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09/11/2009 - 21:52

A MOÇA, A SAIA, A FACULDADE

SÃO PAULO (é o fim) – Fiz faculdade entre 1982 e 1985. Faculdade de riquinho, FAAP. Não havia sinal de movimento estudantil ali. Na verdade, com o fim da ditadura, a eleição de Tancredo e a perspectiva de diretas em 1989, o movimento estudantil se enfraqueceu e, sendo bem sincero, foi sumindo aos poucos. Minha atividade mais próxima da subversão foi vender sanduíches naturais para arrecadar dinheiro para uma festa das Diretas.

Hoje, as entidades representativas dos estudantes servem para emitir carteirinhas para a turba pagar meia-entrada em shows e no cinema. Sem um inimigo claro, que no caso das gerações imediatamente anteriores à minha era o governo militar, ficamos sem ter do que reclamar. Porque, no fundo, por conta da politização desses movimentos todos, a questão educacional foi colocada de lado por muitos anos, e deixou de ser prioridade.

Já como repórter, cheguei a cobrir algumas confusões na USP na segunda metade dos anos 80. Sem querer simplificar demais, mas recorrendo ao que minha memória me permite lembrar, o tema central era o aumento do preço do bandejão nos refeitórios da universidade. Deu greve e tudo. Muito pouco. Ainda mais porque, como se sabe, boa parte dos que conseguem chegar à USP vêm de escolas particulares, e o preço do bandejão não chegava a afetar seriamente o orçamento de ninguém.

O caso dessa moça de minissaia da Uniban poderia ser um bom motivo para despertar algum tipo de reação na molecada. De repúdio aos que ofenderam a menina, de reflexão sobre os rumos da universidade, de protesto contra sua expulsão, de perplexidade com o recuo da reitoria por razões obviamente mercantis.

Reitoria… Era palavra respeitada, antigamente. Hoje, os reitores dessas espeluncas mal falam português. A transformação do ambiente universitário em quitandas que vendem diplomas é assustadora. E os estudantes são coniventes. Não exigem ensino de qualidade, compromisso com a educação, porra nenhuma. Querem se formar logo, se possível pagando pouco, e dane-se o mundo.

Fico espantado ao observar como pensa e age essa juventude urbana entre 20 e 25 anos. São fascistóides, hedonistas, individualistas, retardados ao cubo. Basta ver o perfil da menina da minissaia no Orkut. Uma completa debilóide, mas nada diferente, tenho certeza, de seus colegas de faculdade (vejam as “comunidades” às quais ela pertence; coisas como “Gosto de causar, e daí?”, “Sou loira sim, quem me aguenta?”, “Para de falar e me beija logo”, coisas do tipo). O que, evidentemente, não dá a ninguém o direito de fazer o que fizeram com ela. Até porque são todos iguais, idênticos, tontos, despreparados, sem noção.

Aí a Uniban expulsa a menina, dizendo que os alunos que a chamavam de “puta” e queriam bater na coitada estavam “defendendo o ambiente escolar”. Puta que pariu! Como é que pode? Como podem adultos, “educadores”, que teoricamente têm um pouco mais de neurônios em funcionamento, reduzirem a questão a isso? E criticarem a menina porque ela se veste assim ou assado, anda rebolando, “se insinua”?

Pior: muitos, mas muitos mesmo, alunos defenderam a expulsão. Acham que a menina é uma vagabunda que provoca os colegas. Bando de animais, intolerantes, sádicos, hostis, agressivos. Eu nunca deixaria um filho meu estudar numa universidade frequentada por esse tipo de gente e dirigida por cretinos do naipe dos que assinaram a expulsão e, depois, revogaram-na sem revelar o motivo — aquele que nunca será admitido, o prejuízo à imagem dessa porcaria de empresa, sim, empresa, e das mais lucrativas, porque chamar um negócio desses de “universidade” é desmoralizar a palavra.

O Brasil está fodido com essas gerações que vêm por aí. Um caso desses, que poderia trazer à tona discussões importantes sobre o comportamento dos jovens, suas angústias, seus rumos, resume-se ao tamanho da saia da moça e ao seu comportamento “inadequado”, seja lá o que for isso. A educação, neste país, tem sido negligenciada de forma criminosa há décadas. O governo poderia começar a limpar a área por essas fábricas de diploma, que surgem aos montes sem que ninguém se preocupe com o tipo de gente que está à frente delas.

O que se vê hoje, graças a essas faculdades privadas de esquina, sem história e princípios, é uma população cada vez maior de “nível superior” sem nível algum. Um desastre completo. Gente que não pensa, não argumenta, não lê, não raciocina coletivamente, se comporta como gado raivoso, passa o dia punhetando no Orkut e no MSN, escreve “aki”, “facu”, “xurras”, “naum”, “huahsuahsua”, um bando de tontos desperdiçando os melhores anos de suas vida com uma existência vazia, um vácuo intelectual, sob o olhar perplexo de gerações, como a minha, que um dia sonharam em fazer um mundo melhor e, definitivamente, não conseguiram.

Somos todos culpados, no fim. Me incluo.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Brasil Tags:

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756 comentários para “A MOÇA, A SAIA, A FACULDADE”

  1. flavio gomes disse:

    como todos que enviaram seus comentários foram perfeitos…, realmente o “buraco é mais embaixo”
    e refletindo sobre a educação e o papel dos nossos governantes acho que o caminho que êles buscam é esse mesmo, somente números, estatistica, afinal com esse tipo de ensino(me refiro a todos inclusive os cursos novos de curta duração)’teremos um pais com ótimos indices estatisticos
    se para a maioria quer viver de mentiras(me engana que eu gosto) continuem nesse caminho
    mas é muito importante saber que tem pessoas(acho que podemos nos considerar pessoas) que ainda tem o mesmo ponto em comum e não queremos ser apenas números, vale a pena estar contra a maré!

  2. Carlos Eduardo disse:

    Esta talvez seja a “inteligência” competitiva, destruir a imagem do seu adversário na propria universidade. A moça não era filha de uma autoridade artistica ou política para ter o privilégio de inventar uma nova moda. As universidades não foram criadas para expandir a democracia e sim para oferecer diplomas afirmando pessoas como seres superiores a maioria. Será que em algum momento os universitarios pensaram em ajudar a maioria? Ter o curso superior é estar na ilha da intelectualidade, é ser melhor do que o outro. O falso moralismo governa solitário o existir humano. A quem acredite que os pensadores do movimento estudantil anti-ditadura eram gênios incontestáveis, contra os assassinos viravam assassinos e quando não davam conta pediam ajuda ao pai.

    Jovens que preocupam com o mercado e com suas carreiras profissionais deixam de lado o coletivo.

  3. Gabriella Campos disse:

    Infelizmente é isso o que acontece mesmo. A grande maioria dos jovens atualmente só fala da aparencia, de fofoca, de reputação, enfim, coisas futeis, e nao se fala de politica, ética e outros assuntos. Sao muito acomodados. Posso ver isso claramente, pois sou jovem e muitas vezes me sinto influenciada por essas coisas. Mas nao se pode generalizar. Existe sim, mesmo que poucos, jovens que ainda se preucupam com o pais.

  4. Fabiano Lacerda disse:

    O Daniel têm toda a razão. Essa moça chega até ser asquerosa,de tão baranga. Por um lado,o sensacionalismo da mídia sempre aparece nessas horas,se alimentando dos dramas alheios. Mas sinceramente,não fiquei tão incomodado assim com a exposição exagerada dela à mídia. Fiquei é morrendo de rir dos idiotas repressores que se esforçaram tanto para humilhar a moça,sendo que agora,o efeito é totalmente o oposto. Bem feito…

  5. Norton disse:

    Apenas acrescentando, o “senador” (hic) Wellington de Oliveira é dono de uma porcaria de faculdade igual a esta Uniban chamada: Universo (Universidade Salgado de Oliveira {eu me amo}), e assim caminha a humanidade….

  6. Jose Rosa disse:

    Excelente artigo. Só me coloco 50 por cento fora do final porque dediquei 16 anos de minha vida a educar os jovens do DF, como professor da antiga Fundação Educacional do DF ! Hoje posuo um blog dedicado a Educação, o ZEducando (http://joserosafilho.wordpress.com/). Convido todos a darem uma passada lá e compartilhar comigo algumas questões.

    um abraço,

    José Rosa.

  7. Felipe Tamburus disse:

    Meu caro Flavio Gomes,

    Tenho 20 anos e não faço parte desse grupo que você citou em sua carta.Concordo com você em partes, acredito que uma pessoa como você não deveria deixar de analisar alguns pontos.Confesso que quando recebi um e-mail com o titulo de sua carta: “A moça, A saia, a Faculdade” tive vontade de apaga-lo sem le-lo. Ao terminar a leitura de seu desabafo, concordei com o ponto de que os jovens de Hoje estão completamente alienados do mundo, que faculdade virou uma empresa, muito lucrativa por sinal e etc.. Porém peço que você dê uma olhada em nossa televisão, em nossa internet e em nosso jornais. Todos os dias encontramos noticias a respeito dessa menina, o que me causa nojo. A imprenssa nacional tem grande parcela de culpa nisso tudo, se não tivessemos coisas tão futeis para ler, seriamos obrigados a ler coisas mais interessantes, e criariamos uma cultura de questionamento,formação de opnião, de atitude e de esperança. Porém, a imprenssa, usando palavras suas : “compromisso com a cultura, informação, porra nenhuma, querem ganhar dinheiro que se foda o Mundo”. E o que mais me espanta, é que são pessoas como você, que, como mesmo disse, tentaram fazer um mundo melhor e viveram na época onde sua busca era constante, são os autores das tais reportagens.

    Por Favor, parem de promover assuntos tão futeis quanto o caso dessa menina!!ou você quer ligar sua televisão e ver essa escrota em TODOS os programas e em TODOS os canais???até na playboy ela vai sair!!que absurdo!!você,sendo jornalista, tem responsabilidade sobre o que as pessoas pensam. Então, ofereça-nos, algo útil para ler, quem sabe assim, os jovens não começam a ser um pouco mais cultos.

    Um grande abraço

  8. Jose Rosa disse:

    Ao autor do blog, quando você diz neste post “Eu nunca deixaria um filho meu estudar numa universidade frequentada por esse tipo de gente e dirigida por cretinos do naipe dos que assinaram a expulsão e, depois, revogaram-na sem revelar o motivo — aquele que nunca será admitido, o prejuízo à imagem dessa porcaria de empresa, sim, empresa, e das mais lucrativas, porque chamar um negócio desses de “universidade” é desmoralizar a palavra. “, concordo plenamente porque esta e outras várias infelizmente espalhadas por este país não pode jamais ser considerada uma Universidade, no sentido da ‘universitas’ que conhecemos.
    E ao jovem Felipe Tamburus que colocou o comentário, sugiro a visita ao “Baú de Livros” do meu blog, o ZEducando (http://joserosafilho.wordpress.com/category/bau-de-livros/)

  9. naeudes disse:

    O caso da universitaria é grave e pior foi o do meu filho de 4 anos foi agredido por 3 vezes, reclamei por não terem tido atenção comigo e o meu filho , insegura pedie seus livros , mas teve uma reunião posterior ao meu pedido e a madre pediu que confiasse na escola ordenou que redobrasse a atenção com todas as crianças. e para minha siurpresa a coordenadoras mandaram todo o seu material, alegando o bilhete e anulando tudo o que a madre falou na reunião. esta classificado em expulsão e foram contra a propria diretora da escola, já visto a decisão em conjunto com todas que fizeram isto com meu filho. se eu tivesse dinheiro iria contratar este advogado que ganhou a causa da universitaria. se aparecer alguem que possa me defender estarei aqui resando p que acontecça um santo para me ajudar. e para completar o vice diretor que é padre foi altamente grosseiro comigo e disse-me que ele voltaria mediante á uma reunião meu filho não é marginal tem 4 anos . É UMA CRIANÇA AMAVEL, CHORA P VOLTA A ESCOLA e mediante a tudo estou retirando da escola os meus filhos. estecolegio é o pequeno princepe em CRATO-CE… peço justiça porque estamos todos sofrendo com o ocorrido e apesar de tudo este padre vice diretor não quis me ouvir e saber toda a verdade , quem me pergunta eu falo não minto, e por essa razão eles não querem meus filhos na escola,pois diz que estou prejudicando a escola, se fosse competente resolveria o problema tão facil imagine um grave . naeudes

  10. dalva disse:

    Falou tudo, falou o que eu penso e não saberia falar com tanta maestria. Obrigada por pensar e ousar.

  11. Maria do Rosario Andrade Nunes disse:

    Realmente este texto é espetacular. Há tempos não leio algo tão inteligente e bem escrito sobre o ensino do Brasil. Mas infelizmente, a estes governos desprovidos de ética( se é que sabem o significado da palavra), realmente não interessa cabeças pensantes, pois desta forma acabam-se as massas de manobra. Quanto mais o pais for inculto, quanto mais nossos jovens usarem drogas, quanto mais forem alienados, mais os governantes gostam, pois a um povo sem moral, é muito mais fácil impor normas e condutas que agradam aos ditadores.

  12. Rafael Simoes disse:

    [2] Falou tudo, falou o que eu penso e não saberia falar com tanta maestria. Obrigado por pensar e ousar. [2]

  13. Rosmary Mariano disse:

    Você conseguiu expressar todo sentimento que senti a respeito desse episódio e sinto a respeito do momento em que vivemos. Nos tornamos um povo intolerante e sem uma missão para a vida.

  14. Ester disse:

    Concordo. Tá na hora. Algo deve começar a ser feito. Mas o quê? Como? Onde? Quem? Eu? Tu? Ele? Nós! A educação foi tirada das pessoas há muito tempo. Agora somos “imbecis”. Eu sou uma! Não temos conciência, não temos memória,não temos coragem, não temos!

  15. Durval Bastos disse:

    Realmente estamos nos finais dos tempos….ou nunca chegaremos aos bons tempos ou continuaremos na mesma merda em que nos encontramos.
    Para um Brasil que vota nos mesmos politicos corruptos que estão ai, que roubam descaradamente, que saqueiam nossos bolsos…é uma situação que já se espera: quem deveria governar , gerir os bens publicos dão o MAL exemplo. Para os que divulgam , a Imprensa Brasilerira, que sem critérios publicam o impublicável, para a midia televisiva que só nos traz porcarias, sem nada para reflexão ( ou vc vai refletir no que Ana Maria Braga,Faustão, Eliana, Gugu, Ratinho,etc etc ) vomita na TV todo dia.
    Cá pra nós,para os mesmos que desrespeitam a NATUREZA, o meio ambiente esta dando a resposta, e para estes acontecimentos os governantes com suas campanhas eleitoreiras supre momentaneamente seus prejuizos…e tudo volta ao normal (?). O proprio ser humano se destrói…pois sem amor no coração , sem solidariedade, sem respeito aos valores eticos caminhamos realmente para o abismo existencial.

  16. Denise disse:

    Este assunto faz lembrar aquela piada aonde perguntam a Deus por que tanta generosidade ao compor o Brasil e ele responde: Espera para ver o povinho que eu vou por lá…

    Tire uma dúvida: o sanduiche natural das diretas era de queijo, presunto e salame? e foi sucesso porque chovia e o sanduiche estava embalado em plástico …. Se era esse, a cesta de pic-nic era minha (rsrsrsrs)

  17. MILENA EMIDIO disse:

    Sua escrita é simples, clara e objetiva.
    Partilhamos das mesmas idéias sobre o assunto.
    Obrigada.
    Milena. Goiânia-Go.

  18. Orlando Salomone disse:

    Tudo verdade, Flavio, inclusive a parte da nossa responsabilidade. Estamos começando a colher os frutos da nossa permissividade.

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