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26/10/2009 - 21:57

EU E A PAN

SÃO PAULO (pingos nos is) – Hoje passei na Cultura do Conjunto Nacional, um dos lugares mais bacanas de São Paulo, e como sou compulsivo comprei um monte de livros, entre eles o enorme “Ninguém faz sucesso sozinho – bastidores dos anos de ouro da TV Record e da Jovem Pan”, de Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta. Tuta é o dono da Jovem Pan, figura por quem tenho enorme respeito profissional, um dos mais importantes homens de comunicação do Brasil. Como trabalhei oito anos na Pan, ótimos anos, é obra indispensável para mim.

O Everaldo Marques, meu colega de ESPN Brasil (e foi colega também na rádio e no Grande Prêmio, nos primórdios do site), tinha me dito que nós dois merecemos algumas linhas do livro, e fui lá procurar, curioso.

Reproduzo as quatro linhas a que tive direito (não acho que teria de ter mais; foram oito anos, só, numa emissora que tem décadas), apenas para reparar uma coisinha ou outra. Elas fazem parte do capítulo “Muitos times, uma só equipe”, e estão na página 233:

“Flavio Gomes era apresentador da Hora da Verdade e participou das narrações de corridas de Fórmula 1. Mas vivia dizendo que queria mesmo era fazer televisão. Terminou me convencendo. Cedi:

— Vai, Flavio, fazer televisão.

Ele foi. No lugar pus Everaldo Marques, que era plantonista de esporte e gostava de automobilismo.”

Gostaria que tivesse sido assim, juro. Esse tratamento paternal, que o Tuta realmente dispensa a alguns, nunca ocorreu, porém. Eu fui âncora da “Hora da Verdade”, um jornal diário de fim de tarde, de 1996 a 2001. Mas no fim fui sendo afastado, porque falava demais. Falava coisas que a Pan não gosta, como defender o direito de pessoas se manifestarem na avenida Paulista, ou criticar as administrações de prefeitos como Paulo Maluf e Celso Pitta, ou esculhambar com o embargo dos EUA a Cuba, ou me recusar a participar de uma inóspita campanha contra os impostos (que é quase uma campanha pró-sonegação), essas coisas.

Direito da rádio, claro. Colocou, pode tirar. Afinal, eu tinha sido contratado para fazer F-1, o resto era troco. E eu não participava das narrações, assim tão vagamente. Na verdade, eu era repórter e comentarista de F-1, e ajudava a viabilizar comercialmente a cobertura (por cinco anos, a Pan não precisou gastar um centavo com passagens, que eu conseguia graças à minha atividade na mídia impressa, também). Mas isso não importa. O que não entendi foi o papo da TV. Eu nunca disse ao Tuta, nem a ninguém, que “queria mesmo era fazer televisão”. Nunca quis fazer televisão. Sempre fui um cascateiro profissional de rádio e jornal. Nunca falei com o Tuta sobre fazer TV.

“Vai, Flavio, fazer televisão.” Seria legal ouvir isso do Tuta se eu realmente quisesse fazer televisão. Mas fui demitido por outra razão. Me chamaram às vésperas do 11 de setembro para propor uma redução de salário, porque eu estava “ganhando muito só para fazer F-1″. Ainda havia duas corridas programadas para aquele mês, Monza e Indianápolis, e eu disse que não aceitaria ganhar menos, claro, e que ficaria até o fim de setembro e depois iria embora. Fiz as duas provas e me despedi da Pan no GP dos EUA de 2001. De lá, não fui fazer televisão. Fui para a Bandeirantes fazer rádio. TV, só em 2005, na ESPN Brasil.

Talvez o Tuta pensasse isso, mesmo, talvez tenha fantasiado, talvez a memória tenha falhado. Mas também não importa, essas quatro linhas têm pouca relevância no livro e na história da rádio — não tenho a menor pretensão de me considerar um capítulo à parte na trajetória da Pan. Apenas queria dizer que não, não vivia dizendo que queria fazer televisão. Me acho péssimo na televisão.

E boa sorte à Pan. Deixei amigos lá, muitos. E tenho enorme respeito pela emissora.

napan

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Gomes, Imprensa Tags: ,
16/02/2006 - 14:12

Lembrando a Tupi

SÃO PAULO (olha a hora) – Trabalhei oito anos na Jovem Pan, de 1994 até o final de 2001. Foi a rádio da minha infância. Meu pai nos levava para a escola de manhã bem cedinho ao som de “Vambora, vambora, olha a hora”, o Franco Netto dizia a hora e o Del Fiol, “repita”. Um patrimônio da cidade, só quem é daqui sabe o que estou dizendo.

Saí porque achavam que eu estava ganhando demais, mas isso é outra história. Saí na boa, sem raiva de ninguém. Hoje, quase cinco anos depois, assisto triste e chateado ao crepúsculo de uma emissora. Nunca a Pan viveu um momento tão ruim, que lembra os últimos tempos da TV Tupi: a casa caindo, e ninguém faz nada.

Sem anunciantes, recentemente a Pan mandou para o ar uma campanha patética contra as marcas de cerveja. A Brahma entrou agora no Jornal de Esportes e a campanha cessou. A bola da vez são os motoboys: campanha institucional contra os motoqueiros. Soube hoje que a Honda estava para fechar uma cota de algum programa, não fechou, a rádio saiu falando mal de motos. Como se isso fosse abalar a saúde financeira da Honda. Seria apenas patético, se não fosse deprimente.

A Pan foi perdendo seus grandes nomes ao longo dos últimos anos e não encontra ninguém para seus lugares, entre outros motivos porque paga mal e acha que o seu nome, sozinho, é capaz de reverter qualquer quadro. A qualidade vai caindo, os ouvintes vão-se mudando atrás de quem querem ouvir, a audiência baixa, os anunciantes fogem. É a lei da vida, que poderia ser revertida sem teimosia e com investimento.

Meu escritório fica no prédio da Pan até hoje, todos os dias encontro meus ex-colegas, e o sentimento de desilusão está no rosto de cada um. Neste ano, a rádio rebatizou toda sua programação, tudo se chama Jornal de Alguma Coisa. Como se isso fosse o bastante para vender.

Acabaram com o Show da Manhã (que nos áureos tempos tinha a sessão de Trocas & Informações, dona Fulana, da Moóca, tem uma batedeira e quer trocar por um liquidificador; dona Cicrana, do Brooklin, tem o liquidificador e aceita a troca…), com o São Paulo Agora, com o Terceiro Tempo…

A Pan está acabando e isso me deixa arrasado, porque acompanhar (e acompanho como ouvinte) o ocaso de uma emissora tão importante na minha vida é motivo para ficar deprimido.

Tomara que “seu” Tuta enxergue o que está acontecendo. Ele é um homem brilhante, foi um dos criadores dos festivais da Record, sempre lidou bem com as adversidades, soube superar a saída do Osmar Santos no último suspiro do rádio como veículo de comunicação de real importância, soube superar outras crises.

Mas a teimosia e a visão estreita, que convivem com a genialidade, estão enterrando a minha Jovem Pan. (Ah, estou falando do AM, se é que vocês sabem o que é isso nesses tempos de MP3.)

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Imprensa Tags: ,
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