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22/08/2008 - 10:39

O OURO DA MAURREN

PEQUIM (a história dela) – “Fazer história” é expressão que se usa muito na crônica esportiva, deu uma banalizada, como “sentiu a pressão” ou “o time precisa de uma referência no ataque”.

Mas no caso específico de Maurren Maggi, agora há pouco no Ninho, fez história mesmo, porque desde que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil uma mulher brasileira nunca havia conquistado uma medalha de ouro em prova individual de Olimpíada.

Outra moça já havia, vá lá, feito história aqui, logo no começo dos Jogos, Ketleyn Quadros, com um bronze no judô. Foi a primeira brasileira a ganhar medalha, qualquer medalha, em competição individual.

Assim, temos a história sendo escrita por duas moças, Maurren e Ketleyn, nomes pouco comuns e de trajetórias idem. Maurren passou um bom tempo suspensa por doping, um caso esquisito atribuído, por ela, a uma pomada para depilação. Em muitos casos, eu diria que na maioria deles, atletas pegos em exames antidoping, em qualquer modalidade, têm enorme dificuldade para voltar a competir em alto nível. Não bastasse o tempo parado, há também a desconfiança dos colegas, a lembrança que sempre vem à tona, essas coisas.

Maurren voltou a saltar há pouco tempo e pouca gente acreditava nela. Foi, saltou e ganhou. Isso é bem legal, a menina está de parabéns. E só precisou pular uma vez, a primeira, 7,04 m. Foi o bastante. Ganhou da russa por um mísero centímetro.

Curiosamente, dos 277 atletas da delegação brasileira que vieram a Pequim, Maurren era a única com quem eu já tinha conversado na vida. Não que eu seja um seguidor xiita de provas na pista do Ibirapuera, ou especialista em Troféu Brasil. É que Maurren foi casada com Antonio Pizzonia, piloto da Jaguar pelos idos de 2003, quando ela estava suspensa. Sem nada para fazer, ainda namorada já acompanhava o amazonense a todos os GPs. Mulher muito bonita, mas calada e desconfiada, Maurren aparecia no mesmo ponto do planeta que eu, em média, a cada 15 dias. E nessa convivência acaba nascendo, no mínimo, um conhecimento mútuo — dei toda essa volta para dizer que somos o que se chama de “conhecidos”

Curiosamente, também, Maurren está na galeria de atletas que, algum dia, já pisaram no meu modesto escritório na avenida Paulista. De vez em quando um ou outro piloto aparece por lá para uma entrevista, coisas assim, e quando o Pizzonia foi mandado embora da Jaguar, quebrou o silêncio depois de alguns meses indo à sede da minha holding de uma sala só para contar o que havia acontecido na sua temporada de estréia na F-1.

A Maurren foi junto. Ela não estava dando entrevistas, depois da história do doping. Perguntei, ao final da conversa com o Antonio, se queria dizer alguma coisa. Ela falou que não, e os acompanhei até o elevador e, depois, ao térreo para me despedir, desejando a ambos boa sorte.

Lembrando daquele dia, eu poderia dar uma cascateada ótima aqui, hoje. Vejam se vocês não acreditariam:

“Maurren é uma das poucas atletas que conheço, e a única sobre quem posso dizer que vi nos olhos, um dia, a gana e a vontade de dar a volta por cima fazendo aquilo que tiraram dela: o direito de competir. Há cinco anos, esteve no meu escritório acompanhando o namorado, Antonio Pizzonia, e ficou em silêncio ouvindo a entrevista do piloto. Vi aquele brilho no seu olhar, apesar da quietude. Tenho uma poltrona retrô amarela em meu escritório. Amarela como o ouro que está no seu peito agora. Foi ela que Maurren escolheu para se sentar e esperar Pizzonia falar sobre corridas e sobre F-1. Naquele momento, olhei para ela e tive a certeza absoluta de que aquela carreira não tinha terminado, não. Seria retomada mais dia, menos dia, e com o brilho do amarelo daquela poltrona. Lembrei disso ao vê-la no pódio hoje, e me senti um pouco dono daquela medalha.”

Bom, o que aconteceu, na verdade, é que de fato ela ficou esperando o Pizzonia na poltrona amarela. Primeiro, porque é uma dama e a poltrona é confortável, de fato. E a única que temos. No mais, algumas poucas cadeiras de escritório, feias e sem graça alguma. Me lembro também que tirei minha jaqueta da poltrona, que serve de cabide na maior parte do tempo, para a Maurren se sentar.

E não lembro mais nada.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: , , ,

99 comentários para “O OURO DA MAURREN”

  1. Flávio disse:

    Xará, os textos continuam muito bons, aliás, como todo mundo aí pra cima já disse.

    Tava lembrando aqui de um tempo muito longínquo, quando nós fomos colegas no CEl-LEP da Brigadeiro e você ainda não tinha migrado para a área de esportes. Ainda bem que o fez, porque muitos jornalistas dessa área são ruins de doer, começando pelo medalhista de ouro, o Galvão. É bom saber que tem gente boa trabalhando, como você e vários colegas da ESPN, porque pra gente que é maluco por esportes, dói profundamente ouvir a quantidade de asneiras que os grandes comentaristas produzem a torto e a direito.

    Quanto a Maurren, parabéns é pouco, por tudo que ela passou. Valeu pela luta, por acreditar, por não desistir. Ainda que seja por um centímetro!

    Apenas continuo achando que as pessoas criticam demais a maioria dos atletas, como se fosse fácil ganhar uma medalha olímpica. Ainda mais quando se vê que muitos favoritos de outros países também chegaram lá e “amarelaram”.

    A minha dúvida é: se por um azar nosso, a russa saltasse um centímetro a mais do que a Maurren na sua última tentativa e a nossa campeã tivesse que acertar o seu último salto e não o fizesse? Aí ela seria amarelona também? Por um mísero centímetro?

    Acho que não, né?

    Ainda bem que só os atletas é que tem que dar explicação sobre suas falhas. Já imaginou se fôssemos nós, tentando justificar os tropeços que já tivemos nas nossas vidas?

    Bom, melhor deixar pra lá. Agora, vamos comemorar, torcer pelo volei, pela Natália e pelos maratonistas.

    Ah, e Nigéria desde criancinha …..

  2. Carlos Alberto disse:

    LEIAM ISSO:

    Maurren Maggi nunca se dopou. Eu provo!

    A medalha de ouro de Maurren Maggi representa uma volta por cima de uma atleta exemplar. Espero que ela receba todas as homenagens a que tem direito e um pouco mais. Maurren merece – até porque carrega a dor de uma acusação injusta.

    Em 2003, às vésperas dos Jogos Pan Americanos, Maurren Maggi foi punida e afastada das pistas, num processo anti-dopping. Ela foi acusada de ter feito uso de clostebol, substância proibida pela medicina esportiva. A maioria das histórias de dopping envolvem roteiros cabeludos e explicações incoerentes, mas o depoimento de Maurren sempre foi claro. Ela não se dopou.

    Sem saber, no final de uma sessão de depilação numa clínica de São Paulo, recebeu a aplicação de uma pomada cicatrizante chamada Novaderm. Entre outras substâncias, a pomada continua clostebol – em doses mínimas para afetar o desempenho esportivo, mas suficientes para serem apanhadas num exame médico.

    Eu era diretor do Diário de S. Paulo, naquele momento. Com auxílio de Carlos Alencar, o editor de esportes, decidimos fazer uma reportagem para afastar qualquer dúvida. Escalamos uma repórter, Luciana Ackermann, para ir à mesma clínica de Maurren, fazer a mesma depilação, receber a aplicação da mesma pomada – e depois submeter-se ao mesmo exame médico que ela fizera. O resultado foi o esperado: deu dopping na repórter que, como Maurren, apenas fizera uma depilação.

    Este teste não prova que o exame médico estava errado mas mostra que aplica-se rigor demasiado em quem não merece –e muitas vezes deixa escapar quem não devia, não é mesmo?

    Também prova que Maurren tinha uma qualidade que só faz bem a uma grande atleta – caráter.

    http://paulomoreiraleite.com.br/colunaepoca/2008/08/22/maureen-maggi-nunca-se-dopou-eu-provo/

  3. nilton disse:

    muito antes de ser uma menina de ouro, muito antes de ser sra pizzonia, ela já acompanhava o pai, kartista do interior de são paulo, parabénsss

  4. Jonathas Nascimento disse:

    Lindo texto!
    Se alguém merecia ganhar uma medalha nessas olimpiadas, era Maurren! Sua gana, sua força de vontade, sua volta por cima, isso é um mérito que só os campeões possuem! Uma lição de vida pra gente que acorda cedo, rala, rala, e muitas vezes perde. Mas acho que como Maurren não devemos nunca desistir, pois o não de hoje poderá ser um sonoro sim amanhã! Fé e perseverança sempre!! parabéns Flávio, o texto é tocante!

  5. Roberto Torres disse:

    Fg
    Quanto a vc, o texto foi bom e hilário.
    Quanto a Maurren, é um exemplo da volta por cima e de que só se dá bem no esporte brasileiro, quem luta só. Fora o vôlei.

  6. Mario disse:

    FG

    parabéns!!! seu texto está excelente, tem uma sensibilidade e sinceridade incomum nos dias atuais, nossos jornalistas esportivos tem a idiosincrasia de escrever ou falar como se fossem poetas mas a falta de sinceridade os trai em cada palavra , quando alguem perde foi o atleta que perdeu quando alguem ganha foi o Brasil, acho isso ridiculo, como também os que se aproveitam para querer passar uma intimidade com os vencedores que a gente sabe não existir é o interesse comercial acima de tudo, por isso cada vez que leio algo com a sinceridade esplicitada por voce fico esperançoso, nem todo jornalista é babaca, salve o FG

    abraços

    Mário

  7. João Flora disse:

    Hoje desisti. Mesmo sabendo da melhor estrutura técnica e da qualidade da imagem da Globo, resolvi assistir pela Bandeirantes. Nãó consigo mais ouvir o Galvão Bueno falando. É pedante e arrogante demais. Pensa que sabe de tudo e “castra” todos os comentaristas de sua equipe, seja no futebol, no volei, natação. Se duvidar até em transmissão de jogo de bocha ele se mostraria insuportável. A “gota d´água” foi nas transmissões do volei de areia. Mesmo querendo disfarçar, ele já se mostrara tendencioso no jogo entre brasileiros nas semifinais. Para completar, na própria decisão do ouro ele ficava se referindo com exagerada frequência na qualidade de Ricardo e Emanuel, com claro desprestígio a quem estava decidindo, com méritos, o ouro olímpico. Daí ele inventou uma expressão que repetia a todo momento, a tal de “força mental”. Só os que a possuiam poderiam vencer. É muita baboseira. Essa expressão deveria estar pronta hoje com as meninas do volei para detonar, caso perdessem. Como elas ganharam, então elas agora tem “força mental” . PQP, é muita petulância…

  8. Luiz Carlos Duarte disse:

    Flavinho,

    Sensacional a cascateada. Um tapa de pelica na cara das oportunistas e egocêntricas “crônicas patrióticas de ocasião”.

    Vê se leva o time da Lusa para sentar na poltrona amarela!

    Abraço

  9. L.A. Pandini disse:

    Flavio, estou preocupado com você. Espero que o espírito do Armando Nogueira (sim, eu sei que ele está vivo) já tenha sido desalojado do seu corpo. Você reproduziu direitinho o estilo “babão-que-cria-grandes-odisséias-a-partir-do-nada”, do qual AN é o maior representante na crônica esportiva brasileira.

    Sensacional! Abraços. (LAP)

  10. Eduardo Cruz disse:

    Estava tentando ler todos os comentários, mas quando cheguei no do Luiz Fernando, que dizia que o Brasil é um celeiro de atletas… Não sei porque, mas, na hora, meu foco fugiu totalmente da conquista da Maurren, e só conseguia me lembrar da associação do celeiro com as bestas que dirigem nosso tão maltratado esporte, e da mula que dirige a seleção de futebol.
    Rebobinando de onde tinha parado, quando cheguei no blog: Parabéns para a Maureen. Foi a melhor coisa que ela fez na vida, depois de se livrar do Pizzonia…

  11. jorge roberto alves pereira disse:

    Depois de ler o texto do Sr. Carlos Alberto, me lembrei de duas coisas:
    1º – eu tenho este jornal guardado até hoje, uma inexplicável mania que eu tenho de guardar certas coisas, tenho até ( pasmem ) uma revista inglesa, dos idos de 1998, em que os ingleses já davam como certa a chegada de Lewis Hamilton à F-1 de forma vitoriosa. Vou escanear e postar para vocês.

    2º – Como sou ex-atleta do ciclismo, sou muito ligado às notícias de esportes. Não lembro o nome do atleta, só lembro que é alemão e do atletismo ( acho que dos 400 m ou 800 m ) bi-campeão olimpico, mundial, etc… que também foi pego em um anti-doping já no final de carreira, pelo uso de uma substância que na verdade até prejudicaria sua performance. O atleta jurava até o ultimo fio de cabelo inocência. Vistoriaram tudo que ele ingeria de alimentos e líquidos. Para surpresa dos médicos, descobriram que realmente ele era inocente.Ele e a família foram reexaminados, pois a substância que foi encontrada na análise estava na fórmula do creme dental, que eles e mais da metade do povo alemão usava. Sem constar na fórmula!!!!!
    Realmente, tem hora que as regras são absurdas demais.

  12. Galdencio disse:

    Torço para o brasil ganhar as competições e trazer o maior numero possível de medalhas, de preferência de ouro, torci muito também para a Maurren, mas nesta olimpíada onde quebrou-se muitos recordes no atletismo, tivemos muita sorte de que na prova do salto em distancia feminino o nível da competição foi muito baixo, levando em consideração que a melhor marca ficou quilometros distante do recorde mundial (7,52 mts) e Olímpico (7,40 mts)

  13. GERSON JUNIOR disse:

    FLAVIO, PORQUE VOCE NÃO PASSA A CHAMAR A MAUREEN DE ” MAUREEN MAGGICA” ?

  14. nilson disse:

    FANTÁSTICA, A VOLTA POR CIMA DE UMA MULHER QUE FOI ESQUECIDA POR UM BOM TEMPO. ESTA AI FUTEBOL MASCULINO, UM BOM EXEMPLO A SER SEGUIDO, JÁ QUE ONZE HOMENS NÃO TIVERAM TAL COMPETÊNCIA.

  15. Antonio Seabra disse:

    Naquela epoca da poltrona eu achei que ela tiha sido a “asa negra” na vida do Pizzonia. Agora vou começar a achar que foi ao contrario…

    Parabéns a Maurren, por ter dado a volta por cima e ter voltado ao topo. a medalha foi só o coroamento do esforço !
    Antonio

  16. RIBAMAR disse:

    PARABENS MAURREN,

    VC É O OURO MAIS BONITO QUE O BRASIL POSSUI HOJE.

    MUITA SAUDE PARA VC SUA FAMILIA E SUA FILHA.

    RIBAMAR

  17. diovan disse:

    Pois é Maurren, você dá um bom Caldo MAGGI….

  18. Magnum disse:

    Ola Maurren,
    Quero te dizer, que sempre acreditei em você, quando te acusaram de doping, só em olhar em seus olhos, nao tive dúvida, vc é Brasileira, tem garra, isso que falta em muita gente em nosso país.
    Obrigado pelo Ouro, menina…
    … mas o verdadeiro ouro é VC

  19. Harry disse:

    OI FG,

    “Dono da medalha” é ótimo. Um dia antes dela embarcar para Pequim eu a vi na pista do Ibira (onde eu treino)…poxa será que que eu tenho % também.

    No jornalismo tem micos como esses lugares comuns e frases prontas..

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