Um ótimo serviço da Deutsche Welle sobre os 20 anos da queda do Muro está neste link aqui, enviado pelo Fernando Pedroso. Tem cronologia, galeria de fotos, entrevistas, animações, quase tudo que é preciso saber sobre o evento mais importante da segunda metade do século passado. A foto é só para ilustrar. Achei bonitinha.
SÃO PAULO(tomara) – Mais uma nota “volkswáguica”, graças a notícia enviada pelo Diego Ximenez. Parece que a VW está disposta a comprar a Karmann, que está em processo de falência, fechadinha da silva em Osnabrück, como contei para vocês algumas semanas atrás durante a primeira escala do tour com Gerd rumo ao Leste. A foto abaixo foi tirada numa das portarias da fábrica.
Seria muito legal. Para preservar os empregos, antes de mais nada, e o nome e a história da encarroçadora, responsável por alguns dos carros mais belos já produzidos no mundo. E para afastar a tristeza da cidade, que essa eu notei nos olhos das pessoas, de verdade, quando passei por lá.
SÃO PAULO (boa viagem) – Ouvi dizer que Gerd está deixando Munique hoje rumo a não sei onde. E que já está aberto o processo seletivo para o comitê de boas-vindas. As primeiras inscrições estão chegando, mas manterei secreta a identidade de todas as candidatas.
SÃO PAULO(será que está coberto?) - Dom Pedro Von Wartburg é o cara. Ele e condessa Julyanna Della Pampuglia. Aí estão os primeiros momentos de Gerd. Aqui, seu relato do primeiro encontro. Grande dupla, essa. Se as pequenas aventuras de Gerd e este que vos bloga estão só começando, é a eles que devo tudo.
SÃO PAULO(saudade) - Esse vídeo eu já tinha visto, e já foi publicado aqui no século retrasado. Mas depois das aventuras com Gerd na semana passada, acho que vale o repeteco…
MUNIQUE(e acabou) – O primeiro encontro foi no estacionamento de uma grande oficina em Düsseldorf. A quarta-feira estava fria e cinzenta, e o carrinho tinha ficado ao relento alguns dias. Estava sujo, tinha marcas de dedos de mecânicos na capota, nas portas, no capô e na tampa do porta-malas. Na canaleta do teto, contornando o vidro dianteiro, havia água acumulada.
Ainda bem que é de plástico, pensei. Abri o porta-malas e nas frestas de encaixe da tampa estava cheio de pequenas folhas molhadas, uma pasta meio amarela, meio marrom, que delicadamente tirei com as mãos e joguei no chão.
Era mais ou menos o que eu esperava. Herr Drösser poderia ter dado um talento no bichinho, uma cerinha, quem sabe um pneu pretinho. Mas estamos na Alemanha, esse tipo de camaradagem não faz parte do cotidiano. Gerd estava ali para receber a TÜV, o certificado técnico de que pode rodar por terras germânicas e da União Europeia sem colocar em risco a camada de ozônio ou os guaxinins do Cáucaso, e recebeu.
Bati na chave, funcionou. Motor dois tempos não é exatamente um segredo para mim, e logo de cara percebi que tinha uma coisinha boa nas mãos. Os rolamentos não roncavam e o barulhinho do escapamento era saudável. Muito prazer, disse. Ele morreu.
Foi o primeiro toque dessa amizade que começava meio desconfiada.
Vai ver a gasolina.
Depois de três ou quatro tentativas, lembrei da torneirinha debaixo do painel. A, Z, R. Coloquei em R. Na chave. Téin-téin-téin.
Veja sempre a gasolina.
Primeira para baixo, como no DKW, mas junto da coluna. Segunda para cima, terceira para baixo, puxando para você, quarta para cima, com roda-livre permanente. A ré, empurrando a alavanca para a coluna, depois para baixo. Muito simples.
Deixamos a oficina pelas ruas de Düsseldorf, onde vivem meus amigos Dom Pedro Von Wartburg e sua esposa, a condessa Julyanna Della Pampuglia, debaixo de chuva fraca e soltando uma deliciosa fumacinha azul. Passa aqui, para ali, abastece acolá, deixei Dom Pedro em Essen, onde foi visitar um de seus castelos de outono, e aí ficamos só nós dois.
Eu e Gerd.
Acho que vamos formar uma boa dupla, eu disse. Gerd não respondeu. Quem é esse cara? Mas um carro se torna dócil quando percebe que quem está ao volante se importa com ele. Acho que ainda mais se for um carro alemão-oriental, que passou os últimos anos escondido numa garagem em Leipzig para sair só de vez em quando e ser alvo de chacota, olhares tortos, narizes empinados, alérgicos a qualquer coisa perfumada que saia de um cano de escapamento.
Testei tudo. Faróis funcionando, alto, baixo e lanterna. Limpador de parabrisa idem, quatro velocidades, normal, rápida, temporizador 1, temporizador 2. Uau. Pisca-alerta. Desembaçador do vidro traseiro. Buzina. Pisca-pisca, os dois lados. Luzes de freio. Rádio, um Blaupunkt com mostrador digital com alguns leds queimados, mas não tinha muita importância, tocava, quatro caixinhas de som, bom demais. Tudo isso foi verificado para tirar a TÜV, menos o rádio, claro, mas eu queria ver com meus próprios olhos.
Antes de pegar a primeira estrada, parei já não lembro onde, longe de olhares curiosos, exceto o meu, para conhecer Gerd um pouco mais a fundo. Abri o capô. Localizei as bobinas, duas, as velas, duas, o reservatório de fluido de freio, olhei de novo com mais atenção a reguinha graduada que marca a quantidade de combustível no tanque, dei uma dedada na tensão da correia do alternador, me impressionei com a engenhosidade do sisteminha de refrigeração a ar que dispensa bomba d’água, radiador e essas coisas que só servem para ocupar espaço e aumentar o peso, vi onde ficava a bomba de gasolina, depois voltei para dentro do carro, experimentei as regulagens do banco, para frente e para trás, o encosto idem, sobe ou desce, mais nada, saí de novo e fui ver o que tinha no porta-malas, um estepe em ótimas condições e calibrado, triângulo, estojo de primeiros socorros, macaco, chave de roda. Descobri como travar a tampa do porta-malas, é só empurrar a dobradiça, depois puxar para fechar, tudo muito simples e prático, a mesma forração marrom do assoalho revestindo o porta-malas, nada rasgado, o tecido também marrom dos bancos em perfeito estado, as laterais de porta perfeitas.
Quando encontro um antiguinho pela primeira vez, prefiro ficar com ele sozinho algum tempo do que ter de escutar dos outros os defeitos e qualidades que tem. Eu mesmo descubro, não gosto que fiquem falando mal. Ih, tem um risquinho aqui. Xi, esse botão não é original. Olha bem, a porta não tá alinhada, esse carro já foi batido.
Dispenso.
Quando acabei minha vistoria particular, parei na frente do Trabi, cruzei os braços, olhei bem nos seus olhos, dei um largo sorriso e disse: vamos nessa, rapaz? Bora, respondeu Gerd. Pra onde?
Foi assim que ficamos amigos de verdade, porque tenho certeza que enquanto eu olhava, apertava e beliscava, o carrinho também avaliava aquele sujeito baixinho e escasso na cabeleira, com tênis velhos e calça rasgada, usando apenas uma camiseta de mangas compridas, sem sacar o frio que vinha pela frente, parecia não dar muita bola para isso, e que falava uma língua meio esquisita, mas parecia ter boas intenções. E o sorriso que recebi é diferente, pensou Gerd, esse cara tá feliz.
Encaramos autobahns, percorremos periferias, paramos em lanchonetes, demos voltas em fábricas desativadas, visitamos museus, fizemos muitas, muitas paradas em postos de gasolina e pequenos restaurantes de beira de estrada, ele tomava sempre um café e saía com uma latinha azul e prateada na mão, rodamos por cidades grandes e minúsculas, nos perdemos, nos achamos, cruzamos as largas avenidas de madrugada, com o rádio alto e o motorista também, dormi na rua, em garagens fechadas e aconchegantes, em outras frias e mal iluminadas, nunca tinha estado em nenhum lugar desses, minha vida era Leipzig, daqui até ali, até que me esqueceram num canto, e aí aparece esse cara e me leva para Osnabrück (não sei o que queria ver lá, mas enfim…), Hannover, Wolfsburg, Berlim.
Berlim.
Uma das coisas que sempre quis fazer na vida foi cruzar o Portão de Brandenburgo num Trabant. É uma coisa besta, normalmente as coisas que sempre quis fazer na vida são bestas e “fazíveis”, nunca quis escalar o Himalaia, nem chegar ao Pólo Norte. E mesmo essas coisas bestas não consigo fazer direito, porque o Portão de Brandenburgo já há um bom tempo é fechado para veículos, é preciso contorná-lo por ruas paralelas, no máximo dá para passar em frente.
Passei em frente de Trabant, eu guiando, acho que está valendo para a categoria “coisas que sempre quis fazer na vida e finalmente fiz”, mas não parei para tirar fotos, porque algumas dessas coisas prefiro registrar em outros lugares, não num chip besta.
Berlim foi a única cidade em que ficamos duas noites, eu e Gerd, e ele já no primeiro dia circulava pelos dois lados do Muro com uma baita desenvoltura, é por aqui, dobra à esquerda, vai reto, vai por mim, não tem erro, estaciona ali e vai a pé, eu te espero, não tem pressa, não, não tá frio, eu tô acostumado, tranca direito, você deixou o farol aceso, não esquece de pagar o tíquete antes de sair, e de Berlim seguimos para Dresden, agora já fugindo das autobahns, dorme tarde, acorda mais ou menos cedo, toma um bom café da manhã, dá uma volta, pé na estrada, para pra comer, está escurecendo, estamos chegando, onde fica o hotel?, achamos, se der janta, se não der não janta, escreve, lê, dorme, acorda, banho, estrada.
Eu nunca tinha andado tanto na vida. É só fazer a conta. Quando esse cara sentou aí, eu tinha 50.395 km rodados em 21 anos de uma vida sossegada e previsível. Uma média bem aceitável de 2.400 km por ano, se bem que de vez em quando eu tinha vontade de sair mais um pouquinho, aproveitar os dias de sol na primavera, mas o outro carro é maior, cabe mais coisa, não para de nascer gente nessa família. De qualquer forma, eram 200 km por mês, um pouco mais, um pouco menos, e esse cara está rodando mais de 200 km por dia. Precisa confiar muito, como é que ele sabe que não vou me cansar?
Ele é boa gente, mas se eu cansar, paro e foda-se.
E o carrinho não cansa. Segue com seu motorzinho ronronando a noventaporhora, ritmo que estabeleci como ideal, mesmo sabendo que dava para ir um pouco além. Mas noventaporhora está bom, não temos pressa, a gente só tem de chegar. Toca alguma coisa que presta nesse rádio, não agüento mais ouvir alemão falando pelos cotovelos, nunca vi rádio para ter tanto noticiário, É hora cheia rapaz, aqui é assim, Foda-se que aqui é assim, eu quero ouvir música, Em hora cheia é noticiário, esquece, Então vou desligar, Desliga, ué, Cadê meu cigarro?, Debaixo do painel à direita, E o isqueiro, cacete?, No seu bolso, A máquina, preciso tirar uma foto da paisagem, Debaixo do painel à esquerda, O celular tá tocando, Caiu no chão, do lado do banco, Onde tá a caneta?, preciso escrever um negócio, Atrás do cigarro, escreve quando parar, não dá pra escrever dirigindo, Claro que dá, faz o seu que eu faço o meu, Olha pra frente, Não enche o saco, Não é por aí, Claro que é, Olha o mapa, era à direita, Puta merda, era mesmo, vou fazer o retorno lá na frente, Isso, faz, bem na frente da Polizei, Eu vi, não enche o saco, vou fazer lá na outra frente, Você é muito burro, quer fazer tudo ao mesmo tempo, faz uma coisa de cada vez, Não me enche o saco, eu faço o que quiser, Dá pra trocar a marcha?, são quatro, Eu sei que são quatro, mas gosto da terceira, fica na sua.
Dresden, Praga, polícia, tenho medo de polícia, Brno, Tá parando por quê?, Vou dar carona pras meninas, Nem vem, olha as malas, não cabe, pode ir em frente, Deixa de ser bicha, claro que cabe, Eu não vou sair do lugar, olha o tamanho da gordinha, Cabe, sim, A gordinha vai aí do seu lado, Não faz mal, é a mais simpática, pelo menos a gente conversa, o que importa é a beleza interior, Quem gosta de beleza interior é decorador, Vai se foder, anda aí e não enche o saco.
E Gerd nunca andou tanto, com cinco vezes o peso habitual, duas mochileiras e suas mochilas descomunais, mais do que noventaporhora, não queria fazer feio e não fez, e de lá para Bratislava, no pé do castelo, garagem limpinha, iluminada, acho que foi de onde ele mais gostou, porque a perna foi longa, quase 300 km, e no dia seguinte seria a sopa no mel até Viena, e em Viena não é que aparecem outros Trabis?, e foi aquela noite inesquecível que só acontecem em filmes sobre Trabants.
De Viena a Salzburg também foi mais ou menos desgastante, outros 300 km, boa parte à noite, embora Gerd não tenha dado sinais de fadiga em momento algum. Se cansou, não falou. Ficou quietinho em seu canto durante à noite e parte do dia, enquanto eu passeava pelo centrinho da cidade que respira Mozart por todos os poros — um pé no saco, tem a casa de Mozart, o chocolate de Mozart, o licor de Mozart, a estátua de Mozart, o concerto de Mozart, a bolsa de Mozart, a camiseta de Mozart, o isqueiro de Mozart, o boneco de Mozart, a puta que o pariu de Mozart, parece que a Áustria só teve Mozart de bom até hoje.
Umas três da tarde volto ao hotel, as malas já estavam no carro, tinha fechado a conta antes, desço à garagem para começar nossa última jornada e tem uma pequena mancha no chão, debaixo de Gerd. Tem mesmo, juro. Não é literatura.
Passo o dedo, é gasolina fresca. Eu nunca fecho a torneirinha quando estaciono, não precisa, nunca pingou gasolina. Você tá chorando?, Não, Deixa de viadagem, você tá chorando, É só gasolina, Só gasolina o caralho, nunca pingou gasolina, o que foi?, Não é nada, Vou fechar a torneirinha e te largar aí, Vambora logo, Por que você tá assim?, Não é nada, vamos que tem chão até Munique, Eu sei quanto tem até Munique, Então vamos.
Saímos em silêncio do hotel e do lado tinha um posto grande de gasolina, com lava-rápido e tudo. Coloquei Gerd para lavar, comprei produtos de beleza, um negócio para passar no painel, outro nos pneus, um pano especial para secar os cantinhos que ficaram molhados, fui ao aspirador, um euro por sete minutos, tirei os dois tapetinhos da frente, passei o aspirador por todo o interior, achei amendoim no chão, que a gordinha da carona tinha deixado cair, calibrei os pneus, Gerd ficou brilhando.
Deixamos Salzburg rumo ao oeste, a fronteira com a Alemanha é logo ali, caímos na autobahn, passamos ao lado de um lago enorme, depois de uns 70 km caí fora da autobahn e peguei uma estradinha que terminaria no mesmo lugar, Munique, onde daqui a pouco, daqui a pouco mesmo, pego um voo de volta para casa.
Escureceu rápido e começou a chover forte ainda na estrada, e estávamos sozinhos no meio do nada.
Onde eu vou ficar?, Num lugar que eu arrumei, E depois?, Depois eu vou embora, uai, E não vai voltar mais?, Não sei, tenho coisas pra resolver no Brasil, E eu vou ficar quanto tempo nesse lugar que você arrumou?, Não sei, alguns dias, Onde é o Brasil?, Longe pra caralho, É legal lá?, É, Alguém vem me buscar aqui?, Vem, um caminhão, E depois?, Para de me fazer perguntas, que saco, tá chovendo, preciso prestar atenção na estrada.
Você vai me dar pra alguém?, Não, E daqui eu vou pra onde?, Para o norte, Da Alemanha?, Não, da Dinamarca, Dinamarca?, Claro que é da Alemanha, O que eu vou fazer no norte da Alemanha?, Cuidar das suas férias, E depois?, Depois nada, Como, nada?
Chegamos. Não para de chover. Desliguei o motor, apaguei o farol, tirei as coisas do carro, voltei, sentei no meu banco, no escuro, a chuva batendo no teto de fibra de algodão. No odômetro, exatos 2.126,1 km. Em nove dias.
E aí?, perguntei.
Tudo bem.
Meu voo é bem cedo, não vai dar nem para dormir.
Dorme no avião.
É o que eu vou fazer.
Certo.
Antes de ir venho dar um tchau.
OK.
Ah, mais uma coisinha.
O quê?
Quando for sair de férias, não esquece de levar protetor solar.
SALZBURG(amanhã acaba) – Depois da moleza de ontem, a jornada de hoje era longa: 300 km até Salzburg, embora um site mequetrefe tenha me informado que a distância era de 255 km, o que me deixou bem puto quando bati nos 255 km e não estava em Salzburg, mas sim em Bierbaum, que nem sei que pito toca e fica no meio do nada.
Gerd não reclamou, porque gosta de andar. Especialmente quando não tem ninguém por perto, na solidão de uma estrada que corte milharais e plantações de magnólias. É seu habitat, muito mais do que as rodovias cheias de caminhões e carrões rápidos e sem rosto.
Quando saímos de Viena, ainda na garagem do hotel, a módicos 14,60 euros a estadia (me estressei com o turco que cuidava do estacionamento de noite, o tonto não falava nada de inglês, e tem de falar inglês, não interessa se está na Áustria ou na China, o cara tem de entender pelo menos “quanto custa?” e “é aqui a garagem do hotel?”, senão volta pra Turquia e vai vender kebab), Gerd ligou e imediatamente desligou.
Ainda tem quatro litros no tanque, deixa de frescura, já vi com a régua, mas ele não quis saber. Torneirinha na reserva e funcionou. Legal, você, a gente no centro da cidade, só deve ter posto na periferia, na saída para a estrada, não sei onde é a estrada e se você parar no meio da rua, taco gasolina e ateio fogo, eu disse, e Gerd riu porque se a gasolina acabasse, eu não teria como tacar gasolina e atear fogo, lógica irretocável de um alemão oriental.
Bom, eu tinha de seguir para oeste, me orientei pelo sol, o dia estava lindo, foi o primeiro dia realmente de sol o tempo todo e calor desde que cheguei, e fui indo para oeste até que apareceu uma primeira placa para Linz, mais ou menos meio do caminho, e logo um salvador posto desses de calçada, duas bombas, uma cabine para pagar e já estava bom demais.
Na Europa, em geral, a gente mesmo abastece o carro e vai pagar, isso varia um pouco de país para país, e quando encostei Gerd no meio-fio, o cara já saiu da cabine, no posto dele, só ele abastece. Abri o capô e ele já começou a gritar, “óleo, óleo, aqui vai óleo”, me comovi com sua preocupação, mas eu sei, meu filho, vou pegar o óleo, está no portamalas, as coisas aqui respeitam uma determinada ordem, nada acontece ao mesmo tempo, fica frio, das calmen.
Coloquei o óleo e ele colocou a gasolina e tchau.
Fugindo das placas para a autoestrada, fomos deixando Viena pela periferia até chegar à 1, só isso mesmo, 1, sem letras acopladas, a estrada 1, que pelo meu mapa morreria em Salzburg, com alguma sorte na porta do meu hotel. Estava calor mesmo, e deu para viajar de janela aberta, uma raridade neste outono até agora frio pelos cantos por onde passamos. Acho que queimei só um lado do rosto, porque foi o tempo todo com o sol à esquerda e o asfalto à frente.
Combinamos de parar depois de uma hora de viagem, eu estava com fome e com vontade de comer pão com bratwurst, o último foi em Dresden. Meu GPS mental calculou a rota e o tempo de viagem e a ideia era chegar a Salzburg às 6 da tarde. Paramos numa cidade de beira de estrada, maior que a maioria, St. Pölten, que até agora não sei se é santo ou santa, simpática, segui a torre da igreja, onde em geral há um centro, no caso um “zentrinhum”, e foi tudo dentro do previsto, exceto a bratwurst, que não encontrei, e comi qualquer coisa.
Nessas estradas europeias, muitas vezes a gente tem a impressão de que o planeta é desabitado. Mesmo cruzando pequenas cidades, é difícil ver gente nas ruas. De vez em quando, velhinhos de bicicleta. Numa dessas havia um casal. O velhinho na frente, a velhinha atrás. Ninguém mais num raio de mil quilômetros, exceto eu e Gerd, e aí o velhinho resolveu virar à esquerda e fez um sinal espalhafatoso com o braço, mas não para mim, eu já tinha passado, acompanhava aquilo pelo retrovisor, o sinal foi para sua velhinha, que desde os tempos do império austro-húngaro deve fazer aquele trajeto de bicicleta, mas para garantir que ela não vai fugir com um recruta qualquer, o velhinho faz o sinal para virar à esquerda, e ela vira.
Só fui parar para abastecer de novo em Linz, e nem precisava, porque Gerd gastou muito pouco, e talvez tenha sido pela gasolina que coloquei em Viena. O mesmo ogro que gritou sobre o óleo naquele posto da calçada não me deixou escolher a Super 95, seja lá o que for isso, mas para mim sempre pareceu melhor que a 91, que não tem nada de super, e me obrigou a colocar a 91, e parece que com ela Gerd ficou mais econômico.
Em Linz, meu GPS mental recalculou o tempo de viagem. A cidade é grande e colada em algumas outras, e ali perdemos uma hora num trânsito infernal, uma chatice, mas tudo bem, depois engrenou de novo. O sol, àquela altura, já estava na minha cara, estamos indo para o oeste, lembrem-se, e tive de acionar o parassol (aquelenegócioqueagenteabaixaprosolnãobaternacara), agora com uma técnica diferente para não esbarrar no espelho, é difícil de explicar, mas dá, o problema é que o parassol fica na frente do espelho e oculta uma parte da visão, mas isso não importa, sobra espaço suficiente para ver o que é preciso ver do mundo às minhas costas, muitas vezes é melhor não ver nada atrás, mesmo.
A última parada foi a uns 20 km de Salzburg, para tomar um café e um Red Bull no postinho OMV, sempre muito acolhedores os postos dessa rede, e aí aparece um sujeito rebocando uma carreta com um Mini Cooper vermelho configurado para rali. Estava indo para uma prova que começa amanhã, no sul, e vai até domingo, e quem iria pilotar seu carro era ninguém menos que Rauno Aaltonen, que eu fingi saber quem era, claro, e depois, consultando a sagrada internet, descobri que deveria saber mesmo. Aaltonen, que tem 71 anos, foi campeão europeu de rali em 1965, seis vezes vice-campeão do Safari Rally, terminou o Rali de Monte Carlo em terceiro na geral em 1963 com o Mini igual àquele e ainda ganhou algumas provas do Mundial, tendo sido piloto oficial da Datsun, Fiat, Opel, Ford, SAAB e, possivelmente, da Gurgel.
Falei pro cara eu que também corria de carros antigos, ele perguntou qual e eu respondi que era DKW e agora é Lada, e ele não me pareceu muito impressionado. Na hora de ir embora, olhou para Gerd com um ar condescendente e me desejou boa sorte, o que me irritou um pouco e eu disse que não precisava de sorte. Ele, sim, com aquela caixa de fósforos disfarçada de carro.
E nada de muito mais notável aconteceu neste dia passado quase todo na estrada até chegar ao pé dos Alpes onde se encontra Salzburg, a cidade de Mozart, onde já estive pelo menos duas vezes, muito tempo atrás, e mesmo tendo chegado pela estradinha, e não pela estradona, reconheci uma ou outra esquina, e assim que dobrei à direita, putz, olha o hotel ali, não precisei bater muita perna, Gerd está neste momento descansando tranqüilo ao lado de um belo Scirocco, o carro mais bonito, dos novos, que vi por aqui, e amanhã vamos para Munique de tarde, é mais perto, 150 km, coisa rápida, a última jornada.
Acho que ficaremos emocionados, mas não há de ser nada. Alemães orientais sabem conter suas emoções. Vamos ficar bem.
VIENA (e agora veio a chuva) – Não vinha sendo lá um dia muito emocionante. Se fosse preciso editar os melhores momentos até as 5 da tarde, um deles seria o embate na garagem do hotel que quase resultou num Trabant arrancando uma cancela em Bratislava. Culpa exclusiva dessa falta de padrão mundial no uso de cartões para abrir cancelas. Alguns são engolidos pelas máquinas e está tudo resolvido, a cancela abre e você vai embora. Outros engolem e cospem, e só quando cospem você pode sair.
No caso eslovaco, a cancela era do modelo engole-e-cospe. Mas no que engoliu, arranquei com meus 26 cavalos sem perceber que a cancela não tinha aberto, e foi graças aos excelentes freios de Gerd que uma tragédia não aconteceu. Passado o susto, deixei o carro voltar um pouco para trás, peguei o cartão que fora devolvido e, aí sim, saí.
Um problema, isso. Ou engole, ou cospe. Não dá para ficar nessa indefinição a vida toda.
O outro momento digno de nota foi a ultrapassagem inapelável sobre um Daewoo na estradinha que liga a capital da Eslováquia à capital da Áustria — de novo, registre-se, sem nenhum controle de fronteira, uma vergonha, um carimbo a menos no passaporte. Salvo engano, foi a primeira que Gerd fez em condições normais de temperatura e pressão, pegando o vácuo de uma perua Audi que por pouco eu não jantei também, graças ao limite de 70 km/h naquele trecho, limite que eu estava firmemente disposto a desrespeitar.
Felizmente, no meio do caminho apareceu um sítio arqueológico que eu, sendo muito sincero, desconhecia. Era preciso sair da 9, a estradinha, para ver de perto. Como não tinha pressa e a tarde estava agradável, fui ver de perto. Me senti numa aventura de Asterix. Carnuntum é o nome do lugar, um centro militar romano cujas primeiras referências datam do ano 6 d.C., antigo pra cacete, estabelecido por Tiberius e, depois, sede de duas legiões daquelas que os gauleses adoravam detonar depois de tomar a poção mágica.
Foi um lugar importante, porque entre os anos de 103 e 107 acabou se transformando na capital da Panônia Superior (Panônia é um ótimo nome) e virou base central das frotas do Império Romano ao longo do Danúbio. Para se ter uma ideia de como a região era promissora, a capital da Panônia Inferior se chamava Aquincum e ficava onde hoje é Buda.
Se Aquincum prosperou, casou-se com Peste e virou a capital da Hungria, o mesmo não aconteceu com Carnuntum, apesar de alguns momentos de exuberância, como o período em que lá se instalou ninguém menos do que Marco Aurélio, ele mesmo, aquele Marco Aurélio, por três anos, para comandar os exércitos de Roma numa guerra qualquer. Nessa época, estamos falando dos anos 170 d.C., Carnuntum chegou a ter 50 mil habitantes, e como essa gente precisava de circo, além de pão, construíram dois anfiteatros para entreter a turma com gladiadores se espetando e bestas-feras despedaçando pobres coitados na arena. A farra acabou uns 200 anos depois, quando Roma largou mão de Carnuntum e foi cuidar de outras glebas, e aí os bárbaros germânicos tomaram conta do pedaço.
O que sobrou é, hoje, o sítio arqueológico, e fui a um desses anfiteatros, mas estava fechado. Só que tinha uma pequena passagem no meio dos arbustos e consegui entrar para fazer uns retratos.
E depois de conhecer Carnuntum, ainda que superficialmente, achei que nada mais iria acontecer no trajeto até Viena, muito curto, menos de 70 km, “doispaliten”, como disse Gerd quando saímos de Bratislava.
Viena é uma cidade grande, ampla e feia quando se chega pelo leste, cruzando vasta área industrial cheia de depósitos, refinarias e chaminés. Zentrum era o caminho das pedras, como quase sempre, e lá fomos à cata do hotel, sem mapa ainda, mas confiando no instinto gerdiano de achar tudo. Nos perdemos na primeira tentativa, mas tínhamos passado por outro hotel da mesma rede pouco antes, voltei pelo caminho que havia feito e pedi ajuda na recepção. O cara pegou um mapa, rabiscou o caminho certo e não teríamos muitos problemas para achar.
Foi aí que aconteceu a coisa mais incrível deste breve passeio pelo Leste. Às margens do Danúbio, pronto para dobrar à esquerda na ponte indicada, notei um carrinho se aproximando pelo espelho, até emparelhar com Gerd. Acreditem ou não, era um Trabi em versão militar, com uma enorme bandeira da Alemanha Oriental espetada no estepe traseiro. O cara fez sinais para mim, acenei de volta, puxa, que coincidência, mas ele insistiu, fez mais sinais, fui atrás e paramos logo depois de atravessar o rio.
Sai um sujeito grande do Trabi militar, vem à minha janela, estende a mão e diz: sou o presidente do clube de Trabant da Áustria. Eu, incrédulo: hã? Ele: presidente do clube, e vai ter um encontro de Trabis. Eu, incrédulo: hã? Ele: e vai ser agora, é aqui perto, me segue.
Parecia mentira. Liguei para o hotel, avisei que ia chegar bem mais tarde e, ainda sem acreditar, saí atrás do Trabi militar pelas ruas de Viena, para um encontro que eu jamais saberia que existiu se não fosse aquele encontro casual de dois Trabants à beira do Danúbio no meio de um trânsito desgraçado.
Na verdade, não era exatamente um encontro de Trabis, e sim um evento sobre a DDR num centro cultural simpaticíssimo, o Aktions Radius, que todo mês escolhe um tema e faz palestras, mostras, exposições, bastante modesto, até, nada de multidões, a chamada cena cultural vienense, se é que vocês me entendem. Para descolados como o Gerd, se é que vocês me entendem. Os Trabis foram chamados de última hora pela organizadora, Martina Handler é o nome dela, e éramos sete na calçada diante do centro cultural. E não é por nada não… Gerd era o melhor de todos, virou centro das atenções, me fizeram ligar o motor umas dez vezes, um cara me explicou que se arrebentar a correia é só colocar uma meia-calça de nylon no lugar, outro me disse para nunca limpar a régua que mede o combustível na calça antes de colocar no tanque, porque a eletricidade estática pode explodir tudo e ninguém se conformava com a história da minha viagem.
Oliver Galler, o presidente do clube, estava animadíssimo. Como todo bom dono de carro velho, falou sobre preços, peças, anos, modelos, me perguntou o que eu faço da vida, se ganho bastante dinheiro, e abriu o coração. Eu era motorista do ministro até hoje, disse Oliver. Pedi demissão. Estou livre, cansei de ser escravo. Vou morar na Síria. Na Síria? É, vou trabalhar para a ONU na Síria.
E o doido sou eu.
O evento da Martina era uma graça, e aos poucos foram chegando várias pessoas empolgadas com os Trabis e as histórias da DDR. Não era muita gente, umas 70 almas, se tanto, mas tinha uns canapés, cerveja, vinho, e até um cara vestido de policial da Alemanha Oriental, Michael Höfler, dono de um Trabi 1975 cinza papirus (fez questão de dizer o nome da cor; Gerd, descobri, é “Sky blue”) e de um blog sobre a DDR.
Lá dentro, painéis com fotos de Berlim, algumas delas recentes, de gente dormindo nos bancos das praças e pedindo dinheiro nas ruas, chamando a uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens da queda do Muro, e num determinado momento sobe ao pequeno palco uma moça muito bonita, vestida com o uniforme da FJD (Freie Deutsche Jugen, a Juventude Livre da Alemanha), entidade que reunia todos os jovens da DDR, Doreen era o nome dela, nascida em Berlim Oriental, há alguns anos vivendo em Viena.
Doreen explicou como era a vida do lado de lá, reproduziu a saudação obrigatória nas escolas, todos repetiram suas palavras, estavam lá para aprender um pouco de uma história tão recente e tão viva na memória dos alemães. Uma graça, a menina. Fui conversar com ela depois, e me contou que tinha dez anos quando o Muro caiu, que tinha muita saudade de sua infância, e que para uma criança política não existe, e por isso lembrava com muita alegria dos tempos em que ia à escola e seus pais tinham empregos seguros e estáveis.
Altiva, vigorosa, ar decidido, Doreen falou que vai voltar a Berlim, agora que terminou um longo namoro, e vai tentar reconstruir a vida lá. Foi quando escutei meu nome e era Michael, o policial, me chamando. A gente quer te dar um presente, falou, e me levou lá no palco, eu morrendo de vergonha, mas ao mesmo tempo feliz com tudo aquilo. Contou rapidamente quem eu era, o que estava fazendo ali, deve ter dito alguma coisa gozada porque as pessoas deram risada, e me passou o microfone. Fala em inglês mesmo, todo mundo entende, me tranquilizou, dando uma piscadela.
Aí fiz o maior discurso socialista da minha vida, chamando a todos de camaradas, pedindo desculpas por não falar nada de alemão exceto uma, duas e três cervejas, e assumindo uma certa maluquice na pequena aventura com Gerd. Disse também que por mais de metade da minha pobre existência vivi num mundo dividido em dois por um muro, e que essa história faz parte da vida de todos que estávamos ali, e que talvez uma das melhores formas de conhecê-la longe de qualquer teoria política era fazendo o que estava fazendo, dirigindo um Trabi pelo Leste, e todos concordaram, e disse também que não importava a ideologia de cada um dos que estavam ali, o fato é que estávamos conhecendo um pouco mais de uma história muito recente, e a história não pode ser esquecida, e se é impossível mudar o passado, é importante construir um futuro baseado em valores reais e humanos e danke.
As pessoas bateram palmas e Michael, o policial, me deu de presente uma bandeira da Alemanha Oriental, e foi tudo muito bacana, na hora de ir embora ele me guiou até a rua do hotel, nos despedimos com um abraço caloroso, e no fim das contas foi um dia bom, muito bom.
BRATISLAVA(gostei daqui) – Eu não queria contar, tinha vergonha, mas vou. O real motivo desta viagem é tirar uma dúvida que me atormenta há anos. Como é que se pronuncia Brno, afinal?
Chegou o dia. Depois de desmaiar de cansaço em Praga ontem, resolvi sair cedo para Bratislava, já que a esticada era razoável, quase 300 km. Não queria viajar de noite e, principalmente, não queria chegar à capital eslovaca muito tarde, para ter tempo de jantar decentemente.
Bati o olho no mapa e lá estava: para ir de Praga a Bratislava, teria de passar por… Brno! E, finalmente, depois de tantos e tantos anos, perguntaria a um brnense a pronúncia correta, para nunca mais errar.
De dia todos os Trabis são pardos, não chamam muito a atenção numa segunda-feira atarefada, carros por todos os lados, pessoas ocupadas com seus trabalhos, sem tempo para olhar meu carrinho esquisito no meio da multidão. Quero dizer, com tudo isso, que o policial gordinho não cruzou meu caminho hoje.
Estava na boca para a estrada, logo caí na E55 muito movimentada, caminhões a dar com o pau, calculei mais ou menos quanto dava para rodar com os 11 litros do tanque e fui. Não arrisquei estradas secundárias, porque pelas indicações do mapa elas eram terciárias e quartenárias, trilhas, um mergulho no desconhecido, e hoje meu humor não estava muito bom para imprevistos.
Nem o meu, nem o de Gerd. Saímos em silêncio, meio emburrados, e Gerd chegou a dar duas engasgadas em quarta, mas nem reclamei. Sei lá, o cara pode ter acordado num dia ruim, não estava a fim de papo, vai ver hoje é alguma data especial, desmanchou um namoro num 5 de outubro, não conheço sua vida a fundo, ainda. Ele conhece a minha, quando se passa tanto tempo dentro de um carro, sua vida é automaticamente absorvida por suas entranhas metálicas — no caso de Gerd, de fibra de algodão e plástico —, mesmo que você não diga nada. A recíproca, porém, não é verdadeira. Leva-se um tempo para conhecer um carro a fundo.
E assim fomos, em silêncio, apesar das engasgadas que agora posso dizer foram ridículas e não me comoveram minimamente, eu sabia que tinha de colocar gasolina e quando, então nem vem, pode engasgar à vontade que vou parar quando quiser.
Na hora que julguei mais apropriada, parei num posto, já nos subúrbios de Praga. Ainda estava fazendo o check list (a saber: 1 – Desligar o motor; 2 – Tirar a chave do contato; 3 – Puxar o freio de mão; 4 – Abrir o capô por dentro; 5 – Apagar os faróis, obrigatórios mesmo durante o dia; 6 – Desligar o rádio; 7 – Soltar o cinto de segurança; 8 – Fechar o vidro; para, em seguida, ao sair do carro: 9 – Pegar o óleo no porta-malas; 10 – Vestir as luvas descartáveis de plástico oferecidas pelo posto, grande sacada, essa das luvas; 11 – Conferir a quantidade de gasolina no tanque com a régua; 12 – Calcular quanto de óleo colocar para x litros de combustível, conta difícil, demanda concentração; 13 – Certificar-se de que escolheu a mangueira correta, porque se vier diesel fodeu; e aí, finalmente, abastecer), quando encostou na janela, interrompendo a sequência de eventos, um rapaz bem apessoado, jovem, falando “nice car” num bom inglês, ao que respondi que era mesmo.
O menino, simpático, veio com um papo aranha, perguntando se eu ia para Bratislava. Não me lembrava de ter olhado no espelho pela manhã e ter visto uma cara de quem ia para Bratislava, portanto não sei como ele adivinhou, e eu disse que não, que ia para Junkovic, nome que inventei na hora e não soa checo, mas iugoslavo.
Quando ele me disse que era da Alemanha Oriental, achei que fiz bem em planejar com minha Junkovic a negativa ao pedido de carona que viria, porque algo ali me dizia que tinha caroço naquele angu. Se o cara era mesmo alemão, não tinha sentido falar em inglês com alguém que abastecia um Trabant com placa alemã.
Desconfiança besta, no fundo, porque o problema mesmo era espaço. O rapaz estava com mais dois amigos, ambos bem jovens, mas cheios de mochilas. Não cabe muita coisa num Trabi, se ele não tiver um babageiro no teto. Minha mala vai no porta-malas e minha mochila vai no banco de trás. Não teria onde enfiar três passageiros com sua respectiva bagagem no Gerd. Eles que esperassem por um Cadillac.
Perguntei para onde iam, e me contaram que estavam seguindo de carona para o Irã. Falaram com muita naturalidade, como se fosse a coisa mais comum do mundo ir de carona ao Irã, cheguei a pensar que estavam me sacaneando, perceberam a mentira de Junkovic e inventaram que iam ao Irã, mas parece que iam, mesmo. Via Bratislava, Budapeste e Istambul.
Não era minha rota, de qualquer jeito. Abasteci, gastei algumas coroas das que sobraram do episódio policial da noite anterior e de volta à estrada. Sempre fazendo o check list, claro, que é tudo que fiz quando cheguei ao posto, só que de trás para frente. E ainda lavei o parabrisa, que estava cheio de corpos mutilados de mosquitos, mariposas, libélulas, borboletas, besouros, morcegos e pelicanos.
Não revelei a Gerd meu desejo secreto de chegar logo a Brno e perguntar a um brnense como se fala Brno. Creio que ele engasgaria de novo e me acharia um retardado. Então fomos, e aos poucos a estrada foi ficando menos movimentada e comecei a ficar com sono. Gerd seguia em sua marcha normal, noventaporhora (nova palavra alemã, criada agora), sendo ultrapassado por um enxame de Skodas, todos eles com nomes de mulheres — Octavia, Fabia, Felicia, os caras da Skoda devem ter alguma tara em nomes masculinos que viram femininos, os próximos lançamentos serão Pedra, Felipa e Ronalda —, e achei melhor procurar um lugar para comprar um Red Bull ou tomar um café, essas coisas que deixam a gente acordado.
Parei num pequeno restaurante, uma lanchonete, na verdade, deliciosamente modesta e decadente, e tinha Red Bull. Em checo, eu não sei nem dizer “quanto é?”, mas sei dizer Red Bull, disse Red Bull, o tiozinho me deu a lata e eu lhe dei uma nota de 100 coroas, que deveriam ser o bastante, 4 euros. Custou 50, 2 euros, mais barato que no Brasil.
Tomei o Red Bull e me mandei cruzando os Cárpatos, já desperto, esse negócio é incrível, meio ruim, pegajoso, doce demais, mas tira o sono de verdade, e toca para Brno atrás de um brnense. A uns 20 km da cidade começaram a surgir as placas para o autódromo. Por uns dois segundos, cheguei a pensar em conhecer a pista, mas não estava a fim de perder muito tempo e segui para parar em outro posto onde, finalmente, perguntaria como se fala Brno.
Parei e veio uma gordinha interromper meu check list, em inglês de novo. Queria saber se eu ia para Bratislava. Em algum lugar, em mim ou no carro, devia estar escrito que eu estava indo para Bratislava. Disse que sim, não quis repetir a história de Junkovic, e fui honesto. São quantos? Duas, ela disse. Não cabe, eu disse. Sorry. Ela sorriu, agradeceu e foi procurar carona em outro lugar.
Abasteci, tomei um competente expresso Segafredo — para ser honesto, o melhor da viagem até agora, num posto em Brno —, tinha um bom computador a 20 coroas por 10 minutos, dei uma internetada e fui embora. Na saída do posto lá estava a gordinha com sua amiga, uma magrela loira, com duas mochilas enormes no chão e uma placa escrito “Bratislava”. Fiquei com dó das duas e parei. A gordinha sorriu e já pegou a mochila, a loira fez o mesmo e ambas ocuparam Gerd com maestria, colocando uma das mochilas e algumas sacolas debaixo da minha mala, a outra atrás do banco, eu expliquei que o carro era lerdo e desconfortável, mas pelo jeito elas não se importaram muito, e fomos para Bratislava.
A gordinha era da Inglaterra, Oxford, chamava-se Miranda (a mãe é grega), e a magrela era do País de Gales, Helen. Gerd pareceu se animar. Você fica com a gordinha, disse a ele baixinho, mas é claro que a loira magrela foi atrás e a gordinha, na frente. Sem problemas, não estou mais na idade de disputar loiras magrelas com um Trabant. Tínhamos 100 km pela frente e seguimos conversando banalidades, elas sem se dar conta de que estavam num autêntico Trabi rodando pela Cortina de Ferro, Helen até dormiu sabe-se lá como naquele aperto, mas tudo bem.
Viajam há cinco semanas, exclusivamente de carona. No total, vão ficar seis meses por aí. Têm 22 anos, ambas, e acabaram de se formar em relações internacionais ou oceanografia, não entendi direito. E para onde vão?, perguntei. Para o Irã, responderam.
Depois o doido sou eu.
A minha carona era a 30ª da viagem, contaram, e disseram que as mochilas eram enormes porque carregavam uma barraca cada uma, e sua rotina nas últimas cinco semanas tem sido essa, pegar carona e dormir nas barracas acampadas em qualquer lugar, em geral nas florestas atrás de postos de gasolina. Quando dá, ficam em fazendas ou bares e restaurantes que participam de um programa para hospedar jovens mochileiros por toda a Europa, uma rede internacional, alguma sociedade secreta, sei lá eu, e em troca da hospedagem e de comida elas trabalham duas ou três horas por dia cuidando do jardim, ordenhando vacas ou servindo cerveja no balcão. Bem legal, isso. Até agora, disse a gordinha, só tivemos de pagar por duas noites em pensões.
Já chegando a Bratislava, parei mais uma vez num posto, agora para tomar café, e a loira magrela, que parecia estar no comando, avaliou a situação e decidiu: vamos ficar aqui. Resolveram acampar antes de anoitecer, e o posto lhes pareceu um bom lugar antes de seguirem para Budapeste. A gordinha me contou que de vez em quando acontecem alguns imprevistos. Na semana passada, um caminhão largou as duas de noite, já na República Checa, no meio do nada. Chovia e elas não tinham onde armar suas barracas. Andaram pelo acostamento por 5 km até encontrar um pequeno bosque cheio de lobos e ursos, pelo que entendi.
Deixei as duas no posto e logo mudaram de planos, parece, porque surgiu um caminhão com placas da Hungria, e quando fui embora vi que elas negociavam a 31ª carona, talvez desse para chegar a Budapeste hoje mesmo. Desejei boa sorte e segui para Bratislava, capital da Eslováquia, país no qual já havíamos entrado sem que nenhum controle tivesse sido feito na fronteira, assim como quando saí da Alemanha e entrei na República Checa.
Acho ridículo, isso. Pelo menos a um carimbo no passaporte deveríamos ter direito, nós que viajamos de carro por esta Europa de godos e ostrogodos. Se querem desativar os postos de fronteira, ok, que façam. Mas deixem ao menos uma barraquinha, “carimbe aqui seu passaporte por 2 euros”, eu pagaria. Um saco, isso. Saí da Alemanha, entrei na República Checa, saí da República Checa, entrei na Eslováquia e nenhuma autoridade europeia sabe dos meus passos. Eu poderia estar espalhando bombas de plutônio pelas estradas, que ninguém se daria conta.
A Eslováquia é um país novo, foi criado nesse formato de hoje em janeiro de 1993, embora os eslovacos formem um povo com mais de dois mil anos de história. Tem cinco milhões de habitantes e, desde o começo deste ano, adotou o euro como moeda oficial no lugar da coroa eslovaca, o que é muito bom, porque não me dei bem com as coroas. Entrei em Bratislava ao anoitecer, a tempo de ver ainda um belo pôr-do-sol na estrada, rumo ao Centrum, porque meu hotel ficava nos pés do castelo da cidade, e não devia ser muito difícil de achar. Não foi mesmo, nem precisei cruzar o Danúbio, foi de uma tacada só, Centrum, Centrum, Centrum, castelo e hotel, ótimo, estacionei Gerd, eram pouco mais de sete da noite, um banho e rua, o centro histórico é aqui do lado, pequenino e encantador, a cidade deve ser linda de dia, procurei um restaurante, achei um que se chama Rio, não tive dúvidas, sentei, pedi uma caipirinha (a minha é melhor, mas esta estava mais do que passável, tanto que tomei duas), comi um macarrão, fiquei olhando o movimento, me diverti com o cardápio que tem especialidades brasileiras como pastel de frango, não sei de onde tiram essas coisas, feijoada e pão de queijo, voltei a pé e aqui estou, pronto para dormir logo e aproveitar bem o dia amanhã, porque a perna rodoviária será curta, até Viena, Bratislava e Viena são as capitais mais próximas do mundo, e assim terei tempo de conhecer esta que era a fronteira mais setentrional do Império Romano, a capital do Reino da Hungria quando os otomanos tomaram Buda, terra de gente bonita e elegante, Bratislava, muito prazer.
E dormir tranqüilo, porque finalmente aprendi como se fala Brno.
PRAGA(acontece) – Era questão de tempo. Praga é uma cidade cheia de placas de proibido. O centro é muito antigo, as ruas são estreitas e em muitas delas só passam bondes. Cheguei de noite, sem mapa, confiando no meu senso de direção (que nem estava tão errado assim), mas acabei entrando numa rua exclusiva para bondes. Isso acontece direto, e não é por mal. É que às vezes não tem outro jeito, ou você entra, ou vai parar na Ucrânia. Aí é batata. No Leste, sempre aparece um policial. No meu caso, nem foi preciso esperar muito. O Barkas (não era um Barkas, é licença poética; era uma van Renault, ou Fiat, algo assim) já estava parado na minha frente, multando um carinha local. O guarda olhou para Gerd, para mim, e me mandou parar, claro.
Não falo checo. Ninguém fala checo, nem húngaro. Nem os checos e os húngaros. É uma brincadeira desses eslavos. Eles devem falar português, entre eles. Mas quando dão com um turista, desatam a falar com acentos nas consoantes. É impossível compreender um idioma que coloca acentos nas consoantes.
Algumas palavras, no entanto, são universais. Passaporte é uma delas. Tive experiências ruins em Budapeste, anos atrás, com policiais. Eles viviam extorquindo todo mundo no fim de semana de GP. Pediam o passaporte, falavam um monte de coisa em húngaro, você ficava olhando para a cara do sujeito e quando ele terminava, dizia “hã?”, e aí eles avisavam, em inglês, que o passaporte ficaria retido até segunda ou terça-feira, e aí batia o desespero, a gente voltava na segunda, não podia perder o avião, então rolava uma negociação escusa e saía uma pilha de forints para os filhos da puta. Ainda bem que forint nunca valeu muita coisa.
Depois da primeira, nunca mais saí com passaporte em Budapeste. Na rua, era um apátrida. “Passaporte?”, pedia o policial (todo ano tinha extorsão; o capitalismo adora uma extorsão). E eu dizia que não tinha. Ai desarmava o cara. Ele ia me tomar o quê? O carro? Pode levar, é alugado. Me prender, não ia. Encrenca, enchição (ou “encheção”? Acho que nenhuma das duas existe) de saco. Mandava ir embora, xingando em húngaro, a língua do capeta.
Bem, o policial que me mandou parar era um gordinho com cara de simpático, Gerd é simpático, embora ele nem tenha olhado para o carro, só se preocupou com o fato de eu estar nos trilhos do bonde, pegou o passaporte, a carteira de motorista e me mandou estacionar ali do lado. Estávamos atrás de uma igreja, o cara não iria ser filho da puta atrás da igreja. Em Budapeste, os policiais levavam a gente para os fundos do Parlamento para tomar a grana. Atrás do Parlamento faz sentido ser filho da puta.
O guarda gordinho me disse meio indignado que eu não poderia andar em rua exclusiva para bonde. Foi o que entendi de seu discurso em checo. Mil coroas, determinou, em inglês. One thousand koronas. Isso eu entendi. Tinha acabado de chegar, não havia trocado dinheiro. Maquininha de cartão de crédito ele não tinha. Euros? Aliás, o euro é um negócio interessante. Moeda única de vários países, mas em nenhum se fala euro do mesmo jeito. Na Alemanha, é “óirro”, na França, “orrô”, na Inglaterra (acho que por isso eles continuam com as libras), “íuros”, na Itália, “êeuro”.
Não, ele não aceitava euros, e além do mais não sabia o câmbio. Porra, mil coroas? Quanto é isso? O gordinho não sabia. O diálogo era amistoso. Ele não queria me foder. Falei que estava perdido e mostrei o endereço do hotel. Mas essa era uma segunda etapa. Primeiro, eu precisava pagar a multa. Cash machine, ele teve a ideia. Aprovei. Onde tem? Ali, na frente da igreja. OK, eu disse. Espera aí, não vai embora. Eu estava espantado com o fato de o gordinho querer apenas receber a multa. Não perguntou nada do Trabi, não achou esquisito um cidadão brasileiro com um Trabant emplacado na Alemanha rodando na rua dos bondes em Praga. Fosse eu o policial, já teria me algemado.
Fui buscar a grana. Mas liguei para o hotel e perguntei para o cara que atendeu quanto dava mil coroas. Uns 40 euros, ele disse. OK, não é nenhum absurdo. Saquei duas mil coroas, voltei, entreguei o dinheiro, assinei a multa e ele me deu o recibo. Dois recibos. Acho que foram duas multas. “Blok na pokutu”, estava escrito nos dois canhotos. Devo ter feito algo grave. Blokei na pokutu.
Estava encerrada a primeira parte. E agora?, perguntei. Como vou para o hotel sem passar pelas ruas exclusivas de bondes, ou de charretes, ou de bicicletas. Um mapa!, o gordinho exclamou, e pegou dentro do furgão um desses para turistas. Rabiscou aqui, ali, indicou com a mão, e eu fiz “hã?”.
Era um caso perdido. O gordinho sabia que se eu saísse sozinho dali, blokearia várias vezes na pokutu, e estaria fodido. Vem atrás de mim, falou. E foi assim que Gerd teve sua primeira experiência no estrangeiro, foi escoltado pela polícia checa até um ponto em que já dava para seguir o mapa, e o gordinho se despediu com simpatia e alguma pena do brasileiro no Trabant.
Estive em Praga no ano passado por alguns dias e conheço o que tem para conhecer na cidade, então hoje era só uma escala rápida, mesmo, porque amanhã vou para Brastislava, na Eslováquia. Passei o dia em Dresden, meio trabalhando, meio na folga. Acordei bem cedo para ver a porcaria da corrida de Suzuka, escrevi o que tinha de escrever para os jornais e me mandei para o centro velho da cidade, que só tinha visto de passagem, à noite.
Fazia frio, chovia e parava, às vezes saía o sol, guardei Gerd num estacionamento subterrâneo e saí para passear pelos calçadões. Dresden tem mais de 800 anos e um monte de histórias, mas são as mais recentes que me importam, e por isso é impressionante olhar para a cidade sabendo que ela foi completamente destruída na Segunda Guerra. Depois de 13 de fevereiro de 1945 (falei disso ontem), a capital da Saxônia foi transformada num monte de entulho com milhares de cadáveres por baixo. Entrei num museusinho bacana, o Verkehrs Museum, que conta a história do transporte na região. Tem vários carros, bondes, trens, aviões, bicicletas, motos, maquetes, miniaturas, máquinas, equipamentos, tudo muito bem montado, merece a visita. No terceiro andar, um cineminha mostrava a história da cidade num filmete de uma hora. Entrei para ver. As imagens da reconstrução são inacreditáveis. Logo depois dos bombardeios, milhares de pessoas passavam os dias nas ruas, removendo escombros em mutirões, homens, mulheres, velhos e velhas, sem tempo para chorar os mortos.
A igreja mais importante da cidade acabou de ser reconstruída há poucos anos. Foi o símbolo do renascimento de Dresden. As poucas pedras originais foram catalogadas uma a uma e usadas na nova. São as mais escuras numa dessas fotos aí. Aliás, tudo que é escuro é o que restou dos bombardeios. As partes claras foram refeitas a partir dos projetos originais. Durante os anos de DDR, as marcas da Segunda Guerra ainda eram muito visíveis. Não havia dinheiro para fazer tudo de novo. Com a reunificação, muita grana foi investida para revitalizar Dresden, que tem no turismo uma importante fonte de renda. E não é para menos, porque a cidade é maravilhosa.
Antes de ir ao museu e de ver o filme (e de chorar com o filme; eu sempre choro nesses filmes de museu, e como estou sozinho e escondido num canto, ninguém percebe), desisti de enfrentar o frio com o que trouxe do Brasil e fui comprar um casaco pesado. Tinha um shopping bonito e animado ali por perto, entrei em duas ou três lojas, e não sabia direito o que comprar. Até que uma vendedora tiazona me deu um, mandou eu colocar e disse que tinha ficado “chic”. Chic é foda. Minhas dúvidas acabaram na hora.
Tirei umas fotos aqui e ali, uma perua Wartburg, um bloco de apartamentos da era Honecker, e saí de Dresden no fim da tarde com Gerd precisando de gasolina. Não entrei em estrada alguma antes de encontrar um posto. Sei como são essas coisas. Não vale a tensão. Achei um Aral perto da universidade e aproveitei para comprar um litro extra de óleo dois tempos, e a menina do caixa fez questão de me avisar que era para motocicleta ou cortador de grama, e eu disse que tudo bem. Comprei também um pacote de biscoitos de chocolate porque a ex-dona do Trabi era fã da marca e tem até um adesivo pequenininho no vidro traseiro que nunca vou tirar de lá. Meio desligado, talvez cansado, mesmo, peguei a 13 para o lado errado e ainda bem que percebi a tempo. Já estava voltando para Berlim. Perdi uns 10 km nisso e, depois de achar um retorno, proa para o o sul, República Checa aí vamos nós.
Choveu forte na Autobahn, mas parou quando entramos em território checo, sem que nem um postinho de fronteira marcasse o momento histórico da primeira saída de Gerd da Alemanha. A Checoslováquia era o destino mais popular dos alemães-orientais, que passavam férias e feriados no vizinho ideológico com viagens organizadas pelo governo da DDR. Em 1988, foram 651.630 excursões para o país, quase três vezes mais que as viagens para a URSS e seis vezes mais que para a Hungria, que andava saidinha demais da conta.
Andamos um bom trecho, uns 50 km, numa estrada escura e soturna, entre o rio e a linha de trem, sem nenhuma placa que indicasse que estávamos no caminho certo. Mas eu sabia que estava, sei me orientar pela lua, e ela tinha aparecido entre as nuvens. É verdade isso, que sei me orientar pela lua e pelo sol. Pelas estrelas, depende. A direção era correta, tranquilizei Gerd, que me pareceu nervoso. E quando apareceu “Praha”, não fiquei nem surpreso, nem aliviado.
O tempo passou rápido, porque consegui sintonizar sem querer no Blaupunkt o serviço mundial da BBC em FM e estavam transmitindo Chelsea e Liverpool, e o narrador falava o tempo todo “Maxerano”, e eu fiquei o tempo todo xingando o cretino do narrador. Quando o jogo acabou, a rádio saiu do ar. Desliguei e fiquei escutando o motorzinho do Trabi.
Os últimos 40 km foram percorridos por uma autoestrada checa muito boa, até a chegada a Praga e o já relatado encontro com o guarda gordinho. No caminho, achei que tinha perdido o celular. Não encontrava de jeito nenhum e não queria parar o carro para vasculhar o interior. Aí, engenhoso, fiquei tirando fotos com o flash para ver se encontrava. Batia e olhava a foto, sem perder a concentração na estrada. Numa dessas, coloquei o braço por trás do banco do passageiro e mirei para o assoalho. O celular apareceu no visor da máquina e fiquei mais calmo.
Agora está tudo bem. No fim, sempre fica tudo bem. Acho. Só estou com fome.
DRESDEN(linda) – Hotel em cidade baladeira é assim mesmo. Café da manhã, aos sábados e domingos, é servido até uma da tarde no meu refúgio “ostalgic”, o que quebrou o maior galho hoje, porque acordei tarde. Dei tchau a Berlim, jamais adeus, porque é a cidade que mais gosto no mundo. Destino Dresden, capital do reino da Saxônia, e daqui até o fim vai ser uma noite em cada.
Está passando “Adeus, Lênin” no Canal 1. Aqui tem TV. Toda vez que vejo esse filme, choro. Mesmo se estiver vendo em alemão.
Meu alemão é horrível. Na verdade, inexistente. Não entendo nada e meu vocabulário se resume a contar de 1 a 10 com sotaque indefinível, e mais algumas palavras e expressões essenciais como café, água, cerveja, bom dia, boa noite, obrigado, carro, quarto, açúcar, salsicha, pão, gasolina, xícara, estação de trem. O que não sei dizer, improviso colocando “das” na frente e “en” no final. “Das franguen”, “das tapeten”, “das toalhen”. Não sei nenhum verbo, o que faz de mim falando com um alemão algo próximo de Sting conversando com o cacique Raoni em tupi-guarani.
Por isso, tenho meus truques para passar despercebido na multidão. Nos postos de gasolina, reparei por esses dias, abasteço, guardo o número da bomba, vou ao caixa, a moça fala algo que deve ser “qual a bomba?”, digo o número, pago e respondo sempre “não” à segunda pergunta, que tem sido inevitável e acho que é “nota paulista?”, ou “CPF na nota?”, e como sempre digo não em São Paulo, digo não aqui também, e até agora não tive problemas com meus nãos.
Saí de Berlim pelos subúrbios do sul intuindo que pelo caminho de Tempelhof, o aeroporto-fantasma que encerrou suas operações em outubro do ano passado, seria possível fugir das Autobahns e seguir pela 101 ou pela 96 para os lados da República Tcheca. Tempelhof é o aeroporto mais lindo do universo. O terminal que hoje está desativado foi inaugurado em 1927 e foi o primeiro do mundo a ter uma estação de metrô dentro. Foi lá que fundaram a Lufthansa.
Ninguém sabe o que vai ser feito do prédio. Tem gente querendo botar abaixo, mas tem gente defendendo sua preservação. No fim, vai virar shopping, com loja do Starbuck’s e da Hugo Boss. Ou centro de eventos, ou conjunto de escritórios, ou ainda museu aeronáutico.
Tempelhof foi a salvação de Berlim Ocidental entre junho de 1948 e setembro de 1949, quando a URSS resolveu isolar a a área ocupada pelos aliados por terra e água, cortando a linha de suprimentos para seus habitantes. O jeito foi usar aviões cargueiros, que abasteceram Berlim por quase um ano, até que os soviéticos voltaram atrás e liberaram estradas e rios.
Hoje, seu estacionamento está tomado por folhas que não param de cair das árvores neste outuno gélido e algumas vias de acesso estão sendo usadas como parada para motorhomes. O prédio é belíssimo e tem muita história. Tomara que os berliners não deixem que o derrubem.
Achei a 96 sem maiores problemas e optei por ela, em vez da 101, porque é o número do meu DKW de corrida e porque o caminho era mais curto, também. Deixando os limites de Berlim, voltei à Alemanha Oriental que já não existe há 20 anos, mas para mim ainda é.
As estradinhas alemãs, para um Trabant como Gerd, são bem mais amigáveis. Andar a 90 por hora é mais ou menos normal e, assim, não tomei buzinadas, nem farol alto de ninguém. Na medida em que ia ganhando quilômetros para o sul, o movimento ia caindo e, na maior parte do tempo, viajamos só nós, eu e Gerd, por paisagens bucólicas e rurais, pontuadas aqui e ali pelos prédios modulares de concreto que acabaram com o déficit habitacional da DDR nos anos 70. Fiz várias paradas, a saber: primeiro, em Tempelhof; depois, na “fábrica”, essa coisa enorme de uma das fotos acima que não sei o que é, mas é impressionante; mais adiante, para tirar uma foto ao lado do campo de magnólias (não sei se são magnólias, porque não sei o nome de flor alguma, só girassol, mas achei que tinham cara de magnólias); cruzei um Wartburg estacionado diante de um hotel e parei também para fazer uma foto do primo de Gerd; passando por uma cidadezinha de nome Golssen, vi dois tanques soviéticos no alto de plataformas e estacionei para ver do que se tratava, e era um cemitério com um memorial homenageando os soldados que tombaram mortos pelos nazistas quando se aproximavam para o cerco a Berlim pelo sul (no fim, entraram pelo leste); finalmente, parei para fazer schischeen e tomar um café num posto de gasolina.
Sem pressa, fui ouvindo o tempo inteiro a rádio Paradiso, cujo sinal foi desaparecer a mais de 120 km de Berlim. Desapareceram também as pessoas pelas cidades, todas desertas, apesar do solzinho envergonhado de um sábado bom para fazer alguma coisa na rua. Já me disseram que, na verdade, a Alemanha Oriental vive um problema sério de redução drástica de população, porque os jovens preferem procurar empregos do lado ocidental, onde se ganha mais e dá para pegar mais mulher. Vão ficando só os velhinhos, que não se animam muito para passear nos sábados frios.
As pequenas vilas foram se sucedendo, engolidas pelo motorzinho valente de Gerd, que nem tosse, é incrível: depois de Golssen, Luckau, Sonnewalde, Finsterwalde, Lauchhammer, até cair na A13, aí não tinha mais jeito, para os últimos 40 km até Dresden.
Aqui para baixo, um carro como o Gerd já não chama tanto a atenção, embora eu só tenha visto mais dois Trabis nesses mais de 200 km, ambos estacionados, mas com jeito de que estão em uso. O que espanta os caras que me ultrapassam, nas estradinhas, é a placa. Ninguém entende direito um Trabant licenciado em Düsseldorf, nem o caráter provisório da licença. Um alemão virar o pescoço intrigado com a placa é puro Kant, a obsessão germânica de tudo explicar e compreender, não deixar perguntas sem respostas. Bem, se me parassem para perguntar, eu não saberia bem o que dizer. Ainda mais com meu alemão de café-açúcar-cerveja. Das plaquen est provisorien, das auto est mein, Herr Gerd, mein amiguen.
O dia foi bonito, nem precisei ligar o aquecimento central do carrinho e até precisei de óculos escuros. Chegando à Autobahn, vi uma placa para Lausitzring. Se tivesse mais tempo, iria conhecer a pista. Mas não tenho, e segui para Dresden, onde anos atrás tive de passar uma noite, enxotado do trem que me levava a Praga, porque não tinha visto. Hoje não precisa mais dessas coisas. É tudo free, entra-se e sai-se (que bela construção) de qualquer país europeu sem ninguém te encher o saco.
Minha pequena jornada pelo Leste completou 1.000 km exatamente na entrada da cidade, e eu e Gerd já recalculamos a rota, como fazem os aparelhos de GPS, cortando Zagreb e Liubliana do roteiro. Uma pena, mas as distâncias são longas demais e eu não pretendo passar mais do que três ou quatro horas por dia no carro.
Dresden é uma das cidades mais bonitas da Europa, embora tenha sido covarde e inteiramente destruída por ataques aliados entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, quando despejaram mais de 650 mil bombas sobre a população civil, calculada na época em mais de um milhão de pessoas — hoje, são pouco mais de 500 mil; é que Dresden, na Segunda Guerra, virou refúgio de muita gente. Não se sabe ao certo quantos morreram, as estimativas vão de 25 mil a 120 mil baixas civis, num episódio vergonhoso que ingleses e americanos sempre procuraram justificar como ataque a alvos militares. Não destruíram um tanque.
Nos anos pós-Guerra, o governo da Alemanha Oriental reconstruiu o que pôde, e nas últimas duas décadas a cidade foi totalmente reerguida e é bela, belíssima, cortada pelo Elba e cheia de palácios e museus magníficos. Não tinha mapa para chegar ao hotel, mas parei perto de um calçadão no centro e a mocinha da lojinha de souvenirs imprimiu do Google, com roteiro em inglês, siga por aqui, entre à esquerda ali, continue por mais 800 metros, destino à direita, e fui indo, indo, passei por um descampado à beira do rio que teria um show de fogos de artifício, mas ia começar bem tarde, achei melhor jantar e dormir.
Daqui a pouco tenho de acordar para ver a corrida, e amanhã dou umas bandas por aí de tarde, antes de seguir para Praga. Gerd vai sair da Alemanha pela primeira vez na vida. Será um dia importante para ele.
BERLIM (dormir, mais tarde) – O que mais gosto em Berlim é a Alexanderplatz. E o que mais gosto na Alexanderplatz é o Homem-Salsicha. O cara que vende bratwurst com pão e mostarda carregando a grelha apoiada na barriga por um euro e vinte centavos. Deve ter em outras cidades, também. Mas eu sempre vi os Homens-Salsicha aqui, então que seja Alexanderplatz o planeta natal dos heróis berlinenses. Minhas refeições hoje foram fornecidas pelos Homens-Salsicha. Três, com intervalos de 10 minutos entre elas.
Gerd foi conhecer o Muro de Berlim pela manhã. O dia estava frio e cinzento. Choveu, parou, choveu, parou. Estou bem perto de onde ficava o Muro, e andaram colocando umas réplicas de pedaços famosos ao longo da linha de trem, com pinturas clássicas que ficavam do lado de lá. Estacionei o carrinho atrás de outro Trabant. Era de uma empresa de turismo que faz um tour pela cidade e chama o passeio de safari.
Safari é na selva. Tontos.
Parei o carro, saí para sacar uns retratos e imediatamente chegou gente para tirar fotos do Gerd. É que não hão mais Trabants em Berlim. Pausa para o “hão”. O verbo haver é até hoje ranqueado na minha mente deturpada como a maior decepção gramática de todos os tempos. Aos sete ou oito anos, depois de aprender sua conjugação pervertida, escrevi uma redação na escola e usei “hão”. “No limoeiro hão limões”, algo assim. A professora corrigiu. Haver não flexiona. Como, não flexiona? O que é flexiona? Fiquei com raiva da professora, do verbo e dos limões. Nunca mais escrevi hão. Resolvi escrever hoje.
(Vou pegar uma cerveja.)
Como não hão mais Trabants em Berlim, todo mundo olha para o Gerd. Até a turma do safari, que veio em bando logo depois. Entrei na fila. A menina que dirigia o primeiro, uma peruinha, ficou feliz da vida ao ver um Trabi autêntico, dirigido por um alemão autêntico (eu), sem carregar turistas apertados no banco de trás.
Me mandei para Friedrichstrasse. Sempre tem, hão, novidades perto de Checkpoint Charlie, o posto de fronteira mais popular daqueles tempos, onde um dia a URSS meteu dez tanques de um lado e os EUA enfiaram mais dez do outro, e ficaram se olhando por 14 horas, ou 16, sei lá quantas, um país rosnando para o outro, e depois foram todos embora, coisa mais sem graça da porra.
Antigamente tinha mais ambulantes vendendo pedaços do Muro em Checkpoint Charlie. Hoje eram três, só, e nem pedaço do Muro vi. Só chapéus russos e uniformes falsos da polícia alemã-oriental. Os camelôs já não são mais os mesmos. E a área estava infestada por ciganos infantis, romenos, talvez, que perguntavam a todos “do you speak English?”, e todos diziam “no, I don’t”, e eles iam embora.
Entrei no museu de Checkpoint Charlie para ver as últimas. Gosto desse museu, e de ler nas paredes as histórias dos caras que conseguiram fugir de Berlim Oriental por túneis, ou com aviões construídos no fundo do quintal, ou escondidos dentro do painel de carros. O Muro foi uma medida extrema do governo da DDR (doravante assim será chamada a República Democrática da Alemanha, RDA em português), erguido em 13 de agosto de 1961 com arame farpado, porque desde a criação do país, em 1949, 2,5 milhões de cidadãos haviam se pirulitado para o lado ocidental via Berlim-idem. A economia estava indo para o saco. No dia 14, 65 mil berlinenses orientais saíram de casa para trabalhar do outro lado e não puderam atravessar. Só em 1963 que o governo da DDR passou a permitir visitas de parentes, e acho que o resto todo mundo sabe — Gorbatchov assumiu em 1985, viu que a URSS estava quebrando, começou a abrir a economia, e os satélites fizeram o mesmo, até a dissolução da Cortina de Ferro e de nações inteiras, algumas artificialmente coladas com Super Bonder, como a Checoslováquia e a Iugoslávia.
O Muro começou a cair graças aos movimentos apoiados pela igreja na Alemanha Oriental. Não houve violência, os coroinhas e os padres resolveram a parada. Leipzig foi a primeira cidade a se manifestar em massa pacificamente, e no dia 9 de novembro um pica-grossa do Partido anunciou mudanças nas regras de entrada e saída de Berlim Oriental, dando uma certa relaxada no negócio, e aí escorregou nas palavras ao dizer que uma dessas novas medidas tinha efeito imediato. “Efeito imediato” para a turma do Leste louca por uma calça Levi’s era imediato mesmo. Arrebentaram o Muro e acabou tudo. Foi a maior festança. Vai fazer 20 anos.
Mas a Alemanha Oriental, como dizem por aqui, fica cada vez melhor, na medida em que passa os tempo. Tem muita gente com saudades do regime estável, seguro, sossegado e, de certa forma, ingênuo da DDR. Tirando a Stasi, que pentelhava todo mundo e transformava cada cidadão num delator em potencial, e os guardas de fronteira, que mataram 125 (algumas fontes falam em 92) pessoas que tentaram atravessar o Muro na marra, a Alemanha Oriental era uma boa ideia. Que deu errado, claro, porque num mundo comandado pelo mercado e pelo capital, mesmo um país que despreza ambos se fode de canudinho.
Os alemães orientais têm uma imagem meio cinzenta por conta da propaganda anticomunista que martelou nossos doces lares durante décadas, mas não se enganem. Eram divertidos e adoravam uma sacanagem. Foram os maiores nudistas de todos os tempos em todos os reinos e impérios. No verão, se mandavam peladões para as praias do Báltico e não queriam nem saber. Há estatísticas, não sei de onde tiram esses números, que dizem que 10% dos habitantes da DDR eram naturistas juramentados e praticantes, e que 80% da população tirou a roupa na praia ou no lago pelo menos uma vez na vida.
Ninguém reprimia os peladões. Ainda bem. Os livros de fotos dessa época, anos 70/80, são melhores que qualquer “Playboy”… As meninas do Leste eram muito sorridentes, interessantes e atléticas. E peludas.
A DDR me interessa bastante, não só pelos carros e pelas loiras peladas e peludas. É um negócio tão recente e absurdo do ponto de vista ocidental que me espanto o tempo todo ao lembrar que há apenas 20 anos o mundo era dividido em dois pelo Muro que hoje é vendido aos pedaços nas lojas de souvenir.
Ao sair de Checkpoint Charlie, fui a um museu muito interessante, o DDR Museum, que foi eleito o “museu do ano” da Europa em 2008. Pequeno, na beira do Spree, mas muito carinhoso e bem montado. Não faz apologia de nada, apenas mostra como era diferente a vida na Alemanha Oriental, como era possível viver com uma ou duas marcas de pasta de dente e sabonete, como as pessoas aprenderam a se virar diante da escassez, como o governo se empenhava na educação das crianças desde os 11 meses de vida, em prover habitação e pleno emprego, em promover a amizade entre os trabalhadores, a simplicidade como “way of life”, se é que me entendem.
Claro que os dirigentes do Partido eram filhos da puta, como quase sempre, mas no geral as pessoas viviam bem, sem grandes sustos, casavam, tinham filhos, esperavam seus Trabants, tiravam a roupa na praia no verão, faziam esporte, trepavam, iam à escola, ficavam gratos quando saía a chave de seu apartamento novo. Se não dava para limpar a bunda com papel Neve perfumado de folha dupla, me parece que não era algo que incomodasse demais. Tinha cerveja, salsicha, bar, automóvel, trabalho, escola, teto, bonde, trem, ônibus, cigarro, camisinha, café, loja de departamentos, mercadinho, banda de rock (procure no Google a Puhdys, que vendeu 15 milhões de discos, de acordo com o museu), discoteca, festival, campo de futebol, piscina, roupa nova (de tecido sintético, porque era difícil arrumar algodão; e quem desenhava os modelitos era o Modeinstitut Berlim, até isso o governo fazia, o que livrava o povo de coisas como a São Paulo Fashion Week e seus estilistas afetados), aparelho de TV coloridos, revistas jornais, emissoras de rádio, cinema, universidades.
Uma das críticas que fazem ao antigo regime diz respeito à doutrinação da molecada com ideias marxistas-leninistas desde cedo nas escolas, como se fosse um pecado ensinar aquilo em que se acredita. O que se faz numa escola brasileira hoje desde pequeno? Ensina-se a competição, o mata-primeiro-senão-ele-te-come-no-mercado-de-trabalho, a dar valor ao dinheiro, ao ter, ter mais sempre, e o que é isso que não uma doutrina escroto-capitalista que enfiam na cabeça das crianças mal elas saem das fraldas? Rotos falando de esfarrapados.
Gerd ficou boa parte do dia protegido do frio cortante deste outono gelado numa garagem subterrânea perto da ilha dos museus e eu fui bater perna mal agasalhado porque não esperava este clima glacial. Amanhã vou descer para Dresden, tomara que melhore um pouco. De noite, encontramos um amigo meu e o amigo do meu amigo, e fomos tomar uma cerveja num bar legal de Friedrichsdhain, a Vila Madalena do lado oriental. Na minha cabeça, ainda há dois lados. E quem conhece Berlim sabe bem onde começa um e termina o outro, mesmo sem Muro. Todos os três quisemos nos casar com a garçonete, cheguei a pedir ao Maurício para avisar minha família que iria fixar residência aqui depois que esbarrei o cotovelo sem querer na bunda da moça.
Deixei a dupla perto da Alexanderplatz e fui dar uma volta pelo Ocidente. Passei pelo Portão de Brandenburgo (por fora; não passa mais carro ali), pelo Reichstag, segui pela Unter den Linden, margeei o Tiergarten e fui fazer a volta só em Charlottenburg, para acabar a noite num simpático Hooter’s debaixo da linha de trem comendo frango frito apimentado, essas coisas americanas têm alguma serventia, afinal, porque já estava tudo fechado do lado de cá.
Gerd me esperava sossegado na vaga no meio da avenida, sozinho, o sereno cobrindo seu teto de fibra de algodão e plástico e os vidros da frente e de trás. Dizem que na DDR se esperava por um Trabant por 16 anos. O nome quer dizer “companheiro” (na verdade verdadeira, “satélite”, mas pode ser entendido como “companheiro”, também, dependendo do contexto), e os carrinhos acabavam virando mesmo parte da família, porque ninguém trocava todo ano. Era para a vida toda. A temperatura estava em seis ou sete graus. Liguei o motorzinho de 600 cc e coloquei seus 26 bravos HPs em marcha. Do lado da torneirinha da gasolina tem um botão do sistema de aquecimento. Puxei, tremendo.
O calor vindo não sei de onde, daquele botão mágico, talvez, me invadiu e eu disse obrigado a Gerd, um bom parceiro.
BERLIM (que eu gosto) – Eu estava na estradinha para Wolfsburg, acho que a 188, e aí vi do meu lado esquerdo um trailer estacionado, com a frente virada para a estrada, mesmo. Como Gerd anda devagar, dá pra olhar tudo com detalhes. Dentro dele, uma loira linda, as pernas bronzeadas apoiadas no painel, lendo alguma coisa. Putz, pensei. Deve ser a filha, e de saco cheio. Pais que adoram acampar, passear de trailer, a menina, coitada, entediada, louca para estar com os amigos. Aí, logo depois, do outro lado, outra. Loira, também. Esses pais, coitadas dessas meninas… Saem para passear no bosque e deixam as garotas sozinhas, doidas para acabar o fim de semana.
E mais adiante, comecei a desconfiar. Primeiro, porque não é fim de semana. Depois, porque este tinha uma luzinha vermelha do lado de fora do trailer. E, no vidro, uma placa escrito “Vivien”. E era uma baita duma mulata de aplique. E fez tchau pra mim e pro Gerd. E não tinha cara de filha entediada de pais chatos que gostam de passear no bosque.
Foi a grande descoberta do dia. E olha que fiquei surpreso de verdade. Provavelmente já rodei mais por estradas alemãs na minha vida do que pelas brasileiras. E nunca tinha percebido as meninas dos trailers. Motéis ambulantes. Rimos bastante, eu e Gerd, até que ele engasgou e tive de parar na grama que serve de acostamento.
É que a gasolina acabou. Trabants avisam assim: engasgam e param. Pronto. Ninguém mandou esquecer de colocar gasolina. Meus cálculos é que estavam errados, na verdade. Gerd não faz 20 km por litro, deve fazer menos. Mas a engenharia alemã-oriental pensou em tudo. Debaixo do painel tem uma torneirinha com três posições. Não sei se dá para ver direito na foto.
(Aliás, a turma reclamou das fotos pequenas. Neste publicador, ou eu coloco todas enormes, ou nessas miniaturas aí do alto, e cada um clica na que quiser para ver melhor. Fica meio feio em termos de design de página, mas é o que sei fazer. Tem 18 fotos de hoje aí. Um exagero. A partir de amanhã, vai ser uma por dia e olhe lá.)
A torneirinha: “A”, “Z” e “R”. “A” deve ser de “aberto”, porque é a posição que Dom Pedro Von Wartburg me mandou deixar. “R” deve ser de “reserva”. “Z” deve ser de “[Deu] zebra”, é quando está fechada. Coloquei em “R”, dei a partida, funcionou, fomos em frente. Mas a reserva é limitada, digamos. Era melhor arranjar gasolina logo. Aí apareceu um posto salvador numa transversal da estradinha e deu tudo certo. O posto era da bandeira “T”. “T” de “tem gasolina”, “tem óleo dois tempos”, “tudo tem jeito”.
Ficar sem gasolina num Trabant só sendo mesmo um obtuso como eu. O carro é econômico de verdade. E te ajuda a economizar. A quarta marcha, por exemplo, tem roda-livre. Para quem não sabe, é o seguinte (DKW também tem, mas nas quatro marchas): você está em quarta, acelerando, o mundo está passando pela janela e nada pode ameaçar a paz na Terra; tira o pé do acelerador, o carro entra em ponto-morto sozinho, para não gastar. Acelera de novo, a marcha engata sozinha. Não adianta, o seu carro não faz isso, e nunca os japoneses conseguiram copiar.
300 ml de óleo para 10 litros de gasolina, é a conta mágica. É mais do que em DKW e menos que no Wartburg. Mas não se preocupem em decorar isso, é coisa que só interessa para mim.
O dia estava melhor hoje. Saiu até sol e deu para ver o céu azul. As músicas que o Blaupunkt estava tocando também eram melhores. Tocou “American Pie” e eu fiquei com os olhos cheios d’água, porque sou bobo. E saí de Hannover sem pegar Autobahn nenhuma, para ver as flores e as meninas dos trailers, que eu não sabia que existiam e me apaixonei por cada uma delas.
Gerd não teve mais nenhum problema depois da quase-pane-seca. Quando saímos do posto “T”, tive a impressão de que as velas encharcaram. Mas motor dois tempos é assim mesmo, depois limpa. Limpou. Téin-téin-téin. Diferente do pó-pó-pó. Coisas do escapamento. Fui para Wolfsburg.
O carro estava meio zoneado. Como tem um baita porta-trecos debaixo do painel, coloco tudo lá. Bem melhor que os Hilux-Merivas-Méganes da vida, com 200 porta-trecos espalhados por todos os cantos. Para que tantos? No fim, você esquece onde colocou as coisas. A engenharia alemã-oriental pensou nisso, também. Coloque tudo no mesmo lugar. O mapa aberto vai no banco do passageiro. GPS é coisa de viado, naturalmente. E não existia quando Gerd saiu da fábrica em Zwickau.
(Estou tomando a segunda cerveja na recepção do hotel, dele falo daqui a pouco, e isso é sinal de que começarei a dizer palavrões.)
Wolfsburg era o destino intermediário, a caminho de Berlim. Queria ir na fábrica da VW. Há uns anos, acho que uns 400, quando estive em Berlim pela última vez, fui de trem. De Paris a Berlim de trem. Muito bom. Demorou pra caralho, mas foi muito bom. E na ida e na volta o trem passou em Wolfsburg, diante da fábrica da VW. Desde então, tinha vontade de conhecer esse negócio. Foi fácil de achar, mais do que a Karmann. A VW é dona de tudo em Wolfsburg: da maior fábrica, dos empregos, do estádio, do time de futebol e do Grafite. Siga as placas para Autostadt e é fácil.
Só que errei o estacionamento. Sou meio disléxico, o Fábio Seixas já dizia isso. Embiquei Gerd na portaria principal da fábrica, por onde só entram os parentes de Ferdinand Porsche. Me enxotaram aos berros. Foi gozado. Achei o estacionamento.
Esse Autostadt é uma espécie de disneilândia (aportuguesei de propósito, é que nem gilete e lambreta) da VW. Para quem gosta de carros, vale. Para quem não gosta, que se foda. Eu gosto, e vou te dizer… Tem sete pavilhões, um para cada marca da VW (Skoda, Audi, Seat, Lamborghini), um museu, um para os VW mesmo e mais o centro de entrega de carros aos compradores sobre o qual (estou escrevendo mui corretamente) falarei depois.
Comi uma pizza no prédio da entrada, enorme (prédio e pizza), cheio de restaurantes, lojas, mostras, cafés. O museu, primeiro à esquerda quando se sai desse prédio da entrada, é o que mais vale a pena. As fotos são quase todas dele. Uma bela passada pela história do automóvel, com coisas como os primeiros protótipos do Fusca, o milionésimo Fusca (meio cafona, com paetês no parachoque, mas é o milionésimo, tá valendo), os Benz de 1800-e-bolinha, a justa homenagem a carros importantes como o Ford T, o Citroën 2 CV, o Trabant (colocaram um cupê esportivo, o P70), o primeiro DKW, fora a gangue VW dos anos 60/70/80. Eu gosto, não tem jeito, fico babando.
Os outros pavilhões são meio assim-assim. Tem um tal de Premium Club (talvez o nome seja outro) ridículo. Um prédio inteiro para mostrar um Bugatti cromado, e de longe. Premium Club realmente não dá. Nem meu cartão de crédito tem nome tão cretino. Entrei duas vezes no prédio porque achei que tinha perdido alguma coisa. Não, era só o Bugatti, mesmo. O pavilhão da Lamborghini estava fechado. O da Seat e o da Audi são como showrooms, nada de muito espetacular.
Mas o tal departamento de entrega de carros…
Acho que todo mundo já ouviu falar. Tem um baita prédio redondo de três andares todo envidraçado para onde Fritz e Gerda se dirigem depois de comprar um VW. O painel eletrônico indica a hora em que seu lindo automóvel vai chegar. E eles ficam lá, ansiosos, esperando. Horas antes, o carro já saiu da linha de montagem por um corredor subterrâneo e foi levado, por um elevador-plataforma, para uma das duas Car Towers, dois prédios cilíndricos também envidraçados (deve dar um trabalho danado limpar esses prédios) que comportam 400 carros em seus 20 andares. Ali eles ficam até o dia em que Fritz e Gerda vão buscá-los. Quando chegam, o elevador-plataforma, controlado por computadores e gnomos, vai catar o carro na vaga tal no andar tal, ele desce, e é levado por outra esteira para o centro de entregas. Nenhum ser humano ou extraterrestre encosta no carro antes de Fritz e Gerda.
Simples, não? Deve ter custado os olhos da cara fazer essas duas torres de vidro e as esteiras subterrâneas, é um exagero da porra, mas eu vi uma garotinha sorrindo feito louca, correndo e pulando em volta de um Golf vermelho no local da entrega, e Fritz e Gerda abraçados olhando aquilo emocionados, então valeu cada euro.
Estava anoitecendo quando peguei Gerd rumo a Berlim, agora de Autobahn, de noite não dá para ver nada, mesmo, e é mais rápido. O sol estava se pondo na minha cara, e tive de usar o para-sol. Parassol. Sei lá como se escreve essa merda agora. Estou na Alemanha, então como na Alemanha: aquelenegócioqueagenteabaixaparaosolnãobaternasuacara. No Trabi, o negócio esbarra no retrovisor quando você abaixa. Fosse uma SUV Hiunday Ultra Plus Mega Super, seria o bastante para o dono escrever para a “Quatro Rodas”, chamar o Procon e chorar no “Fantástico” com a voz distorcida pedindo para não ser identificado.
Na Alemanha Oriental, o cara abaixava, entortava o retrovisor e ele desentortava. O engenheiro que calculou o tamanho do para-sol era, provavelmente, o mesmo que tinha projetado as instalações hidráulicas da fábrica. E daí?É só arrumar o espelho. E tapa o sol do mesmo jeito. O mundo é cheio de frescuras. Num Trabi, não há frescuras.
Na Autobahn, 90 por hora fixos. Os caminhões foram rareando quando escureceu. Eles param em gigantescos estacionamentos e postos de gasolina para dormir. Só os poloneses seguem na estrada. Malditos poloneses. Já tive um entrevero com um ontem, hoje foi um caminhão que me deu farol alto. Polonês viado. Fui ultrapassado por vários caminhões poloneses, alguns letões e outros lituanos. E o vento lateral perturba, num Trabi. Quando os caras (não os caminhões poloneses, os carros alemães) passam por você a 300 por hora, ele balança. Precisa segurar o volante com as duas mãos.
Cheguei a Berlim no meio da noite. Estou num hotel muito doido, todo decorado com móveis da DDR. Só tem WiFi na recepção. O quarto tem papel de parede florido e uma foto de Honecker na parede. A TV deve ser P&B. Meu quarto fica no sexto andar, o último, e não tem elevador. Elevador é para os fracos. Na parede atrás da mocinha linda que fez a ficha, quatro relógios, com as horas de Moscou, Havana, Berlim e Pequim. É o máximo.
Fica no lado oriental, claro. Conheço bem Berlim e embora seja meio escondido, o hotel, achei fácil. Fácil mesmo, sem errar uma rua. Me orgulho dessas coisas. Orgulho solitário. Depois, não podia perguntar o caminho para ninguém. Além de não gostar, como um cara de Trabant pode estar perdido em Berlim? Bem, não me perdi.
Estes textos estão ficando muito grandes. Ninguém vai ler esta merda.
HANNOVER(amanhã tem mais) – Gerd é um carro. Alguns dos meus carros têm nome. Gerd já veio batizado. Nesta semana e na outra, ele é meu. Gerd tem tudo que um carro precisa ter: um motor econômico (está fazendo quase 20 km/l), quatro rodas, pisca-alerta, desembaçador do vidro traseiro, farol alto e baixo, pisca-pisca, um rádio que pega várias estações e toca fitas, velocímetro, um chaveiro com porta-moedas e um bicho estranho pendurado no retrovisor.
Ele é pequeno, anda a 100 por hora e faz um pouco de barulho. Só não tem no parabrisa o selinho redondo verde que, na Alemanha, indica os veículos que contribuem com sua parte para nosso belo quadro ecológico. Verde, verde, verde. Gerd nem verde é, é azul.
Diz que a dona anterior ficou triste quando ele foi embora. O marido comprou um Toyota para ela. Foi o que me contaram meus amigos nobres prussianos que foram buscá-lo em Leipzig. Eles, meus amigos, têm terras na Saxônia e são de alguma linha sucessória do pedaço: Dom Peter Von Wartburg e Lady Julyana Von Pampuglia.
Cheguei ontem ao castelo do casal e me levaram para jantar. Como sou simplório, queria salsicha e cerveja. Como eles são nobres descolados, me levaram para comer salsicha e tomar cerveja, e ainda me apresentaram ao Killepitsch, muito prazer, o Google explica.
Hoje cedo Dom Pedro usou de suas influências para que eu pudesse me jogar sem mais delongas numa autobahn qualquer rumo a não sei bem onde. Gerd fora preparado nos últimos dias por Herr Dösser, que deixou o carrinho em ponto de bala. Justinho, sem ruídos, suspensão certinha, freio simpático, câmbio que é uma manteiga.
Saímos de Düsseldorf no fim da manhã. Deixei o príncipe regente em Essen, onde tem negócios, e me fui.
É uma experiência curiosa viajar de Trabant pela Alemanha Ocidental. Na verdade, toda a Alemanha hoje é Ocidental, então será igualmente curioso quando adentrar o antigo Leste, porque já não se veem mais Trabis rodando por aí. Nas cidades, o motorzinho pipoca e as pessoas olham. Umas fazem cara de puxa, há quanto tempo não vejo um, outras fazem cara de quem é esse doido andando nesse negócio?
Mas a maioria, pelo menos, dá um sorriso. Tenho a impressão que a Alemanha inteira está rindo da minha cara. O que é bom nestes dias cinzentos de outono, dias que eu gostaria que fossem de sol e céu azul, mas pelo menos até agora têm sido de frio e folhas espalhadas pelo chão. Paciência.
Não tenho roteiro. Quer dizer, tenho mais ou menos. Arranquei uma folha de um atlas antigo e fiz uns rabiscos. Sei que vou a Berlim. Então, que se veja o que há pelo caminho. Osnabrück era um lugar que eu queria conhecer. É lá que fica a fábrica da Karmann, e há um museu. Uma passadinha não faria mal algum. Toca para Osnabrück, são 200 km, fiz uns 150 km pela autoestrada e o resto por uma estradinha mais lerda.
Apesar de seus 90/100 por hora, Gerd não atrapalha demais. Ao longo do dia, recebeu uma buzinada de um caminhão idiota, uma piscada de farol de uma van idiota e uma pressão de um furgão polonês idiota que resolveu colar em sua traseira até que eu mandei o dedo do meio para o cara, e para isso tive de abrir a janela e estava um frio danado.
No mais, muita civilidade dos parentes velozes.
Gerd não passa batido pela paisagem porque é de fato esquisito, mas há um certo exagero na esquisitice que a ele se atribui. Fazia um ano que não vinha à Europa, foi pouco antes da crise, e um ano depois notei, nestes dois dias, que cada vez há mais carros pequenos e esquisitos rodando por aí. A Toyota e a Suzuki têm seus modelos, a Renault, a Nissan, a Ford, os Smart, todo mundo está fazendo carros pequenos e esquisitos. Verde, verde, verde. Consumo voltou à ordem do dia. Vi outdoors de dois carrões da VW em que o maior apelo de venda era dizer que um deles gastava 4,4 l de gasolina a cada 100 km e o outro, apenas 3,3 l.
Gerd gasta mais que eles. Mas ainda assim é econômico. E não incomoda o motorista preocupado com marcador de combustível no painel que apita quando está acabando o combustível. Não tem marcador. Tem algo muito mais interativo: uma reguinha de plástico que vai de 1 a 24. Cabem 24 litros no tanque de Gerd. Você coloca a reguinha dentro do tanque, que fica no cofre do motor, e vê até onde a gasolina molha a dita cuja. Aí fica sabendo quanto ainda tem para rodar. Não preciso de um painel para me dizer. Eu mesmo vou e vejo.
Parei em Osnabrück. Não gosto de perguntar nada na rua, então saí procurando a Karmann. Foi fácil de achar, é a maior fábrica da cidade, e a cidade nem é tão grande, 164 mil almas. Só que a Karmann faliu, meses atrás. E o museu, pelo jeito, foi junto. Ninguém soube me dizer sequer onde era. Pelas fotos que vi no século retrasado, ficava na fábrica, mesmo. Dei uma volta pela planta-fantasma, enorme, que até outro dia dava emprego a quase 2,5 mil pessoas. Hoje, está tudo abandonado. Não caindo aos pedaços, mas abandonado: um ou outro carro estacionado na área administrativa, gente que deve estar cuidando da liquidação da empresa, poucas bicicletas no bicicletário outrora lotado, mato crescendo, alguns carros abandonados no pátio, conversíveis que a Karmann fazia para várias montadoras, carrocerias especiais, coisas assim.
Meio triste. Numa das portarias, a que suponho levava à coleção da Karmann, vi uma mesa no saguão de entrada com um solitário telefone já empoeirado e, ao fundo, quadros com fotos em preto e branco de Karmann-Ghias. Estavam tortos nas paredes. Quadro torto na parede é porque acabou.
Deixei Osnabrück com a sensação de que a cidade, ela mesma, é meio fantasma. Suspeito que a falência da Karmann abalou as finanças dos nativos, no entorno da fábrica tem um monte de coisa para vender ou alugar, galpões vazios, lanchonetes às moscas. Posso até ter comido bola, vai ver o museu fica em outro lugar e é todo alegre e faceiro, mas para mim ver a fábrica morta deu. Me mandei.
Andei mais uns 100 km, com frio e chuva, e vim parar aqui em Hannover, que vem a ser a capital da Baixa Saxônia e deve ser bacana, é a terra do Scorpions, tem o maior Anhembi do mundo, um time que tem 96 no nome, Napoleão andou por aqui e foi uma espécie de subsede da família real inglesa, ou algo do gênero.
Amanhã vejo isso com calma. Vou assistir TV agora para vir o sono. Meu alemão me surpreendeu hoje. No rádio, ouvi várias vezes “tsunami-katastrofen-zamoa”, e concluí que houve um tsunami em Samoa e que deve ter sido uma catástrofe daquelas. Entendo tudo, já.
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.