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19/08/2008 - 06:50

O MISTÉRIO DA VARA

PEQUIM (continuo na mesma) – Desleixo dos organizadores ou erro do staff técnico da Fabiana Murer? O grande drama brasileiro destes Jogos, meio bizarro, até, segue sendo um mistério. Afinal de contas, quem deveria tomar conta da vara?

O que se sabe até agora é que a vara que ela usaria para os saltos de 4,55 m e 4,65 m não estava no Ninho na hora em que deveria estar. Foi levada de volta a um depósito da Vila Olímpica junto com as varas das atletas que não passaram à final.

Quem deveria checar se ela estava lá, no local da competição, no dia seguinte? Não sei. O técnico Elson de Souza disse, na entrevista que ouvi na ESPN Brasil, que era obrigação “dos organizadores”. Outras varas foram levadas para o estádio no dia da final. Todas as outras atletas tinham suas varas no lugar, menos Fabiana. Não estou insinuando nada, nem tentando achar um culpado. Apenas acho que a situação foi mal conduzida na pista. Aqueles momentos em que Fabiana ficou procurando a vara, agoniada, acabaram com qualquer possibilidade de se concentrar para a prova.

Como os técnicos ficam nas arquibancadas, a distância, é difícil também procurar ajuda externa. As atletas ficam sozinhas na arena, aos leões, e Fabiana se desesperou, o que é mais que compreensível. Tentou até parar a prova postando-se à frente da competidora chinesa, me lembrando aquele estudante na Praça da Paz Celestial que em junho de 1989 enfrentou uma coluna de tanques armado apenas com uma sacola e o peito aberto, numa das imagens mais fortes do século 20 (curioso que tentei procurar no YouTube algum vídeo para colocar aqui, mas ao usar certas palavras-chave, esquece, não abre picas; mas é fácil encontrar “youtubando” aí no Brasil).

Fabiana não parou a prova, assim como o estudante não impediu o massacre que o governo chinês não gosta que seja lembrado. Mas dizem que o rapaz ainda está vivo, ninguém sabe seu paradeiro, e Fabiana segue vivíssima, com uma carreira inteira pela frente.

Agora, que a história da vara é misteriosa, isso é.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: ,
18/08/2008 - 13:28

ELENA, ELENA…

PEQUIM (sem palavras) - Deu algum piripaque no publicador de fotos do blog, e não faz sentido falar sobre Elena Isinbaeva sem poder mostrar seu olhar profundo, suas longas pernas, seus braços esculpidos por algum artista renascentista. Elena, Elena… Acaba de ser eleita a deusa única e indivisível deste blog nos Jogos, depois do espetacular ouro no salto com vara, a saga épica e solitária pelos 5,05 m, recorde mundial que ela, generosa, deu de presente às 90 mil pessoas que estavam no Ninho.

Fiquei perdidamente apaixonado pelos olhos de Elena e pensei em convidá-la para jantar, usando o irresistível argumento de que tenho um Lada e que, por isso, mereço jantar com uma russa famosa e bonita. Só não convidei porque acho que hoje ela estará muito ocupada e porque minha mulher não entenderia nunca esse negócio de Lada, Rússia etc. Confúcio já dizia a seu fiel discípulo Gah-Fang-Yotung: “Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, e Gah-Fang-Yotung sempre perguntava se tinha de ser Knorr, ou se servia de outra marca.

Assim, acho melhor ir dormir. Amanhã falo mais de Elena — com fotos (como o leitor mais atento notou, o piripaque foi solucionado depois de algum tempo, antes que eu fosse dormir; mas falarei mais de Elena amanhã mesmo assim).

E falarei também do inacreditável caso da vara desaparecida de Fabiana Murer, que saiu irritadíssima do Ninho, dizendo que nunca mais vai competir na China, acusando diretamente os organizadores pelo sumiço de seu equipamento. Fabiana abriu sua série com 4,45 m sem grandes dificuldades, mas acabou parando nos 4,65 m, sem a vara adequada. Queimou os três saltos nessa marca, que é difícil, mas já foi alcançada por ela antes. Só que não existe atleta no mundo que consiga se concentrar para uma prova de tamanha precisão, como é o salto com vara, depois de um problema dessa dimensão.

Morri de pena da Fabiana, doce garota que conheci rapidamente na semana passada num passeio por Pequim, assim que a equipe de atletismo do Brasil chegou à China. Talvez ela não conseguisse uma medalha, já que a prata ficou com uma americana nos 4,80 m e duas russas empataram em terceiro, com 4,75 m — marcas que Fabiana atingiu poucas vezes. Mas não importa, ela teria de ter ao menos o direito de tentar, e o sumiço da vara acabou com sua Olimpíada.

É um caso que terá de ser desvendado, primeiro, e explicado, depois.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: , ,
18/08/2008 - 08:54

SUMIU A VARA

PEQUIM (quem pegou?) – Nunca vi isso. Sumiu a vara da Fabiana Murer. Ela estava se preparando para o segundo salto, e a vara desapareceu. Não estava no local onde elas são guardadas. Ou, pelo menos, não foi encontrada. Fabiana está desesperada no Ninho, tentando fazer os comissários entenderem que seu equipamento sumiu.

Outro drama. Pesado. A esta altura, a concentração da Fabiana foi para o espaço.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: ,
11/08/2008 - 09:20

FABIANA NA PRAÇA

PEQUIM (city-tour) – Hoje cedo meu companheiro de quarto Mendel Bydlowski, reporterzaço da ESPN Brasil, foi escalado para pegar a Fabiana Murer e seu técnico, Élson, na Vila Olímpica e levar os dois para a Praça da Paz Celestial e para a Cidade Proibida, fazer um tour, dar uma olhada na cidade. Fui junto para segurar a câmera, ajudar na produção, essas coisas.

Uma simpatia, a Fabiana. E muito boa atleta. Foi medalha de ouro no Pan no salto com vara, uma grande surpresa, diga-se. O Brasil não tem grande tradição no salto com vara. A gente foi conversando bastante no caminho. Ela falou sobre o material de que é feita a vara (no caso dela, fibra de vidro; as primeiras eram de bambu), que trouxe dez para Pequim, que cada uma custa 500 dólares, que na Vila todo mundo come no McDonald’s, que o apartamento é muito legal e arrumadinho, e quando passamos pelo Ninho e pelo Cubo, que ela não tinha visto ainda, achou o máximo. E são mesmo o máximo, essas arenas.

Aí chegamos a Tian’anmei e demos uma volta. Entramos por um parque que dá acesso à Cidade Proibida e paramos para tomar um café. Eu e o Élson, claro. Atleta não toma muito café. Mas era uma casa de chá, dentro do parque. Perguntei se a Fabiana queria um chá. Nem pensar. Atleta tem de tomar cuidado. Vai saber o que tem nesses chás?

Tomamos um café, eu e o Élson. Mendel e Fabiana ficaram na água mineral. O açúcar veio em pedras de cristal. Café tomado e conta paga, entramos na Cidade Proibida. Na praça que fica diante dos portões, na verdade. Tem um videozinho aqui. Tiramos fotos e compramos umas besteiras. Eu comprei, os outros são sensatos, só deram risada. Sou meio consumista, essas barraquinhas de besteiras me pegam de jeito. Comprei dois relógios, um amuleto e uma bolsa de lona com uma estrela vermelha e algo escrito embaixo que não tenho idéia do que seja. “Tonto”, pode ser. “Como é que você foi comprar esta merda?”, também pode ser.

Comprei também um amuleto e dei para a Fabiana, que muito simpática pendurou na sua credencial e abriu um sorriso lindo — moça sorridente está aí. É para dar sorte. Todo amuleto é para dar sorte, suponho. Tomara que esse dê sorte a ela.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
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