SEMANA DO MURO (FINAL)

Para fechar nossa Semana do Muro, uma imagem que para mim diz tudo.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Gira mondo Tags: Berlim, Checkpoint Charlie, Semana do Muro, Trabant
Para fechar nossa Semana do Muro, uma imagem que para mim diz tudo.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Gira mondo Tags: Berlim, Checkpoint Charlie, Semana do Muro, TrabantO link indicado hoje é para o excepcional trabalho do iG em sua página especial sobre os 20 anos da queda do Muro. Artigos e entrevistas muito bons, infográficos, galerias de fotos, vale muito a pena ler tudo. Para ilustrar, nove fotinhos que tirei em Berlim um mês atrás, sem nenhum valor estético, mas que me dão uma enorme saudade da viagem. Minha “ostalgie” particular. Legendando, pela ordem: 1) o luxo do meu quarto de hotel; 2) o rádio ao lado da cama, companheiro das madrugadas insones; 3) Checkpoint Charlie, antigo posto de fronteira entre as duas Berlins, controlado pelos americanos; 4) a famosa placa: “You are leaving the American sector”; 5) o simpático apresentador da TV alemã-oriental no Museu DDR; 6) uma típica estante de apartamento alemão-oriental, TV, gravador, alguns livros, alguns enfeites; 7) os bonequinhos do semáforo, Ampelmann, símbolos de Berlim;
Alexanderplatz e minha cerveja num fim de tarde lindo e solitário; 9) o abandonado aeroporto de Tempelhof, que entre 1948 e 1949 funcionou como linha de abastecimento para Berlim, cercada pelos soviéticos.
SÃO PAULO (quero voltar) – Talvez uma das coisas mais lindas já feitas em música: Scorpions ao lado da Filarmônica de Berlim, não lembro bem em qual ano. Aproveitando para atender a sugestão de um blogueiro, que queria “Wind of Change”. Essa canção, de algum modo, virou uma espécie de hino informal da reunificação das Alemanhas. O Scorpions, para quem não sabe, é um grupo alemão.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Rádio Blog Tags: Berlim, Scorpions, Wind of ChangeUm ótimo serviço da Deutsche Welle sobre os 20 anos da queda do Muro está neste link aqui, enviado pelo Fernando Pedroso. Tem cronologia, galeria de fotos, entrevistas, animações, quase tudo que é preciso saber sobre o evento mais importante da segunda metade do século passado. A foto é só para ilustrar. Achei bonitinha.
SÃO PAULO (a calhar) – New Order, “Dreams Never End”. Dica do Rodolfo Inácio Vieira Filho. Não está nem entre minhas dez bandas preferidas, mas não faz mal. As imagens são ótimas e a música é legalzinha. Um pouco de anos 80 não fazem mal a ninguém, não é mesmo?
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Rádio Blog Tags: Berlim, New OrderFaltam seis dias para o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Imagino como esteja a cidade por esses dias… Até segunda que vem, vou continuar pingando aqui algumas imagens da cidade que mais adoro no mundo. Umas de época, como a de ontem, outras da minha época, como essa aí embaixo. No local, as autoridades berlinenses construíram uma reprodução do Muro, com um detalhe: agora voltada para o Leste, a face pintada e decorada por artistas e moradores do lado ocidental, que os orientais só puderam ver quando as fronteiras foram abertas, em novembro de 1989.
Daqui a sete dias, 20 anos da queda do Muro. Trabis passando por Checkpoint Charlie, em imagem histórica começa nossa “Semana do Muro”. Será que Gerd fez esse trajeto?

DRESDEN (linda) – Hotel em cidade baladeira é assim mesmo. Café da manhã, aos sábados e domingos, é servido até uma da tarde no meu refúgio “ostalgic”, o que quebrou o maior galho hoje, porque acordei tarde. Dei tchau a Berlim, jamais adeus, porque é a cidade que mais gosto no mundo. Destino Dresden, capital do reino da Saxônia, e daqui até o fim vai ser uma noite em cada.
Está passando “Adeus, Lênin” no Canal 1. Aqui tem TV. Toda vez que vejo esse filme, choro. Mesmo se estiver vendo em alemão.
Meu alemão é horrível. Na verdade, inexistente. Não entendo nada e meu vocabulário se resume a contar de 1 a 10 com sotaque indefinível, e mais algumas palavras e expressões essenciais como café, água, cerveja, bom dia, boa noite, obrigado, carro, quarto, açúcar, salsicha, pão, gasolina, xícara, estação de trem. O que não sei dizer, improviso colocando “das” na frente e “en” no final. “Das franguen”, “das tapeten”, “das toalhen”. Não sei nenhum verbo, o que faz de mim falando com um alemão algo próximo de Sting conversando com o cacique Raoni em tupi-guarani.
Por isso, tenho meus truques para passar despercebido na multidão. Nos postos de gasolina, reparei por esses dias, abasteço, guardo o número da bomba, vou ao caixa, a moça fala algo que deve ser “qual a bomba?”, digo o número, pago e respondo sempre “não” à segunda pergunta, que tem sido inevitável e acho que é “nota paulista?”, ou “CPF na nota?”, e como sempre digo não em São Paulo, digo não aqui também, e até agora não tive problemas com meus nãos.
Saí de Berlim pelos subúrbios do sul intuindo que pelo caminho de Tempelhof, o aeroporto-fantasma que encerrou suas operações em outubro do ano passado, seria possível fugir das Autobahns e seguir pela 101 ou pela 96 para os lados da República Tcheca. Tempelhof é o aeroporto mais lindo do universo. O terminal que hoje está desativado foi inaugurado em 1927 e foi o primeiro do mundo a ter uma estação de metrô dentro. Foi lá que fundaram a Lufthansa.
Ninguém sabe o que vai ser feito do prédio. Tem gente querendo botar abaixo, mas tem gente defendendo sua preservação. No fim, vai virar shopping, com loja do Starbuck’s e da Hugo Boss. Ou centro de eventos, ou conjunto de escritórios, ou ainda museu aeronáutico.
Tempelhof foi a salvação de Berlim Ocidental entre junho de 1948 e setembro de 1949, quando a URSS resolveu isolar a a área ocupada pelos aliados por terra e água, cortando a linha de suprimentos para seus habitantes. O jeito foi usar aviões cargueiros, que abasteceram Berlim por quase um ano, até que os soviéticos voltaram atrás e liberaram estradas e rios.
Hoje, seu estacionamento está tomado por folhas que não param de cair das árvores neste outuno gélido e algumas vias de acesso estão sendo usadas como parada para motorhomes. O prédio é belíssimo e tem muita história. Tomara que os berliners não deixem que o derrubem.
Achei a 96 sem maiores problemas e optei por ela, em vez da 101, porque é o número do meu DKW de corrida e porque o caminho era mais curto, também. Deixando os limites de Berlim, voltei à Alemanha Oriental que já não existe há 20 anos, mas para mim ainda é.
As estradinhas alemãs, para um Trabant como Gerd, são bem mais amigáveis. Andar a 90 por hora é mais ou menos normal e, assim, não tomei buzinadas, nem farol alto de ninguém. Na medida em que ia ganhando quilômetros para o sul, o movimento ia caindo e, na maior parte do tempo, viajamos só nós, eu e Gerd, por paisagens bucólicas e rurais, pontuadas aqui e ali pelos prédios modulares de concreto que acabaram com o déficit habitacional da DDR nos anos 70. Fiz várias paradas, a saber: primeiro, em Tempelhof; depois, na “fábrica”, essa coisa enorme de uma das fotos acima que não sei o que é, mas é impressionante; mais adiante, para tirar uma foto ao lado do campo de magnólias (não sei se são magnólias, porque não sei o nome de flor alguma, só girassol, mas achei que tinham cara de magnólias); cruzei um Wartburg estacionado diante de um hotel e parei também para fazer uma foto do primo de Gerd; passando por uma cidadezinha de nome Golssen, vi dois tanques soviéticos no alto de plataformas e estacionei para ver do que se tratava, e era um cemitério com um memorial homenageando os soldados que tombaram mortos pelos nazistas quando se aproximavam para o cerco a Berlim pelo sul (no fim, entraram pelo leste); finalmente, parei para fazer schischeen e tomar um café num posto de gasolina.
Sem pressa, fui ouvindo o tempo inteiro a rádio Paradiso, cujo sinal foi desaparecer a mais de 120 km de Berlim. Desapareceram também as pessoas pelas cidades, todas desertas, apesar do solzinho envergonhado de um sábado bom para fazer alguma coisa na rua. Já me disseram que, na verdade, a Alemanha Oriental vive um problema sério de redução drástica de população, porque os jovens preferem procurar empregos do lado ocidental, onde se ganha mais e dá para pegar mais mulher. Vão ficando só os velhinhos, que não se animam muito para passear nos sábados frios.
As pequenas vilas foram se sucedendo, engolidas pelo motorzinho valente de Gerd, que nem tosse, é incrível: depois de Golssen, Luckau, Sonnewalde, Finsterwalde, Lauchhammer, até cair na A13, aí não tinha mais jeito, para os últimos 40 km até Dresden.
Aqui para baixo, um carro como o Gerd já não chama tanto a atenção, embora eu só tenha visto mais dois Trabis nesses mais de 200 km, ambos estacionados, mas com jeito de que estão em uso. O que espanta os caras que me ultrapassam, nas estradinhas, é a placa. Ninguém entende direito um Trabant licenciado em Düsseldorf, nem o caráter provisório da licença. Um alemão virar o pescoço intrigado com a placa é puro Kant, a obsessão germânica de tudo explicar e compreender, não deixar perguntas sem respostas. Bem, se me parassem para perguntar, eu não saberia bem o que dizer. Ainda mais com meu alemão de café-açúcar-cerveja. Das plaquen est provisorien, das auto est mein, Herr Gerd, mein amiguen.
O dia foi bonito, nem precisei ligar o aquecimento central do carrinho e até precisei de óculos escuros. Chegando à Autobahn, vi uma placa para Lausitzring. Se tivesse mais tempo, iria conhecer a pista. Mas não tenho, e segui para Dresden, onde anos atrás tive de passar uma noite, enxotado do trem que me levava a Praga, porque não tinha visto. Hoje não precisa mais dessas coisas. É tudo free, entra-se e sai-se (que bela construção) de qualquer país europeu sem ninguém te encher o saco.
Minha pequena jornada pelo Leste completou 1.000 km exatamente na entrada da cidade, e eu e Gerd já recalculamos a rota, como fazem os aparelhos de GPS, cortando Zagreb e Liubliana do roteiro. Uma pena, mas as distâncias são longas demais e eu não pretendo passar mais do que três ou quatro horas por dia no carro.
Dresden é uma das cidades mais bonitas da Europa, embora tenha sido covarde e inteiramente destruída por ataques aliados entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, quando despejaram mais de 650 mil bombas sobre a população civil, calculada na época em mais de um milhão de pessoas — hoje, são pouco mais de 500 mil; é que Dresden, na Segunda Guerra, virou refúgio de muita gente. Não se sabe ao certo quantos morreram, as estimativas vão de 25 mil a 120 mil baixas civis, num episódio vergonhoso que ingleses e americanos sempre procuraram justificar como ataque a alvos militares. Não destruíram um tanque.
Nos anos pós-Guerra, o governo da Alemanha Oriental reconstruiu o que pôde, e nas últimas duas décadas a cidade foi totalmente reerguida e é bela, belíssima, cortada pelo Elba e cheia de palácios e museus magníficos. Não tinha mapa para chegar ao hotel, mas parei perto de um calçadão no centro e a mocinha da lojinha de souvenirs imprimiu do Google, com roteiro em inglês, siga por aqui, entre à esquerda ali, continue por mais 800 metros, destino à direita, e fui indo, indo, passei por um descampado à beira do rio que teria um show de fogos de artifício, mas ia começar bem tarde, achei melhor jantar e dormir.
Daqui a pouco tenho de acordar para ver a corrida, e amanhã dou umas bandas por aí de tarde, antes de seguir para Praga. Gerd vai sair da Alemanha pela primeira vez na vida. Será um dia importante para ele.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo Tags: Berlim, Dresden, Gerd
BERLIM (dormir, mais tarde) – O que mais gosto em Berlim é a Alexanderplatz. E o que mais gosto na Alexanderplatz é o Homem-Salsicha. O cara que vende bratwurst com pão e mostarda carregando a grelha apoiada na barriga por um euro e vinte centavos. Deve ter em outras cidades, também. Mas eu sempre vi os Homens-Salsicha aqui, então que seja Alexanderplatz o planeta natal dos heróis berlinenses. Minhas refeições hoje foram fornecidas pelos Homens-Salsicha. Três, com intervalos de 10 minutos entre elas.
Gerd foi conhecer o Muro de Berlim pela manhã. O dia estava frio e cinzento. Choveu, parou, choveu, parou. Estou bem perto de onde ficava o Muro, e andaram colocando umas réplicas de pedaços famosos ao longo da linha de trem, com pinturas clássicas que ficavam do lado de lá. Estacionei o carrinho atrás de outro Trabant. Era de uma empresa de turismo que faz um tour pela cidade e chama o passeio de safari.
Safari é na selva. Tontos.
Parei o carro, saí para sacar uns retratos e imediatamente chegou gente para tirar fotos do Gerd. É que não hão mais Trabants em Berlim. Pausa para o “hão”. O verbo haver é até hoje ranqueado na minha mente deturpada como a maior decepção gramática de todos os tempos. Aos sete ou oito anos, depois de aprender sua conjugação pervertida, escrevi uma redação na escola e usei “hão”. “No limoeiro hão limões”, algo assim. A professora corrigiu. Haver não flexiona. Como, não flexiona? O que é flexiona? Fiquei com raiva da professora, do verbo e dos limões. Nunca mais escrevi hão. Resolvi escrever hoje.
(Vou pegar uma cerveja.)
Como não hão mais Trabants em Berlim, todo mundo olha para o Gerd. Até a turma do safari, que veio em bando logo depois. Entrei na fila. A menina que dirigia o primeiro, uma peruinha, ficou feliz da vida ao ver um Trabi autêntico, dirigido por um alemão autêntico (eu), sem carregar turistas apertados no banco de trás.
Me mandei para Friedrichstrasse. Sempre tem, hão, novidades perto de Checkpoint Charlie, o posto de fronteira mais popular daqueles tempos, onde um dia a URSS meteu dez tanques de um lado e os EUA enfiaram mais dez do outro, e ficaram se olhando por 14 horas, ou 16, sei lá quantas, um país rosnando para o outro, e depois foram todos embora, coisa mais sem graça da porra.
Antigamente tinha mais ambulantes vendendo pedaços do Muro em Checkpoint Charlie. Hoje eram três, só, e nem pedaço do Muro vi. Só chapéus russos e uniformes falsos da polícia alemã-oriental. Os camelôs já não são mais os mesmos. E a área estava infestada por ciganos infantis, romenos, talvez, que perguntavam a todos “do you speak English?”, e todos diziam “no, I don’t”, e eles iam embora.
Entrei no museu de Checkpoint Charlie para ver as últimas. Gosto desse museu, e de ler nas paredes as histórias dos caras que conseguiram fugir de Berlim Oriental por túneis, ou com aviões construídos no fundo do quintal, ou escondidos dentro do painel de carros. O Muro foi uma medida extrema do governo da DDR (doravante assim será chamada a República Democrática da Alemanha, RDA em português), erguido em 13 de agosto de 1961 com arame farpado, porque desde a criação do país, em 1949, 2,5 milhões de cidadãos haviam se pirulitado para o lado ocidental via Berlim-idem. A economia estava indo para o saco. No dia 14, 65 mil berlinenses orientais saíram de casa para trabalhar do outro lado e não puderam atravessar. Só em 1963 que o governo da DDR passou a permitir visitas de parentes, e acho que o resto todo mundo sabe — Gorbatchov assumiu em 1985, viu que a URSS estava quebrando, começou a abrir a economia, e os satélites fizeram o mesmo, até a dissolução da Cortina de Ferro e de nações inteiras, algumas artificialmente coladas com Super Bonder, como a Checoslováquia e a Iugoslávia.
O Muro começou a cair graças aos movimentos apoiados pela igreja na Alemanha Oriental. Não houve violência, os coroinhas e os padres resolveram a parada. Leipzig foi a primeira cidade a se manifestar em massa pacificamente, e no dia 9 de novembro um pica-grossa do Partido anunciou mudanças nas regras de entrada e saída de Berlim Oriental, dando uma certa relaxada no negócio, e aí escorregou nas palavras ao dizer que uma dessas novas medidas tinha efeito imediato. “Efeito imediato” para a turma do Leste louca por uma calça Levi’s era imediato mesmo. Arrebentaram o Muro e acabou tudo. Foi a maior festança. Vai fazer 20 anos.
Mas a Alemanha Oriental, como dizem por aqui, fica cada vez melhor, na medida em que passa os tempo. Tem muita gente com saudades do regime estável, seguro, sossegado e, de certa forma, ingênuo da DDR. Tirando a Stasi, que pentelhava todo mundo e transformava cada cidadão num delator em potencial, e os guardas de fronteira, que mataram 125 (algumas fontes falam em 92) pessoas que tentaram atravessar o Muro na marra, a Alemanha Oriental era uma boa ideia. Que deu errado, claro, porque num mundo comandado pelo mercado e pelo capital, mesmo um país que despreza ambos se fode de canudinho.
Os alemães orientais têm uma imagem meio cinzenta por conta da propaganda anticomunista que martelou nossos doces lares durante décadas, mas não se enganem. Eram divertidos e adoravam uma sacanagem. Foram os maiores nudistas de todos os tempos em todos os reinos e impérios. No verão, se mandavam peladões para as praias do Báltico e não queriam nem saber. Há estatísticas, não sei de onde tiram esses números, que dizem que 10% dos habitantes da DDR eram naturistas juramentados e praticantes, e que 80% da população tirou a roupa na praia ou no lago pelo menos uma vez na vida.
Ninguém reprimia os peladões. Ainda bem. Os livros de fotos dessa época, anos 70/80, são melhores que qualquer “Playboy”… As meninas do Leste eram muito sorridentes, interessantes e atléticas. E peludas.
A DDR me interessa bastante, não só pelos carros e pelas loiras peladas e peludas. É um negócio tão recente e absurdo do ponto de vista ocidental que me espanto o tempo todo ao lembrar que há apenas 20 anos o mundo era dividido em dois pelo Muro que hoje é vendido aos pedaços nas lojas de souvenir.
Ao sair de Checkpoint Charlie, fui a um museu muito interessante, o DDR Museum, que foi eleito o “museu do ano” da Europa em 2008. Pequeno, na beira do Spree, mas muito carinhoso e bem montado. Não faz apologia de nada, apenas mostra como era diferente a vida na Alemanha Oriental, como era possível viver com uma ou duas marcas de pasta de dente e sabonete, como as pessoas aprenderam a se virar diante da escassez, como o governo se empenhava na educação das crianças desde os 11 meses de vida, em prover habitação e pleno emprego, em promover a amizade entre os trabalhadores, a simplicidade como “way of life”, se é que me entendem.
Claro que os dirigentes do Partido eram filhos da puta, como quase sempre, mas no geral as pessoas viviam bem, sem grandes sustos, casavam, tinham filhos, esperavam seus Trabants, tiravam a roupa na praia no verão, faziam esporte, trepavam, iam à escola, ficavam gratos quando saía a chave de seu apartamento novo. Se não dava para limpar a bunda com papel Neve perfumado de folha dupla, me parece que não era algo que incomodasse demais. Tinha cerveja, salsicha, bar, automóvel, trabalho, escola, teto, bonde, trem, ônibus, cigarro, camisinha, café, loja de departamentos, mercadinho, banda de rock (procure no Google a Puhdys, que vendeu 15 milhões de discos, de acordo com o museu), discoteca, festival, campo de futebol, piscina, roupa nova (de tecido sintético, porque era difícil arrumar algodão; e quem desenhava os modelitos era o Modeinstitut Berlim, até isso o governo fazia, o que livrava o povo de coisas como a São Paulo Fashion Week e seus estilistas afetados), aparelho de TV coloridos, revistas jornais, emissoras de rádio, cinema, universidades.
Uma das críticas que fazem ao antigo regime diz respeito à doutrinação da molecada com ideias marxistas-leninistas desde cedo nas escolas, como se fosse um pecado ensinar aquilo em que se acredita. O que se faz numa escola brasileira hoje desde pequeno? Ensina-se a competição, o mata-primeiro-senão-ele-te-come-no-mercado-de-trabalho, a dar valor ao dinheiro, ao ter, ter mais sempre, e o que é isso que não uma doutrina escroto-capitalista que enfiam na cabeça das crianças mal elas saem das fraldas? Rotos falando de esfarrapados.
Gerd ficou boa parte do dia protegido do frio cortante deste outono gelado numa garagem subterrânea perto da ilha dos museus e eu fui bater perna mal agasalhado porque não esperava este clima glacial. Amanhã vou descer para Dresden, tomara que melhore um pouco. De noite, encontramos um amigo meu e o amigo do meu amigo, e fomos tomar uma cerveja num bar legal de Friedrichsdhain, a Vila Madalena do lado oriental. Na minha cabeça, ainda há dois lados. E quem conhece Berlim sabe bem onde começa um e termina o outro, mesmo sem Muro. Todos os três quisemos nos casar com a garçonete, cheguei a pedir ao Maurício para avisar minha família que iria fixar residência aqui depois que esbarrei o cotovelo sem querer na bunda da moça.
Deixei a dupla perto da Alexanderplatz e fui dar uma volta pelo Ocidente. Passei pelo Portão de Brandenburgo (por fora; não passa mais carro ali), pelo Reichstag, segui pela Unter den Linden, margeei o Tiergarten e fui fazer a volta só em Charlottenburg, para acabar a noite num simpático Hooter’s debaixo da linha de trem comendo frango frito apimentado, essas coisas americanas têm alguma serventia, afinal, porque já estava tudo fechado do lado de cá.
Gerd me esperava sossegado na vaga no meio da avenida, sozinho, o sereno cobrindo seu teto de fibra de algodão e plástico e os vidros da frente e de trás. Dizem que na DDR se esperava por um Trabant por 16 anos. O nome quer dizer “companheiro” (na verdade verdadeira, “satélite”, mas pode ser entendido como “companheiro”, também, dependendo do contexto), e os carrinhos acabavam virando mesmo parte da família, porque ninguém trocava todo ano. Era para a vida toda. A temperatura estava em seis ou sete graus. Liguei o motorzinho de 600 cc e coloquei seus 26 bravos HPs em marcha. Do lado da torneirinha da gasolina tem um botão do sistema de aquecimento. Puxei, tremendo.
O calor vindo não sei de onde, daquele botão mágico, talvez, me invadiu e eu disse obrigado a Gerd, um bom parceiro.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo Tags: Berlim, DDR, Gerd
BERLIM (que eu gosto) – Eu estava na estradinha para Wolfsburg, acho que a 188, e aí vi do meu lado esquerdo um trailer estacionado, com a frente virada para a estrada, mesmo. Como Gerd anda devagar, dá pra olhar tudo com detalhes. Dentro dele, uma loira linda, as pernas bronzeadas apoiadas no painel, lendo alguma coisa. Putz, pensei. Deve ser a filha, e de saco cheio. Pais que adoram acampar, passear de trailer, a menina, coitada, entediada, louca para estar com os amigos. Aí, logo depois, do outro lado, outra. Loira, também. Esses pais, coitadas dessas meninas… Saem para passear no bosque e deixam as garotas sozinhas, doidas para acabar o fim de semana.
E mais adiante, comecei a desconfiar. Primeiro, porque não é fim de semana. Depois, porque este tinha uma luzinha vermelha do lado de fora do trailer. E, no vidro, uma placa escrito “Vivien”. E era uma baita duma mulata de aplique. E fez tchau pra mim e pro Gerd. E não tinha cara de filha entediada de pais chatos que gostam de passear no bosque.
Foi a grande descoberta do dia. E olha que fiquei surpreso de verdade. Provavelmente já rodei mais por estradas alemãs na minha vida do que pelas brasileiras. E nunca tinha percebido as meninas dos trailers. Motéis ambulantes. Rimos bastante, eu e Gerd, até que ele engasgou e tive de parar na grama que serve de acostamento.
É que a gasolina acabou. Trabants avisam assim: engasgam e param. Pronto. Ninguém mandou esquecer de colocar gasolina. Meus cálculos é que estavam errados, na verdade. Gerd não faz 20 km por litro, deve fazer menos. Mas a engenharia alemã-oriental pensou em tudo. Debaixo do painel tem uma torneirinha com três posições. Não sei se dá para ver direito na foto.
(Aliás, a turma reclamou das fotos pequenas. Neste publicador, ou eu coloco todas enormes, ou nessas miniaturas aí do alto, e cada um clica na que quiser para ver melhor. Fica meio feio em termos de design de página, mas é o que sei fazer. Tem 18 fotos de hoje aí. Um exagero. A partir de amanhã, vai ser uma por dia e olhe lá.)
A torneirinha: “A”, “Z” e “R”. “A” deve ser de “aberto”, porque é a posição que Dom Pedro Von Wartburg me mandou deixar. “R” deve ser de “reserva”. “Z” deve ser de “[Deu] zebra”, é quando está fechada. Coloquei em “R”, dei a partida, funcionou, fomos em frente. Mas a reserva é limitada, digamos. Era melhor arranjar gasolina logo. Aí apareceu um posto salvador numa transversal da estradinha e deu tudo certo. O posto era da bandeira “T”. “T” de “tem gasolina”, “tem óleo dois tempos”, “tudo tem jeito”.
Ficar sem gasolina num Trabant só sendo mesmo um obtuso como eu. O carro é econômico de verdade. E te ajuda a economizar. A quarta marcha, por exemplo, tem roda-livre. Para quem não sabe, é o seguinte (DKW também tem, mas nas quatro marchas): você está em quarta, acelerando, o mundo está passando pela janela e nada pode ameaçar a paz na Terra; tira o pé do acelerador, o carro entra em ponto-morto sozinho, para não gastar. Acelera de novo, a marcha engata sozinha. Não adianta, o seu carro não faz isso, e nunca os japoneses conseguiram copiar.
300 ml de óleo para 10 litros de gasolina, é a conta mágica. É mais do que em DKW e menos que no Wartburg. Mas não se preocupem em decorar isso, é coisa que só interessa para mim.
O dia estava melhor hoje. Saiu até sol e deu para ver o céu azul. As músicas que o Blaupunkt estava tocando também eram melhores. Tocou “American Pie” e eu fiquei com os olhos cheios d’água, porque sou bobo. E saí de Hannover sem pegar Autobahn nenhuma, para ver as flores e as meninas dos trailers, que eu não sabia que existiam e me apaixonei por cada uma delas.
Gerd não teve mais nenhum problema depois da quase-pane-seca. Quando saímos do posto “T”, tive a impressão de que as velas encharcaram. Mas motor dois tempos é assim mesmo, depois limpa. Limpou. Téin-téin-téin. Diferente do pó-pó-pó. Coisas do escapamento. Fui para Wolfsburg.
O carro estava meio zoneado. Como tem um baita porta-trecos debaixo do painel, coloco tudo lá. Bem melhor que os Hilux-Merivas-Méganes da vida, com 200 porta-trecos espalhados por todos os cantos. Para que tantos? No fim, você esquece onde colocou as coisas. A engenharia alemã-oriental pensou nisso, também. Coloque tudo no mesmo lugar. O mapa aberto vai no banco do passageiro. GPS é coisa de viado, naturalmente. E não existia quando Gerd saiu da fábrica em Zwickau.
(Estou tomando a segunda cerveja na recepção do hotel, dele falo daqui a pouco, e isso é sinal de que começarei a dizer palavrões.)
Wolfsburg era o destino intermediário, a caminho de Berlim. Queria ir na fábrica da VW. Há uns anos, acho que uns 400, quando estive em Berlim pela última vez, fui de trem. De Paris a Berlim de trem. Muito bom. Demorou pra caralho, mas foi muito bom. E na ida e na volta o trem passou em Wolfsburg, diante da fábrica da VW. Desde então, tinha vontade de conhecer esse negócio. Foi fácil de achar, mais do que a Karmann. A VW é dona de tudo em Wolfsburg: da maior fábrica, dos empregos, do estádio, do time de futebol e do Grafite. Siga as placas para Autostadt e é fácil.
Só que errei o estacionamento. Sou meio disléxico, o Fábio Seixas já dizia isso. Embiquei Gerd na portaria principal da fábrica, por onde só entram os parentes de Ferdinand Porsche. Me enxotaram aos berros. Foi gozado. Achei o estacionamento.
Esse Autostadt é uma espécie de disneilândia (aportuguesei de propósito, é que nem gilete e lambreta) da VW. Para quem gosta de carros, vale. Para quem não gosta, que se foda. Eu gosto, e vou te dizer… Tem sete pavilhões, um para cada marca da VW (Skoda, Audi, Seat, Lamborghini), um museu, um para os VW mesmo e mais o centro de entrega de carros aos compradores sobre o qual (estou escrevendo mui corretamente) falarei depois.
Comi uma pizza no prédio da entrada, enorme (prédio e pizza), cheio de restaurantes, lojas, mostras, cafés. O museu, primeiro à esquerda quando se sai desse prédio da entrada, é o que mais vale a pena. As fotos são quase todas dele. Uma bela passada pela história do automóvel, com coisas como os primeiros protótipos do Fusca, o milionésimo Fusca (meio cafona, com paetês no parachoque, mas é o milionésimo, tá valendo), os Benz de 1800-e-bolinha, a justa homenagem a carros importantes como o Ford T, o Citroën 2 CV, o Trabant (colocaram um cupê esportivo, o P70), o primeiro DKW, fora a gangue VW dos anos 60/70/80. Eu gosto, não tem jeito, fico babando.
Os outros pavilhões são meio assim-assim. Tem um tal de Premium Club (talvez o nome seja outro) ridículo. Um prédio inteiro para mostrar um Bugatti cromado, e de longe. Premium Club realmente não dá. Nem meu cartão de crédito tem nome tão cretino. Entrei duas vezes no prédio porque achei que tinha perdido alguma coisa. Não, era só o Bugatti, mesmo. O pavilhão da Lamborghini estava fechado. O da Seat e o da Audi são como showrooms, nada de muito espetacular.
Mas o tal departamento de entrega de carros…
Acho que todo mundo já ouviu falar. Tem um baita prédio redondo de três andares todo envidraçado para onde Fritz e Gerda se dirigem depois de comprar um VW. O painel eletrônico indica a hora em que seu lindo automóvel vai chegar. E eles ficam lá, ansiosos, esperando. Horas antes, o carro já saiu da linha de montagem por um corredor subterrâneo e foi levado, por um elevador-plataforma, para uma das duas Car Towers, dois prédios cilíndricos também envidraçados (deve dar um trabalho danado limpar esses prédios) que comportam 400 carros em seus 20 andares. Ali eles ficam até o dia em que Fritz e Gerda vão buscá-los. Quando chegam, o elevador-plataforma, controlado por computadores e gnomos, vai catar o carro na vaga tal no andar tal, ele desce, e é levado por outra esteira para o centro de entregas. Nenhum ser humano ou extraterrestre encosta no carro antes de Fritz e Gerda.
Simples, não? Deve ter custado os olhos da cara fazer essas duas torres de vidro e as esteiras subterrâneas, é um exagero da porra, mas eu vi uma garotinha sorrindo feito louca, correndo e pulando em volta de um Golf vermelho no local da entrega, e Fritz e Gerda abraçados olhando aquilo emocionados, então valeu cada euro.
Estava anoitecendo quando peguei Gerd rumo a Berlim, agora de Autobahn, de noite não dá para ver nada, mesmo, e é mais rápido. O sol estava se pondo na minha cara, e tive de usar o para-sol. Parassol. Sei lá como se escreve essa merda agora. Estou na Alemanha, então como na Alemanha: aquelenegócioqueagenteabaixaparaosolnãobaternasuacara. No Trabi, o negócio esbarra no retrovisor quando você abaixa. Fosse uma SUV Hiunday Ultra Plus Mega Super, seria o bastante para o dono escrever para a “Quatro Rodas”, chamar o Procon e chorar no “Fantástico” com a voz distorcida pedindo para não ser identificado.
Na Alemanha Oriental, o cara abaixava, entortava o retrovisor e ele desentortava. O engenheiro que calculou o tamanho do para-sol era, provavelmente, o mesmo que tinha projetado as instalações hidráulicas da fábrica. E daí?É só arrumar o espelho. E tapa o sol do mesmo jeito. O mundo é cheio de frescuras. Num Trabi, não há frescuras.
Na Autobahn, 90 por hora fixos. Os caminhões foram rareando quando escureceu. Eles param em gigantescos estacionamentos e postos de gasolina para dormir. Só os poloneses seguem na estrada. Malditos poloneses. Já tive um entrevero com um ontem, hoje foi um caminhão que me deu farol alto. Polonês viado. Fui ultrapassado por vários caminhões poloneses, alguns letões e outros lituanos. E o vento lateral perturba, num Trabi. Quando os caras (não os caminhões poloneses, os carros alemães) passam por você a 300 por hora, ele balança. Precisa segurar o volante com as duas mãos.
Cheguei a Berlim no meio da noite. Estou num hotel muito doido, todo decorado com móveis da DDR. Só tem WiFi na recepção. O quarto tem papel de parede florido e uma foto de Honecker na parede. A TV deve ser P&B. Meu quarto fica no sexto andar, o último, e não tem elevador. Elevador é para os fracos. Na parede atrás da mocinha linda que fez a ficha, quatro relógios, com as horas de Moscou, Havana, Berlim e Pequim. É o máximo.
Fica no lado oriental, claro. Conheço bem Berlim e embora seja meio escondido, o hotel, achei fácil. Fácil mesmo, sem errar uma rua. Me orgulho dessas coisas. Orgulho solitário. Depois, não podia perguntar o caminho para ninguém. Além de não gostar, como um cara de Trabant pode estar perdido em Berlim? Bem, não me perdi.
Estes textos estão ficando muito grandes. Ninguém vai ler esta merda.
Tchau, passam das duas da manhã.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Turismo Tags: Berlim, Gerd, Trabant, VW, Wolfsburg
SÃO PAULO (parabéns) – Perto dos 20 anos da queda do Muro, vejam que bacana esta representação do Portão de Brandemburgo feito de Lego. O Portão, aliás, faz aniversário hoje: 218 anos, o que faz todo sentido — Berlim é demais. A foto foi enviada por um amigo meu, Rogério Gonçalves, que tem um posto de gasolina em Potsdam.
SÃO PAULO (tudo prateado) – Os 50 anos do espetacular circuito de Avus, eternizados com dois dos carros que escreveram sua história, as flechas de prata da Mercedes e da Auto Union. Bem legal. Mais ainda porque o quatro-argolas está prestes a ultrapassar o busão.
PS: para quem quer ler algo sobre Avus, tem um textinho meu aqui. Estive lá já não sei quando.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Mr. Postman Tags: Alemanha, Auto Union, Avus, Berlim, MercedesSÃO PAULO (o Muro, o Muro) – Talvez o maior show de todos os tempos.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Rádio GP Tags: Berlim, Mother, Pink FloydSÃO PAULO (queria todas!) - Simpaticíssimo vídeo, este da TViG. Trata-se de um pequeno museu de motocicletas alemãs-orientais em Berlim. Uma mais linda que a outra. A DDR era demais!
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Motoland, Museus & coleções Tags: Berlim, DDR
SÃO PAULO (perpétua) – Se eu morasse em Berlim na época do Muro, tentaria escapar só para ser levado nessa coisinha linda aí. Já pensou no barulhinho do dois tempos e no cheirinho de óleo?
A propósito, segue a dica do José Luiz, da Guanabara: um site só de veículos policiais alemães. Bárbaro.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Dica do dia, Prende eu Tags: Berlim, WartburgSÃO PAULO (one day = one life) - “Heroes”, que David Bowie fez para Berlim. Tinha que ser Berlim.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Rádio Blog Tags: Berlim, David Bowie