SÃO PAULO(só eu não vi?) – No dia 1º de outubro, a China iniciou as comemorações do 60º aniversário da revolução comunista com um desfile inacreditável em Pequim. Inacreditável mesmo, como mostram as fotos do “The Boston Globe” em sua página de “big pictures”, que por si só é uma atração. Eu acho que não estava no Brasil nesse dia, passou batido. A que ilustra esta despretensiona notinha, inclusive, não é do site. Mas mostra a limousine mao-tse-tunguiana que chamei brilhantemente de “limaosine” (sacaram?) e foi usada pelo presidente Hu Jintao para fazer seu discurso (notem os microfones no teto). Não parece um Trabi de luxo?
SÃO PAULO(a China não viu) – 4 de junho de 1989. Depois de semanas de protestos contra o governo, jovens estudantes chineses foram massacrados na Praça da Paz Celestial pelo Exército do Povo. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas morreram. O governo divulgou um número, 241. Há estimativas que falam em mais de duas mil mortes, outras em até sete mil. Na manhã seguinte, a imagem do rapaz que detém uma coluna de tanques armado apenas com sua voz, seus gestos e seu olhar roda o mundo e se transforma no símbolo de uma revolução que só não foi derrotada por aquela coluna de tanques. No resto, perdeu em tudo, em questão de minutos. Não houve diálogo. De nenhum dos lados, nem do governo linha-dura, nem das lideranças estudantis radicais dispostas a morrer ali mesmo, na praça. Chinês não gosta muito de conversar, muito menos de ceder. Todos os países do mundo condenaram a China pelo massacre de Tiananmen. Menos de 20 anos depois, estavam todos eles no Ninho do Pássaro batendo palmas para a mesma China — agora mais rica, parceira comercial essencial para o resto do planeta.
O rapaz que deteve os tanques nunca foi identificado. Hoje, farei um brinde a ele e a todos os chineses com quem troquei sorrisos no mês que passei em Pequim no ano passado. Muitos deles não sabem direito o que aconteceu na praça há 20 anos. Não os culpo.
PEQUIM(chove lá fora) – Enquanto meu avião não sai, e é só amanhã, vamos tentar colocar a vida bloguística em dia… Mas, antes, algo que eu eu queria mostrar aqui desde o dia em que cheguei a Pequim, mas acabei esquecendo. Os mais velhos se lembram que em São Paulo, antes de a Telefônica comprar a Telesp e pintar tudo de amarelo-camisa-reserva-do-Palmeiras, os orelhões de todo o Estado eram cor-de-laranja.
Pois eles sumiram do mapa, e fui encontrá-los lépidos e faceiros na capital chinesa, vejam só… A foto do original, abaixo, eu emprestei deste ótimo blog fotográfico de Alexandre Gabriely.
E notei que está tão difícil de achar fotos de orelhões antigos na internet quanto na ruas. Mas consta que alguns laranjões ainda resistem bravamente, principalmente em bairros de periferia.
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.