A HISTÓRIA DO CAVALO QUE REFUGOU
Bem, como tenho dito, a série será longa. E agora é o jogo cinco que será importantíssimo.
Sim, pois o perdedor jogará pressionado no jogo seis. E tem gente que prefere o campeonato de pontos corridos!
Bem, comparações à parte, agora é o jogo cinco que será importantíssimo, ia dizendo. Se o Dallas ganhar novamente, abre 3 a 2 na série. E o Miami entrará pressionado diante de seus torcedores, não podendo perder, pois se perder, perde o campeonato.
O oposto vale para o Dallas, que aí terá que ganhar duas contendas em quadra alheia. Difícil.
Esta final está espetacular. Casa cheia, torcedores se divertindo, times faturando, patrocinadores se esbaldando, tevês registrando ótimos índices de audiência — e tem gente que prefere o campeonato de pontos corridos!
Mas deixa pra lá, vamos falar do jogo de ontem.
“BALOUBET DU ROUET”
Amarelar é o sinônimo mais usual no caso de jogadores que se escondem e medram em jogos decisivos. Mas alguns poucos se lembram, nesta situação, do cavalo “Baloubet du Rouet”.
Quem é mais jovem e não conhece a história, eu conto — e vale um pouco da sua atenção, pois ela é boa.
“Baloubet du Rouet” era um cavalo de raça talhado para provas de salto. Era montado pelo cavaleiro brasileiro Rodrigo Pessoa. Tinha sido tricampeão do mundo em 1998, 1999 e 2000.
Quando os Jogos Olímpicos de Sydney-2000 chegaram, Pessoa e seu “Baloubet du Rouet” entraram como favoritos ao ouro olímpico na prova do salto. Eles deixavam, havia três anos, os concorrentes comendo poeira, sempre.
No Brasil, todos contavam com este ouro e faziam as contas, antes de a prova começar, em que lugar o nosso país ficariam no quadro de medalhas depois que “Baloubet du Rouet” humilhasse novamente seus oponentes.
No dia da prova, no entanto, “Baloubet du Rouet” refugou. Sim, refugou! E não apenas uma vez: foram três!
Pessoa ficou com cara de tacho diante dos torcedores que acompanhavam a prova ao vivo e diante dos brasileiros que tinham acordado bem cedinho para ver um esporte que ninguém gostava e acompanhava, mas acompanhava porque iria nos dar o ouro olímpico.
Mas “Baloubet du Rouet” refugou. Três vezes, eu disse, mas nunca é demais lembrar. Com isso, Pessoa foi eliminado e o ouro esperado não veio, o que fez com que os milhões de brasileiro dissessem: “Ah, mas virá no futebol!”
Não veio também, pois o Brasil de Wanderley Luxemburgo foi eliminado por Camarões nas semifinais, com o defunto “gol de ouro”. Camarões que tinha nove jogadores em campo, mas tinha um coração do tamanho da África.
LEBRON = “BALOUBET DU ROUET”
LeBron James voltou a refugar nestas finais. Ontem chegou ao cúmulo de não atingir dois dígitos na pontuação.
Anotou apenas oito. Uma vergonha; sim, uma vergonha para um jogador que Scottie Pippen, o fiel escudeiro de Michael Jordan, disse que um dia poderá ser melhor que MJ. Quem deve estar com vergonha é Pip.
Ah, será que aquele jornalista que LBJ detonou na última coletiva fez a mesma pergunta ontem? Se você não sabe da história, lá vou eu novamente contar história.
E essa vale a pena também…
Gregg Doyel trabalha para a rede televisiva CBS. Depois do jogo de domingo, ele questionou LeBron sobre seu desempenho nos últimos períodos das três partidas finais, sugerindo que o ala estava “encolhendo” nos momentos decisivos.
LBJ, claro, não gostou da pergunta, mas não reagiu como Felipão ou Muriciy. Com a mesma elegância do terno verde petróleo que trajava, respondeu:
“Eu acho que você está concentrado em apenas um lado da quadra. Você só está olhando para estatísticas. Eu sou um jogador de duas vias. Uma vez que (Dwyane) Wade estava fazendo o necessário ofensivamente, nós demos a bola para ele. Você deveria assistir ao vídeo novamente e ver o que fiz na defesa. Aí você fará uma pergunta melhor amanhã”.
Doyel, não sei se estava lá e nem sei se perguntou. Mas se estava lá deveria ter perguntado:
“LeBron, que acontece com seu desempenho nos últimos jogos? Você está encolhendo nos momentos decisivos!”
Gostaria de ver a reação de LeBron.
RESPOSTA
Não sei se Gregg Doyel perguntou, ou se alguém perguntou, mas LeBron James disse o seguinte na coletiva de ontem: “Eu definitivamente não joguei bem ofensivamente”.
Ora, descobriu a pólvora!
LeBron James tem sido o “Baloubet du Rouet” destas finais. Suas atuações envergonham a todos que estão ligados a ele de um jeito ou de outro.
Há ainda mais dois jogos pela frente. Chance de ele fazer o que Dirk Nowitzki tem feito e, com isso, apagado definitivamente a fama de “amarelão”.
Mas no caso de LBJ, eu digo: “Baloubet du Rouet”.
DIFERENÇA
Em contrapartida, Dirk Nowitzki foi mais uma vez exemplar. Anotou 21 pontos, sendo que dez deles vieram nos últimos nove minutos de jogo, quando o Dallas reverteu uma desvantagem de nove pontos.
Quer mais? Tem mais: o alemão estava com febre. Dizem que a quentura do corpo chegou a bater nos 40 graus.
Contagiou seus companheiros — agora com febre, pois na quadra vem dando exemplos desde que estas finais começaram.
“Uma pessoa comum na situação que ele estava mal conseguiria levantar da cama”, declarou o pivô Tyson Chandler depois da vitória por 86 a 83, que empatou a série final em 2 a 2.
Seguramente contagiado pelo esforço do companheiro, Chandler fez um jogo de Nowitzki: anotou 13 pontos e pegou 16 rebotes, nove deles ofensivos.
Não apenas Chandler exibiu-se com muito mais vigor do que vinha fazendo, Jason Terry também. Jet, como é chamado pelos companheiros, vinha zerando em etapas finais e últimos quartos. Ontem anotou 17 pontos, sendo oito deles no último quarto, quando o time fez a virada que representou a vitória no final das contas.
Shawn Marion contribuiu com mais 16 e DeShawn Stevenson colaborou com outros 11, tendo acertado seus três primeiros chutes de três.
DeShawn, Chandler e Jet no último quarto quebraram o galho de Jason Kidd.
Como um jogador que não faz ponto algum e dá três assistências pode ficar em quadra por 38:58 minutos?
CRÉDITO
Se LeBron James refuga feito “Baloubet du Rouet”, o mesmo não se pode dizer de Dwayne Wade. Apesar da bobeira no final, quando deixou a bola escapar e pelos dedos ver escorregar a chance de levar o jogo à prorrogação, D-Wade novamente carregou o Miami nas costas: 32 pontos.
D-Wade falhou no fim como Dirk Nowitzki falhou no fim no jogo anterior. Vale pra D-Wade o que eu disse pra Nowitzki: por favor, não vamos condenar Dwyane pela derrota do Miami.
Ele tem levado o time nas costas.
Como Jack Brennan, o lutador-presonagem do conto “Cinquenta Mil”, de Ernest Hemingway, os braços de D-Wade, seguramente, pesaram no final da contenda.
Jack perdeu seu combate para Walcott (se é que perdeu mesmo, mas isso são outros quinhentos), pois seus braços pesaram no final da luta.
Wade tem pelejado praticamente sozinho contra a “guarda” montada pela defesa do Dallas. Tem conseguido machucar a zaga adversária, mas ainda não conseguiu o nocaute desejado.
ALGO MAIS?
Faltou dizer algo mais? Se faltou, por favor, digam.
EXPLICAÇÃO
Abro tarde este botequim, pois ontem fui vítima do vendaval que atingiu a Grande São Paulo. Fiquei 25 horas sem energia. Tive que sair de casa para ver o jogo.
Por isso, só agora abro o boteco.
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