Não foi apenas Kobe Bryant que jogou uma barbaridade. Todo o time do Lakers jogou uma barbaridade.
Os roxinhos calaram o Toyota Center ontem à noite com um jogo absolutamente equilibrado. Defensa forte e ataque envolvente.
O Houston não teve resposta para a equação montada pelo Lakers durante as 2h34 de partida. Isso acabou por silenciar os 18.495 torcedores que superlotaram o ginásio texano.
Quando muitos contavam com vitória do Rockets e um salto em 2-1 na série, por jogar em casa e por ver o adversário privado do experiente Derek Fisher, punido com um jogo de suspensão, o técnico Phil Jackson surpreende e escala Jordan Farmar. Jogador que atuou apenas quatro minutos por partida na série contra o Utah.
Ninguém esperava por isso.
Farmar saiu do esquecimento para ser um dos elementos chaves na vitória de ontem por 108-94. Fez 12 pontos, sete assistências, cinco rebotes, dois desarmes, um toco e nos 33 minutos que ficou em quadra comentou apenas um erro.
Desculpem o lugar-comum, mas não me ocorre nada melhor no momento: Farmar foi um gigante apesar de seu 1m88.
Mas Farmar é página virada; vamos falar do trabalho do “frontcourt” angelino. Um espetáculo.
Trevor Ariza esteve preciso nos arremessos de três: 3-4. Anotou 13 pontos, apanhou cinco rebotes e roubou quatro bolas.
Pau Gasol, se teve dificuldades para pontuar no primeiro tempo, quando marcou apenas quatro pontos, deslanchou no segundo com mais nove tentos. Mas o importante do seu trabalho foi conter Yao Ming.
Na etapa inicial, o chinês havia marcado 14 pontos e caminhou para o vestiário sob o olhar atento das lentes das câmeras da ESPN, que transmitiu a partida, e sob aplausos incessantes dos torcedores. No segundo tempo, Yao anotou apenas cinco pontos.
Sabe por quê? Foi presa da marcação do espanhol, que deve estar sob efeito de anti-inflamatórios neste momento, pois o chinês é maior em tamanho e largura do que o espanhol.
E o que dizer de Lamar Odom? Foi uma vez mais sensacional, especialmente nos momentos de muita pressão. Contribuiu com 16 pontos e ao apanhar 13 rebotes transformou-se no único jogador do time a ter um “double-double” na partida.
À PARTE
Kobe Bryant merece um capítulo dedicado somente a ele. Anotou ontem 33 tentos e chegou a 3.928 em playoffs.
Com isso, ultrapassou Larry Bird (3.897) e ocupa agora a sexta posição entre os maiores cestinhas desta fase decisiva da NBA.
Nos três confrontos disputados diante do Houston, ele tem uma média de 35 pontos. E jogando contra uma defesa que é uma das melhores da NBA e se sustenta com dois dos melhores marcadores da liga: Shane Battier e Ron Artest.
Jogar contra manés é um coisa; enfrentar gigantes do porte de Battier e Artes é outra completamente diferente.
Isso torna Kobe um jogador especial nesta série até o momento.
Mas não foi fácil para ele. Os dois – principalmente Battier – foram a sombra do armador do Lakers durante todo o jogo (foto AP).
Kobe arremessou sempre pressionado; não teve moleza em nenhum momento. Se teve problemas nas bolas duplas, tendo acertado apenas 7-22 (31.8%), nas de três, no entanto, ele saiu-se bem: 4-6 (66.7%). E nos lances livres, melhor ainda: 7-8 (87.5%).
O camisa 24 do Lakers não cometeu nenhum erro durante os 44 minutos em que esteve em quadra; emblemático. Completou seus números com mais seis rebotes, três assistências, dois desarmes e três tocos.
E um desses tocos foi em cima de Yao Ming, na etapa final. Foi como um quadro de Gustave Courbet.
MARCADO
Ron Artest foi expulso quase ao final da partida por ter feito uma falta flagrante 2 em cima de Pau Gasol no entender da arbitragem. Está claramente colhendo os frutos que plantou ao longo da carreira.
Como disse Kobe Bryant, não foi nem sequer uma falta flagrante. Foi uma falta de jogo, mais dura, é verdade, mas de jogo.
Mas Artest acabou expulso, como disse, mas de forma injusta.
O mesmo critério rigoroso usado contra Artest a arbitragem não colocou em prática ao analisar a falta que Sasha Vujacic fez em Von Wafer. Foi como a infração de Artest, mais dura, é verdade, mas de jogo.
E, por isso mesmo, não foi punido acertadamente com mais rigor.
O mesmo deveria acontecer com Artest, mas, como disse, o ala do Houston colhe hoje o que plantou ontem. Sua carreira é permeada por momentos de violência dentro e fora das quadras.
E isso tem um peso enorme no subconsciente de quem julga.
PREOCUPAÇÃO
Yao Ming torceu o tornozelo esquerdo quase que ao final do jogo. Deixou a quadra mancando, com o cronômetro zerado, ao dirigir-se ao vestiário alvirrubro.
O chinês será avaliado neste sábado. Mas prometeu que joga amanhã de qualquer maneira.
Se ele ficar de fora, a série, liderada pelo Lakers por 2-1 e com vantagem de quadra novamente, ficará mais complicada ainda para os texanos.
FLÓRIDA
O “frontcourt” titular do Orlando destruiu o Boston ontem no sul dos EUA. Hedo Turkoglu, Rashard Lewis (foto AP) e Dwight Howard anotaram, juntos, 69 pontos e apanharam, em conjunto, 20 dos 33 rebotes da equipe.
Foram o fator de desequilíbrio na partida.
Esmiuçando o desempenho deles, se Turkoglu e Lewis fizeram 52 desses 69 pontos, o Super-Homem da Flórida pegou 12 dos 18 rebotes.
Se os três continuarem com esta performance, a missão do Celtics em tentar amealhar uma vitória fora de casa será missão impossível. Especialmente porque dois de seus principais jogadores parecem brincar de gangorra.
Quando um joga bem, o outro joga mal. Na partida passada da série, Paul Pierce anotou apenas três pontos (sua menor pontuação em playoffs) enquanto que Ray Allen marcou 22.
Ontem, Pierce fez 27; Allen, oito.
Assim não dá, concordam?
Rajon Rondo, o melhor jogador do alviverde nestes playoffs, não esteve inspirado como em outras ocasiões: 15 pontos, seis assistências e cinco rebotes. De qualquer forma, tem mantido o nível nesta série, com médias de 14.7 pontos, 10.7 assistências e 8.7 rebotes.
Mas, como sabemos, a regularidade de apenas uma andorinha…
Com a vitória de 117-96 o Orlando pula novamente na frente neste confronto em 2-1. Se fizer 3-1 amanhã à noite, babau: adeus Celtics.
LUTO
A NBA está de luto. Morreu hoje pela manhã em sua casa na cidade de Júpiter, na Flórida, Chuck Daly (foto AP).
Foi o técnico do primeiro e único Dream Team, o de Barcelona, em 1992. Conhecia basquete como poucos.
Defesa e jogo físico eram sua obsessão. Fez do Detroit Pistons um dos maiores times de história da NBA usando exatamente estes dois elementos.
O quinteto formado por Isiah Thomas, Joe Dumars, Dennis Rodman, Bill Laimbeer e Rick Mahorn foi um daqueles inesquecíveis. Metiam medo nos adversários não apenas pela qualidade de seu jogo, mas também pela violência que muitas vezes usavam para intimidar adversários – Michael Jordan que o diga.
Daly ganhou um par de títulos na NBA. O primeiro em 1989; o segundo no ano seguinte.
O inicial, diante do Lakers de Pat Riley e Magic Johnson; o subsequente frente ao Portland de Rick Adelman e Clyde Drexler.
Perdeu uma final, em 1988, para o Lakers da dupla referida.
Era o técnico do momento quando os profissionais foram admitidos pela Fiba nos Jogos Olímpicos. Em conjunto com a NBA, a USA Basketball selecionou técnico e jogadores.
O nome de Daly só não foi unânime porque os torcedores do Chicago queriam Phil Jackson à frente do Dream Team. Naquele instante, o Bulls tinha acabado de conquistar seu segundo título, comandado por MJ e P-Jax.
Mas a experiência e o conhecimento tático, mais a liderança inconteste fizeram de Daly o treinador. E deu certo: os EUA ganharam o ouro em Barcelona triturando todos seus oponentes.
Alguém pode dizer: também, com um grupo que contava com Jordan, Magic e Larry Bird era impossível não ganhar.
Pois bem, a gente conhece um monte de histórias de times que não dão certo por contar com muitas estrelas. Egos inflados atrapalham qualquer projeto.
Aí entra outra qualidade de Daly: era conhecido por sua capacidade de tornar harmonioso qualquer local de trabalho. Foi um gênio como treinador.
Infelizmente, acabou derrotado aos 78 anos por um câncer no pâncreas.