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12/08/2008 - 11:13

BRASIL COM “N”

PEQUIM (faz pensar) – Sete anos atrás ele pegou um ônibus em Capela, no Sergipe, e desceu para o Sul maravilha. Foi se juntar à mãe, que já tinha se instalado em São Vicente, perto de Santos, aonde foi atrás de trabalho. Ainda adolescente, via os meninos da sua idade remando no Canal dos Barreiros. Um amigo o levou até lá. As aulas na escolinha de canoagem custavam 20 reais por mês. O amigo emprestou metade. Ele começou a remar. Levava jeito. Mas acabou o mês, e acabou o dinheiro. “Aí eu parei, porque não tinha condições de pagar as aulas.”

Um mês depois, o técnico Pedro Sena o encontrou numa feira. Lembrou dele e perguntou por que tinha parado. Por causa da grana. Tirou do bolso, e Nivalter Santos de Jesus, no final de 2004, voltou a fazer canoagem no Canal dos Barreiros.

No ano seguinte, estava na seleção brasileira e já era campeão sul-americano. No ano passado, no Pan do Rio, levou o bronze em sua especialidade, C1, prova de 500 metros — uma canoa rápida, na qual se rema ajoelhado sem tempo nem de olhar para os lados.

Nivalter Santos de Jesus, que não tinha 20 mangos por mês para praticar um esporte, é o Brasil com “N” de hoje. Ele vai à raia do Parque de Canoagem e Remo de Shunyi no dia 19 como primeiro e único representante brasileiro na canoagem em Pequim. Tem 20 anos de idade e uma humildade do tamanho da China.

Quando você começou, imaginava que pouco tempo depois estaria numa Olimpíada?

Eu não imaginava que ia ficar tanto tempo na canoagem. Porque não tinha dinheiro para pagar as aulas. Mas depois que eu voltei, os resultados começaram a aparecer e eu comecei a sonhar. Hoje estou muito feliz.

Quanto custavam essas aulas?

20 reais.

Por aula?

Por mês.

E como você conseguiu voltar?

O Pedro [Pedro Sena, seu técnico] me encontrou numa feira e me colocou de volta na escolinha da AFC [Associação dos Funcionários da Cosipa].

E onde você treinava, em Cubatão?

Em São Vicente, mesmo. Mas tem canal que passa por Cubatão.

Hoje você se sente realizado, por estar em Pequim?

Não. Por enquanto eu só dei um passo para realizar meu sonho de verdade, que é ser campeão olímpico, ou mundial.

E dá para pensar nisso aqui?

Todo mundo quer uma medalha, né? Se eu chegar a uma final, aí será bom disputar uma medalha.

E quais são seus principais adversários?

Rapaz, eu não me ligo muito nos nomes deles, não. Eu saio remando.

Mas quais os países mais fortes, os caras que vão dar mais trabalho?

Ah, da Hungria, Alemanha, Canadá. Eles são muito fortes.

Você já foi ver a raia?

Fui. É uma raia artificial. Parece que era uma plantação de arroz.

E como são as raias no Brasil? Você tem condições legais de treinar?

Não, porque no Brasil as raias são todas tortas, né? A gente vai remando e as bóias vão saindo do lugar. Quando chega no fim, não sabe nem em que raia chegou. Mas tem uma em Curitiba que é muito boa.

Isso não atrapalha nos treinamentos, na sua preparação?

Rapaz, acho que não adianta ficar pensando nisso, senão a gente não vai pra frente. Quando dá, a gente faz intercâmbios, fica um mês na Europa, o importante é aproveitar. Mas não dá para pensar em morar fora, não.

E dá para viver de canoagem?

Olha, eu vivo, mas é difícil. Às vezes o salário não dá para pagar as contas.

Quem te ajuda?

Eu tenho patrocínio de uma universidade [UNIMES, Universidade Metropolitana de Santos] e de uma firma de embalagens [Porsani, também de Santos].

Algumas perguntinhas rápidas… Você já remou contra a maré?

Remo contra a maré todo dia, correndo atrás de patrocínio.

Onde você sonha remar? Algum rio famoso, algum lugar conhecido?

Não, nenhum lugar assim. Acho que na praia da Biquinha.

Onde é isso?

Em São Vicente.

Qual foi a maior remada da sua vida?

Quando eu consegui me classificar em quinto na Copa do Mundo da Alemanha. Mas acho que a minha maior remada ainda está por vir.

Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: ,

68 comentários para “BRASIL COM “N””

  1. Albert disse:

    Sou aqui da Baixada Santista e fico satisfeito de termos representantes nossos na Olimpíada de Pequim. Como disse o Leandro Guilheiro (bronze no judô), também aqui da região, a falta de investimento no esporte olímpico é o maior problema. Penso que, enquanto o governo brasileiro pouco fizer para incentivar a juventude praticar os mais variados esportes, não adianta ir a esses eventos buscar apoio para sediar uma Olimpíada e correr o risco de pagar um mico por falta de representantes olimpicos à altura, dado a magnitude de nosso país.

  2. Ronald disse:

    Agora só falta a Rede Globo descobrir que esse cara existe, e ir fazer aquelas matérias que eles adoram fazer. Colocar aquela poesia de repórter meia boca que eles fazem, depois, tchau malander, que o negeocio é futebolllll.

  3. Rodrigo Moraes disse:

    Excelente! São essas histórias olímpicas que queremos conhecer! Tenho meia-dúzia de canais da SporTV na minha televisão e só passam a mesma droga de volei de quadra, volei de praia, futebol masculino, feminino, basquete… Outro dia passaram 3 minutos de badminton, mas daí começou um jogo de duas obscuras duplas de volei de areia e cortaram… Ou seja, minha “cultura” olímpica, se depender da TV, seguirá sendo sobre futebol, volei e basquete. Valeu, Flavio!

  4. VALDENILTON FERREIRA DE SANTANA disse:

    É um verdadeiro cidadão BRASILEIRO, com todas as letras…
    SUCESSO NIVALTER !!!

  5. VALDENILTON FERREIRA DE SANTANA disse:

    Imaginem se nossos governantes investissem no esporte.

    Com certeza seríamos uma potência .

  6. Bruno Giorgi disse:

    Parabéns pela entrevista Flávio! Cara, enquanto nossos governantes não dão o devido apoio ao esporte brasileiro, tudo que se faça para enaltecer a força de vontade e a coragem dos nossos atletas deve ser reconhecido, esses caras que estão em Pequim (pelo menos a maioria) devem ser considerados verdadeiros heróis.

  7. EdisPJ disse:

    Poxa, muito legal, que exemplo de dedicação! Virei fã na hora, torço pra que ele tenha a oportunidade de fazer bonito nesta Olimpiada e que participe de várias outras, no futuro, já que é bem novo…boa sorte!!!

  8. Verde disse:

    Lacônico e direto. Torcendo por ele.

  9. Goiano disse:

    Fala para ele FG mandar o remo na água sem medo de ser feliz. Felicidades a ele e parabens pela cobertura.

  10. Fernando Dalla Palma disse:

    Fantastico.
    Mais uma prova do descaso nesta farta, mais largada nação.
    Penso que será muito legal ter uma olimpiada no Brasil, mas antes não seria interessante, ao menos, que todas as escolas tivessem um quadra, digo, teto, carteiras, alimentação, professores e material escolar já seria um bom começo.

  11. lais disse:

    isso é que é ter uma medalha antecipada, pela própria história de vida. Parabéns NIVALTER SANTOS DE JESUS.

  12. Aliandro Miranda disse:

    É o retrato vivo da comunidade atlética sofrida do Brasil. Tomara que sempre reme e chegue a algum lugar. Ou a bons lugares.

    (E agora, uma observação básica: por que agora, nas entrevistas, as observações do entrevistador são feitas entre colchetes, e não mais entre parênteses. Tenho notado isso ultimamente…)

  13. Sr. N. disse:

    Umas história dessas faz a gente pensar que esse mundo tem jeito…Corangem, chará! E medalha pro Brasil, que é bom por ter gente como vc.

  14. Belair disse:

    …não me ligo muito nos nomes deles não…
    …remo todos os dias contra a maré…
    …quando chega no fim, não sabe nem em que raia chegou…
    Focado,inteligente, espirituoso.
    Parabéns a você Flávio por revelar numa curtíssima entrevista, a essência de um cara muito legal. Essa é a “alma” brasileira, única, e que me enche de felicidade de constatar,sempre.
    Pena que a foto está, ahhnn, digamos, bem…

  15. Belair disse:

    Ah ! A praia da Biquinha em São Vicente é aquela da ponta, a mais próxima da antiga ponte pensil ( p/ Praia Grande) , onde existem aquelas barracas vendendo cocadas deliciosas , e há também uma antiquíssima biquinha d’água. Nas rochas da praia há um monumento histórico que tem a ver com Martin Afonso ou fundação de S. Vicente ou sei lá, gostaria de lembrar, alguém aí saberá , informem por favor. Eita infância boa , sô ….

  16. Rodrigo Soares disse:

    Boa Sorte Nivalter!!

    Infelizmente é a realidade dos atletas brasileiros em quase todos os esportes olimpicos( “Amadores” ).

    Parabéns Flávio pela série de entrevistas, legal a chance conhecer a história de alguns membros da nossa delegação em Pequim, que dificilmente terão alguma visibilidade na impresa. como o caso do rapaz do levantamento de peso que só ganhou algumas capas de jornais eletrônicos porque o peso caiu no seu rosto. Fato que foi mais alardeado do que a sua performance até aquele momento que era muito boa.

    Abraço a todos!

  17. JAIME RIBEIRO COELHO disse:

    Oi Cara, assisto você na ESPN E TODO A TURMA, e gosto muito deste tipo de reportagem, que mostra o verdadeiro ATLETA brasileiro ( nato). Imagine se fosse bem preparado.
    Parabéns, isto eu entendo como jornalismo.

  18. Elias disse:

    Vai com Deus, Nivalter. Deles o Brasil é feito

  19. Carlos Bragatto disse:

    FANTASTICO o perfil desse atleta, batalhador mesmo, imaginem um Rubinho com esse espirito ! FG: parabens por ter a HOMBRIDADE de colocar o nome dos patrocinadores do cara, coisa que a RG jamais faria !

  20. Charles Schweitzer disse:

    Gomes, hoje tem prova de ciclismo… Não temos nenhum brasileiro no Contra-Relógio, mas tem um Schumacher e te digo mais, GRANDES chances do Schumacher vencer a prova. Ele ganhou os dois contra-relógios do Tour de France…

    Vale como curiosidade…

    Abraços,

    Charles

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