SÃO PAULO(e agora?) – Assisti à cota de dez minutos de Estoque que a emissora oficial nos concedeu e o narrador estava quase perplexo, embora tenha sido incapaz de dizer o que tinha de ser dito com todas as letras: é ridículo seis (ou mais, a conta não é minha) capôs de carros de corrida saírem voando do nada, ameaçando a segurança de todo mundo e expondo suas vísceras (veja as fotos de Bruno Terena aqui).
O piloto que deveria ganhar, Zonta, foi um deles. E foi desclassificado porque simplesmente se recusou a respeitar uma decisão da direção de prova, para repor a peça. Ficou na pista até o fim, mas a quadriculada foi dada a Paulo Salustiano, aquele do doping do ano passado que nunca veio a público para dizer no quê foi flagrado. Ele largou na pole.
Vi também um carro arrastando um pedaço de outro (os blogueiros informam que era um pedaço dele mesmo), mas não sei bem o que era. E vi que as arquibancadas, embora tenham recebido um bom público, tinham vazios enormes, porque neste ano as torcidas organizadas genéricas diminuíram.
Foi uma estreia desastrosa da categoria, com incêndios nos treinos, pilotos reclamando do carro, pés queimados nos pedais com temperaturas absurdas, problemas técnicos evidentes na elaboração e construção do novo projeto.
Mas os organizadores dirão que foi um sucesso, podem apostar.
PEQUIM(aí é demais) – As fotos ao lado foram emprestadas do site do diário português “Expresso“. A história, suponho, já é bem conhecida no mundo inteiro. Aquela coisinha linda vestida de vermelho que cantou “Ode à Pátria” na cerimônia de abertura dos Jogos, sexta-feira, não estava cantando nada. Era playback, dublagem. A dona da voz estava em casa, vendo pela TV. É a menininha da esquerda, Yang Peiyi, 7 anos.
Como ela é gorduchinha e tem os dentinhos tortos, foi vetada pelos organizadores. Que pegaram sua voz emprestada e colocaram no rostinho perfeito de Lin Miaoke, 9 anos. Para passar uma imagem mais bem-acabada da China. Miaoke também canta. Mas é possível que não cante tão bem quanto Peiyi. Dá para imaginar sacrilégio maior com uma criança?
Quem revelou a história, com a maior naturalidade do mundo, foi o diretor musical da abertura, Chen Qigang. Tomara que ele tenha dor de garganta por uma semana.
Teve também a história dos fogos de artifício fajutos, efeitos de computador, que o mundo inteiro viu pela TV e achou o máximo. Ridículo. A China está me parecendo cada vez mais de mentirinha. Tudo “fake”. Blergh.
PEQUIM(eterno) – E se é para escolher uma imagem, fico mesmo com o acendimento da pira, embora considere insuperável o mesmo momento em Barcelona/92, o arqueiro, o efeito devastador da flecha acendendo a chama (a gente só soube depois que caiu fora do estádio), a emoção que percorreu a espinha de todos que estavam ali e no mundo inteiro…
* Inspirado em livro quase homônimo de Julio Cortázar, que recomendo.
PEQUIM(agora sim) - Acho que fui mal compreendido, pelo tom dos comentários da nota abaixo. Está no primeiro parágrafo: a festa foi linda. Linda! Dá para não ser linda? O que disse foi que nada me surpreendeu, como nada mais me surpreende no mundo, exceto uma sequência de cinco vitórias da Portuguesa. O resto é previsível. Previsível porque hoje eu posso falar pelo Skype, com imagem, com a minha casa. E sem pagar nada. É o futuro que chegou. Por isso, exceção feita à já mencionada Portuguesa, quase nada mais me surpreende.
Mas muita coisa me encanta. Como não se encantar com as luzes, os sons, as pessoas iluminadas, o pergaminho digital, o pianista e a pianista-mirim, Yao Ming de mãos dadas com o garotinho que sobreviveu ao terremoto de maio, Li Ning acendendo a pira depois de flutuar de lado no ar?
Claro que foi uma festa encantadora, lindíssima, à altura de tudo aquilo que a China preparou para estes Jogos. Eu adoro essas cerimônias de abertura e encerramento, seja do que forem. Até de feira de ciências na escola. Elas são fruto de esforço coletivo, é a essência do ser humano, tanto faz se uma fanfarra ou uma festa como a de ontem, são pessoas fazendo o melhor que podem, é lindo isso.
Não acho chato, sequer, o desfile das delegações. Demora, mas é o momento dos meninos e das meninas, eles adoram, e me emociono ao ver as pequenas equipes orgulhosamente carregando suas bandeiras, o brilho nos olhos de cada atleta, o filme que certamente passa em cada cabeça, os anos de labuta para se chegar ali. Me emociono com gente.
Portanto, se fui mal compreendido, desfaz-se o engano. A cerimônia foi maravilhosa. De ruim, mesmo, achei apenas a trilha sonora baseada no trio batuque/gaita de foles/mariachis, e a eterna saia-justa entre China e Taiwan, que desfilou, e disputa os Jogos, sob uma bandeira olímpica (foto) porque o país não é reconhecido como tal pelos chineses. Deviam entrar juntos, assim como seria bonito se palestinos e israelenses entrassem de mãos dadas, para mostrar que a maioria das pessoas só quer viver em paz.
Creio que a esta altura todo mundo já viu a abertura e os melhores momentos na TV, mas tem uma ótima galeria de fotos do iG aqui. Vale a pena a visita. Já volto.
PEQUIM(sou crica?) – Ainda não acabou, e falta acender a pira, e sei lá quantas delegações ainda não passaram. Mas já dá para dizer algumas coisas sobre a cerimônia de abertura em Pequim. Linda, como sempre são lindas essas festas. Embora pouco surpreendentes, na maioria das vezes. Acho que a última vez que me surpreendi num evento desses foi com o ursinho Misha em Moscou.
Os tambores luminosos produziram um efeito espantoso. Só não entendi por que os organizadores não se preocuparam muito com a história dos oitos (8 horas, 8 minutos, 8 segundos). A cerimônia começou meio aleatoriamente, com a contagem regressiva dando em nada específico.
Gostei também das criancinhas de mochilas e daquela menininha de vermelho cantando, antes do hino. Depois, acho que o ritmo caiu um pouco.
O desfile das delegações demora muito, mas é necessário. É legal ver os “times pequenos” com seus exércitos de Brancaleone, as pequenas aldeias gaulesas contra o mundão dos poderosos.
A geração de imagens da CCTV me pareceu pouco criativa, para não dizer um porre. Poderiam mostrar melhor os lindos olhos amendoados da porta-bandeira da Jordânia. Ou os lábios misteriosos daquela atleta afegã. Ou a loirice dourada das suecas, dinamarqueses e norueguesas. Ou, pelo menos, os caras e as meninas mais conhecidas.
Poucos países mereceram grandes manifestações do público. Deu para perceber um certo agito quando entraram os iraquianos, a turma de Taiwan e Hong Kong. E a China, claro. Acho que vaiaram os sul-coreanos e aplaudiram seus vizinhos do norte. Bush vestiu o paletó quando vieram os EUA. As chinesinhas de branco em torno do campo estavam com a pilha fraquinha no final, coitadas. E a trilha do desfile foi meio confusa, misturando batuque com mariachis e gaita de foles. Uma salada da peste.
A idéia do pergaminho no chão para registrar os passos dos atletas foi simpática. E os fogos de artifício, mui belos. Afinal, foram os chineses que inventaram. Mas trancaram os moradores dos prédios vizinhos ao Parque Olímpico em casa. Ninguém entra, ninguém sai. Isso não tem nada de simpático. Nem de bonito.
PEQUIM(sombria) – A cidade é cintilante, em geral. Mas não sei por quê, me pareceu um pouco Blade Runner no exato momento em que fiz estas imagens. A poucos quilômetros dali, poucos mesmo, dois ou três, uma cerimônia para quatro bilhões de pessoas assistirem em todo o mundo. Bela, sem dúvida. Mas sabe qual a sensação que tenho? Que o Ninho sugou toda a vida de Pequim. Aqui fora, o mundo acabou.
Coisa esquisita, sô. Ainda bem que amanhã começa o corre-pula-bate-salta-chuta-nada. E a vida volta ao lado de fora do Ninho.
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.