06/10/2009 - 22:44
VIENA (e agora veio a chuva) – Não vinha sendo lá um dia muito emocionante. Se fosse preciso editar os melhores momentos até as 5 da tarde, um deles seria o embate na garagem do hotel que quase resultou num Trabant arrancando uma cancela em Bratislava. Culpa exclusiva dessa falta de padrão mundial no uso de cartões para abrir cancelas. Alguns são engolidos pelas máquinas e está tudo resolvido, a cancela abre e você vai embora. Outros engolem e cospem, e só quando cospem você pode sair.
No caso eslovaco, a cancela era do modelo engole-e-cospe. Mas no que engoliu, arranquei com meus 26 cavalos sem perceber que a cancela não tinha aberto, e foi graças aos excelentes freios de Gerd que uma tragédia não aconteceu. Passado o susto, deixei o carro voltar um pouco para trás, peguei o cartão que fora devolvido e, aí sim, saí.
Um problema, isso. Ou engole, ou cospe. Não dá para ficar nessa indefinição a vida toda.
O outro momento digno de nota foi a ultrapassagem inapelável sobre um Daewoo na estradinha que liga a capital da Eslováquia à capital da Áustria — de novo, registre-se, sem nenhum controle de fronteira, uma vergonha, um carimbo a menos no passaporte. Salvo engano, foi a primeira que Gerd fez em condições normais de temperatura e pressão, pegando o vácuo de uma perua Audi que por pouco eu não jantei também, graças ao limite de 70 km/h naquele trecho, limite que eu estava firmemente disposto a desrespeitar.
Felizmente, no meio do caminho apareceu um sítio arqueológico que eu, sendo muito sincero, desconhecia. Era preciso sair da 9, a estradinha, para ver de perto. Como não tinha pressa e a tarde estava agradável, fui ver de perto. Me senti numa aventura de Asterix. Carnuntum é o nome do lugar, um centro militar romano cujas primeiras referências datam do ano 6 d.C., antigo pra cacete, estabelecido por Tiberius e, depois, sede de duas legiões daquelas que os gauleses adoravam detonar depois de tomar a poção mágica.
Foi um lugar importante, porque entre os anos de 103 e 107 acabou se transformando na capital da Panônia Superior (Panônia é um ótimo nome) e virou base central das frotas do Império Romano ao longo do Danúbio. Para se ter uma ideia de como a região era promissora, a capital da Panônia Inferior se chamava Aquincum e ficava onde hoje é Buda.
Se Aquincum prosperou, casou-se com Peste e virou a capital da Hungria, o mesmo não aconteceu com Carnuntum, apesar de alguns momentos de exuberância, como o período em que lá se instalou ninguém menos do que Marco Aurélio, ele mesmo, aquele Marco Aurélio, por três anos, para comandar os exércitos de Roma numa guerra qualquer. Nessa época, estamos falando dos anos 170 d.C., Carnuntum chegou a ter 50 mil habitantes, e como essa gente precisava de circo, além de pão, construíram dois anfiteatros para entreter a turma com gladiadores se espetando e bestas-feras despedaçando pobres coitados na arena. A farra acabou uns 200 anos depois, quando Roma largou mão de Carnuntum e foi cuidar de outras glebas, e aí os bárbaros germânicos tomaram conta do pedaço.
O que sobrou é, hoje, o sítio arqueológico, e fui a um desses anfiteatros, mas estava fechado. Só que tinha uma pequena passagem no meio dos arbustos e consegui entrar para fazer uns retratos.
E depois de conhecer Carnuntum, ainda que superficialmente, achei que nada mais iria acontecer no trajeto até Viena, muito curto, menos de 70 km, “doispaliten”, como disse Gerd quando saímos de Bratislava.
Viena é uma cidade grande, ampla e feia quando se chega pelo leste, cruzando vasta área industrial cheia de depósitos, refinarias e chaminés. Zentrum era o caminho das pedras, como quase sempre, e lá fomos à cata do hotel, sem mapa ainda, mas confiando no instinto gerdiano de achar tudo. Nos perdemos na primeira tentativa, mas tínhamos passado por outro hotel da mesma rede pouco antes, voltei pelo caminho que havia feito e pedi ajuda na recepção. O cara pegou um mapa, rabiscou o caminho certo e não teríamos muitos problemas para achar.
Foi aí que aconteceu a coisa mais incrível deste breve passeio pelo Leste. Às margens do Danúbio, pronto para dobrar à esquerda na ponte indicada, notei um carrinho se aproximando pelo espelho, até emparelhar com Gerd. Acreditem ou não, era um Trabi em versão militar, com uma enorme bandeira da Alemanha Oriental espetada no estepe traseiro. O cara fez sinais para mim, acenei de volta, puxa, que coincidência, mas ele insistiu, fez mais sinais, fui atrás e paramos logo depois de atravessar o rio.
Sai um sujeito grande do Trabi militar, vem à minha janela, estende a mão e diz: sou o presidente do clube de Trabant da Áustria. Eu, incrédulo: hã? Ele: presidente do clube, e vai ter um encontro de Trabis. Eu, incrédulo: hã? Ele: e vai ser agora, é aqui perto, me segue.
Parecia mentira. Liguei para o hotel, avisei que ia chegar bem mais tarde e, ainda sem acreditar, saí atrás do Trabi militar pelas ruas de Viena, para um encontro que eu jamais saberia que existiu se não fosse aquele encontro casual de dois Trabants à beira do Danúbio no meio de um trânsito desgraçado.
Na verdade, não era exatamente um encontro de Trabis, e sim um evento sobre a DDR num centro cultural simpaticíssimo, o Aktions Radius, que todo mês escolhe um tema e faz palestras, mostras, exposições, bastante modesto, até, nada de multidões, a chamada cena cultural vienense, se é que vocês me entendem. Para descolados como o Gerd, se é que vocês me entendem. Os Trabis foram chamados de última hora pela organizadora, Martina Handler é o nome dela, e éramos sete na calçada diante do centro cultural. E não é por nada não… Gerd era o melhor de todos, virou centro das atenções, me fizeram ligar o motor umas dez vezes, um cara me explicou que se arrebentar a correia é só colocar uma meia-calça de nylon no lugar, outro me disse para nunca limpar a régua que mede o combustível na calça antes de colocar no tanque, porque a eletricidade estática pode explodir tudo e ninguém se conformava com a história da minha viagem.
Oliver Galler, o presidente do clube, estava animadíssimo. Como todo bom dono de carro velho, falou sobre preços, peças, anos, modelos, me perguntou o que eu faço da vida, se ganho bastante dinheiro, e abriu o coração. Eu era motorista do ministro até hoje, disse Oliver. Pedi demissão. Estou livre, cansei de ser escravo. Vou morar na Síria. Na Síria? É, vou trabalhar para a ONU na Síria.
E o doido sou eu.
O evento da Martina era uma graça, e aos poucos foram chegando várias pessoas empolgadas com os Trabis e as histórias da DDR. Não era muita gente, umas 70 almas, se tanto, mas tinha uns canapés, cerveja, vinho, e até um cara vestido de policial da Alemanha Oriental, Michael Höfler, dono de um Trabi 1975 cinza papirus (fez questão de dizer o nome da cor; Gerd, descobri, é “Sky blue”) e de um blog sobre a DDR.
Lá dentro, painéis com fotos de Berlim, algumas delas recentes, de gente dormindo nos bancos das praças e pedindo dinheiro nas ruas, chamando a uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens da queda do Muro, e num determinado momento sobe ao pequeno palco uma moça muito bonita, vestida com o uniforme da FJD (Freie Deutsche Jugen, a Juventude Livre da Alemanha), entidade que reunia todos os jovens da DDR, Doreen era o nome dela, nascida em Berlim Oriental, há alguns anos vivendo em Viena.
Doreen explicou como era a vida do lado de lá, reproduziu a saudação obrigatória nas escolas, todos repetiram suas palavras, estavam lá para aprender um pouco de uma história tão recente e tão viva na memória dos alemães. Uma graça, a menina. Fui conversar com ela depois, e me contou que tinha dez anos quando o Muro caiu, que tinha muita saudade de sua infância, e que para uma criança política não existe, e por isso lembrava com muita alegria dos tempos em que ia à escola e seus pais tinham empregos seguros e estáveis.
Altiva, vigorosa, ar decidido, Doreen falou que vai voltar a Berlim, agora que terminou um longo namoro, e vai tentar reconstruir a vida lá. Foi quando escutei meu nome e era Michael, o policial, me chamando. A gente quer te dar um presente, falou, e me levou lá no palco, eu morrendo de vergonha, mas ao mesmo tempo feliz com tudo aquilo. Contou rapidamente quem eu era, o que estava fazendo ali, deve ter dito alguma coisa gozada porque as pessoas deram risada, e me passou o microfone. Fala em inglês mesmo, todo mundo entende, me tranquilizou, dando uma piscadela.
Aí fiz o maior discurso socialista da minha vida, chamando a todos de camaradas, pedindo desculpas por não falar nada de alemão exceto uma, duas e três cervejas, e assumindo uma certa maluquice na pequena aventura com Gerd. Disse também que por mais de metade da minha pobre existência vivi num mundo dividido em dois por um muro, e que essa história faz parte da vida de todos que estávamos ali, e que talvez uma das melhores formas de conhecê-la longe de qualquer teoria política era fazendo o que estava fazendo, dirigindo um Trabi pelo Leste, e todos concordaram, e disse também que não importava a ideologia de cada um dos que estavam ali, o fato é que estávamos conhecendo um pouco mais de uma história muito recente, e a história não pode ser esquecida, e se é impossível mudar o passado, é importante construir um futuro baseado em valores reais e humanos e danke.
As pessoas bateram palmas e Michael, o policial, me deu de presente uma bandeira da Alemanha Oriental, e foi tudo muito bacana, na hora de ir embora ele me guiou até a rua do hotel, nos despedimos com um abraço caloroso, e no fim das contas foi um dia bom, muito bom.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo
Tags: Bratislava, Gerd, Viena
05/10/2009 - 22:14
BRATISLAVA (gostei daqui) – Eu não queria contar, tinha vergonha, mas vou. O real motivo desta viagem é tirar uma dúvida que me atormenta há anos. Como é que se pronuncia Brno, afinal?
Chegou o dia. Depois de desmaiar de cansaço em Praga ontem, resolvi sair cedo para Bratislava, já que a esticada era razoável, quase 300 km. Não queria viajar de noite e, principalmente, não queria chegar à capital eslovaca muito tarde, para ter tempo de jantar decentemente.
Bati o olho no mapa e lá estava: para ir de Praga a Bratislava, teria de passar por… Brno! E, finalmente, depois de tantos e tantos anos, perguntaria a um brnense a pronúncia correta, para nunca mais errar.
De dia todos os Trabis são pardos, não chamam muito a atenção numa segunda-feira atarefada, carros por todos os lados, pessoas ocupadas com seus trabalhos, sem tempo para olhar meu carrinho esquisito no meio da multidão. Quero dizer, com tudo isso, que o policial gordinho não cruzou meu caminho hoje.
Estava na boca para a estrada, logo caí na E55 muito movimentada, caminhões a dar com o pau, calculei mais ou menos quanto dava para rodar com os 11 litros do tanque e fui. Não arrisquei estradas secundárias, porque pelas indicações do mapa elas eram terciárias e quartenárias, trilhas, um mergulho no desconhecido, e hoje meu humor não estava muito bom para imprevistos.
Nem o meu, nem o de Gerd. Saímos em silêncio, meio emburrados, e Gerd chegou a dar duas engasgadas em quarta, mas nem reclamei. Sei lá, o cara pode ter acordado num dia ruim, não estava a fim de papo, vai ver hoje é alguma data especial, desmanchou um namoro num 5 de outubro, não conheço sua vida a fundo, ainda. Ele conhece a minha, quando se passa tanto tempo dentro de um carro, sua vida é automaticamente absorvida por suas entranhas metálicas — no caso de Gerd, de fibra de algodão e plástico —, mesmo que você não diga nada. A recíproca, porém, não é verdadeira. Leva-se um tempo para conhecer um carro a fundo.
E assim fomos, em silêncio, apesar das engasgadas que agora posso dizer foram ridículas e não me comoveram minimamente, eu sabia que tinha de colocar gasolina e quando, então nem vem, pode engasgar à vontade que vou parar quando quiser.
Na hora que julguei mais apropriada, parei num posto, já nos subúrbios de Praga. Ainda estava fazendo o check list (a saber: 1 – Desligar o motor; 2 – Tirar a chave do contato; 3 – Puxar o freio de mão; 4 – Abrir o capô por dentro; 5 – Apagar os faróis, obrigatórios mesmo durante o dia; 6 – Desligar o rádio; 7 – Soltar o cinto de segurança; 8 – Fechar o vidro; para, em seguida, ao sair do carro: 9 – Pegar o óleo no porta-malas; 10 – Vestir as luvas descartáveis de plástico oferecidas pelo posto, grande sacada, essa das luvas; 11 – Conferir a quantidade de gasolina no tanque com a régua; 12 – Calcular quanto de óleo colocar para x litros de combustível, conta difícil, demanda concentração; 13 – Certificar-se de que escolheu a mangueira correta, porque se vier diesel fodeu; e aí, finalmente, abastecer), quando encostou na janela, interrompendo a sequência de eventos, um rapaz bem apessoado, jovem, falando “nice car” num bom inglês, ao que respondi que era mesmo.
O menino, simpático, veio com um papo aranha, perguntando se eu ia para Bratislava. Não me lembrava de ter olhado no espelho pela manhã e ter visto uma cara de quem ia para Bratislava, portanto não sei como ele adivinhou, e eu disse que não, que ia para Junkovic, nome que inventei na hora e não soa checo, mas iugoslavo.
Quando ele me disse que era da Alemanha Oriental, achei que fiz bem em planejar com minha Junkovic a negativa ao pedido de carona que viria, porque algo ali me dizia que tinha caroço naquele angu. Se o cara era mesmo alemão, não tinha sentido falar em inglês com alguém que abastecia um Trabant com placa alemã.
Desconfiança besta, no fundo, porque o problema mesmo era espaço. O rapaz estava com mais dois amigos, ambos bem jovens, mas cheios de mochilas. Não cabe muita coisa num Trabi, se ele não tiver um babageiro no teto. Minha mala vai no porta-malas e minha mochila vai no banco de trás. Não teria onde enfiar três passageiros com sua respectiva bagagem no Gerd. Eles que esperassem por um Cadillac.
Perguntei para onde iam, e me contaram que estavam seguindo de carona para o Irã. Falaram com muita naturalidade, como se fosse a coisa mais comum do mundo ir de carona ao Irã, cheguei a pensar que estavam me sacaneando, perceberam a mentira de Junkovic e inventaram que iam ao Irã, mas parece que iam, mesmo. Via Bratislava, Budapeste e Istambul.
Não era minha rota, de qualquer jeito. Abasteci, gastei algumas coroas das que sobraram do episódio policial da noite anterior e de volta à estrada. Sempre fazendo o check list, claro, que é tudo que fiz quando cheguei ao posto, só que de trás para frente. E ainda lavei o parabrisa, que estava cheio de corpos mutilados de mosquitos, mariposas, libélulas, borboletas, besouros, morcegos e pelicanos.
Não revelei a Gerd meu desejo secreto de chegar logo a Brno e perguntar a um brnense como se fala Brno. Creio que ele engasgaria de novo e me acharia um retardado. Então fomos, e aos poucos a estrada foi ficando menos movimentada e comecei a ficar com sono. Gerd seguia em sua marcha normal, noventaporhora (nova palavra alemã, criada agora), sendo ultrapassado por um enxame de Skodas, todos eles com nomes de mulheres — Octavia, Fabia, Felicia, os caras da Skoda devem ter alguma tara em nomes masculinos que viram femininos, os próximos lançamentos serão Pedra, Felipa e Ronalda —, e achei melhor procurar um lugar para comprar um Red Bull ou tomar um café, essas coisas que deixam a gente acordado.
Parei num pequeno restaurante, uma lanchonete, na verdade, deliciosamente modesta e decadente, e tinha Red Bull. Em checo, eu não sei nem dizer “quanto é?”, mas sei dizer Red Bull, disse Red Bull, o tiozinho me deu a lata e eu lhe dei uma nota de 100 coroas, que deveriam ser o bastante, 4 euros. Custou 50, 2 euros, mais barato que no Brasil.
Tomei o Red Bull e me mandei cruzando os Cárpatos, já desperto, esse negócio é incrível, meio ruim, pegajoso, doce demais, mas tira o sono de verdade, e toca para Brno atrás de um brnense. A uns 20 km da cidade começaram a surgir as placas para o autódromo. Por uns dois segundos, cheguei a pensar em conhecer a pista, mas não estava a fim de perder muito tempo e segui para parar em outro posto onde, finalmente, perguntaria como se fala Brno.
Parei e veio uma gordinha interromper meu check list, em inglês de novo. Queria saber se eu ia para Bratislava. Em algum lugar, em mim ou no carro, devia estar escrito que eu estava indo para Bratislava. Disse que sim, não quis repetir a história de Junkovic, e fui honesto. São quantos? Duas, ela disse. Não cabe, eu disse. Sorry. Ela sorriu, agradeceu e foi procurar carona em outro lugar.
Abasteci, tomei um competente expresso Segafredo — para ser honesto, o melhor da viagem até agora, num posto em Brno —, tinha um bom computador a 20 coroas por 10 minutos, dei uma internetada e fui embora. Na saída do posto lá estava a gordinha com sua amiga, uma magrela loira, com duas mochilas enormes no chão e uma placa escrito “Bratislava”. Fiquei com dó das duas e parei. A gordinha sorriu e já pegou a mochila, a loira fez o mesmo e ambas ocuparam Gerd com maestria, colocando uma das mochilas e algumas sacolas debaixo da minha mala, a outra atrás do banco, eu expliquei que o carro era lerdo e desconfortável, mas pelo jeito elas não se importaram muito, e fomos para Bratislava.
A gordinha era da Inglaterra, Oxford, chamava-se Miranda (a mãe é grega), e a magrela era do País de Gales, Helen. Gerd pareceu se animar. Você fica com a gordinha, disse a ele baixinho, mas é claro que a loira magrela foi atrás e a gordinha, na frente. Sem problemas, não estou mais na idade de disputar loiras magrelas com um Trabant. Tínhamos 100 km pela frente e seguimos conversando banalidades, elas sem se dar conta de que estavam num autêntico Trabi rodando pela Cortina de Ferro, Helen até dormiu sabe-se lá como naquele aperto, mas tudo bem.
Viajam há cinco semanas, exclusivamente de carona. No total, vão ficar seis meses por aí. Têm 22 anos, ambas, e acabaram de se formar em relações internacionais ou oceanografia, não entendi direito. E para onde vão?, perguntei. Para o Irã, responderam.
Depois o doido sou eu.
A minha carona era a 30ª da viagem, contaram, e disseram que as mochilas eram enormes porque carregavam uma barraca cada uma, e sua rotina nas últimas cinco semanas tem sido essa, pegar carona e dormir nas barracas acampadas em qualquer lugar, em geral nas florestas atrás de postos de gasolina. Quando dá, ficam em fazendas ou bares e restaurantes que participam de um programa para hospedar jovens mochileiros por toda a Europa, uma rede internacional, alguma sociedade secreta, sei lá eu, e em troca da hospedagem e de comida elas trabalham duas ou três horas por dia cuidando do jardim, ordenhando vacas ou servindo cerveja no balcão. Bem legal, isso. Até agora, disse a gordinha, só tivemos de pagar por duas noites em pensões.
Já chegando a Bratislava, parei mais uma vez num posto, agora para tomar café, e a loira magrela, que parecia estar no comando, avaliou a situação e decidiu: vamos ficar aqui. Resolveram acampar antes de anoitecer, e o posto lhes pareceu um bom lugar antes de seguirem para Budapeste. A gordinha me contou que de vez em quando acontecem alguns imprevistos. Na semana passada, um caminhão largou as duas de noite, já na República Checa, no meio do nada. Chovia e elas não tinham onde armar suas barracas. Andaram pelo acostamento por 5 km até encontrar um pequeno bosque cheio de lobos e ursos, pelo que entendi.
Deixei as duas no posto e logo mudaram de planos, parece, porque surgiu um caminhão com placas da Hungria, e quando fui embora vi que elas negociavam a 31ª carona, talvez desse para chegar a Budapeste hoje mesmo. Desejei boa sorte e segui para Bratislava, capital da Eslováquia, país no qual já havíamos entrado sem que nenhum controle tivesse sido feito na fronteira, assim como quando saí da Alemanha e entrei na República Checa.
Acho ridículo, isso. Pelo menos a um carimbo no passaporte deveríamos ter direito, nós que viajamos de carro por esta Europa de godos e ostrogodos. Se querem desativar os postos de fronteira, ok, que façam. Mas deixem ao menos uma barraquinha, “carimbe aqui seu passaporte por 2 euros”, eu pagaria. Um saco, isso. Saí da Alemanha, entrei na República Checa, saí da República Checa, entrei na Eslováquia e nenhuma autoridade europeia sabe dos meus passos. Eu poderia estar espalhando bombas de plutônio pelas estradas, que ninguém se daria conta.
A Eslováquia é um país novo, foi criado nesse formato de hoje em janeiro de 1993, embora os eslovacos formem um povo com mais de dois mil anos de história. Tem cinco milhões de habitantes e, desde o começo deste ano, adotou o euro como moeda oficial no lugar da coroa eslovaca, o que é muito bom, porque não me dei bem com as coroas. Entrei em Bratislava ao anoitecer, a tempo de ver ainda um belo pôr-do-sol na estrada, rumo ao Centrum, porque meu hotel ficava nos pés do castelo da cidade, e não devia ser muito difícil de achar. Não foi mesmo, nem precisei cruzar o Danúbio, foi de uma tacada só, Centrum, Centrum, Centrum, castelo e hotel, ótimo, estacionei Gerd, eram pouco mais de sete da noite, um banho e rua, o centro histórico é aqui do lado, pequenino e encantador, a cidade deve ser linda de dia, procurei um restaurante, achei um que se chama Rio, não tive dúvidas, sentei, pedi uma caipirinha (a minha é melhor, mas esta estava mais do que passável, tanto que tomei duas), comi um macarrão, fiquei olhando o movimento, me diverti com o cardápio que tem especialidades brasileiras como pastel de frango, não sei de onde tiram essas coisas, feijoada e pão de queijo, voltei a pé e aqui estou, pronto para dormir logo e aproveitar bem o dia amanhã, porque a perna rodoviária será curta, até Viena, Bratislava e Viena são as capitais mais próximas do mundo, e assim terei tempo de conhecer esta que era a fronteira mais setentrional do Império Romano, a capital do Reino da Hungria quando os otomanos tomaram Buda, terra de gente bonita e elegante, Bratislava, muito prazer.
E dormir tranqüilo, porque finalmente aprendi como se fala Brno.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo
Tags: Bratislava, Brno, Gerd, Praga