SÃO PAULO(ou Senegal?) – Bom dia, macacada. Sei que já é de noite, mas foi uma sexta-feira inteira fora da cidade gravando matéria para o “Limite”, e só agora este belo laptop pôde ser ligado. Sem problemas. Tem bastante coisa para animar o fim de semana. Começando com a coluna Warm Up de hoje, sobre Toyota, Kobayashi e japoneses em geral.
SÃO PAULO(tira o pé) – Talvez eu e muitos blogueiros estejamos sendo duros com a Toyota com essa história de que “não fará falta”. Todas equipes fazem, mesmo aquelas cujos resultados não são grande coisa. O que não faz falta, na verdade, na minha modesta opinião, é esse pensamento corporativo que se sobrepõe ao esporte. É a falta de paixão e comprometimento, é o recuo ao primeiro sinal de crise, o medo do goleiro diante do pênalti, se me entendem.
Por isso que a Toyota não fará tanta falta assim. Afinal, é empresa que mostrou, na F-1, pouca ousadia, pensamento conservador, nunca teve sangue nos olhos. Lamentei muito mais o fim da Minardi, da Jordan, da Arrows, da Tyrrell, da Sauber. Mas é a vida.
O que venho notando é a preocupação de muita gente com o futuro de Kamui Kobayashi, esse japonesinho que encantou nas duas corridas que disputou, em Interlagos e Abu Dhabi. Li na “Folha” esta semana que, sem dinheiro, pode ser que ele volte a trabalhar no restaurante do pai, preparando sushis e sashimis.
SÃO PAULO (saia justa) – Michelin, Goodyear e Pirelli já avisaram que não têm interesse em fornecer pneus para a F-1 no lugar da Bridgestone, que sai no fim do ano que vem. A FIA está em maus lençóis. Qualquer que seja a empresa escolhida/candidata, terá de passar alguns meses fazendo testes. E vai precisar, inclusive, de carro e piloto para queimar borracha ao longo dos próximos meses. Quero só ver o que vão fazer…
SÃO PAULO (sem dizer tchau) – A Toyota já era. Os japoneses anteciparam o anúncio esperado para o fim de semana e avisaram hoje que estão deixando a F-1. Como fizeram Honda e BMW, o que dá um total de três montadoras em menos de um ano, o que dá total razão a Max Mosley e sua cruzada pró-independentes.
Os japoneses realmente se assustaram com a crise. A Subaru e a Suzuki deixaram o Mundial de Rali, Honda e Toyota se pirulitaram da F-1, assim como a Bridgestone, que só fica mais um ano, a Kawasaki abandonou a MotoGP… Uma debandada geral e inexplicável.
Sobre a Toyota, já falamos ontem. Não vai fazer muita falta, pela ausência de brilho desde o início. A marca sai sem uma vitória sequer. Falar em fracasso não seria um exagero.
Bem, agora esperemos pela próxima. Será a Renault?
SÃO PAULO(pingando) – Está nos pasquins europeus de hoje. No fim de semana, a Toyota vai dizer alguma coisa sobre sua presença na F-1. Há uma expectativa latente de que faça o que já fizeram Honda e BMW: diga tchau. Existem indícios. O primeiro, avisar seus pilotos que eles não ficarão no ano que vem. O segundo, revelar alguém como Kobayashi e não confirmar imediatamente que ele corre em 2010 — só faz sentido se não houver equipe. O terceiro, o rompimento do contrato com a Williams. Hoje, montadora na F-1 tem de fazer motor para mais de um time, senão a coisa fica inviável economicamente.
As vendas mundiais da Toyota estão caindo desde o início da crise econômica em setembro do ano passado. A empresa está, como dizem os financistas, tendo de “reposicionar” a marca.
Na F-1 desde 2002 gastando os tubos, a Toyota nunca conseguiu resultados à altura de seus investimentos na categoria. Faltou ousadia, entre outras coisas para contratar pilotos. A equipe não teve nenhum de ponta nesse tempo todo, alinhando sempre uma turminha de segundo escalão. Não ficarei chocado, surpreso ou abismado se os japoneses tirarem seu time de campo. A ver.
SÃO PAULO (novidade) – Acabo de receber da assessoria de Rubens Barrichello o texto da coluna que ele publica no seu site e no “Lance!”. O piloto conta que escreveu voando de Abu Dhabi para a Inglaterra para “realizar um sonho”: guiar para a Williams, algo que, continua o texto, ele imagina fazer “desde criança, desde a primeira vez que vi um F-1 na TV”. Repdroduzo trechos:
Estou indo anunciar a minha contratação… Estou indo encontrar meu destino.Várias vezes nesses últimos 17 anos chegamos a conversar e a quase fechar um contrato, mas confesso que a hora boa é agora: nunca estive tão preparado, nunca estive tão bem guiando um carro e a Williams sabe vencer e tenho confiança no trabalho deles.
Foi já na prova de Barcelona que fui contatado por um jornalista inglês me perguntando se eu tinha contrato para 2010 porque tinha um time querendo os meus serviços (mal sabia ele que o meu contrato para 2009 era de somente quatro corridas e que o resto dependia do meus resultados e trabalho). Quis saber que time era esse, mas ele só me falou que era inglês e que não era um time novo… Só podia ser McLaren ou Williams. O coração bateu mais forte! Depois daqueles quatro meses sem saber se guiaria um F-1, logo na quinta prova do campeonato sendo procurado por um sonho.
Com a McLaren, cheguei a falar, mas foi mais para frente… No GP do Brasil exatamente. Uma grande equipe sempre a ser considerada, mas meu contrato com a Williams já estava assinado. E bem assinado… Estou indo para liderar um projeto na tentativa da equipe de voltar ao topo. E como quero isso…
Depois Rubens fala sobre a prova de Abu Dhabi, sem grandes novidades. Novidade, mesmo, é essa história de ter sido procurado pela McLaren no GP do Brasil. Indica duas coisas: que Kovalainen será mesmo descartado e que a coisa com Raikkonen anda complicada. Talvez por dinheiro. Talvez porque a Mercedes esteja pulando fora do time prateado, para jogar suas fichas na Brawn.
Tem coisa aí para acontecer nesse casamento McLaren-Mercedes. Picas grossas dos dois lados estiveram em Abu Dhabi para discutir. Advogados também. A McLaren está jogando duro. Quer de volta os 40% que a Mercedes tem na equipe sem pagar nada. Ao contrário: pretende receber por isso, e ainda exigiria motores de graça por dois anos. Coisas da engenharia financeira que eu nunca compreendo bem. Tem empresa que paga para se livrar do que tem, e pode ser o caso da Mercedes agora.
Anotem na agenda: no dia 1º de dezembro algum anúncio oficial pode ser feito.
SÃO PAULO(uai) – Agora, essa da Bridgestone, sim, foi uma novidade. Pegou todo mundo de surpresa. Um dia depois de encerrado o campeonato, os japs avisam que ficam só mais um ano. Ou seja: completarão apenas duas temporadas com os slicks. A Bridgestone chegou à F-1 para brigar com a Goodyear, ficou sozinha, depois enfrentou a concorrência da Michelin, ficou sozinha de novo e decide ir embora. Crise e “reposicionamento” da marca devem ser as explicações oficiais.
Não sei quanto se gasta para forcecer pneus para a F-1, mas não há dúvidas de que o retorno é garantido. Por contrato, todos os carros usam o logo da Bridgestone, todos os pódios têm o boné da marca e por aí vai. Eu gostava, porém, da disputa entre marcas. Por mim, teríamos vários borracheiros na categoria, algo que acrescenta mais uma variável às corridas. Mas a FIA não tem muita certeza disso e deve, a partir de agora, abrir uma concorrência para tirar uma e colocar outra, não outras.
Pirelli e Goodyear são as únicas que me parecem capazes de abastecer a F-1. A Michelin não está mais a fim, pelo que sei. Dunlop não é grande o bastante e está há muito tempo fora das competições de carros. Há as coreanas, como Hankook, e uma europeia forte, a Continental. Vamos ver que bicho que dá.
Ah, esse anúncio não afeta o Meianov. Eu uso Pirelli na Classic Cup.
SÃO PAULO(sol bom) – Foi no dia 11 de outubro que o Felipe Paranhos revelou aqui no Grande Prêmio que Barrichello tinha assinado com a Williams. Hoje, três semanas depois, vem a confirmação oficial do segredinho combinado, que todos tentaram negar nesse tempo todo sem sucesso. Às vezes acho esse pessoal da F-1 tão bobo…
Mas não tem importância quem falou primeiro e quem falou segundo. Falemos, sim, do que será dessa parceria, Rubens e Williams, piloto e equipe veteranos, um que realmente renasceu em 2009, outra que busca reencontrar o caminho das vitórias perdido lá atrás, quando se recusou a ser comprada pela BMW e se tornou a maior das independentes — o que não quer dizer muito.
Salvo engano, a Williams não vence uma corrida desde 2004 com Montoya, aqui em Interlagos. São cinco anos de jejum. Conseguirá algo com Barrichello e o novato Nico Hulkenberg? Esse alemãozinho (mais um no caminho de Rubens) é bom, ganhou por onde passou e é uma aposta para o futuro. O brasileiro será uma espécie de professor. A Williams vai andar de Cosworth e tem tradição de fazer bons carros, embora nos últimos anos tenha andado muito apagada. Nesta temporada, começou bem. Tinha difusor duplo e tudo mais. Mas fez um campeonato discretíssimo, entre outras coisas porque Nakajima é um piloto muito fraco.
Barrichello se junta a Piquet, Senna e Pizzonia na lista dos brasileiros que disputaram GPs para Frank Williams. O normal, aqui, seria dizer que não há milagres na F-1, e que por isso ninguém deve esperar grande coisa de Rubens em 2010. Mas a Brawn está aí para mostrar que milagres acontecem. Por isso, o melhor é esperar para ver os carros, os testes, os motores.
SÃO PAULO (será que o inverno acabou?) – Merece pouquíssimas linhas este GP de Abu Dhabi. Porque uma coisa é fazer evento. Outra, fazer esporte. A corrida é, certamente, um baita evento. Muito dinheiro gasto, muito luxo, cores, luzes, exuberância, riqueza. Mas é disso que é feito o esporte? Não. Esporte é competição entre os melhores. Não houve competição em Abu Dhabi. A prova, esportivamente falando, foi melancólica. Um péssimo espetáculo. O espetáculo, como escrevi aqui no meio da semana, foi o cenário. Impressionante, sem dúvida. Belo? Vai do gosto de cada um. Tem quem goste de concreto, aço escovado, muito vidro, TVs de LCD e iates. Tem quem goste de árvores, flores e colinas.
Já disse: nada contra novas corridas, nem contra o esforço de vários países para fazerem parte do mapa-múndi organizando corridas, torneios de tênis, campeonatos de futebol etc. E todos tentam fazer o melhor possível. O que não me agrada é o caráter artificial que vem tomando conta de tudo. E a rasgação de dinheiro sem limites num mundo pobre e famélico.
Mas deixa pra lá. Não pretendo transformar uma corrida de F-1 numa discussão sociológica. Que Abu Dhabi, Qatar, Dubai e cercanias gastem a grana que têm, de origem duvidosa, com o que bem entenderem.
O GP. Um porre do começo ao fim. Hamilton largou bem, não conseguiu desgarrar, Vettel ficou por perto, voltou em primeiro depois da primeira parada, Lewis abandonou com problemas de freio, e a Red Bull colocou dois no pódio, Vettel em primeiro, Webber em segundo. Pena que a equipe, na primeira metade da temporada, e em algumas provas isoladamente, por conta de seus pilotos, não tenha sido lá muito regular. Senão, a briga com a Brawn teria sido mais interessante.
De qualquer forma, os dois troféus de hoje e as seis vitórias do time rubrotaurino no ano fazem justiça a Adrian Newey, projetista de mão cheia que andou meio apagado nos anos Schumacher, mas voltou com tudo numa ex-equipe pequena para ganhar corridas e, quem sabe, lutar pelo título no ano que vem. A Red Bull conseguiu ser o que a BMW, com toda sua tecnologia e dinheiro, não atingiu. É bom lembrar que esse time nasceu da Stewart, que depois virou Jaguar, e depois foi comprada pela turma dos energéticos. A BMW comprou a Sauber e desistiu da briga muito cedo. Sai por baixo da categoria, apesar do esforço individual de seus integrantes durante todo o ano.
De legal hoje, os pontos de Kobayashi em sua segunda corrida, tendo feito apenas uma parada, segurando a onda com os pneus desgastados, um breve sopr de vida na categoria, tratando-se de novatos. Button e Barrichello fizeram provas sólidas e sem erros. Jenson foi buscar o segundo lugar nas voltas finais, quando Webber teve uma brusca queda de rendimento, mas não conseguiu porque a pista não deixou. Tentou, pelo menos. A Ferrari foi ridícula, assim como a Renault. E fim de papo.
Rubens fecha o campeonato em terceiro, reflexo direto do mau começo de ano. Um bom resultado, mas recebido com frieza por conta da expectativa de título alimentada antes do GP do Brasil. Aliás, sorte que a decisão ficou para Interlagos, um autódromo de verdade. Se alguma coisa tivesse de ser resolvida na pista em Abu Dhabi, seria bem difícil.
SÃO PAULO(quase derreti) – Buenas, macacada. Estou chegando tarde, mas ninguém perdeu nada. O dia foi de Interlagos até agora há pouco e a classificação da F-1 eu assisti por uma TV num celular. Ótima imagem, mas meio pequenininha. Hamilton fez a pole com o pé nas costas e nem é o mais leve do grid. Nessa pistinha em que ninguém vai passar ninguém, leva amanhã. A única ameaça é Vettel, em segundo, um pouquinho mais pesado. Webber vem logo atrás. Portanto, Hamilton x Red Bull será a corrida.
A Brawn, já no piloto automático, fez quarto e quinto com Barrichello e Button. Pódio será uma surpresa. No mais, na turma da frente, destaque para Buemi em décimo e para os dois da BMW Sauber no Q3 na prova de despedida da equipe.
A Renault foi o desastre do dia. Alonso e Grosjean foram degolados no Q1, ao lado da patética segunda Ferrari, de Fisichella.
Quem viu as imagens do circuito pela primeira vez deve ter ficado impressionado com a beleza metálica das construções no entorno, a iluminação, a saída dos boxes em túnel e tudo mais.
SÃO PAULO(esquenta meu motor, please) – Terminou de noite o primeiro dia de treinos em Abu Dhabi. A pista é iluminada, oh! Bem, a McLaren sobrou, com Kovalainen em primeiro, 1min41s307, e Hamilton em segundo, a 0s197. Button, que não quer saber de moleza, mesmo campeão, fez o terceiro tempo. Vettel foi o quarto e nosso novo ídolo, Kobayashi, o quinto (Trulli ficou em 14º…). Barrichello foi o oitavo e a Ferrari e a Renault se arrastaram lá atrás, com Raikkonen em décimo, Fisichella em 17º, Alonso em 16º e Grosjean em 18º.
Ninguém dá muita bola para o resultado dessa corrida. O que está pegando mesmo nas arábias é o mercado de pilotos e equipes, com decisões e especulações para todos os lados: Glock na Renault, Sutil na Toyota, Cosworth confirmada na Williams, Red Bull atrás de motor, Rosberguinho quase certo na Brawn, Raikkonen na McLaren…
É o tom do fim de semana: adivinhar o que vai acontecer em 2010. Amanhã sai o grid às 11h. Agora eu vou para a pista aqui em Interlagos e só volto no fim da tarde. Bye.
SÃO PAULO (vou pra outra) – Nada mais artificial do que essa pista de Abu Dhabi no meio do nada com suas arquibancadas vazias lavadas com Omo total, pontuadas aqui e ali por árabes com suas roupas também lavadas com Omo total falando ao celular e exibindo seus óculos Ray Ban, e os iates desertos, e as passarelas que ligam nada a lugar nenhum, e o hotel monstruoso com sua arquitetura metida a besta. Haja mau gosto.
Assisti ao primeiro treino com o entusiasmo de quem joga um demo de Playstation. Como a corrida não vale nada, não vale a pena dizer muita coisa, também. McLaren e Brawn andaram bem. A Ferrari foi mal. A Renault, também, com Grosjean mais ainda — duvido que esse moço continue no time no ano que vem; vai ser o Glock, mesmo, ao lado do Kubica.
Como se imaginava, a atração do fim de semana é o circuito em si. Tudo chiquérrimo, carérrimo, limpérrimo, cafonérrimo, mas certamente espetacular, suntuoso, feérico, exuberante. Tem quem goste.
Deu Hamilton, Button, Vettel e Barrichello nas quatro primeiras posições. Agora vou para Interlagos e depois dou um jeito de assistir ao segundo treino. Sem muita empolgação. Das arábias, ultimamente, nem quibe e esfiha. Comi outro dia e me deu azia.
SÃO PAULO(fechado) – Está lá no Grande Prêmio. Bruno Senna assinou com a Campos e é o terceiro brasileiro confirmado na temporada 2010 da F-1, ao lado de Rubens Barrichello (Williams) e Felipe Massa (Ferrari). Há ainda chances para Lucas di Grassi (em alguma pequena; parece que Timo Glock vai para a Renault) e Nelsinho Piquet (em outra pequena, mas com possibilidades menores).
É impossível fazer qualquer prognóstico. Bruno será estreante, como a Campos. Todos irão aprender. Imaginar uma nova Brawn, que chega arrebentando, é querer demais. O primeiro-sobrinho tem qualidades. Começou tarde, pulou etapas, mas me parece preparado. Talvez um time novato seja um bom caminho para começar, sim. E, além do mais, não havia muitas alternativas. Num time que nasce do nada, e na condição de debutante, Bruno estará isento de cobranças se não fizer bobagens. E pode estabelecer metas modestas. Pontuar, por exemplo, já será uma vitória.
Seu companheiro de equipe deve ser Pedro de la Rosa. E, depois de 16 anos, o sobrenome Senna volta ao seu habitat. Bacana. Bruno é um cara que batalhou para chegar. O nome ajudou, claro. Mas ele tem resultados bem razoáveis, está longe de ser um zé-mané. Que ninguém, porém, queira que ele seja o tio de um dia para o outro. Essa carga ninguém merece.
Está no site do Red Bulletin, como um resumo visual da temporada. Sei que todos vão notar o Nelsinho/Dick Vigarista, mas curti o Button/Peter Perfeito. A mola no Massa é de péssimo gosto.
SÃO PAULO(quero correr) – Donington não vai mais sediar o GP da Inglaterra do ano que vem. Os caras fizeram muito barulho, mas não conseguiram grana para reformar o autódromo. No fim das contas, vão recolocar Silverstone no calendário, goste Bernie ou não.
O que é ótimo. No que diz respeito à F-1, Donington já fez sua parte com aquele GP da Europa de 1993. O palco inglês para a categoria é Silverstone, e ponto final.
SÃO PAULO(começo) – Desculpe-me o blogueiro que indicou, mas não gravei o nome. A imagem veio via Twitter… Trata-se de um anúncio de jornal da Mercedes-Benz festejando o título de Button. Alguma dúvida sobre a paixão de Stuttgart pelo time marca-texto? E olha que os carros da Brawn nunca carregaram a estrela de três pontas na carenagem. Só no cabeçote do motor, escondida de todos.
Há algumas semanas já tínhamos falado disso aqui. A Mercedes, aos poucos, vai se descolar da McLaren. Podem apostar. E vai acabar tomando conta da Brawn. Podem apostar também.
SÃO PAULO(faltou pouco) – Mark Webber venceu o GP do Brasil e o rigor de Evelyn Guimarães impediu que ele ficasse com média 10 no Ranking GP. Sua nota foi 9,9, o melhor da prova para a turma do Grande Prêmio. Depois dele, os dois do pódio com 9,3: Kubica e Hamilton. Kobayashi-san mereceu 8,4, mais pela surpresa que pelo resultado. Barrichello ficou com 7,4. E o pior da corrida foi Trulli, nota 1 e não se fala mais nisso. Button, o campeão, fez uma corrida nota 9. Avaliações e comentários estão aqui.
Depois de 16 etapas, Jenson segue na liderança geral com média 7, seguido por Vettel (6,7), Barrichello e Webber (empatados com 6,2). Combina com a classificação do Mundial.
Gostou das notas? Concorda? Discorda? Comente à vontade, não paga nada.
SÃO PAULO(qualquer uma) – Primeiro se falou muito em McLaren, depois insinuou-se algo na Brawn, agora comenta-se que é a Toyota o destino de Kimi Raikkonen. Pelo menos a equipe diz que fez uma proposta. Seria ótimo para o time, claro, mas desconfio que não muito para ele. Afinal, a Toyota nunca fez nada de interessante na F-1 desde a chegada à categoria, em 2002. Não mudou nem a pintura dos carros e o visual dos uniformes dos mecânicos. E o rango é ruim.
Quinta-feira, naquela coletiva da Ferrari que eu apresento, perguntei ao Raikkonen se ele tinha planos para 2010. Sua resposta foi esclarecedora e longa. Duas letras: “No”. Ele pode correr no Mundial de Rali? Pode. Pode continuar na F-1? Pode. Pode não fazer nada? Pode. Kimi é um sujeito estranho e, por isso mesmo, gosto dele. E seu primeiro carro foi um Lada.
Eu, se fosse a McLaren, insistiria nele. Se fosse Ross Brawn, idem.
Falando em Raikkonen, aí embaixo está uma foto enviada pelo Tiago Marçal, blogueiro do pedaço. Ele e uma turma de fino-brasileiros, torcedores de todos os pilotos finlandeses de todos os tempos, levaram faixas e vodca, e bandeiras e tudo mais a Interlagos, domingo. E encontraram uns finlandeses de verdade que não se importaram em tomar Nova Schin. “O que vale é que tem álcool”, disseram. Entre eles, tinha até um que se chamava Mika Salo. Mas não era aquele, era outro.
SÃO PAULO (e chega) – De todas as pessoas que encontrei hoje, ouvi: “Esse Rubinho é um cagado, mesmo”, “Puta azar deu o Rubinho”, “Esse Rubinho é muito ruim”, “O cara é muito azarado, tinha de furar um pneu?”, “Esse cara é muito ruim, não vai ser campeão nunca”, “Quando a gente mais espera dele, faz isso”.
E algumas variáveis sobre o mesmo tema.
Eu já tinha dessa impressão, mas depois deste fim de semana, tenho certeza. O problema de Barrichello não é ele, não são seus carros, não são seus companheiros de equipe. O problema de Barrichello é a TV Globo.
E por que a Globo, e não toda a mídia? Porque não se deve ter nenhuma ilusão. A imensa maioria das pessoas no Brasil só se informa sobre F-1 pela Globo. “Se informa” é um eufemismo, melhor corrigir. Digamos que a cultura de F-1 que a imensa maioria das pessoas tem no Brasil vem daquilo que a Globo diz.
E a Globo só diz besteira. A cultura de F-1 do brasileiro médio é zero, talhada pelas cascatas globais.
Barrichello não fez nada de errado ontem, não errou ao tentar a pole com o carro mais leve, não teve azar nenhum, não foi cagado. Mas a histeria global, martelada dia após dia — e quando a corrida é no Brasil, e ele está na pole, chega a ser quase uma lavagem cerebral, uma lobotomia —, faz com que o público aqui acredite que Rubinho do Brasil tem a obrigação de ganhar, e se não ganhar, das duas uma: ou sacanearam com ele, ou é um cagado que não tem mais jeito.
As pessoas veem uma corrida de F-1 aqui com zero de informação honesta. Ontem, depois de dez voltas já era possível afirmar que Rubens não venceria a prova. Simples: não abria de Webber e iria parar cinco voltas antes nos boxes. Cinco voltas, com um carro mais rápido e cada vez mais leve, seriam mais do que suficientes para Webber voltar à sua frente do pit stop. E Kubica, também. Ambos passaram.
Rubens apostou no clima instável de São Paulo, no que fez muito bem. Larga na pole, pula na frente, vai que chove no início, todos têm de parar, a vantagem do carro mais pesado é anulada. Ou, ainda: acontece alguma merda atrás dele, Webber se enrosca, Kubica bate, fica para trás, e a vantagem é igualmente anulada.
Mas há uma desonestidade editorial clara naquilo que a Globo faz, alimentando uma expectativa que não poderá ser cumprida. Porque corrida de carro é muito mais do que essa gritaria de “Vâmo, Rubinho!”, “Não erra agora, Rubinho!”, “Acelera, Rubinho!”. Corrida de carro tem lógica, é matemática, e quem mostra um evento desses a milhões de pessoas tem a obrigação de ser honesto.
Porque se não for, as pessoas não têm elementos para entender a derrota. E se amparam na explicação que está à mão: o cara é cagado, dá azar, não vai ganhar nunca. Ou, ainda: furaram o pneu dele de propósito.
E, aí, vai-se criando a fama, dia após dia, de perdedor, azarado, cagado. Uma farsa, uma mentira. A TV mente o tempo todo. Foi assim nos anos pós-Senna, em que Barrichello, de Jordan ou Stewart, não tinha a menor chance de ganhar uma corrida, embora a TV dissesse o contrário. Porque corria contra Williams, Ferrari, McLaren, Benetton. Depois, na Ferrari, a venda de ilusões baratas era igualmente cruel, porque contra um piloto como Schumacher, Barrichello jamais seria campeão. Não seria porque Schumacher era muito melhor. Se eu for companheiro de Barrichello numa corrida de qualquer coisa, não terei chance alguma de andar na frente dele. Deem um kart para ele e outro para mim, e ele vai chegar na frente todas as vezes. Entreguem um Lada igualzinho ao meu, e não vou ser mais rápido que ele nunca, em nenhuma volta.
Mas a Globo vende a esperança, porque acha que as pessoas só vão se interessar por seu evento se houver a chance de um brasileiro vencer, mesmo se for uma mentira deslavada, como na maioria das vezes. É um engodo, e uma sacanagem com o piloto. A expectativa que se cria por seus resultados é criada na TV. OK, muitas vezes Rubens embarcou na onda, mas é o menor dos culpados.
Se a TV não se dedicasse tanto a iludir seus telespectadores tratados como otários, Barrichello não seria zoado como é há anos, pela Globo inclusive. Poderia conduzir sua carreira com mais tranquilidade e serenidade. Ele não tem a obrigação de vencer por ninguém, pelo povo, pelo país. Tem obrigação de trabalhar direito para quem lhe paga, e por ele mesmo.
Um dia depois de uma corrida normal, na qual fez o que podia fazer dentro dos limites de seu carro e de seu talento, o coitado tem de aguentar um tijolo a mais nessa construção de uma imagem que não corresponde à realidade. Barrichello pode não ser o melhor piloto do mundo, está longe disso, mas é um dos bons dos últimos anos, como outros tantos. Nem muito mais, nem muito menos. Não estaria há tanto tempo correndo se não tivesse qualidades.
Quando parar, muito provavelmente sem ter sido campeão, terá para sempre colado na testa o rótulo de cagado, azarado, lento, o que for. Pode agradecer à TV por isso. Foi ela que, nesses anos todos, disse ao Brasil que Rubens era algo que nunca foi. Talvez ele nunca entenda isso, até porque adora ser bajulado pela Globo, com seu pseudo-jornalismo esportivo meloso, ufanista e cascateiro. Mas é assim.
SÃO PAULO (com colarinho, sempre) – A Itaipava gostou tanto de patrocinar a Brawn, o retorno foi tão grande, que a Cervejaria Petrópolis está firmemente disposta a seguir na F-1. Com Barrichello, para onde ele for. Há informações de que um emissário (talvez mais do que isso) da cervejaria já está a caminho da Europa para negociar valores. Mais especificamente, Inglaterra. Sendo mais preciso, Grove.
Por enquanto, é tudo que eu tenho. Quem contou foi um pássaro do oeste do Paraná. Que quando pia, acerta.
SÃO PAULO (do começo ao fim) – Já está no ar na TViG um breve comentário deste que vos bloga sobre as esquisitices do Mundial de 2009: uma equipe estreante que nem sabia se ia correr leva o título de Construtores, um piloto que disputou meia temporada e cozinhou o galo na segunda metade é campeão, Ferrari e McLaren numa draga só e tudo mais. O vídeo está aqui.
SÃO PAULO (sumiu) – Fiz um monte de fotos em Interlagos, e como sempre quase todas ruins. Agora, quando estava apagando tudo, limpando o HD, como se diz, achei essa aqui, da sexta-feira. Dessa eu gostei. Fica como símbolo do fim da cobertura do GP do Brasil.
SÃO PAULO (vergonha é isso) - Ontem, depois da corrida. Dando entrevista à BBC, Hamilton foi atingido, segundo a emissora, por amendoins e restos de comida atirados do Paddock Club.
Um belo exemplo da nossa gente não muito bronzeada que paga ingressos bem caros ou, na maioria das vezes, recebe convites de empresas para ver uma corrida de F-1.
SÃO PAULO (that’s it) – Eu tenho anotados todos os GPs que cobri “in loco”, como se diz, desde 1988. Fui atualizar a lista e esse aqui foi o 225º. Ducentésimo vigésimo quinto. É bastante. Mais do que a maioria dos pilotos. Bela porcaria. É só um trabalho. Que me custou nesses anos todos intermináveis horas em aeroportos e aviões e hotéis.
Não foi o melhor dos GPs do Brasil que já acompanhei de perto. Eu gostava muito das corridas do Rio, e a fase Senna em Interlagos durou pouco, apenas cinco provas, e sem dúvida as duas que ele venceu foram muito interessantes, pela empolgação do público e pela clara vocação de protagonista que Ayrton tinha.
Depois foram anos e mais anos de uma falsa impressão de que Barrichello poderia finalmente ganhar (falo sempre do ponto de vista do torcedor), exceção feita a 2003, que ele podia mesmo, e mais recentemente a ascensão de Massa, que correspondeu às expectativas da turma da arquibancada.
Neste ano, havia uma chance boa para Barrichello, que acabou frustrada por conta de um domingo de sol e tempo firme. Ele não poderia ser campeão aqui, mas dava para ganhar se o dia fosse instável, aquele chove -não-molha, tudo que o ajudou a fazer a pole ontem.
Não ganhou, e ficou aquela impressão de decepção no ar, na saída do público. É pena que a maioria venha só para ver brasileiro na frente. O espetáculo geralmente é bonito na F-1, seja qual for a nacionalidade dos vencedores, e Interlagos costuma oferecer bons pegas, como a gente dizia antigamente.
Mas se não foi o melhor de todos, também não foi o pior. Pelo quinto ano seguido saiu um campeão aqui, e assim Interlagos vai acrescentando belos capítulos à sua já rica história.
Agora, quase dez da noite, garoa e faz frio na região do autódromo. Os mecânicos estão acabando de empacotar suas tralhas nos boxes, porque daqui a duas semanas todos estarão em Abu Dhabi para a última prova do ano. E assim se vai mais uma temporada, e para quem como eu passou muito tempo ajeitando o calendário pessoal ao calendário da FIA, é mais um ano que acaba também.
Só que meu calendário pessoal já não é mais o da FIA. Então, não saio mais daqui com aquela sensação de que o ano acabou e, agora, “só na Austrália” (nem é, ano que vem começa no Bahrein). Nada. Amanhã é segunda, dia útil, cheio de coisa para fazer.
Sendo assim, encerramos nossas transmissões direto de Interlagos. Mais uma vez. Para fazer tudo de novo no ano que vem, creio. Só que, nesse intervalo, voltarei aqui para fazer outras coisas. Acelerar meu carrinho, que é muito mais gostoso do que ver os outros acelerando.
Bye, macacada. Estou com fome. Vou bater um pastel.
SÃO PAULO (estou atrasado!) – Barrichello não venceria a corrida nas condições de hoje. Para ganhar, teria de contar com chuva ou confusões dos outros. Com tempo firme e carro mais leve que Webber, precisaria contar com uma má largada do australiano, o que não aconteceu.
Foi uma prova de leitura muito simples. Webber não podia deixar Barrichello escapar, para aproveitar as cinco voltas que tinha a mais de combustível. Quando Rubens voltou de seu pit stop, caiu no tráfego, o que é normal em Interlagos, e ali perdeu também uma posição para Kubica. O terceiro lugar seria sua posição natural, mas no fim teve o problema do pneu furado e acabou apenas em oitavo. Foi-se a chance de vencer em casa.
O GP do Brasil teve ótimas primeiras voltas e algumas grandes atuações. A começar pelo campeão Button, que se aproveitou das trapalhadas de Trulli, Sutil e Alonso (para mim, tudo culpa do Trulli) para fechar a primeira volta em nono, perto dos pontos, e passou muita gente. Me lembro de Buemi, Grosjean, Nakajima. E de uma disputa doida demais com Kobayashi, grande surpresa, um japa doidinho de pedra e muito rápido e combativo. Será titular da Toyota no ano que vem, isso já está decidido. Estreou deixando excelente impressão.
Button guiou, como ele mesmo disse, “para fazer as coisas acontecerem”. Fez. Entrou nos pontos rápido, sabia do que estava acontecendo com Barrichello e não teve medo de buscar posições. Mereceu o título. Foi a melhor corrida dele desde a vitória na Turquia.
Outra grande, fenomenal, atuação foi de Hamilton. Largou em 17º e foi buscar um pódio. Assim como Raikkonen, que até passou no meio do fogo deixado pela gasolina de Kovalainen nos boxes, depois de cair para último na primeira volta graças a um toque em Webber, após uma grande largada. Ufa. Frase longa, porque aconteceu muita coisa para ele, mesmo, na prova. Terminou em sexto. Tem feito ótimas corridas, Kimi, apesar de já demitido.
Vettel, o quarto colocado, também foi de encher os olhos. Se não tivesse largado tão atrás, em 15º, era o maior candidato à vitória, porque é mais piloto que Webber. A Red Bull, na verdade, sobrou. E palmas para Kubica, que conseguiu sua melhor posição no ano, num time que vive claro estado de fim de feira.
A prova foi melhor na primeira metade. Depois, as posições se acomodaram. Com Barrichello fora da briga pela vitória desde o primeiro pit stop, a eletricidade que tomava conta do autódromo antes da largada se esvaiu.
Foi o quinto ano seguido que Interlagos consagrou um campeão. Alonso em 2005 e 2006, Raikkonen em 2007, Hamilton em 2008 e Button agora. É um bom palco para decidir títulos. Claro que a corrida de hoje não pode ser comparada à do ano passado, que teve desfecho cinematográfico. Mas foi legal. Button é, igualmente, um campeão legal. Cara batalhador, que teve altos e baixos na carreira, estava a pé no fim do ano com a desistência da Honda, e aí veio Ross Brawn, e aí ele começou o campeonato de forma arrebatadora, ganhou seis das sete primeiras provas e passou a administrar a vantagem já sem brilho. Brilho que hoje voltou. À sua pilotagem e, especialmente, ao sorriso e ao olhar. Um campeão feliz.
SÃO PAULO (boas mãos) – Uma vez, cobrindo um GP da Espanha, a gente foi jantar num restaurante em Granollers. É uma microcidade-dormitório (OK, nem tão micro assim) do lado de Montmeló, onde fica o circuito de Barcelona. Explicando: o circuito de Barcelona, que a gente chama de Barcelona, fica na cidade de Montmeló, na perifa de Barça, mas a gente diz Barcelona porque é mais bonito. Granollers fica à direita da entrada do autódromo. Montmeló, à esquerda. Mais para a direita a gente chega na França. Mais para a esquerda, em Barcelona. Sacaram?
Bem, saímos tarde da pista e fomos a um restaurante simpático em Granollers, que tinha dois grandes salões e um bom presunto pata-negra. Patanegra? Patannegra?
Não vou lembrar o ano, mas é bem provável que fosse 2001. Sim, 2001. Jenson Button estava na Benetton. Tinha estreado no ano anterior pela Williams, depois de derrotar, numa espécie de vestibular da equipe, o brasileiro Bruno Junqueira, que tinha vencido o campeonato da F-3000.
Button chegou chegando, porque Damon Hill tinha parado no ano anterior e a Inglaterra ficara sem nenhum bonitão para torcer. A Williams era a Williams, ora bolas, equipe de ponta, e lá foi Jenson começar sua vida de famoso. O companheiro dele era o mala sem alça do Ralf Schumacher, e assim ele virou a estrela da companhia.
Marcou uns pontinhos e, ainda muito jovem, 20 anos, foi parar na Benetton no ano seguinte, um time fashion, de vida social agitada, e aí ele pirou. Sabe aquela coisa de carrões, iates e mulheres? Pois é. Carrões, iates e mulheres. E aí chegamos ao restaurante de Granollers.
Numa mesa próxima estava um senhor de enorme nariz e rosto muito vermelho. John Button estava curtindo adoidado aquela vida de pai de piloto de F-1. Dividia os carrões, os iates e as mulhers com o filho, pode-se dizer. Usava camisa rosa e calça branca. Disso eu lembro bem, parecia da velha guarda da Mangueira. E bebia com gosto. E ria com gosto. Como a gente estava bebendo com gosto e rindo com gosto na mesa ao lado, estávamos no mesmo time.
“Buttão” virou figura frequente nos autódromos, sempre esteve ao lado do filho, um bonachão, mas ninguém deu muita bola mais para ele quando Button, o filho, entrou na espiral que leva pilotos para o fundo do poço por falta de resultados, até renascer anos depois na BAR em 2004, para sumir de novo até o começo desta temporada na Brawn.
Jenson sempre teve fama de bom piloto quando as coisas vão bem. Com um carro bom, neutro, sabe como buscar pontos e pódios. Depois da pirada juvenil dos tempos de Benetton, vendeu os carrões, os iates e as mulheres, e se concentrou em tentar ser alguém relevante na pista. Mas estava difícil, na Honda. E, para piorar, o posto de queridinho do Reino Unido foi perdido para Hamilton em 2007, por motivos óbvios. Button estava condenado ao ostracismo, em resumo.
E foi assim, esquecido, que reapareceu em Barcelona poucos dias antes da primeira corrida deste ano, num carro branco com faixas amarelas marca-texto. Era o primeiro teste da Brawn, a sucessora da Honda, que conseguiu se ajeitar para disputar o Mundial aos 44 do segundo tempo. Ninguém apostaria uma libra furada naquela equipe.
Talvez ele tenha ido jantar, naquele dia, no restaurante de Granollers. Com seu pai, John, que talvez estivesse de camisa rosa e calça branca. Talvez tenha dito ao pai que o carro era muito bom e que estava feliz por poder continuar a correr.
Duvido que tenha dito que seria campeão com ele.
Hoje ele se tornou o oitavo inglês a conquistar um título mundial de Fórmula 1. Seu pai apareceu bastante na TV neste ano. É um velhinho simpático e sempre sorridente. Transpira muito, vive com a camisa aberta, é meio desgrenhado, continua bonachão.
Viu o filho ser campeão. Não há mais carrões, iates ou mulheres. Mas há um filho campeão.
Deve ser legal ser pai de um campeão. Por isso, fui lá embaixo agora há pouco falar parabéns para ele. E pedi para tirar uma foto. Minha?, ele perguntou. Claro, uai. Estava com a mesma roupa daquela noite no restaurante de Granollers. E o mesmo sorriso no rosto. Um bom cara, esse John. E lembra meu avô.
SÃO PAULO(virão outros?) – Este é o 22º GP do Brasil seguido em que trabalho. Além de ser uma evidência de que estou em fim de vida e carreira, é uma longa história de observações, desde os tempos de Jacarepaguá e das primeiras quando da volta da F-1 a São Paulo. Foram anos de Senna e Piquet, Prost e Mansell, muito Schumacher, overdose de Barrichello.
Interlagos mudou alguma coisa desde 1990, mas não muito na essência. O espaço atrás dos boxes aumentou bastante. Está tudo mais moderno e bem cuidado. É normal. Mas é um autódromo velho. Afinal, são 70 anos de vida. Conheço vários pelo mundo. Da F-1 atual, todos menos as pistas da Turquia, Cingapura, Valência e Abu Dhabi. Dessa safra nova de circuitos gigantescos, inaugurada com Sepang, já estive na China e no Bahrein, além, claro, dos repaginados Nürburgring, Hockenheim, Silverstone e sei lá mais onde.
E não há nada igual a Interlagos.
Nada igual, porque aqui as pessoas se encontram. E andam entre pneus e caixas de motores e pedaços de carro e tambores de óleo e latões de gasolina. Aqui se sente o cheiro da gasolina. O paddock é apertado, mas todo mundo quer passear entre um treino e outro, porque sabe que vai encontrar aquele velho amigo, aquele mecânico com quem trabalhou não sei onde, aquele cara que em Istambul ou Xangai ele não verá nunca, porque o paddock é enorme, deserto, os boxes são distantes uns dos outros, há quilômetros de assepsia entre a McLaren e a Brawn, a Force India e a Renault, não há bicos, mulheres, atrizes, modelos, manequins (já houve mais peruagem aqui, mas não se pode querer tudo).
Aqui todo mundo arruma uma credencial. O dono da equipe de F-3, o instrutor da escola de pilotagem aqui na frente, o tesoureiro da federação, o pilotinho de kart, o amigo do Rubinho, a familia do Massa, os caras das empresas, o gerente da firma, os policiais federais e os delegados, o secretário de meio-ambiente e seus assessores, a turma da faxina é numerosa, a da segurança, também. Aparecem jornalistas que a gente só vê uma vez por ano, é um evento festivo e concorrido, mas em Interlagos sempre cabe mais um.
E o pessoal da F-1, que é normalmente chato e metido a besta, parece voltar um pouco no tempo e entra no clima da camaradagem, circulando entre pneus, esbarrando em bundas e peitos, fumando loucamente na porta dos banheiros movimentados, jogando bitucas no chão, suando, se molhando na chuva, encharcando as meias e os tênis e, no fim do dia, se acabando na picanha e na caipirinha e, se der tempo, numa morena faceira.
Interlagos é um pouco do que sobrou de automobilismo na F-1. Boa corrida a todos.
SÃO PAULO (cada uma…) – E adentra a sala de imprensa o filósofo, jornalista, escritor e cineasta Raul Moreira, cidadão que a Bahia forneceu ao mundo, portando a máscara abaixo. Está sendo distribuída nas cercanias do autódromo. Parece que alguma empresa aproveitou o, digamos, ensejo.
SÃO PAULO(impossível) – Quando acordei, chovia. Quando saí do banho, estava sol. Aqui em Interlagos, o sol aparece entre nuvens. Meteorologistas dos quatro cantos do mundo dizem que a corrida começa com pista seca, mas que pode chover no fim. Eu não tenho a menor ideia. Fosse um sabadão de Classic Cup, do jeito que está agora, me prepararia para correr no seco total. Mas o horário é diferente. A gente corre por volta do meio-dia. Hoje, começa às duas da tarde. Na verdade, uma, pelo horário antigo. É que à meia-noite começou o horário de verão.
Ambiente muito tranquilo por aqui. Nada de trânsito (esse esquema da CET sempre funcionou muito bem, desde os tempos da prefeita Erundina), o público não é muito grande.
Vamos aos palpites para a corrida? O meu, para os oito primeiros: Webber, Barrichello, Trulli, Sutil, Rosberg, Raikkonen, Button e Alonso.
SÃO PAULO(gordos e magros) – Saiu a lista de pesos dos carros para o GP do Brasil. Barrichello, como era de se imaginar (ele mesmo disse que imaginava), é o mais leve do grid. Parte para a corrida com 650,5 kg e deve parar na 21ª volta da prova para seu primeiro pit stop. Webber, ao seu lado na primeira fila, larga com 656 kg e deve parar três voltas depois que o brasileiro. Não é tanta coisa assim.
Quem aparece bem, entre os primeiros, é Trulli, o quarto no grid, com 658,5 kg. Se conseguir manter contato com os líderes no começo, pode dar o pulo do gato, embora seja conhecido por ter um ritmo de corrida bastante instável. Sutil, o terceiro, começa a prova com 656,5 kg.
Lá atrás, o adversário de Rubens, Button, vai pesadão para a corrida, com 672 kg. Mas não é o mais gordo do grid. Com 683,5 kg, Fisichella, o lanterna da classificação, é quem vai sair com mais gasolina no tanque.
Eu que não vou tirar conclusão nenhuma dessa pesagem. Dependendo do tempo, amanhã, esse negócio não significa muito, não. De qualquer forma, a lista completa está aqui.
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.