SÃO PAULO(cadê o sol de outono?) – Francamente pró-Barrichello, o que é sempre bom para mostrar que as opiniões divergem entre fãs e especialistas, está no ar a coluna de hoje do Reginaldo Leme, falando sobre tudo que aconteceu em Barcelona.
SÃO PAULO(dê as suas) - Está no ar a avaliação da equipe do Grande Prêmio para os pilotos no GP da Espanha. Button foi o melhor, com média 9,3. Kovalainen, o pior. Jenson lidera o ranking com folga, com 9,1 de média em cinco corridas. O segundo é Vettel, com 6,6. Barrichello aparece em quarto, com 6,2. Massa tem média de 5,3, em oitavo, e Nelsinho é o 16º, com 3,2. Os piores até agora são Kovalainen e Nakajima, com 2,4.
Leia lá, concorde, discorde e mande seus comentários aqui!
SÃO PAULO(completinha) – Andre Jung, aniversariante de hoje, já pingou sua Apex pós GP da Espanha no Grande Prêmio. Uma análise completa da corrida e mais: KERS, FIA x Ferrari, Button x Barrichello…
SÃO PAULO (os frios ponteiros do cronômetro digital) – Quer entender o GP da Espanha tintim por tintim? Pois o nosso Arqueduque da Moldávia Marcelo Barbosa já colocou os dados no InfoRace e eles estão disponíveis aqui. Veja os tempos de volta de Button e Barrichello, compare as performances, faça sua análise. O InfoRace é uma ferramenta de representação gráfica dos GPs que não deixa dúvidas
SÃO PAULO (lavagem de alma) – Bem, resisti o quanto pude. Mas o Grande Prêmio terá uma coluna sobre transmissões da F-1 na TV, algo que nossos internautas sempre pediram.
Há anos pensamos nisso, por conta dessa demanda, mas só decidimos agora, graças a uma figura que surgiu meio do nada, me escreveu há algumas semanas, e veio da Espanha. Seu nome é Máximo Bueno, e a história de como chegou ao site está aqui.
Depois de todas as corridas, Máximo prometeu nos mandar seus textos, num “portunhol” meio esquisito, mas compreensível. É a visão de um estrangeiro meio mal-humorado que acabou de chegar ao Brasil, adora F-1 e o Alonso. A primeira coluna está no ar. Divirtam-se. E comentem aqui, mas não usem palavras muito difíceis porque Máximo ainda não tem pleno domínio do idioma…
Ah, acrescento: mesmo que vocês pensem que sim, o autor não sou eu. É o Máximo, mesmo.
SÃO PAULO(e fim por hoje) – Rubens, Rubens… A síndrome da justificativa talvez seja o maior mal deste rapaz. OK, perdeu a corrida. OK, é bem provável que se ele fizesse duas paradas em vez de três, como Button, seria o vencedor. Afinal, estava na frente. Com carros iguais, sem ser pressionado, e com estratégias idênticas de paradas, talvez ganhasse, mesmo. Mas pode ser que não, também, porque enquanto estiveram com pesos parecidos, deu para perceber que Button não deixou o companheiro escapar. Poderia dar um pulo do gato, tentar uma ultrapassagem, antecipar um pit stop. Quem sabe?
Por isso, essa atitude “não suspeito de ninguém, mas acho que estão me sacaneando”, que não faz questão nenhuma de esconder depois de cada derrota dita “polêmica” (aquelas que ninguém entende, nem ele, por que aconteceram), acaba fazendo com que, cada vez mais, Barrichello seja visto como um mau perdedor.
Vamos aos fatos.
Rubens largou muito bem e passou Button, e como os dois tinham mais o menos o mesmo peso, o brasileiro não conseguiu abrir muito. Até a parada do inglês, na volta 18, a maior diferença registrada foi de 1s617, na volta 13. Barrichello teria duas voltas a mais para seu pit stop, mas essa vantagem foi anulada com o safety-car, por isso parou na volta seguinte. Não teve tempo de dar uma estilingada. E nem Button forçou nada.
O inglês, nessa altura, segundo seu depoimento, já tinha decidido (ou a equipe o fez) mudar a estratégia inicial de três para duas paradas. Gastou 25s489 em seu pit stop. Barrichello colocou menos gasolina e perdeu 23s332 nos boxes. Na volta 21, de novo na liderança, Rubens tinha 6s152 de vantagem sobre Jenson.
Com o carro mais leve, foi abrindo, o que seria natural. Mas não muito. Na 30ª, a diferença era de 13s594. Parou de novo na 31ª (gastou 23s063 na operação) e voltou 8s434 atrás de Button, na volta 32. O britânico esticou seu segundo “stint” até abrir 12s101 sobre o companheiro na volta 47. Parece-me que começou a ganhar a corrida nas primeiras voltas após seu primeiro pit stop, porque mesmo com o carro mais pesado, manteve um ritmo forte que não permitiu ao parceiro disparar na frente. Parou na 48ª, gastou 25s278 e voltou em segundo, “só” 15s470 atrás de Rubens, que ainda tinha um pit stop a cumprir.
A diferença entre o que Button gastou nos boxes (50s767) e o que Barrichello perdeu nas paradas (1min08s884) foi de 18s117. Era uma vantagem dessa ordem que o brasileiro precisaria ter construído na pista, digamos, entre as voltas 32 e 50, quando esteve mais leve que Button. Difícil, muito difícil. Teria de virar tempos quase 1s por volta mais rápidos que o inglês, o que é complicado mesmo quando se está mais leve, tratando-se de dois carros iguais.
Então, pode-se afirmar sem medo de errar que a estratégia de três paradas, quando comparada com a de duas, não foi a coisa mais inteligente que a Brawn, o engenheiro de Rubens e o próprio piloto escolheram para fazer na vida numa disputa com alguém que resolveu fazer dois pit stops. Daria até para ganhar, mas como disse o próprio brasileiro “eu teria de acelerar muito”. Foi nesse período que, segundo Ross Brawn, ele foi mais lento do que a equipe esperava.
OK, é para ficar puto, uma chance foi desperdiçada, paciência. Mas, antes de ficar puto, é preciso ponderar uma série de coisas. Button, por exemplo… Se tivesse largado bem, será que ficaria só 1s5 à frente de Barrichello até a primeira parada? E se ficasse, será que não discutiria com seu engenheiro a possibilidade de mudar de três para duas paradas? E se mantivesse as três e Rubens mudasse para duas, será que não conseguiria virar rápido o bastante para compensar a parada extra?
Nunca se saberá. Numa equipe de F-1, cada piloto tem seu próprio time e deve ser responsável por suas decisões. Não serve a Rubens, um piloto tão experiente, a posição de mero seguidor do que lhe dizem pelo rádio ou do que decidem por ele. Muito menos numa pista tão conhecida quanto Barcelona.
Pela manjadíssima cabeça de Ross Brawn, que prevê uma disputa ferrenha com a Red Bull pelo título, é melhor Button ganhar e ampliar um pouco a vantagem sobre Vettel do que ver Barrichello roubar pontos importantes do inglês. Ninguém mais deveria se espantar com isso. E não dá para dizer que sacrificou seu time e seu piloto — afinal fez uma dobradinha, não há resultado melhor numa corrida, do ponto de vista da equipe, foi um domingo perfeito. Isso não é bem uma sacanagem. Sacanagem foi o que ele fez na Áustria em 2002, num campeonato ganho por antecipação e num fim de semana amplamente dominado por Rubens.
O que aconteceu em Barcelona foi bem diferente. Na disputa interna da Brawn, cada lado trabalhou do jeito que achou melhor. Button se saiu bem porque cumpriu o que dele se exigiu, ser rápido mesmo com o carro pesado. Rubens não o fez, ou ao menos não como deveria, para ganhar do companheiro. Ele mesmo relatou que seu carro estava estranho depois da segunda parada, sugeriu até que algo poderia ter se quebrado. E tudo deveria terminar aí, um festejando, o outro lamentando, e vamos para a próxima.
Mas…
Mas Barrichello faz caras e bocas. Expressa descontentamento e cria um clima. Claro, ninguém é obrigado a sorrir quando perde. Mas ninguém é obrigado a fazer tipo para as câmeras. Se desconfia que o time lhe sacaneou, a primeira coisa a fazer é falar com o time. E não com a imprensa. Suas primeiras declarações, em entrevista coletiva, foram dadas em tom acusatório. “Estou tentando entender o que aconteceu…”, “…preciso contar com apoio…”, “…fizeram uma aposta em Jenson e acabou funcionando…”, “…vou para a reunião ver o que eles têm a dizer…”.
O repórter Felipe Motta, da rádio Jovem Pan, ouviu Barrichello bem tarde, no autódromo, e colheu novas pérolas para seu já vasto rosário de declarações desastradas. A entrevista foi feita depois de ele ouvir o que “eles tinham a dizer”.
Transcrevo alguns trechos:
“Não foi legal. O Jenson copiou o set-up, eu larguei melhor, eu fiz o negócio ir, e no fim não tive os pontos que gostaria que tivesse. E vai montando aquela pressãozinha de um brasileiro que quer mostrar bem para o Brasil.”
“Meu engenheiro só foi comunicado depois. Acho que essa semana vai rolar um monte de polêmica sobre isso. Na F-1, você não pode esperar favor. Não vou para a próxima corrida esperando isso. Quero que o Brasil entenda a situação, mais do que qualquer outro piloto, eu sou brasileiro. Eu preciso de torcida. Só vou conseguir esse campeonato na raça.”
“Eu posso dizer que eu não tenho idéia do porquê que o Rubinho é polemizado no Brasil, mas eu saí do carro ciente de que aquilo era polêmica e tentei manter a calma perante todos os problemas. Cheguei aqui no box e falei para o Ross Brawn exatamente o que eu queria falar, que era se ele fez alguma coisa para que o Jenson vencesse a corrida, eu pendurava minhas chuteiras e ia para casa. ‘Não preciso disso, sou melhor que isso’, foi o que eu falei para ele. E a resposta dele foi bem clara: hoje ele ganhou por coincidência. A gente achou que você conseguiria estar na frente do Rosberg no primeiro pit-stop, e conseguiu, e ele não conseguiria. Então eles mudaram a estratégia dele por causa disso. A partir daí, se encaixa ou não, sou um piloto da equipe. Eu agradeço o momento de estar guiando um carro competitivo, acho que a corrida era minha, não foi. O time acha que foi pura coincidência, e é dessa maneira que saio daqui com a cabeça erguida.”
Sinceramente, precisa tanto? “Mais brasileiro que qualquer outro”, “só ganho na raça”, “preciso de torcida”, “paro se souber que estão favorecendo o Jenson”… Caramba, perdeu uma corrida, nada mais, não é nenhuma tragédia! Não precisa se justificar para o Brasil inteiro, ninguém está preocupado com isso, ninguém está pedindo explicações! E como é que vai descobrir se estão favorecendo o Jenson? Alguém vai contar para ele? O Gola Profonda?
Se Rubens realmente se acha prejudicado, se tem certeza que alguém premeditou a vitória do outro, que pare de fazer rodeios, diga logo e pegue o boné, ou se cale para sempre. Porque esse tom choroso não ajuda em nada dentro do time, ninguém gosta de ser acusado de sacana, o bom ambiente vai-se deteriorando, não é uma boa hora para apontar o dedo para ninguém numa equipe que vive um conto de fadas com quatro vitórias em cinco corridas em seu ano de estreia.
E para o torcedor médio do Brasil, que se habituou aos seis anos de queixumes na Ferrari, tal comportamento só reforça a tese de que Barrichello não sabe perder, é um eterno segundão, não tem estrela (ou tem, segundo a Hortência) etc. E uma imagem tão desgastada, que dava pinta de melhorar quando começou a temporada, uma ressureição improvável e até festejada, começa a se deteriorar de novo.
SÃO PAULO (e agora?) – Em entrevista à BBC, Ross Brawn disse que a estratégia de três paradas era a mais rápida para Barcelona e que foi a escolhida para Rubens vencer a corrida. Mas ele não venceu, e Brawn demonstrou certa decepção com o ritmo do brasileiro no segundo trecho com pneus macios. Falou que ele foi mais lento do que deveria, por isso não abriu de Button o que seria necessário para compensar a parada extra.
Três paradas, que chamei de algo esquisito em outro post, até que faria algum sentido para que o uso de pneus duros fosse o mais breve possível. E não foi tão ruim assim, afinal Barrichello chegou em segundo. Button, para mim, faria as três se não tivesse perdido a posição para o companheiro na largada.
Mas estou vendo que a discussão vai descambar novamente aqui no Brasil para a preferência da equipe, as sacanagens com Barrichello, o inconformismo de muita gente com o fato de que um estrangeiro pode ser mais rápido que um brasileiro, e por aí vai.
É divertido, esquenta o clima, e fiquem à vontade para opinar: afinal, Rubens é sacaneado ou não? Ross Brawn é um sádico? Button é muito melhor? Seria apenas azar? Destino?
SÃO PAULO(another day in the office) – Desculpem a demora. É que como venho recebendo alguns telefonemas ameaçadores, sempre em italiano, resolvi gravar todas as ligações que vêm do exterior. Cautela e caldo de galinha, sabem como é… Querem que eu revele a identidade secreta de Gola Profonda, parece que já descobriram que informações sigilosas e confidenciais estão saindo de dentro da equipe. Mas não posso. Preciso preservar minhas fontes, mesmo se elas passem a impressão de ser meio amalucadas, como é o caso de Gola. Acabei de falar com ele. A transcrição é que demorou um pouco. Vai já traduzido, porque Profonda, vocês devem imaginar, não é brasileiro.
- Gomes?
- Onde você está?
- Na catedral do Gaudí. Preciso te contar umas coisas.
- Você sempre precisa contar umas coisas, Gola. Desembucha. E fala rápido, estão me pressionando para que eu conte quem você é. Só não contei ainda porque não sei.
- Ótimo. Vamos continuar assim. Quer que eu comece por onde?
- Raikkonen.
- Raikkonen. Estava felicíssimo. Desde a primeira volta. Quando o Bourdais e o Buemi bateram, ele começou a falar “chupa, palhaços” no rádio. Dois a menos, disse. Perguntou se o vesgo tinha morrido. Cortamos o rádio com medo de punição da FIA. Cada vez que ele passava pela reta dos boxes, dava uma banana para todos nós. Aí ligamos o rádio e o chamamos para um pit stop.
- E ele?
- Parou no meio da pista. Desligou o carro e parou.
- Como assim? Sem mais nem menos?
- Começou a rir e disse que não tinha pneus para colocar, por isso não ia adiantar fazer pit stop algum. Fomos ver atrás dos boxes. Não tinha mesmo. E ele continuou gargalhando. Disse que ontem tínhamos deixado ele nos boxes para economizar um jogo de pneus, agora foda-se. “Cadê os pneus?”, perguntou o engenheiro, desesperado. “Vendi”, disse o Kimi. “Já que não usei, vendi para um cara na estrada.” Estão reunidos agora. Querem saber por quanto ele vendeu e quem vai ficar com a grana.
- E agora?
- Agora, não sei. Eram macios, valem mais. Também quero minha parte.
- Não, agora o que vai acontecer? Vão mandar ele embora?
- Não, só estamos vendo mesmo quanto vai dar para cada um.
- OK, e o Felipe?
- Felicíssimo.
- Felicíssimo? Pô, acabou a gasolina!
- Pois é. Mas quase deu. Foi a primeira corrida que fizemos com o motor flex. Por isso que deu errado. Ainda estamos calculando o consumo com álcool. Vocês ouviram o rádio?
- Ouvimos. Uma hora ele perguntou “what can I do?”.
- E a resposta foi para o ar?
- Não.
- É. O erro foi dele. Por isso não colocaram no ar, para não queimar o filme do coitado. É que quando ele perguntou, a gente mandou passar para o gás. E ele não passou. Por isso acabou o combustível. Mas tenho novidades para você.
- Quais?
- Mandei no seu e-mail duas fotos que me mandaram da fábrica ontem. Uma é do carro novo do Felipe para Mônaco. Mais econômico, perfeito para andar na rua. A outra é do pacote para o Kimi usar na próxima corrida. Mas não publique, senão vão saber que fui eu quem mandou.
- Vou publicar.
- Se você publicar, eu desapareço.
- Lamento, vou publicar.
E Gola desligou. É minha obrigação publicar, tenho leitores, não posso omitir informações. Aí estão as fotos. O vermelhinho é o carro do Felipe. O outro, o que será usado pelo Raikkonen. Parece que é o Badoer que está testando, na foto, mas não tenho certeza. O número 4 não deixa muita margem a dúvidas, porém. É com esse que o Kimi vai agora. Espero que Gola reconsidere e volte a fazer contato. Mas pode ser que, depois dessa, ele suma de vez.
SÃO PAULO(parabéns, agora oficialmente) – Uau. Agora é oficial. Atenção, senhoras e senhores: agora, a mulher de Felipe Massa está “oficialmente” grávida! Quando dei a notícia neste obscuro blog, há uma semana, ela estava, por assim dizer, grávida extra-oficialmente. Muito obrigado à TV oficial por oficializar a gravidez de Raffaela. Gostei muito do estilo do locutor oficial: “Agora é oficial: Felipe vai ser pai, vem aí o Felipinho!”.
É verdade. Tem coisas que só são oficiais quando a emissora oficial oficializa. Tipo assim: “Agora é oficial! O sol nasceu e já é dia!”.
Haja paciência.
Mas é episódio menor, o “agora é oficial”. Parabéns, de verdade, ao Felipe e a sua família. Um bebê é um barato e muda a vida de qualquer um. Para melhor.
SÃO PAULO(holla, que tal?) – Esse Button é danado, diria minha avó, viva fosse e se gostasse de F-1. Danado mesmo. Um piloto que vive uma fase ímpar. Largou mal, mas foi rápido (e a equipe também) ao mudar a estratégia de esquisitas três paradas para convencionais duas. Tudo uma questão de saber fazer bem os cálculos. Plano B, como disse o engenheiro de Barrichello ao rádio. “Hã?”, perguntou Rubens. “Bem hoje?”. Pois é. Aí o engenheiro implorava pelo rádio. “Você tem de ser rápido agora. Muito rápido. Câmbio.” E Barrichello tentava. “Rubens, é o seguinte. Já fodeu. Tem de ser mais rápido ainda.” “Hã?”.
Quem mais curtiu o chato GP da Espanha de hoje foi a Hortência.
E com quatro vitórias em cinco corridas, algo que deve ser raro (meu time de repórteres está levantando quem já fez isso) Button é o nome do ano. E a Brawn, a coisa mais bacana que já apareceu na F-1.
Quanto a Rubens “A Estrela é Minha Ninguém Tasca Eu Vi Primeiro” Barrichello, haverá, aqui mesmo, a enxurrada de sempre de críticas à equipe, que colocou mais gasolina do que deveria no seu carro ontem, e que mudou a estratégia de Jenson sem avisá-lo. Deveria? Bem, façamos um exercício de imaginação. Se Rubens resolvesse mudar a estratégia, Button deveria ser avisado? Não. A isso se chama livre arbítrio, diriam os espíritas. Cada um assume o caminho que quiser. Em corrida é assim. Schumacher já ganhou provas até com quatro paradas (em Magny-Cours, se não me engano, num exercício de sadismo). E com três, também. Mas para isso é preciso manter um ritmo que Barrichello, por alguma razão, não conseguiu manter.
O GP espanhol, como sempre, foi aborrecido. Exceto por alguns pequenos dramas como o de Massa no fim, mas sobre ele falarei mais tarde, porque estou esperando um telefonema de Barcelona para saber exatamente o que aconteceu. Hoje é capaz de demorar. Gola Profonda não dá notícias desde ontem.
Button à parte, o grande nome da corrida foi Marquinhos Webber, que levou dois na estratégia (e não creio que Vettel vá reclamar da equipe) e foi ao pódio com autoridade. Alonso fez a dele, conduzindo seu Twingo aos pontos, algo que Nelsinho, discretíssimo, nem cogitou fazer. A McLaren deu pena. O resto foi o resto.
No fim das contas, aquilo que este visionário, eu, previa aconteceu. A relação de forças não se alterou com a abertura da temporada europeia. A McLaren andou para trás. A BMW Sauber continua uma bomba. A Renault vive de Alonso. E a Ferrari pode até ter melhorado o carro, mas lembra cada vez mais os divertidos anos de confusões a granel até a chegada de Schumacher & cia. Na frente, Brawn e Red Bull. Que fizeram bons carros. Não tem tanto segredo assim.
SÃO PAULO (o que é fermento seco?) – Falemos do resto. Não era Gola Profonda ao aparelho, portanto a Ferrari fica para depois. Começando com o começo, a primeira degola. Massa foi o mais rápido, dando muita esperança ao locutor oficial, já orgásmico com o 1-2 do time italiano no terceiro treino livre. A chance de uma primeira fila brasileira elevou o tom patriótico da transmissão (ah, do que me livrei nos 18 anos em que viajei atrás das corridas…). O sonho de todos nós! O verde-amarelo brilhando no céu da Catalunha! Argh.
Bem, no Q1 o que importa é o drama de quem fica. Sutil e Fisichella nas duas últimas posições, por exemplo. Indicativo de que a Caminho das Índias, com motor Mercedes e tudo, está mesmo condenada a ser a Minardi da vez. Bourdais, para alegria de Raikkonen, ficou em 17º. Kovalainen, dos pilotos mais apagados dos últimos tempos, empacou em 18º. E Kimi, em 16º, também ficou. Aparentemente, a Ferrari esqueceu de mandá-lo à pista, mas daqui a pouco Gola telefona e saberemos exatamente o que aconteceu.
No Q2, o melhor tempo do fim de semana registrado por Rubens “Deixa Minha Estrela em Paz” Barrichello, único a baixar de 1min20s: 1min19s954, belíssimo tempo. O locutor oficial insistia: ele me disse (a ele, não a mim) que quer a pole! Espantoso, pensei. Como é que alguém pode querer a pole?
Rolaram, na segunda parte da classificação, Nakajima-san, Piquet-pimpolho, Nick “Emofeld”, Luís Hamilton e Tião Boemia. Aqui, algumas observações. Hamilton, ontem, disse que nada do que a McLaren espetou no carro em Barcelona funcionou. Para não dizer que ficou uma merda, ele foi polido e falou que seria difícil passar ao Q3. Não passou. Sua equipe andou para trás. E Piquet-pimpolho, em 12º, conseguiu sua melhor posição de grid no ano e a pole entre as melhores declarações da temporada. À ariana repórter oficial, falou que não passou ao Q3 por “um pentelho de nada”.
Estabeleceu-se imediatamente, assim, o valor nominal de “um pentelho de nada”, que a partir desta data, por deliberação expressa e irrevogável de todos os órgãos mundiais que normatizam medidas de comprimento, tempo, peso, massa e volume, passa a valer 95 milésimos de segundo — o que faltou a Nelsinho para levar seu carro à parte final da classificação. O locutor oficial não gostou da expressão “pentelho de nada”, talvez preferisse “delgado e esguio pelo do saco” e prometeu “conversar” com o piloto depois do treino. Fosse eu o piloto e viesse o locutor oficial me dizer o que eu posso falar, mandá-lo-ia dar o rabo. Mas isso fica a critério de cada um. Sempre é bom pensar antes de mandar alguém dar o rabo, nem que se pense apenas por um pentelho de nada (vamos nos acostumando; quando alguém disser “pentelho de nada”, tenha sempre em mente que são 95 milésimos de segundo, “pentelho de nada” é uma medida de tempo), para não ser mal-interpretado.
SÃO PAULO(preparando a pizza) – Não sei o que acha a Hortência, mas estrela, mesmo, quem carrega neste ano é Jenson Button. Talvez não na bunda, como apostaria nossa rainha basqueteira, mas certamente no pé direito. Estrela e talento, diga-se. Foi absolutamente linda a pole que o inglês fez agora há pouco em Barcelona, a terceira dele neste ano — três em cinco provas, desempenho de piloto de ponta, favorito à vitória em toda corrida, forte candidato ao título. Arrancou a posição de honra no último suspiro do cronômetro, quase não conseguindo abrir sua última volta. Pelo rádio, o engenheiro que quase errou no cálculo teve orgasmos via satélite.
Jenson tem um estilo muito polido de dirigir. Sempre gostou de carros neutros, desde os tempos de Williams, e finalmente tem um nas mãos. O Brawn GP é muito “amigável”. Combina com o piloto. Daí os resultados aparecerem em sequência e com tanta naturalidade. Seu tempo, 1min20s527, superou o de Sebastião Vettel por 0s133 e o de Rubens “A Estrela é Minha e Coloco Onde Quiser” Barrichello por 0s235.
Ambos, nos instantes finais do Q3, chegaram a comemorar a pole. Mas havia um Button no meio do caminho, como diria o poeta.
Jenson e Vettel na primeira fila. São os dois que vão lutar pelo título neste ano. A chance de o alemão assumir a vice-liderança do campeonato amanhã, onde deveria estar se não fosse a cagada da Austrália, é muito grande. Tião-alemão, falando nele, vem trucidando Marcos Webber. O australiano está perdendo a pose. Larga em quinto e o bico é cada vez maior diante da — de novo — estrela do jovem parceiro.
Ops, daqui a pouco eu volto. Está tocando o telefone, pode ser Gola Profonda.
SÃO PAULO(veja logo, antes que tirem do ar) – Alguém tinha reparado nesse diálogo entre o Raikkonen e seu engenheiro nos treinos de hoje? Eu, se vi, estava com sono e não notei. Para quem não viu, aí está. O engenheiro diz “Still no KERS Kimi, still no KERS”, e o finlandês, com toda sua classe talhada em litros de vodca, responde: “Yeah, you don’t have to tell me every lap and every corner, I can see it from the lights”.
Espetacular! Quem mandou foi o blogueiro Siberian Husky, de São José dos Campos.
SÃO PAULO(que zona) – Está lá no artigo 6.1 do regulamento de 2010 publicado pela FIA em seu site quarta-feira: o campeão mundial será o piloto que somar mais pontos. Mas na segunda-feira o regulamento publicado era aquele que mostrava que a ideia de Max Mosley e Bernie Ecclestone, de dar o título a quem conquistasse mais vitórias, entraria em vigor no ano que vem. Mas mudaram de novo.
Como para mim vale o que está escrito, então apaga tudo. Fica como está. Esses caras da FIA estão completamente lesados.
SÃO PAULO(tudo explicado) – Acabo de desligar o celular. Gola Profonda telefonou de fora do autódromo. De um “orellón”, como disse. “Não seria ‘orejón’?”, perguntei. “Não, na Catalunha é ‘orellón’ mesmo, com dois L e acento no ‘o’”, respondeu. Falou que lá dentro está tudo grampeado. Por isso não quis correr riscos. Se a Ferrari souber que ele anda passando o serviço, perde o emprego. E olha que sua função é importante. Não sei direito o que faz, mas um dia me garantiu que, sem ele, carro nenhum sai do box. Desconfio que ele tenha a chave da porta do box. Às vezes acho suas informações meio fantasiosas, mas enfim…
Bem, que pasa?, perguntei. Vocês não levaram um pacote aerodinâmico, difusores duplos, motorhome novo, asas lindas e faceiras, carenagens exuberantes e tudo mais? Não era para começar a reação?
E começamos, ora! O clima era de muita alegria nos boxes, me garantiu Gola. Kimi estava feliz. Saiu do carro perguntando do Bourdais. Onde ficou o Bourdais, onde ficou o Bourdais?, ele repetia, e quando contaram que ficou uma posição atrás, nos tempos somados, abraçou seu engenheiro e gritou “chupa, palhaço francês quatro-olhos!”, para ouvir de volta “é isso aí, chupa, vesgo de merda!” e “toma, comedor de baguete!” de seus mecânicos.
Kimi ficou em 12º. Bourdais, 13º. Mas o Buemi ficou na frente, argumentei. “O Kimi está cagando para o Buemi. Acha o Buemi muito feio, diz que não come ninguém. É que nem o Kubica”, informou Gola. Perguntei se neste momento não seria o caso de Raikonen se preocupar não com a feiura do Buemi, nem com os óculos do Bourdais, mas sim com o desempenho do seu carro, que mesmo todo renovado e remodelado e redesenhado voltou a andar atrás. “Claro que sim. Mas nossa briga é com o Sutil e com o Fisichella, e por isso estamos aliviados. Andamos na frente dos dois hoje.” É verdade.
E o Felipe?, perguntei. “Satisfeitíssimo!”, respondeu de bate-pronto o Gola. Mas ficou em antepenúltimo nos tempos somados!, espantei-me. Gola nem esperou que eu continuasse. “Pode parar, vocês só veem o lado negativo. Felipe vai ser pai. Ainda não anunciou no Faustão, nem no Luciano Huck, nem no ‘Bem, Amigos’, mas vai ser pai. A Ferrari compreendeu este momento. Deu a ele um automóvel muito seguro. Um pouco mais lento, é verdade, mas a hora é de cuidar da prole que vem por aí. A mulher de Felipe não pode passar por nenhum susto. Ela tem de ver o marido pela TV guiando com tranquilidade e sem correr riscos. Só assim a criança vai nascer sem sobressaltos. O parâmetro para o acerto do carro foram as voltas do medical-car quinta-feira. Felipe ficou muito feliz ao saber que virou tempos semelhantes. Afinal, é uma Mercedes. Disse que estamos no caminho certo.”
Bem, se é assim, se estão todos alegres e com a sensação do dever cumprido, acho que não temos muito mais para conversar, disse a Gola, percebendo que o tempo da ligação já passava do razoável, telefonema internacional ainda é caro. Aliás, só me ligue amanhã se tiver algo bombástico para contar, porque essa felicidade contagiante não me serve, acrescentei. “Eu tenho, sim, uma notícia que vai abalar as estruturas”, respondeu Gola, depois de alguns instantes de silêncio. Também fiquei em silêncio do outro lado da linha, esperando o que viria. “Estamos pensando em impugnar o campeonato.” Continuei em silêncio. “Tem a ver com o Rubinho. Ele tinha jurado, quando saiu daqui, que nunca mais assinaria um contrato parecido. Temos provas, foi publicado nos jornais. E assinou. Isso não pode, é sacanagem. Já estamos atrás dos nossos advogados e…” nessa hora achei que Gola Profonda estava dando uma de Hortência e desliguei.
SÃO PAULO(antes, porém…) – A expectativa da abertura da temporada europeia é tema da coluna de hoje de Reginaldo Leme no Grande Prêmio. Clique aqui para ler, depois volte para comentar!
SÃO PAULO(folga, jura?) – Bom, pelo menos no primeiro dia, os pacotes de BMW Sauber, Ferrari e McLaren poderiam ser devolvidos aos remetentes. Eu não esperava outra coisa. Nada funcionou em Barcelona. Melhor: pode ser até que funcionem, mas o tempo é curto, treino virou teste, e essa é a maior dificuldade desta F-1 2009 para quem começou mal: a tendência é continuar mal, e os pilotos vão desanimando, os engenheiros também…
Enfim, cada um com seus problemas, não é mesmo?
Os leões de treino da Williams fizeram seu papel, com Rosberguinho em primeiro e Nakajima-san em segundo. O tempo de Nico: 1min21s588. Nada mau. Nos tempos acumulados, Alonsito, que sempre anda bem em casa, cravou a terceira melhor volta do dia. Em quarto e quinto, Button e Barrichello. Em sexto e sétimo, os bois alados Webber e Vettel.
Tudo normal, pois. Piquet-pimpolho até que andou bem, quando se olha apenas para o cronômetro. Terminou em décimo e esteve no alto nas duas sessões. Mas deu duas rodadas no treino da tarde que motivaram sinais de reprovação do pit-wall — estou falando de Briatore. O menino precisa tomar mais cuidado. Está todo mundo de olho nele. Piquet-pai estava no autódromo. Está seguindo o filho de perto, neste ano.
A McLaren fechou o dia lá atrás, com Hamilton em 16º. E a Ferrari… Bom, da Ferrari falo daqui a pouco, porque está tocando o telefone. Acho que é Gola Profonda.
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.