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16/09/2008 - 12:18

SENNA E VETTEL

SÃO PAULO (mais uma…) – Quem se mete a falar e escrever sobre F-1 no Brasil deve tomar alguns cuidados. Não criticar Ayrton Senna, por exemplo. É certeza de porrada por todos os lados. Ayrton, piloto excepcional e personagem enigmático, foi alçado à posição de santo informal por estas bandas do planeta, muito mais pela forma como morreu, uma espécie de mártir do esporte, do que por aquilo que fez nas pistas — proezas inacreditáveis, vitórias espetaculares, títulos inesquecíveis.

Tivesse seguido a carreira e passado pelos ciclos quase inevitáveis a qualquer esportista — a decadência técnica e o fim da linha, quando não se sabe bem a hora de parar, algo que acho que ele saberia escolher, porque não era bobo —, seria apenas um ídolo. Um grande ídolo, talvez o maior que o país já teve no esporte, mais até do que Pelé, porque Pelé não viveu seu auge numa era midiática como Ayrton e não teve uma emissora poderosa de TV a zelar por sua imagem, graças à amizade pessoal com a voz oficial das corridas (não é preciso insinuar nada aqui; Senna era muito amigo de Galvão Bueno, e isso resultava num viés indesejável das transmissões e coberturas da TV Globo que contrariava o bom jornalismo).

Ocorre que a idolatria a Senna, muitas vezes, passa dos limites. Vira devoção cega. Aí, não é só quem o critica que leva cacetada: basta não elogiá-lo, ou elogiar outros pilotos usando-o como parâmetro, mencionando seus feitos e procurando relativizá-los.

Aconteceu domingo por causa de Vettel. Escrevi que a vitória do alemãozinho em Monza foi um feito mais notável que o segundo lugar de Senna em Mônaco/1984, a corrida que o apresentou para o mundo. E mais notável também que a primeira vitória de Schumacher, de Benetton (equipe que já tinha vitórias no cartel), ou de Alonso, de Renault, ou de Fisichella, de Jordan.

Claro que as reações foram somente à comparação com Mônaco/1984. O tom chega a ser engraçado: “como ousa falar…”, “como tem coragem de dizer…”, “de onde você tirou que…”, “nunca alguém pode comparar nosso Ayrton com…”.

E aí, automaticamente, o elogio a Vettel vira uma crítica a Senna — o que é, evidentemente, um equívoco. A cegueira da devoção leva a isso. 

Schumacher foi demonizado por uma parcela dos torcedores brasileiros de F-1 porque superou todos os recordes de Senna. “Ele não conseguiria se Ayrton estivesse vivo…”, “o alemão é um safado, sujo e imoral…”, “com a Ferrari, até eu…”, “a equipe o protegia…”, e por aí vai. O carimbo de inimigo da nação vai demorar a sair de sua testa, como demorou com Prost, piloto do mesmo nível, feito do mesmo material.

O crime maior era (é) dizer que Schumacher foi melhor que Senna. Como Schumacher parou de correr, tal discussão, felizmente, esfriou. Agora o santo nome de Ayrton é evocado de novo para que se trace um paralelo entre ele e este jovem e impetuoso Vettel. Coitado, deve se revirar no túmulo diante de tanta histeria. Senna era tímido, e se tem uma coisa que nunca precisou, foi de gente para defendê-lo. A lembrança daquela corrida de Mônaco é natural, foi um desempenho tão raro quando o do piloto da Toro Rosso, é obrigação de qualquer um que fala/escreve sobre F-1 lembrar daquele episódio tão marcante.

Mas não pode, aquela foi a maior performance de todos os tempos e ponto final. “Como ousa?”.

Uai, eu achei a do Vettel melhor. Posso?

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): F-1 Tags: , , ,

566 comentários para “SENNA E VETTEL”

  1. Virgilio Gimenes disse:

    Falta de informação é o pior defeito de fans-meia-boca, que por qualquer coisa chamam os admiradores do Senna de “viúvas”. Acompanho a F1 desde 81, e não é só via Globo e reprisinha fajuta no Fantástico não. Tenho é pilhas de revistas Autosprint, F1 Racing, Auto Sport e por aí vai, e para quem não sabe, em todos os países que possuem cultura automobilística o Senna é considerado o maior gênio da história desse esporte. Fangio, Stewart, Schumacher, Lauda, Rosberg, Mansell e outros já fizeram declarações oficiais para publicações mundiais sérias, afirmando que Senna é indiscutivelmente o melhor piloto que a F1 já viu correr. Mais uma informação gratuita nos bebês que nem viram o começo da carreira do Schumacher, no Japão o Senna é mais venerado que aqui no Brasil, na Inglaterra ele é reverenciado tanto quanto o Mansell, e olha que nesses países não tem nenhum Galvão pra fazer lavagem cerebral em ninguém! O Vettel é bom, muito bom, mas são condições totalmente diferentes. Lembrem-se (se puderem), o Alesi também foi muito bom nos primeiros anos, o Montoya também, o Kubica também e por aí vai. Se em Mônaco o Senna tivesse largado na pole, ele tinha dado volta de vantagem sobre o segundo (o Prost), manda o Vettel fazer igual…

    • Pedro Pádua disse:

      Grande Virgílio! É isso aí. Assino por baixo esse depo.
      O Ayrton além do excepcional piloto, era um ser fora do comum dos mortais!
      Basta só ver qual o piloto ou outro esportista que até hoje preocupou (de coração) com as crianças deste mundo!
      E tem mais, jamais me vai sair da minha mente e de muitas mais pessoas, o sorrir ciníco do shumacher quando venceu aquele terrivel Grande Prémio de Ímola de 1994!
      Enquanto Ayrton subia ao céu, cá em baixo alguém se dava por satisfeito por não ter mais rival nenhum que conseguisse lhe fazer frente. Bem que schumacher poderia ter disfarçado melhor a triste e repugnante cena que fez mas enfim, os actos são para quem os pratica!
      Abraço!

  2. Felipe disse:

    “Senna não foi tudo isso não.”

    Tenque dar risada com umas coisas dessas no post acima…

    O pior é que a maioria que fala q senna não é td isso não acompanhou a carreira dele e ainda no post do MassaXRubinho falam que o barriquelo eh melhor, tenq dar risada mesmo auahauahuahauahauha comédia, mas faze o que né, afinal opiniao cada um tem a sua…

    ahauhauahauha

    “Senna não foi tudo isso não.”

    ahauhauahuaha

    meu deus…

    vai fala pro schumacher fazer uma corrida inteira desde a terceira volta com F3 na decada de 80 em silverstone sem embreagem… só trocando marcha com o barulho do motor e vencer a corrida de ponta a ponta…

    vai fala pro schumacher qual foi o tempo dele no primeiro treino que fez na F1, o cara que não foi tudo isso quebrou o recorde da pista de donington na primeira vez que andou com uma F1.

    ahuahauhauahauha

    “Senna não foi tudo isso não.”

    aahuahauahauahuah

    comédia

  3. Fernando disse:

    Gomes, e seu intuito em comparar a performance de Vettel com a de Senna em 84 era qual, mesmo?
    Concordo plenamente com vc quando diz que no Brasil deve se tomar cuidado ao falar e escrever sobre F1. Há um lado que santifica seus ídolos e outro que os menciona só pra criar polêmica, só pra ser “o cara que ousou dizer o contrário”.
    Acho uma pena que um “terceiro lado”, o da imparcialidade, seja tão raro por essas bandas.

  4. Renato Giatti disse:

    Realmente Flávio Gomes temos que tomar muito cuidado ao falar de F-1 no Brasil pois temos pessoas que são meio retardadadas da cabeça e não aceitam de jeito nenhum que uma pessoa ache que outro piloto foi melhor que o Senna , não desmereço ele de jeito nenhum acho que ele foi um grande piloto mas não o melhor de todos, pois esse titulo pertence a Juan Manuel Fangio na minha opinião mas vai falar isso para as algumas viuvas para ver a reação delas, só falta querer bater na gente.

    • Pedro Páduap disse:

      Oh Renato, com o devido respeito, coloca qualquer piloto a fezer a última parte do Grande Prémio de Interlagos só com a 6ª marcha e depois me fala até onde eles chegam…
      Ah, só mais um detalhe “sem importância”: fala p eles que a pista está molhada…
      Nem vou falar do Mónaco de 84, Estoril de 85, Donington de 93…
      Abraço!

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