja logo, antes que tirem do ar) – Alguém tinha reparado nesse diálogo entre o Raikkonen e seu engenheiro nos treinos de hoje? Eu, se vi, estava com sono e não notei. Para quem não viu, aí está. O engenheiro diz “Still no KERS Kimi, still no KERS”, e o finlandês, com toda sua classe talhada em litros de vodca, responde: “Yeah, you don’t have to tell me every lap and every corner, I can see it from the lights”.
Espetacular! Quem mandou foi o blogueiro Siberian Husky, de São José dos Campos.
SÃO PAULO(entendido) – Só agora recebi um telefonema a cobrar da Itália. Era Gola Profonda. “O presidente está lá e estou ligando do gabinete dele, por isso a cobrar”, explicou. Faz sentido, poderia aparecer na conta uma ligação para o Brasil e alguém teria de responder por isso.
O que aconteceu?, perguntei, e a resposta veio de bate-pronto. “Foi o seguro.” Gola, muito falante, e por isso vou resumir, contou que a apólice do carro de Massa é muito ruim, a Ferrari fez com uma seguradora daquelas baratas, que jogam a franquia lá em cima para compensar e, pior, não tem assistência 24 horas. O serviço de guincho é terceirizado e a firma que faz vistoria, idem.
Aí Felipe foi tocado pela roda traseira de Raikkonen na largada, e começaram os problemas. Até que o menino das vistoria chegou rápido, porque na hora telefonaram para ele, e é motoboy, sabe como é. Quando Massa parou nos boxes, já estava pronto com o formulário nas mãos. “Mas não queria fazer a vistoria se o outro carro não estivesse lá também, para configurar o sinistro”, relatou Gola. “E ficou perguntando quem bateu atrás, porque quem bateu atrás é sempre o culpado.”
Nessa hora, parece que Domenicali teve um chilique e precisou ser tirado do local pelos seguranças. Luca, o presidente, assumiu o comando da operação e disse ao rapaz da vistoria que os dois carros eram dele, Luca, e que não se importaria em pagar duas franquias, desde que ele queimasse a vistoria do outro carro. O menino disse que precisava falar com seu chefe, mas o nextel não funcionava naquele fim de mundo e Luca, o presidente, emprestou seu celular para ele.
Isso tudo, certamente, atrasou o pit stop de Felipe, que aguardava dentro do carro tentando, do seu próprio celular, falar com o SAC da Acer, porque queria conectar-se à internet com seu lap top para saber como estava a corrida, mas recebia mensagem de erro.
Quando o rapaz da vistoria finalmente liberou o carro sinistrado (mas pediu para que a equipe guardasse a asa quebrada e tirasse uma foto do outro carro envolvido na batida), Felipe já estava um pouco atrás na prova. Na 36ª volta, levou um passão do líder Button, o que motivou um olhar 43 de Luca, o presidente, para Domenicali, já de volta ao pit-wall depois de medicado com calmantes. Domenicali não gostou do olhar 43 e parece que ergueu a voz com Luca, o presidente, “tá olhando o quê?, e daí?, ele vai parar no box ainda e o Felipe recupera essa volta”, e de fato Button parou logo depois, mas pelo que vi na classificação final da corrida, o brasileiro acabou mesmo uma volta atrás.
Raikkonen, no entanto, foi muito bem e terminou em sexto, marcando os três primeiros pontos da equipe no ano. Como foi a reação dele, ficou contente, aliviado?, perguntei a Gola. “Ele saiu do carro, olhou para o Fisichella e o Sutil, cerrou os punhos e falou: chupa, palhaços!”, e perguntei se foi assim mesmo, se ele não teria dito “chupem, palhaços”, mas não, ele é meio maloqueiro mesmo, porque depois ainda passou na Toro Rosso, cerrou os punhos de novo e disse “chupa, palhaços!” para o Bourdais e para o Buemi. E quando chegou aos boxes da Ferrari, olhou para o Massa e disse “chupa, palhaço!”, e depois para Luca, o presidente, e falou “chupa, palhaço!”, e saiu dizendo “chupa, palhaço!” para todo mundo que encontrou até pegar um carro e ir embora para o hotel, ainda de macacão.
O Kimi estava meio alterado, segundo Gola Profonda. Mas tudo há de melhorar em Barcelona.
SÃO PAULO(quero correr!) – É bom que se diga que Ferrari e McLaren, aos poucos e aos trancos, vão dando sinal de que ainda vivem. Massa foi segundo no treino livre da manhã e conseguiu passar ao Q3, na classificação. Para a atual fase do time, é uma proeza. Raikkonen também levou o carro à frente e, assim, ambos classificaram-se entre os dez primeiros do grid, Felipe em oitavo, Kimi em décimo.
Minha fonte em Maranello, porém, continua despejando toneladas de informações na minha caixa-postal. Acho que há uma conspiração em andamento, não é possível alguém vazar tanta coisa sabendo que vou publicar. Enfim, não é problema meu. O que me contaram hoje foi que Raikkonen reclamou do ar-condicionado, instalado em seu carro no lugar do KERS. “Ele desligou no Q2, e por isso ficou em quarto”, me contou a fonte, que pediu para ser chamado de Gola Profonda. “Mas no Q3 recusou-se a sair com o ar desligado, e acabou ficando em décimo.”
É fato, ar-condicionado rouba potência de qualquer motor. Sei disso porque eu tive um Ka, em 1997, por duas semanas (devolvi à Ford). O motorzinho era 1.0 e quando ligava o ar, não passava nem em lombada.
Felipe não teve o mesmo equipamento disponível, revelou-me Gola Profonda. A Ferrari pediu para ele optar: ou ar-condicionado no carro, ou festinha de aniversário com balões, línguas-de-sogra, brigadeiros, cajuzinhos e tubaína nos boxes, depois do treino. “Ele ficou com os brigadeiros e com a tubaína”, contou Gola. “Só que a tubaína estava quente e tiveram de pedir gelo para o pessoal da McLaren, que mandou um saco de gelo seco, e deu a maior merda.”
Sobre a McLaren, louve-se a boa classificação de Hamilton, quinto no grid. E vaias para Kovalainen, que ficou no Q2 e larga em 11º. Daqui a pouco eu volto de novo para falar do resto do resto.
RIO DE JANEIRO(acordando) – A Ferrari comemorou um domingo de enormes progressos em Xangai. “O tacógrafo funcionou muitíssimo bem”, festejou Raikkonen, reclamando apenas que foi ultrapassado algumas vezes com faixa dupla contínua na pista. “É um perigo, pode vir alguém no sentido contrário”, censurou o finlandês. Kimi gostou também do desempenho das novas palhetas do limpador de para-brisa (parabrisa? parabbrisa? pára-brisa?) e do sistema de ventilação interna de seu carro. “A borracha supermacia foi muito eficiente e nem precisei usar a flanelinha para limpar o vidro por dentro.” Perguntado sobre o que achava do décimo lugar, abriu um sorriso e respondeu: “É dez!”.
Felipe Massa vinha bem. Segundo o locutor oficial, tinha até chances de vitória. Uau. A corrida iria cair em seu colo. Puxa. Pena que houve um problema elétrico. Os primeiros sinais começaram a aparecer quando o desembaçador traseiro deixou de funcionar. A visibilidade para trás ficou comprometida, atrapalhando aqueles que chegavam para ultrapassá-lo. Após uma análise detalhada, a Ferrari ficou aliviada ao notar que foi apenas um fusível que queimou. Aliviada ficou também ao fazer uma verificação nas borrachas de vedação. “Só entrou um pouco de água pela caixa de ar, mas já estamos estudando como resolver isso no túnel de vento”, revelou-me agora há pouco, por telefone, alta fonte na equipe.
Com zero ponto nas três primeiras corridas do ano, a equipe italiana iguala marcas, hum…, “obtidas” nas temporadas de 1969, 1970, 1980 e 1981. Se zerar de novo no Bahrein, será a primeira vez em sua história que a Ferrari fecha as quatro primeiras provas de um campeonato em branco. “Vamos atrás desse novo recorde”, garantiu-me a mesma fonte.
SÃO PAULO(pobrecito) - Em entrevista à “F1 Racing”, Nelsinho Piquet pediu mais apoio à Renault. Reclamou que as atenções são todas de Alonso, que o espanhol testou mais o carro, e que todos os azares da equipe encontram em seu carro abrigo seguro, e não no de Fernandito.
Já vi esse filme.
Nelsinho não tem sido um bom piloto de F-1, essa é a verdade. Foi bem nas categorias menores, mesmo não tendo sido campeão na GP2, e o fato de ter tido sempre a condição de primeiro piloto e equipamento de ponta não serve para dizer que “assim qualquer um”. Nem sempre. Mesmo com atenções e equipamentos exclusivos, o cara precisa ter qualidades para ganhar corridas e campeonatos. Não há notícias na história do automobilismo de pilotos horrorosos que tenham sido campeões com carros maravilhosos. Nem o contrário. O que prevalece é a média: carros bons pilotados por pilotos qualificados, em geral produzem resultados. Um atrai o outro.
O caso de Piquet-pimpolho não é muito diferente, por exemplo, do de Hamilton. O inglês, desde que foi adotado por Ron Dennis, teve na McLaren o seu, digamos, “Piquet”. Se Nelsão-pai sempre deu do bom e do melhor para o filhote, o mesmo aconteceu com a McLaren, que amparou Lewis por anos a fio proporcionando a ele equipamentos que lhe dessem a chance de ser campeão. Hamilton devolveu a gentileza com títulos e vitórias, enquanto Piquezinho o fez até a F-3 Inglesa, e em bem menor escala na GP2.
O mundo da F-1 é diferente, e não adianta chiar. Tem piloto que chega e encaixa, mesmo sem ter um retrospecto nas séries de base assustadoramente bom. Foram os casos de Raikkonen, Massa, Kubica, Vettel e Alonso, para ficar em exemplos recentes. Não foram os casos de Pizzonia, Bernoldi e Zonta, para permanecer apenas nos nomes de brasileiros.
Portanto, a Piquet-filho não bastarão os queixumes. Ou anda direito, ou não anda. É simples e cruel assim. Seu pai sabe disso como ninguém.
SÃO PAULO (faz muito bem) – A Ludy Coimbra está acompanhando de perto a participação de Kimi Raikkonen no Arctic Lapland Rally, com um Fiat Punto invocado. Em seu blog há vídeos da prova e fotos de alguns competidores. Certos carrinhos, como esse Volvo da foto, me falam ao coração.
LONDRINA(até já) – A pior corrida do ano? Até onde minha memória alcança, sim. Depois de uma sequência de provas polêmicas, molhadas e diferentes, Bélgica, Itália, Cingapura e Japão, o GP da China levou a F-1 de volta ao nível do chatérrimo GP da Europa, em Valência. Eu imaginava que seria assim. Hamilton fora muito superior à Ferrari em todos os treinos, e não repetiria as bobagens recentes, gato escaldado que está virando. Se largasse bem, como largou, ganharia com um pé nas costas.
E ganhou com um pé nas costas, de fato, abrindo sete pontos para Felipe Massa na classificação, o mesmo que tinha sobre Raikkonen no ano passado a uma prova do final. Perdeu o título, como se sabe, para o finlandês. A diferença é que Lewis tinha, como companheiro de equipe, Fernando Alonso. Com chances de ser campeão, também… Agora, tem Heikki Kovalainen, que não ameaça nem uma mosca (rapaz instável, esse Kovalainen). Com 94 x 87 no placar, um quinto lugar lhe basta em Interlagos, mesmo que Massa vença. É uma vantagem considerável.
Felipe fez uma corrida ruim, andando em terceiro, distante de Raikkonen cerca de 8s na maior parte do tempo. A sete voltas do final, como era normal e esperado, e depois de tirar o pé por voltas seguidas, Kimi entregou a posição ao companheiro e dois pontinhos extras na luta pela taça. Hamilton recebeu a quadriculada quase 15s à frente do brasileiro e foi elogiado por seu engenheiro pela “disciplina” na corrida. Garoto que levou bronca na aula anterior, sabe como é…
Hamilton, Massa e Raikkonen no pódio; e, fechando a zona de pontos, Alonso, Heidfeld, Kubica, Glock e Piquet-pimpolho. Barrichello foi o 11º. Corrida de pouquíssima ação, um porre matinal em horário de verão. Merecerá apenas este post, porque daqui a pouco quem vai para a pista sou eu.
Palpite para o título? Dá Hamilton. A Ferrari e Massa perderam suas chances com erros seguidos em momentos diversos da temporada. Muita gente vai lembrar apenas do pirulito eletrônico de Cingapura. Mas não foi só ele. Na base da disciplina, como mencionou o engenheiro pelo rádio, Lewis deve sair de Interlagos como o mais jovem campeão de todos os tempos.
SÃO PAULO(mais uma e cama) – Bem, falei de Alonso, Nelsinho, Hamilton, Massa. Já deu, não? Não! Uma corrida nunca se resume a quatro ou cinco pilotos. Tem sempre os outros, liderados, em Fuji, pelo narigudo Kubica, que só não venceu porque seu adversário era o espanhol invocado — o melhor piloto da atualidade depois de Victor Shapovalov, meu maior ídolo contemporâneo, exemplo de garra e persistência.
O polaco tem 72 pontos, seis menos que Massa, 12 menos que Hamilton. Campeão? Ah, não dá… Mas que seria engraçado, seria. E um castigo merecido para as duas equipes favoritas e seus tresloucados pilotos, que têm se esmerado, neste ano, em fazer bobagens que a BMW Sauber, único time que marcou pontos em todas as etapas do Mundial, não faz.
Raikkonen fechou o pódio e fiquei com a impressão de que ligaram-no na tomada de novo. No fim, ameaçou Kubica e achei que ia passar, mas desistiu. A Toro Rosso colocou os dois nos pontos, desta vez com o Tião francês à frente do Tião alemão (se não punirem ninguém, não vou ficar esperando acordado). E Trulli fez lá uma corridinha bem honesta para ficar nos pontos, também.
Kovalainen, depois de arrastar até a sapatilha no asfalto para não bater em Hamilton na largada, quebrou. Coisa rara. Coulthard deu um estampão que pensei que ia machucar. Barrichello apareceu algumas vezes se defendendo, e bem, de Rosberguinho — que, por sua vez, bateu o recorde mundial de consumo para um carro de corrida, parando depois de dois terços da prova para reabastecer.
E é isso. Faltam duas para o fim, Xangai e Interlagos. Mas estou preocupado mesmo é com Londrina.
SÃO PAULO (no help) – O que posso lhes garantir é que a fonte é boa. A Ferrari anda desconfiada de que Kimi Raikkonen está fazendo corpo-mole (acho que tem hífen, no Grande Prêmio saiu sem). Quem levantou a história foi Victor Martins.
Corpo-mole que se manifesta não exatamente para sacanear Felipe Massa, mas simplesmente na total falta de preocupação e esforço em ajudá-lo — algo que, na equipe italiana, não pega bem. A sequência de voltas mais rápidas de corridas que Kimi fez neste ano, 10 em 15 GPs, seria uma espécie de lembrete: “Olha aqui, ainda sou rápido. É que neste ano fodeu tudo, ano que vem a gente melhora”. É bom lembrar que, a exemplo de Massa, Raikkonen tem bons motivos para se queixar do time neste ano. Também foi vítima de quebras e trapalhadas, como seu companheiro.
O problema do finlandês é que corpo-mole é fácil de detectar hoje, na F-1. Basta olhar a telemetria. E o que os engenheiros e técnicos de Maranello vêem na telemetria não tem agradado muito.
SÃO PAULO(haja texto…) – A reação de nove em cada dez blogueiros ao final desta nota será: “E daí?”. Mas, correndo o risco, informo que hoje Kimi Raikkonen fez, pela décima vez no ano, a melhor volta de uma corrida. Foi assim também na Espanha, Turquia, Mônaco, Canadá, França, Inglaterra, Hungria, Bélgica e Itália. Kimi tem, nas estatísticas, 35 voltas mais rápidas em GPs, e só perde para as 76 de Michael Schumacher e para as 41 de Alain Prost.
SÃO PAULO(longo domingo) – E o campeonato? Um mísero ponto, depois de 14 corridas, entre Hamilton e Massa. Um espetáculo. Raikkonen está fora. Kubica, só por milagre. Precisaria vencer corridas, e a BMW Sauber ainda não parece estar pronta para engatar uma série de vitórias. Depois de Montreal, passou a ter um desempenho muito irregular. O polonês foi terceiro hoje graças a uma estratégia boa, retardar ao máximo o primeiro pit stop, e a uma pilotagem segura.
Mas está bonito. Faltam quatro provas, todas muito diferentes entre si, pode acontecer qualquer coisa: Cingapura e seus mistérios noturnos, o kartódromo de Fuji, o retão de Xangai, as agruras de Interlagos…
Eu, sinceramente, não aposto em ninguém. Hamilton e Massa têm guiado muito bem — o brasileiro um pouco mais conservador nas últimas duas corridas, o inglês agressivo e sedento pelo título. Os carros se equivalem. E ambos têm tido coadjuvantes muito bons para construir os espetáculos das últimas corridas, como Vettel, Alonso e Kubica, principalmente.
SÃO PAULO(gato) – Raikkonen só andou quando secou. Ou ele não se dá com a chuva, ou a Ferrari não gosta de água. Ou ambos. Porque Massa também não fez nenhuma corrida brilhante. Teve dificuldades para fazer ultrapassagens, como na disputa com Nico Rosberg, e ao perceber isso procurou não fazer nenhuma bobagem e garantir alguns pontinhos. No fim, escapou de Hamilton porque a pista começou a secar.
Felipe sai de Monza um ponto atrás de Lewis e rezando para não chover mais até o fim do ano.
Quanto a Kimi, OK, o carro no molhado não vai bem, etc e tal. Mas ele poderia ter sido um pouco mais, digamos, incisivo no início da corrida. Ou seremos todos obrigados a concordar com Hamilton — que, puto da vida na quinta-feira, por conta de tudo que aconteceu em Spa, disse que o finlandês não tem “balls” para retardar freadas ou encarar uma pista escorregadia como ele, Hamilton, costuma fazer (como sou educado, não vou traduzir “balls”).
SÃO PAULO (já deu) – A coluna Warm Up desta semana, claro, é sobre o episódio Hamilton-Raikkonen na Bélgica. Creio que já esgotamos o assunto no blog, mas fica o link para quem quiser ler e comentar.
SÃO PAULO (sei…) – Reunidos com o diretor de prova Charlie Whiting, os pilotos estabeleceram novo acordo sobre a questão da devolução de posição e posterior ataque em casos de chicanes cortadas, como em Spa.
Agora, o cara que ganhou a posição e devolveu, só pode tentar passar de novo na segunda curva posterior ao local da manobra.
Ou seja: na Bélgica, Hamilton não cometeu irregularidade nenhuma, à luz do acordo anterior, no que diz respeito ao momento em que atacou Raikkonen para recuperar a ponta.
SÃO PAULO (sem voz) – A primeira notícia do dia: Raikkonen teve seu contrato com a Ferrari estendido até 2010. Assim, a dupla atual vai junta por mais dois anos. O sonho de Alonso fica para depois (creio que, a esta altura, mais dele do que da equipe, satisfeita com o que tem em mãos). Fernandinho, agora, que se vire com Honda, BMW Sauber ou Renault, mesmo.
SÃO PAULO (vai longe) – Sabe o que achei mais interessante nesse caminhão de comentários de todo mundo aqui, e na TV, e no rádio, e nos jornais? O quanto as pessoas acham que conhecem o regulamento da F-1. Sem lê-lo. Deixei para hoje para destrinchar a letra fria das regras.
Primeiro: não há nada no regulamento sobre “devolver posição”. É praxe, apenas. O que está motivando toda essa discussão sobre a justiça (ou injustiça) da punição a Hamilton é algo que não consta de regra alguma: o asfaltamento das áreas de escape nas pistas que recebem a F-1.
Vamos aos fatos. O documento que descreve a punição, aliás, usa esse termo: fatos. No caso, no original em inglês: “Facts: cut the chicane and gained advantage”. A sentença é uma conclusão dos três comissários esportivos do GP da Bélgica. Eles partem desse princípio: cortou a chicane e ganhou vantagem.
OK. Segundo: vamos às regras. O documento informa no item “offence” que Hamilton desrespeitou o artigo 30.3 (a) do Regulamento Esportivo da F-1 e o Apêndice L, capítulo 4, artigo 2 (g) do Código Esportivo Internacional. O primeiro é específico para a F-1. O segundo dá normas gerais para tudo que é corrida reconhecida pela FIA.
O artigo 30 do Regulamento Esportivo da F-1 versa sobre “General safety”, segurança em geral. O item 30.3, que Hamilton desrespeitou, diz: a) durante treinos e corrida, os competidores devem usar apenas a pista e observar, durante todo o tempo, os preceitos do Código (Esportivo Internacional) relativos ao comportamento de pilotagem nos circuitos (a tradução é livre e ruim; no original, “during practice and the race, drivers may use only the track and must at all times observe the provisions of the Code relating to driving behaviours on circuits”).
O Apêndice L, capítulo 4, artigo 2 (g) do Código Esportivo Internacional, que Hamilton também desrespeitou segundo os comissários, diz: “The race track alone shall be used by the drivers during the race”. Ou: “A pista, e só ela, deve ser usada pelos pilotos durante a corrida”.
Parece de uma obviedade estarrecedora, e é. Só que não funciona mais nas pistas da F-1. Pelo simples fato de que asfaltaram as áreas de escape. E elas, que têm como função primordial parar os carros que escapam do “leito carroçável”, viraram parte da pista. Quando as asfaltaram, não foi para perdoar erros, mas sim por motivo de segurança. A brita pode até frear carros desgarrados, mas pode capotá-los, também. No asfalto, o piloto soca o pé no freio e o carro pára. Freio é o que de mais eficiente um carro de F-1 tem.
Mas pilotos são espertos, e nos últimos anos passaram a adotar as áreas de escape como extensão da pista. Ficou mais fácil buscar os limites, porque um erro é perdoado pelas enormes áreas asfaltadas. Vai lá fora e volta. Pronto. Ninguém fala nada, mesmo, vamos embora. Repare na foto à esquerda. Tem um carro passando ali onde minha seta tosca aponta. É área de escape. Agora olhe os outros que estão na pista, como estava fácil a vida deles. Se deu bem o cabra lá de fora? Sim. Foi punido? Não.
Em tese, qualquer passagem por uma área de escape, que não é pista, traz vantagem a quem a utiliza. Pode-se categorizá-las: vantagem porque errou o traçado e conseguiu voltar; vantagem porque freou tarde e não bateu em nada; vantagem porque tentou uma ultrapassagem difícil, não deu certo, e pôde evitar o choque com outro carro. E por aí vai. Usar a área de escape sempre trará uma vantagem. É uma verdade absoluta, indiscutível, indivisível.
(Aqui, acrescento, tardiamente, algo que um blogueiro já comentou: pelas regras, a disputa entre Massa e Kubica no Japão no ano passado deveria resultar em banimento dos dois de todas as corridas para todo o sempre. Foi um dos momentos mais belos da F-1 não dos últimos, mas de todos os tempos. E eles só não usaram as arquibancadas porque tinha grade e muro para impedir.)
Em outras palavras: pela letra fria da regra, qualquer passagem por uma área de escape deveria ser punida com drive-through. No caso da corrida de ontem, a primeira curva deveria resultar, pelo critério usado para punir Hamilton, em punições a cinco ou seis pilotos (Raikkonen inclusive) — todos que esparramaram na La Source, foram lá fora da pista e voltaram. Esses não tiveram vantagem nenhuma? Ora, se houvesse um muro, teriam batido; se houvesse brita, teriam atolado. Veja na foto ao lado: quem se saiu melhor? O coitado que ficou na pista, cheio de carros à frente, tendo de dosar o pé direito para não encher a bunda de alguém, ou os espertinhos que foram para a área de escape, enorme e generosa (derrubaram muita árvore para fazer isso aí), podendo acelerar à vontade para despencar em aceleração plena rumo à Eau Rouge? Onde você preferiria estar nessa hora? No leito da pista ou “cortando a chicane”, para usar termo em voga?
Os pilotos que espalharam na La Source na largada tiveram vantagens, sim. E nada aconteceu com eles.
Agora tentem relembrar as corridas recentes. Quantas vezes vimos pilotos atravessarem curvas para passear no asfalto que não é pista? E voltaram na boa. Não passaram ninguém? Pode ser. Mas obtiveram a inestimável vantagem de continuar na corrida. Como estabelecer a hierarquia das “vantagens” e a partir delas determinar o tamanho das punições? Vantagenzinha não dá em nada; vantagenzona dá em drive-through. Sorry, para mim vantagem é vantagem.
O grande problema é julgar situações semelhantes com critérios diferentes. Área de escape não é pista, e todo e qualquer piloto que utiliza essas muletas asfálticas está levando alguma vantagem e desrespeitando os mesmíssimos artigos, capítulos e itens dos regulamentos e códigos que Hamilton, de acordo com os comissários, desrespeitou.
E ninguém nunca foi punido por isso.
Quanto à história de devolver a posição, continua valendo o que eu disse ontem. É aquela regra não-escrita, que todos respeitam porque é como uma admissão de culpa — “olha, gente, caguei, errei o ponto, passei o cara, mas estou devolvendo a posição, por favor não me enforquem em praça pública”. E vem funcionando, os comissários compreendem que houve boa-vontade, e esquecem a única regra que trata do assunto, que é a história de não usar a pista (regra que, insisto, é totalmente boba considerando o tanto de áreas de escape asfaltadas das pistas atuais).
Portanto, macacada, revejam seus conceitos. Regra deve ser respeitada, sim, mas deve valer para todo mundo. E essa aí, de “usar apenas a pista”, só valeu para Hamilton.
SÃO PAULO(batam à vontade) – Da esquerda para a direita, uma sequência que ilustra bem o que aconteceu nos segundos decisivos do GP da Bélgica. Pode não servir para nada, mas pelo menos mostra que esse papo de que ele devolveu “meia posição” ao Raikkonen é balela. O quarto quadro mostra claramente que ele estava atrás, mesmo. Na primeira foto, Hamilton corta a chicane; na segunda, “leva vantagem”, passando o finlandês; na terceira, começa a devolver a posição; na quarta, já está atrás, inteirinho atrás; na quinta, Kimi abre para fazer a tomada para a La Source (seria mais inteligente mergulhar por dentro, mas não era fácil, com Hamilton fungando atrás dele); na sexta, Lewis aproveita a avenida aberta pelo ferrarista e, claro, passa. Notem: aproveita o “buraco”, não o vácuo. Vácuo não se pega em tão pouco espaço.
A partir da quarta foto, amigo, como diria o filósofo Galvão Bueno, a corrida começou de novo. Se alguém me mostrar onde está escrito que o piloto A tem de esperar o tempo X para tentar passar o adversário B de novo, me rendo.
Como ninguém vai achar isso em regulamento algum, despeço-me por hoje.
SÃO PAULO(é isso aí, gasolina na fogueira!) – Eu normalmente acho que os comissários esportivos das corridas têm sempre razão (não é a FIA quem decide essas questões em provas, mas sim os comissários, que variam de GP para GP), porque dispõem de vídeos, cabeça-fria e experiência para analisar, rapidamente, questões difíceis. Apenas para mencionar, pois não os conheço, os comissários que decidiram pelo drive-through a Hamilton (transformado em 25s a mais no tempo porque a corrida já tinha terminado) foram: Nicholas Deschaux, Surinder Thatthi e Yves Bacquelaine.
A punição foi embasada na seguinte sentença, que consta do documento #49 do fim de semana belga: “Cut the chicane and gained an advantage”. Cortou a chicane e ganhou uma vantagem. Matou a família e foi ao cinema.
Creio que há um equívoco essencial, aí. Hamilton não cortou a chicane para ganhar vantagem. Fê-lo (como escrevo bem!) para não bater em Raikkonen, o que é bem diferente. Uma coisa é o cara cortar caminho para fazer os outros de bobos. Outra é aproveitar que enfiaram asfalto em tudo que é canto dos circuitos para evitar uma batida, o que fez Lewis, e dali em diante seguir com o cortejo porque havia uma corrida ainda por terminar.
Portanto, acho que o trio de comissários partiu de um princípio que não condiz com a realidade dos fatos (como escrevo mal!), determinando logo de cara, para abrir a discussão, que Hamilton cortou a chicane e levou vantagem. Um julgamento duro e difícil de ser feito, não? O pobre do Hamilton mesmo disse, depois da corrida: “Devolvi a posição. O que mais eu poderia fazer?”.
Pois é, não sei bem. Talvez ir ao confessionário e rezar dez ave-marias, pedindo perdão por ultrapassar outro carro numa corrida de carros.
A McLaren recorreu da punição. A história recente avisa que são raríssimos os casos em que há uma mudança das decisões de comissários. Em todo caso, a equipe inglesa tem todo direito de chiar.
SÃO PAULO (tapetón) – Acaba de sair a decisão em Spa, Hamilton perde 25 segundos de seu tempo total de corrida e, assim, cai para terceiro. Felipe Massa herda a vitória e passa a ser o vencedor do GP da Bélgica, com Heidfeld em segundo. Hamilton fica com 76 pontos, contra 74 de Felipe.
Não mudo uma vírgula do que escrevi abaixo. Acho a decisão um absurdo, como seria absurda qualquer ação contra Massa em Valência pela saída do pit stop em que quase acertou Sutil.
E o mais irônico é que o único prejudicado pela suposta atitude antidesportiva de Hamilton, Raikkonen, sai da Bélgica no zero do mesmo jeito.
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.