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24/08/2008 - 12:47

FIM

PEQUIM (hi, London) - A China termina seus Jogos como campeã absoluta nas medalhas de ouro, com 51, mas perdendo para os EUA no total: 110 x 100. Assim, a imprensa americana dirá que os EUA ganharam, e o resto do mundo dirá que a China ganhou.

O que não tem a menor importância.

Serão muitos os balanços baseados em números, todos muito interessantes, que vão pipocar na imprensa especializada nos próximos dias: o crescimento de um país, a queda de outro, a relação medalha/habitantes, ouros per capita, recordes, PIB, IDH, tudo. Digo que são interessantes porque o esporte, em muitos casos, é o espelho de uma nação. E, normalmente, os países mais desenvolvidos acabam à frente daqueles que ainda têm coisas para resolver.

Oh, grande novidade.

A novidade é que não é sempre assim. O Brasil, por exemplo, terminou os Jogos de Pequim à frente da Dinamarca, da Suíça, da Finlândia e da Bélgica. Não quer dizer que seja um país mais aprazível para se viver do que esses todos. E ficou atrás da Jamaica, do Quênia e da Etiópia. Sendo muito sincero, eu não trocaria as ruas esburacadas da minha querida e problemática São Paulo pelas ervas jamaicanas, pelos rinocerantes quenianos ou pelo famélico landscape etíope.

O resultado final de um país numa Olimpíada indica, na maior parte das vezes, como ele se preparou esportivamente, e qual o grau de prioridade com que distingue certas modalidades. Só isso. A Dinamarca e a Finlândia, por exemplo, estão cagando e andando para os 100 m rasos ou para o futebol. Mas vai ver o que eles fazem nos Jogos de Inverno com esquis e patins. É tudo uma questão de prioridade.

Dos 204 comitês olímpicos nacionais inscritos para os Jogos, 87 foram agraciados com ao menos uma medalhinha. 55 ganharam medalhas de ouro. Sete ficaram com apenas um bronzezinho, e acho que cada um desses sete merece uma lembrança: Afeganistão, Egito, Israel, Moldávia, Ilhas Maurício, Togo e Venezuela. No total, foram distribuídas 958 medalhas, 302 de ouro, 303 de prata e 353 de bronze.

O Brasil ficou em 23º no quadro de medalhas, com três de ouro, quatro de prata e oito de bronze. Pelo critério de total de medalhas, as 15 brasileiras colocam o país em 17º. Igualou-se o recorde particular de Atlanta/1996, também com 15. Mas não o desempenho de Atenas em ouros, cinco.

Isso tudo, de um ponto de vista muito pessoal, também não tem a menor importância. Alguém haverá de dizer, se já não disse, que o Brasil foi demais, nunca chegou a tantas finais, está na cara que está crescendo “a nível internacional” e tudo mais. Alguém haverá de dizer que foi uma merda completa, que a ginástica foi um fiasco, que o judô deveria ter trazido um ouro, que a natação foi um embuste, tirando o Cesar Cielo, que o futebol foi uma vergonha e todo mundo terá razão, tanto aquele que achou que foi demais, como aquele que achou uma bosta.

Eu não achei nem uma coisa, nem outra.

Achei que um mês de China iria me encher o saco, porque ando meio impaciente, ultimamente, com quase tudo. Achei que um mês de China seria um transtorno que colocaria minha vida de ponta-cabeça, porque no fundo ando me preocupando com muita coisa irrelevante, ultimamente. Achei que um mês de China, no fim das contas, para quem já fez tantas coisas na vida, seria apenas isso: um mês num país que não me diz nada de especial.

Mas não foi.

Cheguei há pouco mais de 20 dias, e quando tento me lembrar desse distante dia 1, parece que foi em outra vida. O primeiro contato com o apartamento, com minha nova cama, meu novo banheiro, a vista da janela, a gaveta dos talheres, o açucareiro improvisado, o prato da manteiga, a torradeira, o café solúvel, a textura da toalha, a visita ao supermercado, o cálculo dos preços, a nova portaria, o novo elevador, a mão das ruas, os cheiros das calçadas, os sons das buzinas, o encontro com os colegas da TV, a primeira visão do Parque Olímpico, a imersão nos estúdios, o lugar na sala de imprensa, o gosto da comida, a chegada do trio, o pub da primeira noite, o restaurante da segunda, os bares da terceira, e grava, e escreve, e entrevista, e telefona, e vai até ali, e volta para cá, e encontra um, e encontra outro, e tudo começa a ficar familiar, uma nova vida vai se construindo a cada minuto, a cada visão pela janela do táxi, a cada caminhada sob o sereno da madrugada pelas alamedas de Chaoyang.

Como se vê, é muito mais do que um evento, mas um mergulho mesmo numa nova vida, em que não há dois dias iguais, porque eles são pautados por aquilo que não é a sua vida normal, um dia é um jogo, no outro é um salto, e depois um mergulho, e uma cesta, e um saque, e uma decisão, e um choro, e uma explosão de alegria, estamos aqui para isso, afinal. E quando o dia termina, e esticamos o dia ao máximo, esperando que mais novidades nos sejam apresentadas pelo acaso, porque só as agendas esportivas já não nos bastam, o sono passa a ser quase um estorvo, porque aí queremos mais e mais, sugar os dias até o bagaço, como sobreviventes de uma catástrofe nuclear que sabem que em algumas horas estarão deformados e mortos, e por isso cada segundo, cada um deles, tem de ser muito especial.

Foi isso, a minha Olimpíada. Não me comovi com recordes, mas me comovi com a noite calada das ruas de Pequim e com a maciez da pele de algodão nos bancos dos táxis que começavam e terminavam meus dias admiravelmente novos. Não me comovi com medalhas, mas me comovi com passeios que imagino terem sido longos por um parque onde algumas pessoas ainda andam de mãos dadas. Não me comovi com vitórias, mas me comovi com a simplicidade de um gesto, de um olhar e de um sorriso oriental. Não me comovi com derrotas, mas me comovi com a redescoberta da cumplicidade entre amigos velhos e novos.

Me comovi com os longos silêncios e com o reencontro comigo mesmo, com algumas lágrimas e gargalhadas que não julgava mais ser capaz de.

Me comovi porque aconteceram tantas coisas que eu achava que não aconteceriam mais.

Olho para o lado agora e tenho a impressão de que só eu tenho essas idéias distorcidas de algo que, provavelmente, não passa do que é. Que estou ficando piegas e bobo, que deveria fazer o que todos ao meu lado fizeram nestes dias, trabalhar mais, furiosamente, ver tudo, estar em todos os lugares, vibrar, socar o ar. E por isso fico de novo com a sensação de que fiz muito menos do que todos, muito menos do que poderia, muito menos do que deveria.

Mesmo assim, quando voltar levando tal remorso na bagagem, sei que vou chegar e sentir um vazio no estômago. Talvez o mesmo vazio que esta cidade vai sentir amanhã, quando tantas vidas que vieram até aqui com dia marcado para ir embora começarem a partir.

E as minhas 20 e poucas vidas novas de 20 e poucos dias diferentes em Pequim irão aos poucos se transformar em lembranças que com o passar do tempo ficarão esfumaçadas, difíceis de enxergar e de compreender, o que é uma pena, porque eu queria lembrar de tudo para sempre.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags:

98 comentários para “FIM”

  1. mãe do Flavio disse:

    Parabéns Flavio, pelo seu trabalho. Medalha de ouro em literatura.
    Estamos todos esperando ansiosamente por você.
    bjos

  2. regi nat rock disse:

    Francamente, fica até irritante TER que elogiar seus rabiscos.
    Nem pode ser diferente é claro. Vai escrever bem lá na academia pombas, pq tem um monte que usa o fardão sem merecimento.
    Enfim, coisas próprias do nosso Brasil.

    Doces escritos que permitem aflorar sentimentos que a maioria quase absoluta, faz questão de esconder.
    Ouso dizer que vc é, realmente, um cara feliz por inteiro.
    E não tem vergonha de mostra-los.
    Os percalços do dia a dia nada tem a ver com isso.

    Parabéns cara, vc merece todos os elogios, sem frescuras porque é verdadeiro.
    Bem vindo de volta, para com os teus; e com seus muitos amigos…

    E na polemica do Padock, dei minha versão da história do Gunnar, conforme o Emerson contou. NãO bate com a do data-Joaquim. E agora?

  3. Adenilde petrina disse:

    Parabéns….pela sensibilidade e por mostrar uma China diferente…. tambem não me comoví pelo ouro das mal educadas do volei mandando -nos calarmos a boca, tambem não me comovi por recordes – são treinados para isso, cumpriram sua missão e não mer comoví pela perfomance do Brasil – a nossa vida continua como sempre. Bacana nesta olimpíada foi descobrir seu blog: isso foi ouro dos mais valiosos! de carro não entendo muito, mas gosto de literatura! Parabéns e obrigada!

  4. Romeu Nardini disse:

    Valeu Flavio! O texto maravilhoso de sempre.
    Parabens pela sua cobertura dessa Olimpíada.
    Foi muito bom acompanhar tudo por aqui, da maneira como voce nos enviou.
    Uma visão totalmente diferente de todos os outros orgãos de comunicação.
    Estivemos o tempo todo na China, sem ter saído daqui.
    Medalha de Ouro pra voce!

  5. Luis Biason disse:

    Flávio,
    para ser sincero, não gosto de comentar nada nestes blogs da vida, mas eu ainda acho que existe inteligência nesta nossa terrinha chamada Brasil.
    Nada disso que esses “donos-da-verdade” tentam empurrar pela güela abaixo seus comentários ufânicos (credo inventei uma parola) , aliás sem sei se alguém lê essa porra.
    Fico p.da vida e só confio em você, sabe o que falta realmente… em tufdo, não só hoje … aliás somos passionais d+ … MATÉRIA PRIMA DE QUALIDADE… em tudo. Pense bem, receita para tudo é fácil …. o que falta SÃO INGREDIENTES de qualidade.
    Que droga … estou bêbado, chateado e com muita coisa na cabeça para falar, PRECISAMOS de matéria prima de QUALIDADE para sobressair. Saco vou parar … ciao fraleto

  6. rodrigo disse:

    Gomes, ainda bem que acabou as olimpiadas, agora vamos falar de corridas, F1 essas coisas?

  7. Fabio disse:

    Mais sincero, impossível.
    Obrigado pela cobertura sob o olhar de alguém que tem o olhar diferente.
    Abraços !
    Fabio Nigeriano.

  8. Samuel Contin disse:

    Flávio, Parabéns pela cobertura. Passava o dia todo esperando chegar a noite para ir pra casa ler os seus textos da cobertura do dia. Como alguém mesmo citou num dos posts anteriores: você é um grande cronista do cotidiano.
    P.s: Só não fique triste com o resultado da Portuguesa hj…
    sds,
    Samuel.

  9. Jonny'O disse:

    Parabéns Flávio , pelo texto e pela cobertura durante os jogos ,só segui as olimpiadas aqui pelo blog e francamente foi um pouco diferente das anteriores quando acompanhava pelos jornais ,foi muito mais divertido.

    Este ano não coloquei a mão em papel algum para ler algo sobre os jogos ,um dia o jornal de papel vai acabar mesmo.

  10. Douglas disse:

    Putz… de arrepiar esse trecho:

    “E as minhas 20 e poucas vidas novas de 20 e poucos dias diferentes em Pequim irão aos poucos se transformar em lembranças que com o passar do tempo ficarão esfumaçadas, difíceis de enxergar e de compreender, o que é uma pena, porque eu queria lembrar de tudo para sempre.”

    Quantas vezes não me peguei pensando exatamente nisso e não conseguia exprimir isso em palavras.

    Você é o cara, Flávio!

  11. Japones disse:

    Tu eh piegas demais,,,,,, assim como eu… Comovente, o seu texto.

    Emoção eh o que move o mundo. E viva a peguice!!!

  12. Speed Arosi disse:

    A vida é assim mesmo, muitas vezes nos pegamos pensando, se fizemos de menos, se poderiamos fazer mais, etc…etc…

    Mas não podemos esquecer que a vida é uma dádiva de Deus, mesmo que alguns não possam ter oportunidades de vive-la plenamente.

    A sua viagem a China está acabando, a minha começa sexta-feira proxima, estarei rodando por várias cidades e empresas desse imenso pais que conheci um pouco mais através da Olimpiadas, da ESPN e desse blog que participo a tanto tempo.

    POrtanto Flávio, sei que no final de setembro, estarei pensando em várias coisas como vc fez, mas tbm saberei que fui até a China e lá vivi um mês.

    Parabéns pelo seu trabalho.

    Anselmo / São Bernardo do Campo

  13. GERSON JUNIOR disse:

    VAMOS APELIDAR A MAUREEN DE ” MAUREEN MAGGICA”

  14. GERSON JUNIOR disse:

    Flavio. Na minha opinião a maioria destes atletas brasileiros errou a data de embarque para Pequim. Eles deveriam estar chegando daqui a 10 dias.

  15. Seu Silva disse:

    A minha sensação é de que os jogos olímpicos começaram ontem. No entanto, vinte dias já se foram. Foram vinte dias de alegrias e tristezas, mas tem razão o Sr. Gomes, as olímpiadas de Pequim já são estão no passado e olhando bem tudo já parece tão pequeno.

    Amanhã é segunda, a vida continua como sempre.

    FG obrigado por sua cobertura peculiar.

  16. barbara dante disse:

    Belo texto! Existe gente que sabe usar tão bem as palavras, não?
    Você sabe :)

    Eu tinha uma idéia muito diferente da China.
    Ao contrário de muita gente, um tanto quanto ‘deslumbrada’.
    Se essas olímpiadas não foram das melhores para os brasileiros, para mim serviu bastante para ver bem que tipo de país a China é. (O caso da menininha que canta e não aparece é um absurdo)
    Acompanhei os jogos e numa tarde quente aqui no Brasil, enquanto Pequim dormia, tive a oportunidade de assistir um programa muito bom sobre a China e uma chinesinha da minha idade, que demonstra bem a realidade que qualquer país iria querer esconder; chama-se “china blue”, vi que postaram algo a respeito em um outro tópico também aqui, mas sem o link seguinte. acho que todos que tiverem a oportunidade, devem ver do que se trata, ao menos.

    http://video.google.com/videoplay?docid=-5054461327445069014&ei=Ji2ySK7jBZSUrgL31YnwDA&q=china+blue&vt=lf

    Essa farsa de ‘está tudo bem, ocidente, veja como a nossa casa é arrumada’ pra mim já era. os manda-chuvas conseguiram incutir bem na cabeça do seu povo a relação entre esporte/vitória e nacionalismo.
    Só lamento pela maior parte de toda a gente que contunua sofrendo na mão desses governantes pirados.
    Tenho que reconhecer que o esforço feito foi dos maiores para passar uma boa imagem pro resto do planeta. mas do que adianta?

  17. Belair disse:

    Deveríamos organizar umas vaquinhas e pagar para você continuar viajando, E escrevendo, claro. Mas você tem família e precisa voltar. Então boa viagem. E muito obrigado pelo belíssimo trabalho.
    Você tem a sua versão para a morte do Gunnar ? A polêmica vai render…

  18. Jobar disse:

    É triste ver que a potência desportiva que o Brasil é não ter prioridades.

    Um facto (acho que pode ser facto): se a selecção brasileira estava com a bola toda, depois do penta, porquê Filipão abriu mão da sua permanência na selecção? Prioridades! A CBF não tinha presente a prespectiva de um futuro brilhante.

    É só um exemplo.

    Porquê esses famélicos países estiveram a frente do Brasil? Pura e simplesmente prioridades.

    Do meu nem vou falar. Aqui até mandaram nadador doente para Pequim. Aqui parece que faltam políticas.

    Um abraço moçambicano.

    Excelente cobertura!

  19. ronan disse:

    Fim de olimpíada é como despertar em meio a um sonho maravilhoso… Dá aquela raiva misturada com lamento de não poder voltar a sonhar. Belo texto, Flavião! Olimpíada é magia pura!! Até 2014.

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