20 ANOS ESTA NOITE
SÃO PAULO (mudou, sim) – Foi assim. Todas as folgas cassadas, editorias desfalcadas, quase todo mundo deslocado para a Política. Finalmente chegou o dia 15. Eleição, no Brasil, era sempre em 15 de novembro. Não lembro que dia da semana caiu. É fácil de achar isso no computador. Espera aí.
Caiu numa quarta.
Dia 15. Depois de 29 anos, o Brasil tinha a chance de votar para presidente de novo. Desde 1964, foram 25 anos de ditadura, de generais escrotos, de um país militarizado. E muita gente gostava. Mais ou menos como parte da França sob o nazismo. Tinha gente que gostava e colaborava.
Cinco anos antes, o Brasil foi às ruas para exigir eleições diretas em todos os níveis. Levamos um pau na bunda do Congresso. Não havia internet, nem celulares, em 1984. A votação da emenda Dante de Oliveira, a das Diretas Já, aconteceu com Brasília quase incomunicável. Acompanhei a contagem dos votos por um painel manual na Praça da Sé, tarde da noite. Voltei de metrô, triste pra burro.
Dia 15. No jornal, o instituto de pesquisas próprio era ainda um bebê. Mas ia bem. Acertava quase tudo na mosca. Tanto nos levantamentos de intenção de voto, quanto nos de boca-de-urna. Naqueles tempos, campanha era campanha. A gente não via um carro na rua imune. Ou levava um adesivo do Collor, ou do Lula. Ou do Brizola, ou do Covas. Ou do Maluf, ou do Afif. Eram 23 candidatos. Tinha um chamado Marrozinho. O Enéas concorreu. Até o Silvio Santos. Alugou a legenda de um analfabeto de pai, mãe e parteira, Armando Corrêa, “o candidato dos explorados”. Acabaram anulando a candidatura de Silvio Santos. Santinhos, cartazes, bandeiras, uma sujeira danada. Eu tinha a impressão de que todo mundo se envolvia. Respirava-se política.
Dia 15. O voto era no papel e na caneta, não havia urna eletrônica. Cédulas coloridas, urnas de papelão, juntas de apuração, contagem manual, era um caos. Adorável caos. Escolas mobilizadas para as votações, ginásios e clubes para a apuração, noites em claro, voto por voto, boletins nas rádios, plantões na TV, uma coisa de louco.
Dia 15. Não havia outra manchete possível para o jornal do dia seguinte. Jesus Cristo poderia aparecer na avenida Paulista carregando sua cruz, que não iria roubar espaço no alto da primeira página. Quem iria para o segundo turno?
Collor, um aventureiro produzido pela “Veja” e pela Globo, era o favorito. Jovem, bonitão, raivoso, agressivo, convincente, era o “caçador de Marajás”, a “novidade” do pleito contra políticos experientes e desacreditados, alguns, ou novos e radicais, outros. Collor estava no segundo turno, todas as pesquisas indicavam. Mas quem ia com ele?
As urnas foram fechadas no fim da tarde em todos os fusos brasileiros. Os primeiros resultados da boca-de-urna do Datafolha começavam a chegar. Segredo de Estado. A “Folha” era a única que tinha instituto próprio. Os demais jornais compravam o serviço do Ibope, do Gallup ou do Vox Populi. Emissoras de TV, também. Assim, as previsões dos outros institutos eram mais ou menos públicas. As nossas, não. Segredo de Estado. Ninguém, nenhum jornal, iria arriscar o segundo turno baseado nas pesquisas divulgadas. Lula e Brizola estavam empatados tecnicamente. Era imprudente demais cravar Collor x Lula, ou Collor x Brizola.
O horário de fechamento estava chegando. Eu, editor de Esportes, estava deslocado para a Primeira Página, depois de fechar nossas pagininhas desimportantes na hora do almoço. Reunião de fechamento convocada. Os números do Datafolha não poderiam sair daquela redação em hipótese alguma. Não podíamos sequer telefonar para casa. Segredo de Estado.
O Datafolha dava Collor em primeiro, fácil, e Lula em segundo. Mas com Brizola pertíssimo. Não dava nem para falar em margem de erro. Era coisa mínima, zero-ponto-alguma-coisa percentual. Precisava ser macho para bancar uma manchete. Todo mundo ia sair com Collor vai ao segundo turno contra Lula ou Brizola. E a gente?
Tensão do caralho na reunião. O diretor do Datafolha, Antonio Manuel (por onde andará?), hesitava. Afinal, entendia do assunto. Se existe uma margem de erro, é preciso respeitá-la. Ela existe porque estatísticos estudaram aquela merda, sabem que pesquisa é pesquisa. X para mais ou X para menos. Uma ala daquela enorme mesa redonda achava que tínhamos de cravar Lula. Outra, que deveríamos ser prudentes. Eu estava entre os que queriam enfiar o Lula na manchete, e pronto. Afinal, o Datafolha vinha acertando uma em cima da outra. Mas ninguém me perguntou nada, ainda bem.
Saímos da sala sem saber qual decisão seria tomada. O dono do jornal se reuniu mais uma vez com o diretor do Datafolha e o editor de política em outra sala e chegaram à manchete, que eu só veria um minuto antes de mandar o último texto da Primeira para baixo. “Collor e Lula se enfrentam no 2º turno”, acho que foi isso. Machos pra caralho. Se desse Brizola, a gente estava fodido. E quase deu. Collor teve 22.611.011 votos (28,52%), contra 11.622.673 (16,08%) de Lula e 11.168.228 (15,45%) de Brizola. Apertadíssimo. Bancamos. Acertamos. E demorou um pouco para sair o resultado. A agonia foi de alguns dias. A contagem era manual, já disse isso. Levava tempo. Foram 74.280.909 votos que passaram pelos dedos ágeis das juntas de apuração.
A noite do dia 15 de novembro na Redação é minha lembrança mais vívida de 15 de novembro de 1989. O segundo turno, em dezembro, foi mais fácil. Collor levou com 49,94% dos votos, contra 44,23% de Lula. A eleição foi decidida com as baixarias da tropa de choque de Collor, mais a edição maldosa do último debate da TV no “Jornal Nacional”, o pavor da classe média de ter um operário na presidência, o conservadorismo de São Paulo, o Estado, que acabou decidindo o pleito com seus ruralistas, udenistas, arenistas e malufistas.
Foram meses de muita emoção nas ruas, confronto direto entre militantes do PT e o resto (o resto nunca teve militância, na verdade), imprensa conservadora de um lado, jornalistas de esquerda do outro. Um período rico em discussões, reflexões, era o destino da gente que seria decidido ali.
As duas imagens que escolhi para lembrar os 20 anos daquela eleição estão entre as que fazem parte do meu imaginário político. “Sem medo de ser feliz” era um dos slogans do PT, e a foto, rara, de um Lula sorridente foi feita por um amigo, Juan Esteves, baita fotógrafo. A outra, de um Collor descontrolado, querendo enfrentar o povo com seus braços bombados, é clássica, também, mas não lembro quem fez. Se alguém descobrir o crédito, por favor coloque nos comentários.
Eu tinha 25 anos. Não tenho mais. Tenho saudades dos meus 25 anos.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Brasil Tags: "Folha", 1989, Collor, Datafolha, Lula
Aquelas eleições serviram para mostrar o quanto a TV Globo é calhorda. Todos já desconfiavam. Aquele JN do dia seguinte ao debate final entre Lula e Collor foi o soco no estômago de todos que acreditavam viver em um país cuja mídia trabalhava pela verdade. Somente a verdade. Quantas saudades do Jornal da Manchete e do JB. A Manchete não mais existe e nem aquele candidato barbudo, pelo menos no seu ideal, que foi chamado por Brizola de “sapo barbudo”. Este “sapo” prefere os acordos políticos ao povo que foi às ruas, empunhando bandeiras, ávidos por mudanças. Eu era um desses. Não tenho mais meus vinte sete anos e nem empunho nenhuma bandeira. Não tenho mais esperança de que os políticos e a Globo tenham afinidades com o povo.
Gomes,
Essa foto do Collor foi tirada na cidade de Niterói-RJ. Ele bradava desse jeito porque estava passando perto de uma turma de brizolistas.
Um grande abraço! Gostei de relembrar os momentos dessa impagável eleição. Tinha oito anos de idade e ela marcou minha infância!
Gomes,
Vai você, o ladrão do Lulla e toda essa cambada petista, todos tomarem nocu com muita força
Nem dá para acreditar, estragar esse blog de automóveis com essa josta do barbudo.
No final das conta, todo político é igual, e o país continua com as mazelas de sempre.
Boas lembranças! naquela epoca nos iamos ate o comite eleitoral, COMPRAVAMOS os santinhos e jornais para montar nossos “KIT CABECA FEITA”, depois saiamos a rua p trabalhar e quando paravamos nos semaforos a gente distribuia para os motoristas, tb entravamos em obras (nas do metro tb), distribuiamos nas pracas, ate no sabado a noite, la no “BOM MOTIVO”, mas sempre guardando alguns KITs p distribuir no “Sujinho” depois das 4 da madrugada! no kit vinha um jornal dobrado (bem parecido c o da igreja universal, so q falando de politica) e dentro do jornal colocavamos os santinhos dos candidatos, alem de outros pendulicarios! Talves nao tenha sido tempo perdido, mas sim um tempo p ser comparado com o d hoje! “eta tempo bao q nao vorta mais”
Flavio, eu tinha 6 anos. Lembro de pouca coisa, lembro que eu era favorável ao Collor, mas nessa idade eu não entendia muito das coisas. De qualquer forma, gostaria de fazer alguma reflexão sobre o que aconteceu depois desta eleição. E desculpe o atraso, mas infelizmente estou com dificuldade em acompanhar o blog, mas sempre que posso entro aqui para não ficar muito para trás, não leio um post novo sem ter lido os antigos antes, e hoje estou lendo esse, leio tudo na ordem.
Se me permite Flavio, me desculpe por ficar um pouco longo o texto, mas estes assuntos me interessam bastante e quis deixar minha opinião aqui.
Em 1976 teve uma grande crise econômica no mundo e os liberais explicaram como sendo um problema do estado. Só uma pequena explicação, para os que não sabem evidentemente, o estado liberal é o estado que faz a mediação entre o capital e os trabalhadores, recolhe impostos do capital e do assalariamento e pega uma parte do imposto, usa para fazer novos investimentos, empresta pro capital para fazer novas tecnologias, gerar novos empregos, entre outras coisas. Além disso, o estado liberal garante educação gratuita (ou pelo menos deveria, eles prometem isso), saúde, habitação, transporte, previdência, etc. São garantias que o estado dá.
O estado também tem empresas pra gerar o seu próprio lucro, na Europa deu certo, fizeram um estado liberal de bem estar social. No Brasil isso nunca aconteceu.
Voltando, em 1976, para alguns liberais, o problema era do Estado liberal, que deveria se tornar NÉO LIBERAL, assumir uma nova função de estado, ao invés de estado protetor e provedor, deveria ser um estado “regulador”. Ou seja, privatiza tudo que tem, vende todas as empresas e fica só regulando a concorrência para não permitir os monopólios. Privatizar os serviços públicos e sanear bancos (capital financeiro).
Ao privatizar, eu melhoro a empresa, para isso eu preciso gerar muitos empregos e preciso pegar empréstimos bancários, e posso cobrar pelo serviço pois ele é melhor, como gerei muitos empregos, todos vão poder pagar. Essa é a idéia de estado néo-liberal.
Para os países sub-desenvolvidos, eles só poderiam fazer isso em âmbito mundial e empresas francesas, americanas, e etc, poderiam comprar empresas destes países.
Agora, finalmente, em 1989, definiram que os países latino-americanos deveriam ter acesso ao néo-liberalismo e ter acesso à créditos internacionais, mas só teriam este acesso se aderissem ao estado néo-liberal, ou seja, ao FMI.
Em 1991, os Países latino-americanos re reuniram para começarem este movimento. O Collor tirou o privilégio de empréstimos e subsídios à grandes proprietários de terra do Norte e Nordeste do Brasil, o que acaba derrubando ele.
Em 1991 também, o Menem privatiza tudo na Argentina, o México também. Em 1994 os dois já estão falidos. Eles venderam tudo sem mecanismos de proteção.
O Fernando Henrique privatiza grandes estatais, Vale, começa a privatizar a Petrobrás, Saúde e Educação. Mas ninguém quis comprar e precisava de muito investimento, o Brasil não tinha dinheiro. Então o Brasil passou a sanear e regulamentar os bancos, para os bancos no futuro emprestar dinheiro para a iniciativa privada e comprar as estatais brasileiras. Privatizaram o sistema de telefonia, mas para isso o estado investiu muito dinheiro em cabos de fibra ótica. Para as estradas, o estado primeiro reformava e depois privatizava.
A Petrobrás todos queriam comprar, mas havia a informação que o Brasil só fabricava o petróleo duro, que não serve para a gasolina e assim o Brasil precisaria continuar importando. O Fernando Henrique então abriu aos trabalhadores os institutos de previdência para comprar a Vale, assim os trabalhadores passaram a ser acionistas.
Agora finalmente, chegamos no Lula, que para com o néo-liberalismo, volta com o estado liberal, através do pró-uni, fome zero, as categorias D e E passaram a ter acesso ao consumo. Antes a economia informal era enorme, e não ia para o estado. o Brasil abriu o crédito do BNDES para o empresário informal, mas para ter acesso ao crédito ele precisava ser “formal”. Além dos investimentos no petróleo, o pré-sal e o petróleo fino, e o agro-negócio (álcool), coisa que o FHC nunca fez direito.
Por isso tudo, o Brasil não faliu, pois parou na metade do caminho. Bolívia, Colômbia, Argentina, México, entre vários outros acabaram quebrando, pois seguiram à risca a política néo-liberal e o FMI.
E é por isso tudo que eu votei no Lula duas vezes, e votarei mais se pudesse, pois foi graças a ele sim que o Brasil não sofreu com essa crise econômica que atingiu os EUA e o mundo. Mas política, futebol e religião, não se discute, essa é só minha humilde opinião. Eu sou leigo, não entendo nada, posso ter falado alguma bobagem, mas isso daí está dentro do que eu entendo da política e do Lula, FHC, Collor e etc.
Desculpe por ter me extendido demais, e obrigado pelo espaço.