BRASIL COM “N”
PEQUIM (faz pensar) – Sete anos atrás ele pegou um ônibus em Capela, no Sergipe, e desceu para o Sul maravilha. Foi se juntar à mãe, que já tinha se instalado em São Vicente, perto de Santos, aonde foi atrás de trabalho. Ainda adolescente, via os meninos da sua idade remando no Canal dos Barreiros. Um amigo o levou até lá. As aulas na escolinha de canoagem custavam 20 reais por mês. O amigo emprestou metade. Ele começou a remar. Levava jeito. Mas acabou o mês, e acabou o dinheiro. “Aí eu parei, porque não tinha condições de pagar as aulas.”
Um mês depois, o técnico Pedro Sena o encontrou numa feira. Lembrou dele e perguntou por que tinha parado. Por causa da grana. Tirou do bolso, e Nivalter Santos de Jesus, no final de 2004, voltou a fazer canoagem no Canal dos Barreiros.
No ano seguinte, estava na seleção brasileira e já era campeão sul-americano. No ano passado, no Pan do Rio, levou o bronze em sua especialidade, C1, prova de 500 metros — uma canoa rápida, na qual se rema ajoelhado sem tempo nem de olhar para os lados.
Nivalter Santos de Jesus, que não tinha 20 mangos por mês para praticar um esporte, é o Brasil com “N” de hoje. Ele vai à raia do Parque de Canoagem e Remo de Shunyi no dia 19 como primeiro e único representante brasileiro na canoagem em Pequim. Tem 20 anos de idade e uma humildade do tamanho da China.
Quando você começou, imaginava que pouco tempo depois estaria numa Olimpíada?
Eu não imaginava que ia ficar tanto tempo na canoagem. Porque não tinha dinheiro para pagar as aulas. Mas depois que eu voltei, os resultados começaram a aparecer e eu comecei a sonhar. Hoje estou muito feliz.
Quanto custavam essas aulas?
20 reais.
Por aula?
Por mês.
E como você conseguiu voltar?
O Pedro [Pedro Sena, seu técnico] me encontrou numa feira e me colocou de volta na escolinha da AFC [Associação dos Funcionários da Cosipa].
E onde você treinava, em Cubatão?
Em São Vicente, mesmo. Mas tem canal que passa por Cubatão.
Hoje você se sente realizado, por estar em Pequim?
Não. Por enquanto eu só dei um passo para realizar meu sonho de verdade, que é ser campeão olímpico, ou mundial.
E dá para pensar nisso aqui?
Todo mundo quer uma medalha, né? Se eu chegar a uma final, aí será bom disputar uma medalha.
E quais são seus principais adversários?
Rapaz, eu não me ligo muito nos nomes deles, não. Eu saio remando.
Mas quais os países mais fortes, os caras que vão dar mais trabalho?
Ah, da Hungria, Alemanha, Canadá. Eles são muito fortes.
Você já foi ver a raia?
Fui. É uma raia artificial. Parece que era uma plantação de arroz.
E como são as raias no Brasil? Você tem condições legais de treinar?
Não, porque no Brasil as raias são todas tortas, né? A gente vai remando e as bóias vão saindo do lugar. Quando chega no fim, não sabe nem em que raia chegou. Mas tem uma em Curitiba que é muito boa.
Isso não atrapalha nos treinamentos, na sua preparação?
Rapaz, acho que não adianta ficar pensando nisso, senão a gente não vai pra frente. Quando dá, a gente faz intercâmbios, fica um mês na Europa, o importante é aproveitar. Mas não dá para pensar em morar fora, não.
E dá para viver de canoagem?
Olha, eu vivo, mas é difícil. Às vezes o salário não dá para pagar as contas.
Quem te ajuda?
Eu tenho patrocínio de uma universidade [UNIMES, Universidade Metropolitana de Santos] e de uma firma de embalagens [Porsani, também de Santos].
Algumas perguntinhas rápidas… Você já remou contra a maré?
Remo contra a maré todo dia, correndo atrás de patrocínio.
Onde você sonha remar? Algum rio famoso, algum lugar conhecido?
Não, nenhum lugar assim. Acho que na praia da Biquinha.
Onde é isso?
Em São Vicente.
Qual foi a maior remada da sua vida?
Quando eu consegui me classificar em quinto na Copa do Mundo da Alemanha. Mas acho que a minha maior remada ainda está por vir.
Autor: Flavio Gomes - Categoria(s): Pequim 2008 Tags: Brasil de A a Z, canoagem
Um verdadeiro herói, e inteligente: “Remo contra a maré todo dia, correndo atrás de patrocínio”…boa sorte a ele!
Caro Gomes, este foi o seu melhor post nos ultimos tempos. Ele representa a realidade deste nosso querido Brasil, enquanto os atletas chineses são tratados com herois, nosso atletas são resgatados na feira. Independente do resultado, Nivalter já é um vencedor, pois chegou em Pequim remando contra a maré.
Depois nos informe sobre o resultado dele.
fg, fossemos sérios e este menino estaria remando na raia da usp com bolsa de estudos para cursar na própria enquanto brilha pelas competições a força de seu talento natural, de seu dom – gift, como dizem os papa medalhas. mas não somos, não é mesmo?
Talvez Deus escreva certo com raias tortas, e leve este Nivalter de Jesus a vitória.
Boa sorte ao rapaz.É desse tipo de atleta que o Brasil precisa….
FG,vc não sabia onde era a biquinha???
É, Nuzman… em vez de ajudar esses caras vc prefere desviar verba do Pan e da candidatura olímpica…
Depois não sabem pq o desempenho do Brasil é pífio em Olimpíadas, considerando nosso potencial.
Duas medalhas já dou para ele: Humildade e Simpatia !
Rapaz….. Quantos talentos nao foram perdidos por menos do que 20 reais?
Boa sorte ao Nivalter atleta da canoagem e parabens ao Flavio Gomes pela entrevista, pois mostra a garra e as dificuldades que a maioria dos nossos atletas enfrentam para representar o pais.
Quando a gente conhece um pouco da história desses atletas, não tem como não torcer por eles, em um país onde só há dinheiro para um único esporte, esses caras conseguem chegar em uma olimpíada.
O gover do Brasil quer fazer uma Olimpíada no Rio, vão gastar alguns bilhões de reais, por que não pegam essa grana que seria gasta para fazer o evento e investem nos esportes com menos visibilidade que o futebol?
Hoje ainda transmitem alguns jogos de volei, caso a seleção pare de ganhar como vem ganhando, não terão nem uma nota de 5 segundos na RG, como vem acontecendo com o basquete brasileiro.
Abraços
E mantendo atletas assim que essa porcaria de país quer sediar Jogos Olímpicos ? Ótimo exemplo….e para onde vai o dinheiro da Lei Piva ? Para o bolso desse coitado que não vai ! Lamentável ! E a cada dia que passa fico mais enojado com essa falta de senso de ridículo desses governantes que ainda acham que o Brasil é um país olímpico e exemplos de garra e superação como desse rapaz é que deveriam servir de algo para melhorar um pouco a vida de quem quer se dedicar profissionalmente ao esporte.
Rapaz… e depois o Brasil quer sediar olimpiada… chegar a ser uma vergonha pro COB saber que os atletas que estao representando o Brasil em Pequim so estao la porque sao sim muito perseverantes, tem muita raca e vontade, e contam com a boa vontade de algumas boas almas que nem a pessoa que pagou as aulas dele do proprio bolso. Estrutura de captacao de talentos e apoio ao atleta – pelo jeito zero!!
O cara que nem esse eh um heroi – nao tem condicoes adequadas pra treinar, nem salario decente pra pagar as contas do dia a dia – mas vai tocando pelo amor a sua modalidade e para realizar o SEU sonho. Imagina o quanto ele e sua familia ja devem ter se sacrificado pra ele poder chegar a essa olimpiada.
Quero so ver se ele ganhar uma medalha – os que nao ajudaram nada e nem sabiam que ele existia vao se aproveitar pra aparecer e fazer media, dizer que o esporte brasileiro eh demais – ne Nuzman!! ne Lula!! Deviam era ajudar o rapaz e todos os outros que batalham que nem ele ANTES das olimpiadas.
Boa sorte Nivalter!!
Flávio, esta série pode até virar um livro….
Ah se no Brasil tivesse uma politica verdadeira pro esporte, talentos nós temos em todos os estados.
O que mais me entristece é que, se ele ficar sem uma medalha, o que é perfeitamente compreensível em função das condições de treinamento, sobrarão apenas críticas por parte de quem nunca soube sequer seu nome. Basta que a Globo diga que ele é uma promessa para que todos passem a cobrar medalha. Não importa que o cara é um renegado, que lutou contra tudo e todos. Interessa apenas o número no quadro de medalhas. Se não conseguiu, é um fracassado.
No caso de esportistas mais conhecidos é ainda pior. Para Daiane, Rodrigo Pessoa e outros que já tiveram o azar de perder quando eram os favoritos, apenas o ouro interessa, caso contrário são alvos de críticas impiedosas, vindas sempre de pessoas que não sabem nada dos esportes que estes atletas praticam.
Aliás, os que mais criticam são geralmente aqueles que não levantam o traseiro do sofá para nada. São aqueles que nunca tiveram que enfrentar um adversário em uma quadra, em uma pista, em um campo ou na água, respeitando-o e por vezes temendo-o. A esses parece fácil praticar um esporte de maneira competitiva.
Se nosso medíocre povo soubesse apreciar outros esportes, certamente respeitaria quem os pratica em tão alto nível.
São pessoas como este remador e a judoca que ganhou o bronze que merecem nossa torcida…. a família dela teve que vender um monte de cosa para pagar a viagem… aí vem o COB e fatura em cima, no final da Olimpíada…. e o Lula vai passear em Pequim…. o Cabral…. e investimento para descobrir talentos como estes…….. vai pra onde….. os bolsos de quem inventa uma babaquice como Rio 2016…..
Ca.ra.lho, 20 reais por mês e o cara não tinha como pagar. Brasil-il-il olímpico? Faça-me rir! A estrutura do Pan, ele pode usar?
Fico feliz por ler a superação e a humildade de pessoas como o Nivalter Santos de Jesus, mas ele tem JESUS no nome, isso significa tudo de bom na vida de um ser humano. Parabéns e muito, muito sucesso.
Enquanto isso os cartolas gastam tubos não se sabe bem onde, porque, em que e para quem.
O Brasil não deu NADA pra esse rapaz, e depois todos cobram patriotismo.