iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
09/07/2009 - 20:23

HISTÓRIAS DE GUERRA

SÃO PAULO (um livro) – É essa moto que fui conhecer de perto hoje. Estava no encontro de clássicas que aconteceu algumas semanas atrás aqui em SP. Uma DKW 350 cc, 1938. A DKW foi a maior fabricante de motocicletas do mundo durante os anos 20 e 30. A matéria que fiz para o “Limite” vai ao ar na semana que vem na ESPN Brasil.

A moto pertence ao advogado Jayme Szyflinger, que gosta muito de DKWs. Tem um Candango, uma Vemaguet e uma Schnellaster, entre outros brinquedinhos preciosos.

Ela veio direto da Segunda Guerra para o Brasil.

Foi assim. O pai de Jayme, judeu austríaco, tabalhava para uma companhia de seguros no final dos anos 30. Foi enviado para o Japão para implantar um sistema de seguros agrícolas, quando Hitler anexou a Áustria. A coisa já estava feia para os judeus na Europa central e ele, como tantos outros, tinha percebido antes da viagem. Por isso, vendeu quase tudo que tinha e transferiu para um banco na Inglaterra.

Batata. Enquanto viajava a trabalho, foi demitido da empresa, por ser judeu. Não voltou para a Áustria. Seguiu para a Inglaterra e, de lá, pegou um navio para a Argentina, onde vivia sua irmã. No navio, conheceu uma italiana, católica. Se apaixonaram. Mas ela ficou no Brasil e ele seguiu para a Buenos Aires, onde encontrou a irmã.

Semanas depois, juntou uns cobres e comprou uma motoneta Puch. Cruzou a fronteira e foi parar em Santa Catarina, onde a moto já estava se desmanchando. Vendeu o que restava lá mesmo e, de carona, chegou a São Paulo, onde encontrou sua namorada italiana. Casaram-se aqui.

O mundo estava em guerra. Numa tarde, em 1942, foi ao Largo do Paysandu, no centro da cidade, onde a embaixada britânica estava recrutando voluntários para lutar na Europa . Austríaco, e portanto fluente em alemão, alistou-se como quinta coluna. Enviaram-no de avião até o Senegal, de onde embarcou num navio para a Inglaterra.

Foi treinado durante semanas e, quando estava pronto, lançado de paraquedas na Alemanha com documentos falsos. Incorporou-se ao exército alemão e foi enviado à frente soviética. Atuou como espião até o fim da guerra, quando, ferido, seu batalhão foi aprisionado pelos americanos. Detido, contou sua história, apanhou bastante, até que conseguiu junto às autoridades militares britânicas, consultadas pelos americanos, comprovar quem era.

Ganhou patente de tenente, depois major, e como oficial britânico deu baixa e decidiu voltar ao Brasil. Antes, porém, quis conhecer os lugares onde seus familiares tinham sido mortos por Hitler. Àquela altura, estava lotado em Bonn. Pediu algo que tivesse rodas e andasse, para sua pequena excursão em busca de pistas dos parentes, e lhe disseram para escolher qualquer coisa num galpão onde estavam apreendidos vários veículos alemães. Quase nada funcionava. A moto DKW funcionou. Pela pintura em tom de areia, provavelmente pertenceu à 21ª Divisão Panzer e foi usada nas operações no norte da África. Não se sabe direito como acabou voltando à Alemanha, indo parar em Bonn.

Com ela, o pai de Jayme rodou a Europa, foi à Áustria, viu o que queria ver, descobriu o que precisava descobrir, e retornou à Alemanha para, então, pegar um vapor de volta ao Brasil e retomar a vida.

No porto de Hannover, encostou a moto, disposto a deixá-la por lá mesmo, e embarcou. “Mas quando estava subindo a rampa”, conta Jayme, seu filho, “achou ter ouvido alguém chamar seu nome. Olhou para trás e não viu nada, só a moto, que parecia pedir para ir junto. Como era oficial britânico, estava uniformizado, pediu para colocarem a moto no navio e colocaram.”

E assim foi. Quando chegou ao porto de Santos, desembarcou a moto, deu a partida e subiu a serra. Horas depois estava diante de casa, no bairro do Bom Retiro, antigo reduto da comunidade judaica em São Paulo. A esposa, quando o viu pela janela, desmaiou. Ela passara anos sem notícia do marido. Uma vez por mês, nesse tempo todo, recolhia o soldo pago pelo governo inglês no centro da cidade e lhe diziam apenas que estava “tudo bem”.

É essa moto que está com Jayme até hoje. Ela carrega ainda um telefone de campanha, cantil, marmita, estojo de primeiros socorros, compartimentos para munição, mapas e documentos, caixa de ferramentas.

E uma linda história sobre seu banco Pagusa de couro preto.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): DKW & cia., ESPN Brasil, Motoland Tags: , ,

98 comentários para “HISTÓRIAS DE GUERRA”

  1. Fabio disse:

    Isso me emociona !

  2. Andre Benevides - Fortaleza/CE disse:

    Histórias de guerras só servem para aprendermos a não guerrear.

  3. André Buriti disse:

    Provavelmente essa moto deve ter voltado pra Alemanha quando a África caiu nas mãos dos aliados, o Reich precisava de todo o material rodante possível daí vaículos com pinturas de deserto terem ido parar no teatro de operações europeu.
    Mas é uma história linda, daria um filme épico, contado em três partes: a primeira da fuga para o Brasil, a segunda dele no teatro de guerra atuando como espião e a terceira mostrando os horrores da guerra montado na moto percorrendo a Alemanha devastada e a volta para casa com sua fiel companheira, o Senhor dos Anéis ia ficar no chinelo, o problema seria arrumar as locações, quem sabe com muito CG eles conseguissem um resultado bom né?
    Ainda quero ver se você consegue comprovar a história de um oficial alemão que conseguiu trazer pro Brasil um Kommandeurwagen, mais conhecido como Fusca com mecânica de Schwimmwagen, isso parece mais lenda que realidade.

  4. Bonilha disse:

    Linda história e, como disseram, daria um belo filme.

    Com certeza, essa moto não tem valor calculado, não nesse mundo de homens cada vez mais mecanizados e sem alma.

  5. VINICIUS disse:

    Cara, que história é essa hein!!! Me emocionei e a imaginação voou enquanto lia seu texto. Será que algum cineasta lê esse blog? Acho que daria um belo filme; aventura, romance; drama e a guerra como pano de fundo. Alguém se habilita?

  6. iverson disse:

    Flávio, você autorizaria a gente a exibir a reportagem, quando ela sair no Limite, durante a Festa Alemã? Ou então autorizar a gente a publicá-la no site da Associação Cultural e Recreativa Brasil-Alemanha?
    Me mande um e-mail: iverson_e_josi@hotmail.com
    Um abraço.
    Iverson

  7. machinist disse:

    Uma das melhores histórias que eu li aqui.

  8. Petrus Portilho disse:

    Flavio, sobre a cor da Moto, veja esse site sobre D-day, eles tem uma DKW dessa cor mesmo, acho que é a cor usada na Europa também , http://www.650motorcycles.com/Dday.html

    Abraço

  9. Ricardinho disse:

    História incrível!!! A moto tbém é linda!!! Essa história deveria mesmo virar um livro, no mínimo, como já disseram. Parabéns ao dono por preservar tão bem um pedacinho da história desse triste período da humanidade e, pricipalmente, da história de sua família!!!
    Ah, parabéns tbém ao FG por encontrar esse tesouro e compartilhar conosco esse história incrível!!!

  10. braslate@uai.com.br disse:

    esta moto no trade de antigos no mercado americano e a historia vale uma ferrari zero e com certeza certissima o colega nao desfara do popopo por grana alguma
    parabens ao colega que possui um preciosidade impar
    jc sete lagoas

  11. Andre Calderaro disse:

    Só uma palavra sobre a História: SENSACIONAL!

    O Pai do Jayme é o CARA!

  12. Claudinei disse:

    Realmente emocionante!!

  13. Airton disse:

    Caralho! Muito maneira a história! Parece filme mesmo

  14. Carlos Rossi disse:

    Sensacional! Assistirei o`Limite´na próxima 3ªfeira.
    Parabéns!

  15. sérgio barros disse:

    Obrigado por mais uma bela história que trouxe a nós, emocionante mesmo.

    e esse lance de embarcar e “ouvir alguém chamando….a moto”…quem já não passou por isso, a companheira de muita aventura, viagens, sol, chuva…..como carros, viram amigos, companheiros….. e a mãe dele fiel ao amor pelo marido…. cara, que história …

  16. Carmem disse:

    Caramba! Só li agora este post. E vai mais uma bela história da Segunda Guerra para meus alfarrábios. Maravilha de relato. Valeu, FG!

  17. J Alberto disse:

    Maravilhosa… a moto, e maravilhosa a reportagem, lindo texto. Parabéns.

  18. regi nat rock disse:

    Carros tem alma.
    Motos também.
    Quem não crê nessa afirmação, é pobre de espirito.
    Tive o privilégio de ouvir de primeira mão algumas sagas ocorridas na II guerra, tanto de alemães como de italianos, soldados e aviadores, gente de uma cepa que fica cada vez mais dificil encontrar.
    De arrepiar profundamente qualquer pessoa.
    A saga do pai do Jayme (que vc não identificou pelo nome para podermos honrar sua memória) é desses acontecimentos que movem o mundo.
    Como não acreditar na possibilidade real do ser humano quando se determina a realizar qualquer obra, por crer que é o mínimo que pode fazer?
    E como não se emocionar ao “ouvir” o chamado do nada, e resolver fazer, sem pensar.
    E subir o “Caminho do Mar” (antiga estrada de Santos), ao encontro de sua “lindinha”.
    Que final maravilhoso esse! Que história!

    Caro amigo FG, teu lapis derruba a gente e, associado a uma história dessas, desmonta qualquer um.

    Ao Jayme: Nem imagino que tipo de educação vc recebeu mas o simbolo de perseverança que voce, sabiamente mantém integro, sob a forma dessa pó pó pó, deve inundar seu coração de orgulho de sua origem.

    Parabéns e shalon.

  19. José Luiz (da Guanabara) disse:

    Aqui tem um pequeno video que fiz no Encontro de motos Classicas: http://www.youtube.com/watch?v=aCE513rMNYc&feature=related

  20. jugger disse:

    Quanto mais conheço as histórias desta época mais tenho certeza que nasci no tempo errado. Nasci para lutar nessa guerra, matar nazis…

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo