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23/08/2008 - 09:09

A NBA E O FUTEBOL

PEQUIM (pena que acaba) – Terminou hoje no começo da tarde o torneio masculino de futebol e a Argentina, que nos “profissionais” não ganha nada faz tempo, conseguiu o bi olímpico com Messi & cia., depois de muita discussão sobre a participação de jogadores com mais de 23 anos nos Jogos. Na repetição da final de 1996, os vizinhos do Rio Grande derrotaram a Nigéria por 1 a 0, gol de Di Maria. Há 12 anos, os africanos levaram o ouro com uma vitória por 3 a 2. Hoje, até que tentaram repetir a dose. Mas esbarraram numa equipe melhor.

O Brasil ficou com o bronze, ontem, ao passar fácil pela Bélgica, 3 a 0, em Xangai. Felizmente a CBF não permitiu que se repetisse o vexame de Atlanta/1996, quando a seleção não apareceu na premiação para receber suas medalhas, conquistadas um dia antes da final. Hoje, todos foram direitinho ao Ninho, e Ronaldinho Gaúcho, cada vez que aparecia no telão, era aplaudido animadamente pela chinesada toda.

E a polêmica do futebol em Olimpíadas vai se alastrar logo, logo para o basquete, depois que alguns jogadores que atuam na NBA se machucaram em Pequim, prejudicando as franquias americanas (é um horror chamar times e/ou clubes de “franquias”, mas é isso mesmo que são as equipes da NBA; no que diz respeito à sua posição na economia de mercado, o Detroit Pistons está muito mais para Burger King do que para, sei lá, Real Madrid).

Ontem, na semifinal do basquete masculino entre EUA e Argentina (101 x 81 para os americanos), um dos astros da NBA, o argentino Manu Ginobili machucou feio o tornozelo e pode ser que tenha de operar. Ele joga pelo San Antonio Spurs, que não se conforma com a contusão do rapaz. Assim como o Los Angeles Clippers lamenta a contusão do alemão Chris Kaman, o Milwaukee Bucks chora a lesão do australiano Andrew, o Chicago Bulls reclama do que aconteceu com o argentino Andre Noicioni…

A NBA considera que uma Olimpíada exige demais de seus pobres jogadores, o que não é verdade, porque numa temporada regular do campeonato americano os caras jogam 82 partidas por ano. Os times que vão aos playoffs sofrem mais ainda. É um massacre. Na Olimpíada, são oito jogos no máximo. Num período curto, é verdade, mas não acima da média do torneio dos EUA.

A FIBA, que vem a ser a Federação Internacional de Basquete, já vem sendo pressionada para, por sua vez, pressionar o COI a fazer com o basquete o mesmo que faz com o futebol: estabalecer uma idade máxima para os jogadores disputarem o torneio olímpico, talvez 23 anos, o que baixaria bem o nível técnico da competição, sem dúvida, e não colocaria em risco as estrelas da NBA.

No mundo, talvez apenas os EUA sejam capazes de formar uma seleção muito forte apenas com garotos de até 23 anos. É só catar a molecada nos campeonatos universitários. Os outros países dificilmente teriam condições de montar equipes boas o bastante para competir com os americanos. É discussão que virá à tona assim que terminarem os Jogos de Pequim. E não deve demorar muito para que se chegue a alguma conclusão. A NBA quer que já na Olimpíada de Londres, em 2012, seus jogadores sejam apenas espectadores.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: , ,
17/08/2008 - 02:57

INDEFERIDO

PEQUIM (mais uma semana) – Hamed Ehadadi tem 2,18 m de altura e joga basquete. Joga bem. Ontem, contra a forte Argentina, por exemplo, fez 21 pontos e pegou 16 rebotes. Alto, ágil e eficiente, Hamed Ehadadi chamou a atenção de dirigentes da NBA, a liga americana de basquete. Só que ele não pode jogar nos EUA. O problema de Hamed Ehadadi é que ele é iraniano.

A história de Hamed é destaque hoje em alguns jornais dos EUA e em sites especializados. A NBA consultou o departamento de imigração dos EUA e foi alertada de que ”uma decisão federal proíbe que qualquer pessoa ou empresa contrate cidadãos iranianos para trabalhar no país”. É isso que a entidade informou a suas 30 equipes em carta enviada na última sexta-feira, quando vieram à tona as notícias de que “dois ou três times”, de acordo com o agente de Hamed, estariam interessados em levá-lo para a América. Do Norte.

Hamed pode assinar com qualquer time da NBA porque quatro anos atrás participou do draft, o processo de escolha de novatos antes do início de cada temporada, e não foi selecionado por nenhuma equipe. De lá para cá as relações entre EUA e Irã ficaram mais tensas, porque os americanos passaram a não gostar mais de turbantes, tapetes e chá. Por isso, iranianos em geral deixaram de ser bem-vindos na terra prometida.

O Irã não é propriamente uma potência no basquete. Perdeu as quatro partidas que disputou em Pequim: 49 x 71 diante da Rússia, 67 x 99 contra a Lituânia, 68 x 106 para a Austrália e 82 x 97 da Argentina, no seu melhor jogo. Mesmo assim, Hamed , que tem 23 anos, se destacou. E disse que sonha em jogar na NBA, com os melhores do mundo.

Pelo jeito, vai ficar sonhando.  

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: , ,
16/08/2008 - 04:46

O NOSSO BASQUETE

PEQUIM (quem é que vai pagar por isso?) – Se o ouro de Cielo tem muito mais “dele” do que “nosso”, o fracasso recente do basquete brasileiro em Olimpíadas é um desses que devem entrar na nossa conta coletiva de pecados, porque decorre de nossa incapacidade de gerir seja lá o que for.

(Tenho certeza que ninguém, neste momento, se sinta partícipe do fiasco do basquete, nem do de outros esportes, embora muita gente se sinta um puquinho dono do ouro lindo do Cielo, porque ele é brasileiro e não desiste nunca, como nós. Brasileiro adora se apropriar das vitórias dos outros, mas não tem o hábito de repartir as derrotas. Já escrevi bastante sobre isso, em épocas de F-1. Senna era nosso, e nossas eram suas vitórias, todos se sentiam um pouco vitoriosos nas manhãs de domingo e blá-blá-blá, mas ninguém dizia que uma derrota de Barrichello era nossa, também. As derrotas eram dele, individuais, problema da senhora, mora?, mas quando ganhava, aí as vitórias voltavam a ser nossas, e assim gira o mundo do torcedor doutrinado pela mídia do oba-oba, que tem em todo lugar, suponho, mas no Brasil passa dos limites.)

A seleção masculina disputou sua última Olimpíada em 1996, em Atlanta. Não conseguiu vaga para Sydney/2000, Atenas/2004 e Pequim/2008. É uma vergonha. E, neste caso específico, o fiasco pode ser atribuído nominalmente a algumas pessoas, o tal do Grego à frente. Grego, de nome Gerasime Bozikis, é presidente da CBB (Confederação Brasileira de Basquete) há um bom tempo, desde 1997.

Se bem me lembro, o basquete brasileiro viveu uma fase de alguma prosperidade na primeira metade da década de 90. Tinha uma liga, bons patrocínios, bons jogadores, partidas ao vivo na TV, ginásios cheios, cidades envolvidas. O basquete tem tradição no país, e não é de hoje. Os homens ganharam medalhas de bronze nos Jogos de 1948, 1960 e 1964 — o início dos anos 60 foram os melhores, com títulos mundiais e o escambau. As meninas levaram prata em Atlanta/1996 e bronze em Sydney/2000.

Fala-se em basquete no Brasil e imediatamente vêm à cabeça nomes como Rosa Branca, Wlamir Marques, Ubiratan, Oscar, Marcel, Carioquinha, Paula, Hortência, Marta, Janeth. Um país que teve gerações tão boas, e em épocas tão diferentes, não poderia estar vivendo na draga em que está.

O time feminino, aqui, perdeu os quatro jogos que fez, para Coréia do Sul, Austrália, Letônia e Rússia (foto). Um vexame, mas que não deve ser atirado exclusivamente nas costas das meninas. Atletas, em geral, são os menos culpados, embora tenham, também, suas responsabilidades. É só olhar para o masculino. Os melhores jogadores do Brasil atuam na NBA. Nenhum deles quis saber de jogar os pré-olímpicos. A maioria alegou contusão. Um monte de mentiras. Poderiam dizer, e seria ótimo para o basquete, que não defendem a seleção porque a gestão da CBB é uma farsa, são todos picaretas e eles não querem fazer parte desse circo. Prestariam um serviço ao esporte.

Não fizeram nada.

A campanha brasileira em Pequim, abaixo da crítica e da capacidade das meninas, tem outras explicações, além da questão técnica. É só ler mais esta ótima reportagem do Fábio Sormani aqui mesmo no iG. Tem grana no meio. Para variar.

Esse, sim, é o “nosso” basquete.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags:
10/08/2008 - 11:57

ESTRELÃO

PEQUIM (com muita chuva) – Uma Olimpíada com mais de 10 mil atletas acaba sendo uma festa de anônimos. Serão só 302 os medalhistas de ouro (OK, aumente um pouco a conta por causa dos esportes coletivos, que dão uma medalha só, mas cada atleta, claro, se considera “medalhado”), menos de 3% do total, e cada edição dos Jogos acaba consagrando, de verdade, dois ou três. É só olhar para trás e lembrar. Houve a Olimpíada de Mark Spitz, 1972. A de Nadia Comaneci, 1976. A de Carl Lewis, 1984. E esta, será de quem?

Provavelmente, de Michael Phelps. Mas, independentemente dos resultados, eu escolheria outro como candidato a estrela dos Jogos: Yao Ming. Um estrelão, com seus 2,26 m de altura, que neste exato momento está em quadra enfrentando seus colegas de NBA. Ele joga pelo Houston Rockets.

O ginásio está abarrotado, 18 mil pessoas, entre elas George W. Bush, que já foi ver a natação no Cubo, as meninas do vôlei de praia treinando e, agora, se diverte com o basquete — o que é um transtorno para todos que estão lá, já que o esquema de segurança, colocado em prática pelo serviço secreto dos EUA, obedece a regras muito específicas.

Yao Ming se chama Ming, na verdade. O sobrenome é Yao. Ming significa “brilho”, me diz a ficha que puxei de um computador aqui. O nome foi escolhido a partir de um ideograma que une o sol e a lua. Muito poético, como a maioria dos nomes chineses. Dizem que ele é um doce. Só tem tamanho. Aliás, tamanho herdado dos pais: Yao Zhi Yuan, 2,06 m, e Fang Feng Di, 1,93 m. Ambos jogaram pela seleção chinesa de basquete. Sua mulher, Ye Li, tem 1,90 m e também faz suas cestas.

Grandalhão, mas ágil. Falador, ótimo garoto-propaganda, ativista de causas nobres, Yao Ming é meu candidato a estrela dos Jogos. Não sei se a China vai ganhar medalha no basquete. Mas ele é a cara de Pequim. Embora tenha nascido em Xangai.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: ,
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