INFINITO
SÃO PAULO (até mais, garoto) – Eu e meu carro de corrida sempre fomos de poucas palavras. Acho que pilotos e carros não gostam de falar muito em dia de corrida. Só o essencial. Vamos lá, garotão, e um tapinha no painel, era tudo que eu dizia antes de sair dos boxes. Depois, silêncio total até a bandeirada, e um boa, garoto, voltando aos boxes. Na posição que fosse, em geral a última, o que nunca me incomodou muito.
Nada me incomodava no #96, nem mesmo suas quebras, que foram muitas, a falta de velocidade nas retas, a dificuldade para subir aquelas pirambeiras da Junção e do Laranjinha, as milhares de bandeiras azuis que vi nestes últimos seis anos. Nada. Porque ele me ensinou algo que, talvez, só um carro de corrida saiba dizer.
O #96 me ensinou o que é o infinito.
Uma pista de corrida é isso, o infinito, não se sabe onde começa, nem onde termina, e a gente só pára uma hora porque alguém manda parar, senão seria o infinito literal, acelerando e acelerando até o fim dos tempos.
Mas depois a gente volta, retoma de onde parou, antes e depois são apenas pausas nessa corrida pelo infinito que só dentro do capacete se compreende.
Sempre fomos de poucas palavras, eu e esse carro, e depois do vamos lá, garotão, era só o silêncio do motor gritando, acho que já escrevi isso antes, é estranho o silêncio dentro de um carro de corrida, porque no fundo você está só, levando aquele monte de ferro e borracha a lugar algum, e ele te leva sem perguntar nada, à espera, talvez, apenas do boa, garoto.
Ontem à noite o #96 se despediu da cidade, de seu piloto e de alguns de seus amigos e torcedores. Caramba, um carro que tem torcedores… Sem nunca ter vencido uma corrida sequer, que pode contar nos dedos as ultrapassagens que fez, a antítese da competição.
Mas era, é, meu carro de corrida, aquele que mostrou para mim o prazer de correr pelo infinito, não importa a qual velocidade, e foi por isso que ontem, quando tive de colocá-lo no caminhão, depois de ver os amigos e torcedores no bar, saí acelerando feito um alucinado pelas ruas do bairro, sem dizer uma palavra, e ele saiu junto gritando feito outro alucinado, até que duas voltas no quarteirão depois o #96 subiu a rampa e eu disse a ele boa, garoto.
Foi uma noite festiva, porque na verdade estávamos lá para celebrar o que o carro conseguiu, reunir gente, fazer pessoas se conhecerem e manter viva a paixão pelo automobilismo, que é o que nos une, e não dar um adeus definitivo a ninguém. Não derramei uma lágrima sequer, porque não tinha mesmo motivos para chorar, fiz isso em silêncio na última corrida, sozinho lá na Reta Oposta, longe de todos, e ontem todos estavam lá para vê-lo aos sorrisos, e só me emocionei mesmo quando vi o seu Alfredo, companheiro de primeira hora, dando um tapinha e um suave beijo na sua capota antes de ir embora.
O #96 é um carro especial, mas só quem conhece carros especiais sabe do que estou falando. Eu não vestia sua camiseta ontem, como muitos, e lá pelas tantas o Dú me perguntou cadê a minha, e tudo que fiz foi apontar para o carro e dizer que minha camiseta é ele, o carro, é ele que me veste e me vestiu nestes últimos seis anos na busca pelo infinito, por todos os infinitos, dentro do carro a gente pensa em tudo isso, no amor infinito, na vida infinita, na pista infinita, na alegria infinita, no gozo infinito.
Só um carro de corrida faz isso, e por isso sou grato a ele.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): #96, Superclassic, farnéis Tags: despedida
Caramba, eu não conhecia a historia do #96, nem mesmo nunca fui interessado no DKW, mas esses poucos meses que frequento esse blog me fizeram adorar esse carrinho, e esse texto me emocionou bastante! Me imaginei me despedindo de um dos meuscarros… não seria nada fácil
Parabens, Gomes, e parabéns #96 e a toda equipe que fez com que ele existisse.
Flavio, de tudo o que você escreveu até hoje, este texto foi o mais belo e útil, agor acredito mesmo que voc~e tem uma paixão pelo seu DKW, infelizmente não sabia desta despedida, trabalho ao lado do IG na amaury, e é automático quando passo lá, lembrar da figura do DKW e depois é que lembro de você. Parabéns Flavio, isto me inspirou a tão logo, comprar um carrinho que eu julgue especial, que eu tenha amor incondicinal pelo meu futuro carrinho, assim como voc~e tem pelo eterno DKW #96.
Parabéns e vida longa a vocês dois.
Flavio:
Vc pode imaginar minha frustação de não ter podido comparecer.
O Dú me avisou de tarde e eu já estava compromissado sem chance de cancelar.
Encontrar a gang sempre é muito divertido .
Agora tenho mais um pretexto para dar um passeio no sul e conhecer – finalmente – o museu do Trevisan.
O que esse carrinho fez/reuniu/apaixonou/divertiu/encantou a tantos não tem explicação racional.
e QUEM SE IMPORTA COM ISSO?
Ele está presente em corações e mentes de muitos.
Eu estou dentre esses.
Abraço.
Lindo texto, Flávio. Lindo. Coisa de poeta. Coisa de quem rompe as barreiras – sejam elas quais forem – e alcançam o infinito. Nunca vi o 96. Mas já estou morrendo de saudades. Talvez, no caminho para a glória, ele esteja dizendo o que você disse: boa, garoto. E acrescentando, como Exupery: libertei-me dos grilhões da terra e dançei no ar com asas coloridas…
Só podiam ser seus: o #96 e esse texto.
Falar o quê, depois de ler tudo isso?
Olá Flávio,
Não sei porque não postasse meu último comentário, mas tudo bem, te perdoo. Agora o vídeo tá quase como tributo a Schumacher, mas valeu. O que seria de nós mortais se não tivessemos sonhos. É como um amigo meu jogando futebol. Quando faz um gol, comemora como se tivesse jogando no San Ciro ao lado do Kaka. Mas é isso, o grande barato da vida.
Abraços
Flavio, fizeram o seu Lada 69 p/ um jogo de computador (GTR2)…
Da uma olhada lá…
http://www.nogripracing.com/gallery/showphoto.php?photo=42174
O nome do piloto é Flavio Gomov, hahahahaahha
Só você mesmo, Flavinho…que lindo !!!
Valeu garoto….. bravo, 96. Obrigado por tudo que você fez, por trazer de volta o gosto pelas corridas, por despertar na gente aquilo que só um carro especial faz. Obrigado por trazer de volta a magia, o momento e até o cheiro dos bons tempos (na verdade, 2). Obrigado por mostrar, mesmo em sua simplicidade, quão grande pode ser um carro. Obrigado por tudo, principalmente por ter conseguido o que nenhum carro havia conseguido até então. Reunir, ao mesmo tempo, a velha guarda do automobilismo, e os novos que nunca haviam visto um DKW na pista.
Obrigado, principalmente, por mostrar que, mesmo sem chances, sempre foi um vencedor. E essa característica, só os especiais tem. E você, sem dúvidas, é o mais especial deles.
Até logo, meu amigo. E nunca se esqueça: Amigo é coisa para se guardar, do lado esquerdo do peito.
O 96 saiu da atividade para entrar para a história, linda a crônica,FG , vc deve ter ficado igual pinto no lixo em Caxambú esse ano,hehehehehe,abraços do Maluhy.
O texto e o vídeo ficaram muito legais.
A disputa com o Aero Willys (on-board) tava boa, hein! A ultrapassagem na Alfa no Mergulho também foi duca!
Também gostei da foto com o skyline de Londrina ao fundo.
Lindas imagens de um grande carro que deixa saudades e um punhado de admiradores.