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12/11/2008 - 12:31

INFINITO

SÃO PAULO (até mais, garoto) – Eu e meu carro de corrida sempre fomos de poucas palavras. Acho que pilotos e carros não gostam de falar muito em dia de corrida. Só o essencial. Vamos lá, garotão, e um tapinha no painel, era tudo que eu dizia antes de sair dos boxes. Depois, silêncio total até a bandeirada, e um boa, garoto, voltando aos boxes. Na posição que fosse, em geral a última, o que nunca me incomodou muito.

Nada me incomodava no #96, nem mesmo suas quebras, que foram muitas, a falta de velocidade nas retas, a dificuldade para subir aquelas pirambeiras da Junção e do Laranjinha, as milhares de bandeiras azuis que vi nestes últimos seis anos. Nada. Porque ele me ensinou algo que, talvez, só um carro de corrida saiba dizer.

O #96 me ensinou o que é o infinito.

Uma pista de corrida é isso, o infinito, não se sabe onde começa, nem onde termina, e a gente só pára uma hora porque alguém manda parar, senão seria o infinito literal, acelerando e acelerando até o fim dos tempos.

Mas depois a gente volta, retoma de onde parou, antes e depois são apenas pausas nessa corrida pelo infinito que só dentro do capacete se compreende.

Sempre fomos de poucas palavras, eu e esse carro, e depois do vamos lá, garotão, era só o silêncio do motor gritando, acho que já escrevi isso antes, é estranho o silêncio dentro de um carro de corrida, porque no fundo você está só, levando aquele monte de ferro e borracha a lugar algum, e ele te leva sem perguntar nada, à espera, talvez, apenas do boa, garoto.

Ontem à noite o #96 se despediu da cidade, de seu piloto e de alguns de seus amigos e torcedores. Caramba, um carro que tem torcedores… Sem nunca ter vencido uma corrida sequer, que pode contar nos dedos as ultrapassagens que fez, a antítese da competição.

Mas era, é, meu carro de corrida, aquele que mostrou para mim o prazer de correr pelo infinito, não importa a qual velocidade, e foi por isso que ontem, quando tive de colocá-lo no caminhão, depois de ver os amigos e torcedores no bar, saí acelerando feito um alucinado pelas ruas do bairro, sem dizer uma palavra, e ele saiu junto gritando feito outro alucinado, até que duas voltas no quarteirão depois o #96 subiu a rampa e eu disse a ele boa, garoto.

Foi uma noite festiva, porque na verdade estávamos lá para celebrar o que o carro conseguiu, reunir gente, fazer pessoas se conhecerem e manter viva a paixão pelo automobilismo, que é o que nos une, e não dar um adeus definitivo a ninguém. Não derramei uma lágrima sequer, porque não tinha mesmo motivos para chorar, fiz isso em silêncio na última corrida, sozinho lá na Reta Oposta, longe de todos, e ontem todos estavam lá para vê-lo aos sorrisos, e só me emocionei mesmo quando vi o seu Alfredo, companheiro de primeira hora, dando um tapinha e um suave beijo na sua capota antes de ir embora.

O #96 é um carro especial, mas só quem conhece carros especiais sabe do que estou falando. Eu não vestia sua camiseta ontem, como muitos, e lá pelas tantas o Dú me perguntou cadê a minha, e tudo que fiz foi apontar para o carro e dizer que minha camiseta é ele, o carro, é ele que me veste e me vestiu nestes últimos seis anos na busca pelo infinito, por todos os infinitos, dentro do carro a gente pensa em tudo isso, no amor infinito, na vida infinita, na pista infinita, na alegria infinita, no gozo infinito.

Só um carro de corrida faz isso, e por isso sou grato a ele.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): #96, Superclassic, farnéis Tags:

151 comentários para “INFINITO”

  1. Caíque. disse:

    Uma Noite muito legal, revendo amigos e me despedindo do 96. Muito legal também os papos com o Alfredo, Guerra, Du, rever o Vitão, Tohme, Saloma, Eric, todos…valeu estar em Sampa ontem e agradeço ao amigo Juca por me levar junto e ver o FG dando umas esticadas no quarteirão.

  2. Caíque. disse:

    Não dá par esquecer do Fábio e suas Miniaturas…show!!!

  3. Fabio Morais disse:

    Puta texto, Kamarada Flaviov. Merecia estar no teu livro.
    É isso. A paixão por aquilo que faz ( e fez, no caso do #96) é que torna cada leitura tão agradável para os blogueiros.
    Parabéns. E sem choro, que o DKV não morreu, só tá guardado…

  4. Conde disse:

    Me emocionei . Boa Garoto !

  5. Ricardo Laika Autoba3 disse:

    Até mesmo eu que, começei a acompanhar o 96 somente em sua fase final, fiquei bastante emocionado com o vídeo….!!!

  6. gabriel mrques disse:

    Lindo!!!

  7. Flavio

    Pq vc tem o dom de fazer os outros chorar? Pq, hein? Já perdi as contas de qtas vezes eu chorei lendo o seu “infinito” blog… e vou continuar lendo… e vou continuar chorando de emoção…

    Nem a McLaren MP4/4 (1988) de Ayrton Senna é melhor do que o seu #96!!!!!! Nem o Hudson Hornet, do filme Carros, é melhor do que o seu #96!!!!

    NUNCA SERÃO!!!!

    #96 Eterno!

  8. Romeu disse:

    Uma despedida coerente com a grandeza da Deca #96.
    O carro com alma, com personalidade, metido e ousado, pois adorava desafiar os adversários mais fortes, mais robustos, mais bravos e mais bem nutridos.
    Enfrentou a todos, com hombridade.
    Não venceu, mas convenceu.
    Com a sua simpatia e o seu carisma, formou uma familia, juntou uma torcida, aproximou pessoas, fez amigos, aglutinou um bando de malucos, que se reuniam só pra ver as proezas de que era capaz pelas pistas.
    Despede-se sem tristeza, mas com a mesma alegria e admiração que proporcionava à sua torcida/familia, pelos autódromos infinitos que percorreu.
    Vai ter um merecido e digno descanso, ao lado de outras personalidades importantes, que contaram um pouco da história do automobilismo brasileiro.
    Vai lá #96, voce merece!
    Sempre que se conta uma boa história do nosso automobilismo, tem um DKW Vemag envolvido.
    Voce #96, não fugiu a regra.
    Tchau amigão, nos veremos em Passo Fundo.

  9. Ike Nodari disse:

    Sensacional. Eu tive uma única oportunidade de ver o Super #96 em ação e além disso, pude “vestí-lo”. Fotografei-o de todos os ângulos, internos e externos, e ali dentro do habitáculo me imaginei deslizando pelo asfalto de interlagos a bordo daquele “carrinho mágico”. Desde a minha infância pude acompanhar a saga da marca DKW nas pistas e foi de lá que surgiu a paixão. Não só pelas corridas mas, também, pelo carro. Você merece os parabéns por ter se mantido fiel à originalidade da mecânica, mesmo sabendo de suas limitações, para prolongar por alguns anos a mais a história competitiva da marca. Agora ele terá o seu discanso merecido, e melhor, em boas mãos. Assim como tantos outros blogueiros, confesso que me emocionei ao ler essa pequena dedicatória de despedida. Valeu FG, valeu bom e velho #96. Sorte ao novo. Um abraço emocionado de um eterno vemagueiro. Abraços

  10. Alexandre Gomes disse:

    =´)

    Vlw,#96!!!

  11. Thiago Azevedo disse:

    Belo texto, Gomes!
    O Deka é um carro diferenciado, mesmo! Não é à toa que tem vários fãs. E seus fãs são pessoas que realmente gostam de automobilismo.
    Vai dar saudades! Mas, eu vejo esse período como um passeio do Deka, uma viagem a um spa, a um lugar onde repousará tranqüilo, junto de uma turma de primeira, da diretoria! Estará muito bem, pode crer!

  12. Belair disse:

    Outro dia escreví aqui sobre o orgulho do FG na cobertura do GP e sua equipe,seus feitos,etc.
    Hoje, me dou o direito de escrever sobre o MEU orgulho; de conhecer todos aqui, seja pessoalmente ou através do que voces postam. Gente que escreve muito melhor do que alguns “imortais” de academia ( cada um deles sabe a quem me refiro) , gente que é economica nas palavras , gente que raramente se manifesta, gente que nem gosta de se manifestar…
    O catalisador dessa “química” em grande parte foi o #96.Ele foi descansar. Essa trupe toda fica,ligada,unida.Pronta para mais.
    Mesmo ausente ontem(não deu), é um puta orgulho estar entre vocês.TODOS ! Obrigado.

  13. AndersonTS disse:

    O clipe é do cacete! Me parecia a abertura de Anos Incríveis, aliás, esses anos de corrida do 96 podemos dizer sim que foram anos incríveis! Agora, o garoto terá suas merecidas férias ao lado de outros grandes da história automobilística e também das pistas.
    Seu pupilo, o 69, vem com tudo pra mostrar que aprendeu com o mestre.
    E pra arrematar (em pé)…

    CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP!

    …boa, garoto!

  14. André Gil disse:

    Sabe, Flávio, nós, torcedores da Portuguesa, somos assim mesmo… mesmo estando em ultimo lugar, de sermos apenas meros figurantes (e doí falar isso) nos campeonatos, jamais deixamos de acreditar e amar as coisas simples, jamais deixamos de ser nós mesmos. O #96 foi a Lusa do Automobilismo, nunca ganhou nada, mas conseguiu ser o mais querido de Interlagos. Tanto é que só ele mesmo para ser atração de um museu. Boa sorte em sua nova jornada com o MeiaNov. E o video ficou show…

  15. vivi disse:

    belíssima homenagem!

    vida longa ao 96 e ao meianov

    beijos

  16. Cristiano Azevedo disse:

    PQP… Me arrepiei!!!

  17. Olavo Taube disse:

    Infelizmente eu não vi o #96 correndo, que me aguarde o #69!

    Belo texto Gomes, belíssimo!!

  18. Mauri Floriani disse:

    Gomes,

    Depois do texto “A Revolução dos Bravos”, foi o texto mais emocionante que já li.

    Simplesmente relata a emoção vivida de perto por uma grande paixão.

    E nos dois textos, você relatou suas duas grandes paixões: a Portuguesa e o #96.

    Parabéns, belíssimo texto!!!

  19. Fábio Dalri disse:

    Texto emocionante.

    Abraço!

  20. Fabiani C Gargioni disse:

    Realmente, só quem ama o automobilismo viaja literalmente no teu texto, somente quem acelera um carro de corrida sabe o que tu tá falando! Parabéns para vc, para o 96 e boas vindas para o meyanov ou meianov não lembro mais, um abraço.

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