A NOITE DE TIM DUNCAN E A NOVA REALIDADE DE TIAGO SPLITTER
Tim Duncan foi o personagem da noite. Seu arremesso a pouco mais de um segundo do final da partida foi daqueles que a comunidade do basquete reverencia e não esquece jamais.
Mesmo marcado — e fortemente marcado por Emeka Okafor —, Timmy foi ágil, inteligente e perfeito. Da cabeça do garrafão a bola saiu de suas mãos e foi escorregar por entre a redinha que ornamentava o aro do New Orleans (foto AP).
Foi o 104º ponto do San Antonio na partida, o 28º ponto de Timmy. Havia mais de um ano que ele não conseguia pontuar tanto assim. Foi também o ponto derradeiro da partida, que terminou em vitória do San Antonio por 104-102.
“Foi muito legal estar na quadra, foi muito legal acertar alguns arremessos, foi muito legal vencer a partida, enfim, foi tudo muito legal”, disse Duncan depois do confronto.
Dia desses, eu contei que Timmy passou o verão e parte do período do locaute treinando arremessos de meia distância. Isso aos 35 anos de idade.
Quem achava que seu jogo estava acabado e que ele também, por causa do peso da idade e das pernas, enganou-se redondamente. Timmy está com tudo, introduziu em seu repertório esse “mid-range jumper” que está levando à loucura a zaga adversária.
“Eu sou assim”, disse Duncan referindo-se à sua personalidade. “Sou muito competitivo. Quero estar em uma quadra todas as noites. Quero estar com o meu time. Não quero jamais deixá-lo na mão”.
Mas para que isso seja possível e essa fonte de energia e talento não se esgote jamais, Gregg Popovich, o treinador do San Antonio, elaborou um plano criterioso para Timmy. E a principal decisão foi proibi-lo de jogar quatro partidas em cinco noites, o que já havia o ocorrido neste campeonato.
Por isso Timmy não participou do jogo contra o Houston, no último sábado.
E para que isso seja possível, há que se confiar na rapaziada que vem principalmente do banco de reservas. E é aí que Tiago Splitter entra na história.
CONFIANÇA
Todos nós sabemos, mas nunca é demais lembrar, Tiago Splitter praticamente não jogou a temporada passada. Lesionou-se antes de começar a competição e Gregg Popovich, transformou o fato em sua muleta, justificando assim seu boicote ao jogador brasileiro.
Tudo porque ele não abre mão de seus conceitos, forjados principalmente na Academia da Força Aérea dos EUA, conceitos rígidos e impermeáveis, sendo que muitos deles se tornaram anacrônicos com o passar do tempo.
Pop, como é chamado, acha que “rookie” não pode jogar muito em sua primeira temporada. Talvez nem mesmo na segunda. Por causa disso, fez Splitter esquentar um banco danado no campeonato passado.
Jogou em média 12:30 minutos por partida. Ou seja, um quarto do jogo.
E o resultado é que o nosso barriga-verde pouco rendeu e pouco aprendeu em seu primeiro ano na liga.
Mas ao final do torneio passado, ele já dava mostras de ser um jogador diferenciado, que não poderia ficar muito tempo esquentando o banco de DeJuan Blair, a versão cetácea do time texano.
Para não dar o braço a torcer, o milico treinador do SAS tenta repetir a dose nesta temporada, mas a grita, que era tímida no ano passado, aumentou bastante neste.
Acuado, Popovich parece não encontrar mais guarida a seus conceitos retrógrados. Resultado: rendeu-se às evidências e passou a dar mais minutos para Splitter.
O catarinense tem agora uma média de quase 21 minutos por partida. Adicionou praticamente um quarto a seu jogo.
Com isso, os resultados começaram a aparecer. Tiago está jogando muito melhor, está confiante e, por tabela, ganhou a confiança de seus companheiros — e do próprio Popovich, que o tem deixado em quadra nos finais das partidas, principalmente daquelas que ainda não foram fechadas.
Há quatro contendas seguidas Splitter tem um duplo dígito na pontuação. Sua média de pontos no período é de 14,2. E nos rebotes, coleta 7,2 por jogo. Quer mais? Apenas um erro de média neste período quaternário, quando permaneceu em quadra quase 25 minutos por partida.
Não, não, nem tente questionar Popovich sobre isso. Não tente dizer a ele: Tá vendo! Foi só o senhor dar oportunidade para o Tiago que ele começou a mostrar por que foi eleito o melhor jogador do campeonato espanhol, o mais forte da Europa!
Não, não faça isso, porque se você o fizer, vai certamente ouvir: ele só está jogando melhor porque agora ele está pronto para jogar.
Assim são os milicos.
DEMISSÃO
Flip Saunders (foto) foi demitido há pouco pelo Washington. O técnico realizava um apagado trabalho à frente do Wizards.
O time da capital dos EUA é o pior da NBA no momento, com uma campanha melancólica de 2-15 (11,7%). Na temporada passada, acabou na 26ª posição, com um retrospecto de 23-59 (28,0%).
O fato é que o time é fraco.
Conta com John Wall, um moleque que dá pinta de que será um grande armador no futuro; mas no futuro, e não agora. Conta com a experiência de Rashard Lewis, um jogador que demonstra em quadra um basquete inversamente proporcional ao seu salário (ganhará US$ 22,1 milhões nesta temporada, valores que o colocam como o segundo jogador mais bem pago da NBA, atrás apenas de Kobe Bryant).
De resto, são atletas que servem apenas para completar um elenco, como JaVale McGee, Maurice Evans, Roger Mason e Ronnie Turiaf.
A decepção de Saunders com a franquia vem desde a temporada passada. No começo dela, depois de um início em 1-5, o treinador e seus auxiliares abandonaram um treinamento sob o argumento de que os jogadores não estavam se empenhando.
Não havia mesmo clima para que o trabalho prosseguisse.
O Washington vai melhorar? Com Randy Wittman, auxiliar de Saunders e agora o novo treinador, pode ser até que o time acumule algumas vitórias, pois a empolgação natural que um novo trabalho impõe pode fazer o time encontrá-las por um momento. Mas com o passar do tempo tudo voltará ao que era antes.
Washington e Detroit: duas franquias que estão à deriva e que se não abrirem os olhos vão permanecer por muito tempo nesta situação de penúria.
Notas relacionadas:
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