SÃO PAULO (mudou, sim) – Foi assim. Todas as folgas cassadas, editorias desfalcadas, quase todo mundo deslocado para a Política. Finalmente chegou o dia 15. Eleição, no Brasil, era sempre em 15 de novembro. Não lembro que dia da semana caiu. É fácil de achar isso no computador. Espera aí.
Caiu numa quarta.
Dia 15. Depois de 29 anos, o Brasil tinha a chance de votar para presidente de novo. Desde 1964, foram 25 anos de ditadura, de generais escrotos, de um país militarizado. E muita gente gostava. Mais ou menos como parte da França sob o nazismo. Tinha gente que gostava e colaborava.
Cinco anos antes, o Brasil foi às ruas para exigir eleições diretas em todos os níveis. Levamos um pau na bunda do Congresso. Não havia internet, nem celulares, em 1984. A votação da emenda Dante de Oliveira, a das Diretas Já, aconteceu com Brasília quase incomunicável. Acompanhei a contagem dos votos por um painel manual na Praça da Sé, tarde da noite. Voltei de metrô, triste pra burro.
Dia 15. No jornal, o instituto de pesquisas próprio era ainda um bebê. Mas ia bem. Acertava quase tudo na mosca. Tanto nos levantamentos de intenção de voto, quanto nos de boca-de-urna. Naqueles tempos, campanha era campanha. A gente não via um carro na rua imune. Ou levava um adesivo do Collor, ou do Lula. Ou do Brizola, ou do Covas. Ou do Maluf, ou do Afif. Eram 23 candidatos. Tinha um chamado Marrozinho. O Enéas concorreu. Até o Silvio Santos. Alugou a legenda de um analfabeto de pai, mãe e parteira, Armando Corrêa, “o candidato dos explorados”. Acabaram anulando a candidatura de Silvio Santos. Santinhos, cartazes, bandeiras, uma sujeira danada. Eu tinha a impressão de que todo mundo se envolvia. Respirava-se política.
Dia 15. O voto era no papel e na caneta, não havia urna eletrônica. Cédulas coloridas, urnas de papelão, juntas de apuração, contagem manual, era um caos. Adorável caos. Escolas mobilizadas para as votações, ginásios e clubes para a apuração, noites em claro, voto por voto, boletins nas rádios, plantões na TV, uma coisa de louco.
Dia 15. Não havia outra manchete possível para o jornal do dia seguinte. Jesus Cristo poderia aparecer na avenida Paulista carregando sua cruz, que não iria roubar espaço no alto da primeira página. Quem iria para o segundo turno?
Collor, um aventureiro produzido pela “Veja” e pela Globo, era o favorito. Jovem, bonitão, raivoso, agressivo, convincente, era o “caçador de Marajás”, a “novidade” do pleito contra políticos experientes e desacreditados, alguns, ou novos e radicais, outros. Collor estava no segundo turno, todas as pesquisas indicavam. Mas quem ia com ele?
As urnas foram fechadas no fim da tarde em todos os fusos brasileiros. Os primeiros resultados da boca-de-urna do Datafolha começavam a chegar. Segredo de Estado. A “Folha” era a única que tinha instituto próprio. Os demais jornais compravam o serviço do Ibope, do Gallup ou do Vox Populi. Emissoras de TV, também. Assim, as previsões dos outros institutos eram mais ou menos públicas. As nossas, não. Segredo de Estado. Ninguém, nenhum jornal, iria arriscar o segundo turno baseado nas pesquisas divulgadas. Lula e Brizola estavam empatados tecnicamente. Era imprudente demais cravar Collor x Lula, ou Collor x Brizola.
O horário de fechamento estava chegando. Eu, editor de Esportes, estava deslocado para a Primeira Página, depois de fechar nossas pagininhas desimportantes na hora do almoço. Reunião de fechamento convocada. Os números do Datafolha não poderiam sair daquela redação em hipótese alguma. Não podíamos sequer telefonar para casa. Segredo de Estado.
O Datafolha dava Collor em primeiro, fácil, e Lula em segundo. Mas com Brizola pertíssimo. Não dava nem para falar em margem de erro. Era coisa mínima, zero-ponto-alguma-coisa percentual. Precisava ser macho para bancar uma manchete. Todo mundo ia sair com Collor vai ao segundo turno contra Lula ou Brizola. E a gente?
Tensão do caralho na reunião. O diretor do Datafolha, Antonio Manuel (por onde andará?), hesitava. Afinal, entendia do assunto. Se existe uma margem de erro, é preciso respeitá-la. Ela existe porque estatísticos estudaram aquela merda, sabem que pesquisa é pesquisa. X para mais ou X para menos. Uma ala daquela enorme mesa redonda achava que tínhamos de cravar Lula. Outra, que deveríamos ser prudentes. Eu estava entre os que queriam enfiar o Lula na manchete, e pronto. Afinal, o Datafolha vinha acertando uma em cima da outra. Mas ninguém me perguntou nada, ainda bem.
Saímos da sala sem saber qual decisão seria tomada. O dono do jornal se reuniu mais uma vez com o diretor do Datafolha e o editor de política em outra sala e chegaram à manchete, que eu só veria um minuto antes de mandar o último texto da Primeira para baixo. “Collor e Lula se enfrentam no 2º turno”, acho que foi isso. Machos pra caralho. Se desse Brizola, a gente estava fodido. E quase deu. Collor teve 22.611.011 votos (28,52%), contra 11.622.673 (16,08%) de Lula e 11.168.228 (15,45%) de Brizola. Apertadíssimo. Bancamos. Acertamos. E demorou um pouco para sair o resultado. A agonia foi de alguns dias. A contagem era manual, já disse isso. Levava tempo. Foram 74.280.909 votos que passaram pelos dedos ágeis das juntas de apuração.
A noite do dia 15 de novembro na Redação é minha lembrança mais vívida de 15 de novembro de 1989. O segundo turno, em dezembro, foi mais fácil. Collor levou com 49,94% dos votos, contra 44,23% de Lula. A eleição foi decidida com as baixarias da tropa de choque de Collor, mais a edição maldosa do último debate da TV no “Jornal Nacional”, o pavor da classe média de ter um operário na presidência, o conservadorismo de São Paulo, o Estado, que acabou decidindo o pleito com seus ruralistas, udenistas, arenistas e malufistas.
Foram meses de muita emoção nas ruas, confronto direto entre militantes do PT e o resto (o resto nunca teve militância, na verdade), imprensa conservadora de um lado, jornalistas de esquerda do outro. Um período rico em discussões, reflexões, era o destino da gente que seria decidido ali.
As duas imagens que escolhi para lembrar os 20 anos daquela eleição estão entre as que fazem parte do meu imaginário político. “Sem medo de ser feliz” era um dos slogans do PT, e a foto, rara, de um Lula sorridente foi feita por um amigo, Juan Esteves, baita fotógrafo. A outra, de um Collor descontrolado, querendo enfrentar o povo com seus braços bombados, é clássica, também, mas não lembro quem fez. Se alguém descobrir o crédito, por favor coloque nos comentários.
Eu tinha 25 anos. Não tenho mais. Tenho saudades dos meus 25 anos.
SÃO PAULO(é o fim) – Fiz faculdade entre 1982 e 1985. Faculdade de riquinho, FAAP. Não havia sinal de movimento estudantil ali. Na verdade, com o fim da ditadura, a eleição de Tancredo e a perspectiva de diretas em 1989, o movimento estudantil se enfraqueceu e, sendo bem sincero, foi sumindo aos poucos. Minha atividade mais próxima da subversão foi vender sanduíches naturais para arrecadar dinheiro para uma festa das Diretas.
Hoje, as entidades representativas dos estudantes servem para emitir carteirinhas para a turba pagar meia-entrada em shows e no cinema. Sem um inimigo claro, que no caso das gerações imediatamente anteriores à minha era o governo militar, ficamos sem ter do que reclamar. Porque, no fundo, por conta da politização desses movimentos todos, a questão educacional foi colocada de lado por muitos anos, e deixou de ser prioridade.
Já como repórter, cheguei a cobrir algumas confusões na USP na segunda metade dos anos 80. Sem querer simplificar demais, mas recorrendo ao que minha memória me permite lembrar, o tema central era o aumento do preço do bandejão nos refeitórios da universidade. Deu greve e tudo. Muito pouco. Ainda mais porque, como se sabe, boa parte dos que conseguem chegar à USP vêm de escolas particulares, e o preço do bandejão não chegava a afetar seriamente o orçamento de ninguém.
O caso dessa moça de minissaia da Uniban poderia ser um bom motivo para despertar algum tipo de reação na molecada. De repúdio aos que ofenderam a menina, de reflexão sobre os rumos da universidade, de protesto contra sua expulsão, de perplexidade com o recuo da reitoria por razões obviamente mercantis.
Reitoria… Era palavra respeitada, antigamente. Hoje, os reitores dessas espeluncas mal falam português. A transformação do ambiente universitário em quitandas que vendem diplomas é assustadora. E os estudantes são coniventes. Não exigem ensino de qualidade, compromisso com a educação, porra nenhuma. Querem se formar logo, se possível pagando pouco, e dane-se o mundo.
Fico espantado ao observar como pensa e age essa juventude urbana entre 20 e 25 anos. São fascistóides, hedonistas, individualistas, retardados ao cubo. Basta ver o perfil da menina da minissaia no Orkut. Uma completa debilóide, mas nada diferente, tenho certeza, de seus colegas de faculdade (vejam as “comunidades” às quais ela pertence; coisas como “Gosto de causar, e daí?”, “Sou loira sim, quem me aguenta?”, “Para de falar e me beija logo”, coisas do tipo). O que, evidentemente, não dá a ninguém o direito de fazer o que fizeram com ela. Até porque são todos iguais, idênticos, tontos, despreparados, sem noção.
Aí a Uniban expulsa a menina, dizendo que os alunos que a chamavam de “puta” e queriam bater na coitada estavam “defendendo o ambiente escolar”. Puta que pariu! Como é que pode? Como podem adultos, “educadores”, que teoricamente têm um pouco mais de neurônios em funcionamento, reduzirem a questão a isso? E criticarem a menina porque ela se veste assim ou assado, anda rebolando, “se insinua”?
Pior: muitos, mas muitos mesmo, alunos defenderam a expulsão. Acham que a menina é uma vagabunda que provoca os colegas. Bando de animais, intolerantes, sádicos, hostis, agressivos. Eu nunca deixaria um filho meu estudar numa universidade frequentada por esse tipo de gente e dirigida por cretinos do naipe dos que assinaram a expulsão e, depois, revogaram-na sem revelar o motivo — aquele que nunca será admitido, o prejuízo à imagem dessa porcaria de empresa, sim, empresa, e das mais lucrativas, porque chamar um negócio desses de “universidade” é desmoralizar a palavra.
O Brasil está fodido com essas gerações que vêm por aí. Um caso desses, que poderia trazer à tona discussões importantes sobre o comportamento dos jovens, suas angústias, seus rumos, resume-se ao tamanho da saia da moça e ao seu comportamento “inadequado”, seja lá o que for isso. A educação, neste país, tem sido negligenciada de forma criminosa há décadas. O governo poderia começar a limpar a área por essas fábricas de diploma, que surgem aos montes sem que ninguém se preocupe com o tipo de gente que está à frente delas.
O que se vê hoje, graças a essas faculdades privadas de esquina, sem história e princípios, é uma população cada vez maior de “nível superior” sem nível algum. Um desastre completo. Gente que não pensa, não argumenta, não lê, não raciocina coletivamente, se comporta como gado raivoso, passa o dia punhetando no Orkut e no MSN, escreve “aki”, “facu”, “xurras”, “naum”, “huahsuahsua”, um bando de tontos desperdiçando os melhores anos de suas vida com uma existência vazia, um vácuo intelectual, sob o olhar perplexo de gerações, como a minha, que um dia sonharam em fazer um mundo melhor e, definitivamente, não conseguiram.
SÃO PAULO(em SP, ninguém para) - Vejam a campanha institucional levada ao ar em Porto Alegre, para que os motoristas aprendam a respeitar as faixas de pedestres. E reparem qual é o primeiro carro que para para o cara atravessar a rua…
SÃO PAULO(ridículo) – O Estado de São Paulo deixou de fumar ontem, na cabeça do governador que quer ser presidente. Uma lei fascista, autoritária e sem pé nem cabeça estabeleceu que não se pode fumar em lugar algum que tenha uma parede ou algo sobre a cabeça. Isso inclui todos os bares, restaurantes e casas noturnas, que vinham funcionando perfeitamente bem com suas áreas de fumantes e não-fumantes.
A lei é desnecessária em todos os sentidos. Primeiro, porque existe lei federal sobre o assunto. O estardalhaço feito pelo governador, com amplo apoio da mídia que não tem mais o que dizer, não passa de demagogia barata. Depois, porque em locais de trabalho, comércio e estudo, fechados, ninguém mais fuma, mesmo — sem que uma lei precise ser editada, por puro bom-senso.
A questão toda se resume à liberdade das pessoas. Se o cigarro é droga legal, vetar seu consumo de maneira arbitrária não passa disso: arbitrariedade. Proibir as pessoas de fumarem num botequim é fácil. Queria ver o governador proibir a venda de cigarros. Jamais. É algo que gera caminhões de impostos. Governo algum abre mão disso.
Seria muito mais honesto da parte de nosso governador que quer ser presidente e que vai usar sua cruzada antifumo na campanha eleitoral taxar absurdamente o cigarro e aumentar seu preço, por exemplo. Aí sim o consumo em geral cairia, e muito — isso, sim, seria tratar a questão como de saúde pública, e não apenas como pirotecnia eleitoreira. E permitir que bares, restaurantes e casas noturnas decidissem como lidar com a questão. Por que não facultar aos proprietários a categoria em que suas casas vão se inserir? Se o sujeito acha que deve, que faça de seu bar um espaço não-fumante. Vai quem não fuma. O outro, se preferir, que estabeleça que sua casa tem área para fumantes e não-fumantes. Outro, ainda, pode liberar geral. E que se deixe ao consumidor a escolha de onde ir.
Mas não, o governador que quer ser presidente dá uma canetada e, de um dia para o outro, muda os hábitos da cidade. Enquanto isso, lá no Centro, na Cracolândia, crianças, adolescentes e adultos continuam se acabando na pedra. Isso não se resolve na canetada. Demanda esforço, trabalho, atenção.
Eu acho simplesmente o fim do mundo político qualquer se preocupar com o cigarro num bar enquanto tem gente morrendo na droga como se fossem moscas. É demagogia pura, para aparecer na “Veja” e no “Fantástico”, com o discurso de sempre que “o Estado gasta não sei quanto com doenças pulmonares” e que “é assim no Primeiro Mundo” e que “ninguém é obrigado a respirar a fumaça dos outros”.
Claro que não é. É só procurar lugares exclusivamente para não-fumantes. Que jamais irão existir. Só mesmo se a lei obrigar.
Eu, se tivesse um bar, estaria bem zangado com o governador que quer ser presidente. Porque além de tudo, a lei daqui prevê que se alguém fumar no bar, cometendo o “crime”, o multado será… o dono do bar! Dá para acreditar nisso?
São Paulo é uma coisa, mesmo…
Ah, a foto é de um piloto da Nascar em 1967. Juro que não sei quem é. Mas, pela lei, ele não pode ser multado. Respondendo à pergunta do título, no carro pode.
SÃO PAULO (tudo num só) – Sabe aqueles e-mails que a gente recebe todos os dias com o título “túnel do tempo” ou “saudade não tem idade”? Pois podem parar de me repassar! O blogueiro Squa encontrou todas essas fotos num mesmo site, este aqui. São ícones dos anos 70 e 80, coisas do nosso cotidiano, como a camerinha Xereta da Kodak.
SÃO PAULO(tudo muito estranho) – Tinha um cara cantando em voz alta no metrô agora há pouco, enquanto eu esperava o trem na estação. Alguma coisa gospel, não sei. Por que a gente acha esquisito um cara cantando no metrô e não acha esquisito um garotinho de cinco anos vendendo bala no cruzamento de madrugada, ou alguém revirando a lata de lixo em frente do McDonald’s?
SÃO PAULO(em obras) – Pequeno trecho de “L’homme de Rio”, filme com Jean-Paul Belmondo rodado no Brasil nos anos 60. Esse trecho foi filmado em Brasília, que estava todinha em obras. A Willys deve ter entrado com algum. Bárbaras, as imagens. A blogaiada de BSB vai adorar. A dica foi do Fernando Linhares.
SÃO PAULO(já, sim) – Hoje o Real faz 15 anos. Moeda adotada em 1º de julho de 1994, é o símbolo do fim da inflação galopante (lembram da expressão?) no Brasil. A molecada de 20 anos não faz ideia do que era viver com inflação de 2.000% ao ano. Era uma baita zona. Eu já nem me lembro das moedas com que convivi. Cruzeiros, Cruzeiros Novos, Cruzados, Cruzados Novos, acho que teve tudo isso, até o então ministro da Fazenda Fernando Henrique criar a URV, que era uma unidade de valor estável, que acabaria se transformando no Real. Não entendo nada disso, então não me peçam para explicar. A economia é cheia de mágicas e mistérios.
O que lembro, e bem, foi de onde usei minhas primeiras notas de Real. No Ponto Chic do Paraíso. Comi um bauru e tomei um chope. E paguei com notas novinhas, estalando de bonitas, verdes como os dólares. Hoje, nota de R$ 1,00 é algo bem raro.
SÃO PAULO(assim até eu) – Imagine a seguinte situação. Você está duro, sem emprego. Monta uma associação. Qualquer uma, com um nome genérico. Associação Comercial Empresarial do Brasil, por exemplo. Com uma sigla bonitinha, ACEB. Coloca no ar um site. Enfia um grafismo com o desenho da bandeira do Brasil no logotipo e usa uma fonte, assim, tipo da Caixa, no mesmo tom de azul. Dá um ar oficial, não dá?
Aí cria uns textos. Para colocar no site. Coisas assim como “nosso objetivo é promover ações em defesa dos interesses dos associados, perpetuar-se como órgão de representatividade diante classe empresarial sem restrições de tamanho, status, desempenho financeiro ou políticas. A Associação visa tornar-se uma porta de entrada e referência nacional, no que tange a área comercial e empresarial, com propostas que possam suprir as necessidades de seus associados em consultorias de diversos setores, entre eles marketing, recursos humanos, contabilidade, etc”. Quer dizer tudo e não quer dizer nada. Ninguém vai ler, mesmo.
Então, arruma um mailing comercial e empresarial. É a coisa mais fácil do mundo. Consegue milhares, milhões de razões sociais e endereços comerciais. Vai ao banco, abre uma conta e dispara, pelo sistema de cobrança, milhares, milhões de boletos no valor de R$ 259,80. Esse boleto vai chegar a milhares, milhões de empresas. Pequenas, grandes e médias. Nas pequenas, como a minha, alguém, como eu, abre os boletos e vê do que se trata. Não sou associado a associação nenhuma, não pago porra nenhuma e jogo no lixo. Mas em empresas médias e grandes, a correspondência é farta, são centenas de cartas por dia, e o boleto vai parar no departamento de contas a pagar, afinal é um boleto. Alguém pega aquilo, vê o vencimento, insere no “sistema” e no dia certo algumas centenas, ou milhares, entre os milhares ou milhões de destinatários, desta forma, pagam os R$ 259,80 sem saber direito do que se trata. E se associam a uma associação que nunca foi procurada pela empresa, e que nunca se apresentou para que a ela se associassem; simplesmente mandou um boleto e ficou esperando os incautos pagarem.
SÃO PAULO(vexame…) – O blogueiro Peter People manda a notícia do G1: os larápios assaltaram um supermercado, levaram 200 paus e foram presos porque o carro da fuga quebrou. Bem feito, não fizeram a manutenção direito, pifa mesmo. Apenas digo que se a quadrilha tivesse usado o meu, um ano mais velho, estaria agora desfrutando do produto do roubo em algum paraíso no Caribe, tomando água de coco e comendo camarões fritos.
SÃO PAULO (e agora?) – Em 12 de fevereiro, mandei um e-mail para o comandante da Polícia Rodoviária que cuida da Anhanguera. Falava sobre o vídeo que mostrava no YouTube o palhaço do Porsche amarelo e dois motoqueiros tirando racha em sua estrada. Nunca recebi resposta. Fui malhado aqui por muita gente que dizia que eu tinha inveja do bebê do Porsche. Eu sou chato e intolerante.
Hoje um policial morreu na Anhanguera quando estava socorrendo uma moça que perdeu a direção de seu carro. Foi atropelado por motoqueiros que tiravam racha.
SÃO PAULO(não tem solução) - Vou contar uma historinha. Ontem à noite, num kart indoor na Barra da Tijuca, dois rapazinhos disputavam uma bateria quando um deles foi tocado por outro competidor e ficou irritado. Pegou um cone de borracha e atirou no piloto que o tocara quando este passava pela reta, em velocidade. A bateria foi interrompida e o rapazinho partiu para cima do piloto, um senhor de idade, tentando acertar um chute em sua boca.
Outro rapazinho, amigo do primeiro, partiu para cima do àquela altura inimigo mortal, mas a turma do deixa disso conseguiu acalmar os ânimos. Mais alguns minutos, bateria reiniciada, nova confusão na pista e de novo os dois rapazinhos partiram para nova briga com outro senhor de idade, briga que quase se tornou generalizada.
A polícia foi chamada. Um dos rapazinhos picou a mula, valentão que é. O outro ficou e começou a desacatar o policial na linha você-sabe-com-quem-está-falando?, mas o policial não se intimidou e levou o rapazinho para a delegacia.
O nome do rapazinho detido, o que começou as brigas, é Lyrio Badin. O que saiu de fininho é Daniel Mascarenhas. Os dois estavam com os sobrinhos do Cacciola no racha de Itaipava, na rodovia Washington Luis, que acabou em acidente e com os quatro sendo chamados por um juiz. Foi tema de post aqui ontem.
Tem blogueiro aqui que me acha chato e mal-humorado (malhumorado? malhhumorado? mallhumorado?). Que implico com quem tem dinheiro e se acha dono do mundo, acima da lei e dos bons costumes.
SÃO PAULO(ao menos isso) – Recebi a notícia por e-mail (a íntegra, aqui). Um juiz do Rio convocou quatro manés que tiravam racha numa estrada fluminense com os carrões comprados por seus papis. Não sei o que vai acontecer com eles. Mas só de encherem o saco dos bonitinhos já é um bom começo. Ainda bem que eles não mataram ninguém. Dois deles são sobrinhos do Salvatore Cacciola. Só gente boa.
SÃO PAULO (se não segurar, cai) - Foi o Philipe Pacheco que mandou o vídeo. Num rodeio, não sei direito onde, um piloto de helicóptero faz uma exibição na arena que me parece meio temerosa. Não entendo nada de helicópteros, andei duas vezes e morri de medo. Portanto, não me sinto preparado para dizer se esse negócio é perigoso, ou não. Será que as autoridades da aviação civil permitem? Opinem vocês. Eu não gosto de rodeio, mesmo.
SÃO PAULO(duvido) – Recebi algumas dezenas de mensagens de blogueiros com este link da Globo. Parece que saiu na TV algo sobre os palhaços que tiram rachas de motos nas estradas paulistas. Diz o texto que, segundo a polícia, os rachadores que forem identificados pelos vídeos que colocam no YouTube podem ser punidos.
Só vou acreditar quando algum deles for pego, mesmo, e pendurado numa cruz. Por enquanto, a denúncia do telejornal global teve o mesmo efeito que o vídeo do goiabinha de Porsche na Anhanguera e do fifi do papi de Ferrari na Imigrantes: nenhum.
SÃO PAULO(aqui não) – Vejam que interessante esta reportagem do TimesOnLine enviada pelo Pablo Vargas. O bobão fez um monte de palhaçadas com sua moto em estradas inglesas e colocou as imagens, gravadas por um amigo, no YouTube. Alguém viu e avisou a polícia, que foi atrás do cabra. Achou, claro. Resultado: 12 semanas de cadeia e dois anos sem dirigir na região de Oxford para Sendor Ferenci, 28 anos.
O juiz, que condenou o cara baseado no vídeo, o chamou de “lunático” e “irresponsável”. Igualzinho aqui. No dia 12 de fevereiro mandei um e-mail para o comando da Polícia Rodoviária Estadual denunciando as barbaridades de um sujeito com um Porsche e mais dois motoqueiros na Anhanguera, e até agora tudo que aconteceu foi nada.
SÃO PAULO(motorização?) – De imediato, quando o blogueiro Zé Maria mandou as fotos, achei que eram do pátio da Mercedes em Juiz de Fora. Uma reestilização do Classe A, por que não? Mas é uma criação do Antonio dos Carros, de Natal (como eu não vi isso?), que faz modelos muito interessantes para vender cachorro-quente. Notem: carroceria de alumínio (como o A2 da Audi), monovolume (uma minivan, como a Meriva, ou o Picasso), grande área envidraçada, rodas de aro 17… E pelas fotos do interior eu vi que não tem pedal de embreagem, também.
Antonio dos Carros não foi encontrado para dar uma entrevista, porque, ao que parece, encontra-se na Inglaterra. Foi chamado por Ross Brawn.
SÃO PAULO (e seguimos na luta e na labuta) - Puxa, deve ter havido um Congresso Nacional de Babacas no fim do ano passado no Guarujá e não avisaram ninguém… Ainda bem que existe o YouTube nessas horas, não é mesmo? Vejam o que me mandou o blogueiro Antonio Araújo.
De dentro da Ferrari que papi comprou, fifi desce a Imigrantes costurando todo mundo, com o amiguinho fazendo comentários muito pertinentes, como “ah, a desigualdade, véio” (ao passar por um carro quebrado no acostamento por onde outro amiguinho havia passado pouco antes) e “são uns otários, véio” (ao filmar um carro da Polícia Rodoviária). Será que eles ficam de pipizinho duro quando fazem essas brincadeiras?
SÃO PAULO(novidade…) – Foi no dia 12 que mandei o e-mail ao comandante da Polícia Rodoviária Estadual sobre as barbaridades do rapaz com o Porsche amarelo (e as duas motos) na Anhanguera. Acredito que muitos blogueiros fizeram o mesmo. Hoje é dia 16. Passaram-se quatro dias e nem uma resposta-padrão foi enviada, do tipo “recebemos sua mensagem, obrigado”. O que me dá o direito de pensar que ninguém lê os e-mails enviados ao comandante, ou que a polícia não está nem aí para os contribuintes, ou que o comandante achou bacana a demonstração de valentia do motorista e de seus amigos motoqueiros.
É horrível a sensação de que estamos perdendo tempo quando recorremos ao poder público.
SÃO PAULO(segue tudo cinza) – O blogueiro Manuel, nos comentários do post abaixo, sugeriu que eu enviasse o vídeo do crime do Porsche ao Ministério Público Estadual. Sugeri que ele o fizesse. Ou outros. Não temos advogados aqui? O que fazer para ver um criminoso desses, que grava o crime e o exibe publicamente, atrás das grades, ou sem a carteira, ou com o carro apreendido?
Acho, sim, que temos de agir. Todos. Eu, por exemplo, ajo tornando públicas essas barbaridades. Mas, desta vez, fui um pouco além. Mandei o seguinte e-mail para o comandante da Polícia Rodoviária Estadual, cujo nome encontrei no site oficial da corporação (o endereço eletrônico é faleconosco@polmil.sp.gov.br):
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São Paulo, 12 de fevereiro de 2009
Prezado Comandante Eliziário Ferreira Barbosa,
Meu nome é Flavio Gomes e sou jornalista especializado em automobilismo, atuando no canal de TV por assinatura ESPN Brasil, na rádio Eldorado, no diário “Lance!”, no portal iG (sou o dono do site especializado Grande Prêmio) e mantenho há três anos um blog com audiência de 20 mil visitas diárias.
Neste blog falo sobre vários assuntos e ontem chegou a mim, por e-mail, um vídeo que foi colocado no ar e pode ser visto neste link: http://www.youtube.com/watch?v=FWpCLXJuQV8.
O senhor certamente vai identificar uma de “suas” estradas. O vídeo foi feito na Anhanguera, provavelmente no começo do ano. É desnecessário dizer que o motorista em questão (e os motociclistas coadjuvantes do triste filmete) mereceriam ser autuados e indiciados, por ultrapassar os limites permitidos de velocidade, trafegar pelo acostamento e dirigir de maneira absolutamente perigosa, imprudente e, arriscaria dizer, criminosa.
So o Sr. acessar meu blog (http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/2009/02/11/cadeia-e-pouco/), verá que a indignação dos leitores é enorme. Primeiro, porque ninguém entende como alguém consegue fazer isso numa rodovia policiada e monitorada como a Anhanguera sem ser importunado. Depois, porque o motorista em questão mostra o rosto, dirige um Porsche amarelo facilmente identificável e, em outro vídeo de sua página no YouTube, aparece claramente a placa traseira do carro. E não se tem notícia de que a Polícia Rodoviária (ou qualquer outro órgão público) tenha interpelado o criminoso, que mantém, num vídeo público, as provas de seu crime.
Eu compartilho da indignação de meus leitores. Como pode, comandante? Como pode tamanho escárnio diante das autoridades? Como pode alguém colocar em risco a vida de tanta gente e troçar do Sr. e de seus comandados na estrada que o Sr. policia? Como pode alguém fazer o que fez por quase cinco minutos (pelo menos; pode ter sido mais tempo) numa rodovia como a Anhanguera sem ser detido pelo policiamento? E, depois, zombar do Sr. e de todos nós com essa demonstração de exibicionismo?
Longe de mim querer criticar aqui o trabalho da Polícia Rodoviária. A intenção deste e-mail é outra. É perguntar, apenas: o que pode ser feito agora? As provas do crime estão aí, são públicas. É como se um assassino resolvesse matar alguém, filmasse a ação, colocasse no YouTube e ficasse à espera das consequências. Haveria alguma? Acredito que sim. Por que não há, então, neste caso? Não houve um assassinato, é verdade. Mas quase. Esse motorista merece ser preso, ter sua carteira suspensa, seu carro apreendido. Ele tem nome, rosto, placa do carro identificada. Não falta mais nada.
Ficará impune, comandante?
Atenciosamente,
Flavio Gomes
Jornalista
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Acho que todo mundo aqui deveria fazer algo parecido. O rapaz pode até tirar o vídeo do YouTube. Será inútil. Tenho o vídeo em arquivo, porque ele me foi enviado por alguém que não conheço. E ele está disponível aqui, também. As provas, como escrevi ao comandante, são públicas. Um sujeito como esse não pode dirigir. Aliás, se a polícia se detiver no YouTube, encontrará dezenas de pessoas assim.
Vamos ver se teremos respostas. Sinceramente? Duvido. Mas temos obrigações, como cidadãos. Uma delas é não ficar em silêncio diante de episódios como esse.
SÃO PAULO (baixo astral total) – Fosse este um país sério, a inteligência da polícia deveria rastrear quem colocou este vídeo no ar e convocá-lo para esclarecimentos. Quem é o cara no Porsche? Quem são os motoqueiros? O motorista nem se dá o trabalho de ocultar o rosto, graceja, acha o que está fazendo o máximo. O amiguinho também.
É fácil — deveria ser — identificar esse criminoso, que coloca a vida de um monte de gente em risco, comete dezenas de irregularidades, é um cretino sem tamanho. Afinal, não são tantos os Porsches em SP. Os pedágios da Anhanguera têm câmeras. É só querer que acha.
Merece cadeia esse palhaço, por muito tempo. Nada menos que isso. Os motoqueiros também.
SÃO PAULO – Morreu na noite de ontem, aos 82 anos, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel. O fundador da montadora que resistiu ao Brasil de 1962 a 1994 sofria havia oito anos do Mal de Alzheimer. Seus carros continuam por aí, rodando alegremente. São diferentes, pioneiros, marcantes.
Gurgel enxergava à frente, é um dos clichês associados a qualquer menção que se faça ao engenheiro, e enxergava mesmo. Pensou o carro elétrico (Itaipu), pensou o carro popular urbano (Cena, BR-800, Motomachine, Xef), pensou o utilitário, a picape, o furgão, sempre de olho no consumo e no uso de materiais alternativos à chapa.
Foi derrubado quando o governo do Ceará prometeu financiar sua fábrica de motores, salto que muitos achavam desnecessário, e deu para trás. Quebrou, e a Gurgel faliu. Por conta da doença do patriarca, e em meio a zilhões de ações judiciais, a família se descuidou, a marca caducou no INPI e há alguns anos um picareta se apropriou dela para lançar veículos agrícolas.
Há um bom perfil da Gurgel aqui, escrito pelo Fernando Calmon. No BestCars, a história da marca em páginas de autoria de Francis Castaings.
Bem, quem tem um Gurgelzinho, hoje, que faça um agrado em seu capô de fibra.
Bauru no Ponto Chic, pizza na Castelões, um mate com leite na São João, um pernil no Estadão, um café em Congonhas, um filé com catupiri no Moraes, a mortadela no Mercadão, um chopps e dois pastel.
Um joguinho no Pacaembu, bolinho de bacalhau no Canindé, acompanhar a São Silvestre da janela, um GP em Interlagos, carros antigos no Sambódromo, passear de lambreta, um picolé na padaria.
Folhear os livros na Fnac, ou na Cultura, ou na Saraiva, entrar num sebo na Brigadeiro, pechinchar com o camelô, achar uma peça da moto velha num buraco no Pari, pedir um capuccino no Fran’s com chantili.
Um X-salada de madrugada no Chico Hamburger, olhar tudo e todos do topo do Edifício Itália, entrar no Conjunto Nacional, namorar a Oca, o MAM, a Marquise, o prédio da Bienal, respirar o ar do Ibirapuera, ouvir os bem-te-vis, tomar uma água de coco, correr no parque.
Comprar pipoca e ir ao cinema, se deslumbrar com o Municipal, atravessar a Paulista de ponta a ponta, entrar no metrô, comprar bugigangas na 25, subir no terraço do Detran, comer tutu de feijão n’O Profeta.
Xingar o trânsito, o motoboy, o taxista, o motorista de ônibus, e perdoar tudo um segundo depois, comprar um chiclete no farol, deixar o carro para lavar, passear na feirinha do Bixiga, sentar nos bancos de concreto do Masp.
Pegar o jornal na porta de manhã, ler os classificados, procurar a revista na banca, buscar o pão, comprar patê no supermercado 24 horas, ver o Jô na TV, caminhar na garoa, cair no buraco, fechar o vidro, ligar o rádio.
Lembrar do Mappin, da Sears e da Mesbla, cruzar o viaduto do Chá, descer a rua Augusta a 120 por hora, brincar de autorama na Sebring, almoçar no rodízio, visitar o Salão do Automóvel, puxar ferro na academia, levar as crianças ao Butantã e ao zoológico, acabar a noite no Brahma naquela esquina, pegar a Imigrantes, voltar pela Anchieta ouvindo o Silvério e o Milton, pegar as crianças na escola.
Virar a noite na internet, sair de casa antes de o sol nascer, feijoada no Bolinha, sushi na Liberdade, andar de bicicleta na USP, achar um barzinho, uma esfiha, um quibe e coalhada seca no Almanara, tomar o trem das onze, admirar as curvas de Niemeyer no Copan.
Sair para jantar, dançar, transar, comer, beber, deitar, dormir, acordar, trabalhar, rir, chorar, o cinza, a cor, a chuva, a enchente, a Marginal, os marginais, o túnel, a ponte, a vida que pulsa como em lugar nenhum.
Assim se vive em São Paulo, assim se fala de São Paulo em 450 palavras. É muito pouco, não basta, como não bastam 450 páginas, nem 450 anos.
* Este texto eu escrevi há exatos cinco anos, no 450º aniversário da minha adorada e odiada cidade. Não mudaria nada. Acrescentaria apenas cinco palavras, talvez, para o texto ficar com 455. Façamos assim: escolha você cinco palavras e termine o texto versão 2009.
GUARUJÁ(e ninguém faz nada) – Minha primeira TV foi uma Telefunken. Minha segunda, uma Gradiente. De 14 polegadas, para colocar no quarto. Por que fui me lembrar da Gradiente na véspera do Réveillon? Porque aquela TV pequenininha de 14 polegadas, que eu nem sabia onde estava, apareceu aqui e está guardadinha num armário há não sei quantos anos. Intacta e impecável, imune à maresia. Funcionando que é uma beleza. Tem, por baixo, 15 anos. Modelo “Next”. Discreta e com linhas modernas e interessantes, a caixa externa de excelente material, as cores vivas e brilhantes, o som perfeito e cristalino.
Minha TV grandona também é Gradiente. Comprei há uns dois anos, dessas fininhas. Meu primeiro aparelho de celular da operadora que uso hoje foi um Gradiente. O tocador de DVD do escritório é Gradiente. Na hora de comprar essas coisas, sempre dei preferência aos produtos nacionais. Entre um Sony, um Panasonic, um Philips, um JVC ou um Samsung, sempre fui na Gradiente.
E a Gradiente sempre foi ótima. Nos celulares, tinha uma parceria com a Nokia — era para estar, hoje, arrebentando a boca do balão. Na época das festinhas de garagem, sonzão Gradiente era o máximo. Uma picape Garrard de madeira com a tampa fumê era objeto de desejo de 10 entre 10 adolescentes. Assim como os amplificadores e mixers Polyvox ou Quasar.
Dia desses vi na TV que as lojas já não estavam mais dando garantia nos produtos Gradiente, porque a fábrica não respondia mais por eles. Esqueci o assunto. Semana passada, notei que o controle remoto da minha TV grandona não funciona mais direito e anotei na agenda para 2009 “arrumar o controle remoto”. Aí chego aqui e vejo minha antiga Gradiente de 14 polegadas. Um tapinha no Google e eis que descubro que a Gradiente, aparentemente, faliu. Este artigo da “Exame” foi a coisa mais recente que encontrei.
De fato, antes do Natal fui a uma loja dessas para comprar não sei o quê e notei que não havia mais nada da Gradiente. Seu site continua no ar. Mas é, como tantos, mais um sítio arqueológico da web. Os e-mails voltam. A loja virtual não funciona. A Gradiente não existe mais. Para além dos problemas que uma desaparecimento desses ocasiona aos consumidores, e à parte as cagadas que seu dono deve ter feito, é mais uma derrota do Brasil. Outra Gurgel.
SÃO PAULO (o que fomos, o que somos) - Eu tinha visto, mas esqueci de postar aqui. Felizmente o Cássio Missiroli me lembrou e mandou de novo o link. Este filme, de cerca de 15 minutos (veja com calma, portanto), foi feito pelo governo dos EUA durante a Segunda Guerra. A intenção era “apresentar” São Paulo aos americanos e a quem eventualmente quisesse informações by Amerika sobre países alinhados/aliados.
As imagens, de altíssima qualidade, e o texto, laudatório mas sem erros comuns aos americanos — como mostrar o obelisco de Buenos Aires e identificá-lo como o Cristo Redentor, por exemplo —, revelam uma cidade de 1,3 milhão de habitantes, 65 anos atrás, que reluzia de progresso e esperança.
Claro que SP já tinha problemas e pobreza. Mas em outra dimensão. Não dá para comparar com hoje. Mal dá para acreditar que se trata da mesma cidade, do mesmo país, do mesmo planeta. Vejam as casas, os jardins, as escolas, as avenidas, os parques…
A gente, que mora aqui, vê isso e não tem outra reação que não seja o espanto, para depois dizer, educadamente: puta que o pariu, como fomos capazes de fazer tanta merda?
SÃO PAULO(vamos nos mexer) – As águas vão baixar uma hora, como sempre baixaram. Não é a primeira vez que Santa Catarina passa pelo que está passando, mas é a primeira vez que isso acontece na era da internet. Então vamos fazer esse negócio servir para alguma coisa.
Este blog recebe a visita de 20 mil pessoas por dia. Muitos já ajudaram, de uma forma ou de outra, mas coletivamente nós não fizemos nada, ainda. Se somos capazes de “votar” em pinturas de carros, macacões, modelos de troféus, capacetes e outras coisas sem importância, temos de ser capazes de ajudar quem precisa, também.
Olhem para essa foto aí em cima. Foi enviada pelo blogueiro Jaison, que mora em Blumenau. Vamos parar cinco minutos de fazer o que estivermos fazendo para ajudar esse cara e seu filho. E todos que vêm lá atrás, perdidos diante de uma catástrofe que não é culpa de ninguém em especial. E, se for, a essa altura não interessa.
20 mil pessoas entram aqui todo dia, e se cada uma doar 10 reais para ajudar as vítimas de Santa Catarina, teremos levantado 200 mil reais, o que é uma boa grana. Dá para comprar 2.500 colchões de solteiro, e um deles pode servir para esse pai da foto e seu filho. Dá para comprar 200 geladeiras, e uma delas pode servir para uma família que perdeu a sua. Dá para comprar 200 mil garrafinhas de água mineral, e algumas delas podem servir para essas pessoas que andam sem destino na foto.
Não custa nada, é só um clique no site do seu banco. 10 reais, ou 5, ou 1, ou 100. Não importa. 20 mil pessoas são capazes, mesmo não tendo se conhecido nunca, de ajudar outras tantas que estão precisando. Olha essa foto aí do lado. Quem sabe alguma coisa que a gente conseguir vá parar com o dono dessa casinha no meio d’água, que perdeu tudo e vai precisar de tudo de novo.
Há outras formas de ajudar, doando roupas, cobertores, agasalhos e alimentos. O telefone 0800 616161, por exemplo, dá os endereços de escolas técnicas federais que estão aceitando doações. Escolas, condomínios e entidades diversas estão fazendo campanhas, também.
A Defesa Civil de Santa Catarina abriu várias contas correntes em vários bancos para receber dinheiro. Você deve ter conta num desses:
O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57.
Se tiver alguma dúvida sobre o número da conta, consulte seu banco, ou espere aparecer o nome do titular quando for fechar a operação pela internet (tenho conta no Itaú e antes de finalizar o depósito aparece o nome do titular da conta).
Ninguém precisa comentar nada neste post. Em vez de perder tempo comentando, faça uma doação. Mas se quiser pingar um “eu já fiz!”, sem nome, nada, pode. Acho que incentiva o pessoal.
E é isso aí. 20 x 10 = 200. Se a internet não servir para isso, não serve para mais nada.
SÃO PAULO (todo mundo) – Os organizadores do Desafio das Estrelas, a prova de kart do Massa, vão doar R$ 50 mil, e Felipe avisou agora há pouco em Floripa que vai dar mais R$ 50 mil e um macacão para ser leiloado para ajudar as vítimas das enchentes em Santa Catarina.
Há várias formas de colaborar, e é fácil encontrá-las na internet. Aqui há uma relação de postos e contas bancárias. Aqui também. No meu prédio estamos arrecadando roupas, alimentos e produtos de higiene, e o mesmo acontece no colégio dos meus filhos. Tudo ajuda.
Eu estava meio assim sobre essa corrida de kart, que sempre tem ar de festa, justo em Santa Catarina. Mas a turma está solidária, e é mais uma forma de amenizar as dimensões desta tragédia.
Tragédia que, como sempre, já virou espetáculo global. Hoje de manhã vi na TV aquela loira do papagaio vestida com roupa camuflada do Exército, transmitindo direto de Blumenau, acho. Ar contrito, pero no mucho, e cabelos perfeitamente arrumados, batom passado, unhas feitas.
Desculpem, posso parecer ranzinza, mas acho isso uma baixaria inominável, uma apelação ridícula. Tudo precisa virar espetáculo televisivo? O que é mais relevante? Mostrar a tragédia em si, o drama das pessoas, ou o visual “Rambo-chic” da loira do papagaio?
É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.